“NÃO CONSIGO RESPIRAR, GENERAL…”, por José Mário Espínola

‘El triunfo de la Muerte’, de Pieter Bruegel el Viejo (imagem copiada da revista eletrônica Touch of Class)

Uma das sensações mais angustiantes que um ser vivo pode experimentar é a da sufocação. Respirar o ar puro é o mais importante fator necessário à condição de vida, mais ainda do que a ausência de água salubre para beber, que leva à sensação da sede. Esta, porém, ainda suporta alguns dias até a extinção da vida. A falta de ar só é suportável durante poucos minutos.

O mágico Houdini provocava a sensação de pânico na plateia que o assistia se livrar das algemas que o prendiam dentro de um tanque d’água. Ou dentro de um barril cheio de água descendo rio abaixo. Então ele surgia triunfante à superfície, trazendo a plateia abaixo.

São pouco frequentes casos de sufocação por obstrução das vias aéreas, principalmente em crianças. Em adultos são menos frequentes, mas acontecem. Anos atrás, perdemos um bom amigo que se engasgou com um pedaço de carne, durante um churrasco.

São casos esporádicos, felizmente. O que estamos assistindo no Amazonas, no entanto, é um verdadeiro morticínio em massa causado pela falta de ar em consequência da Covid 19, sem que os pacientes tenham oxigênio disponível para sobreviver.

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Para manter o organismo vivo, o ar que respiramos percorre um longo trajeto: ao ser inalado pelas narinas, desce para uma câmara, a faringe. Daí, penetra um pequeno orifício, a glote, que é obstruído pela epiglote quando o alimento passa pela faringe em direção ao esôfago ou se abre para a passagem do ar respirado.

O ar atravessa a laringe, acessada logo abaixo pela glote, e onde estão as cordas vocais, que geram os sons com a passagem do ar. Logo abaixo da laringe, o ar desce por um tubo largo, a traqueia, que dá origem aos dois brônquios-fontes correspondentes aos pulmões direito e esquerdo.

O ar desce pelos brônquios, que se estreitam dando origem a tubos cada vez menores e numerosos, os bronquíolos. Estes terminam em minúsculos saquinhos, os alvéolos. Em número de milhões e intimamente ligados à circulação pulmonar, é nos alvéolos que acontece a troca gasosa: o ar rico em oxigênio, que chega, por gás carbônico, lixo gasoso produzido pelos órgãos e trazido até os alvéolos pela circulação venosa. O ar, desta vez rico em gás carbônico, é eliminado através da árvore brônquica percorrendo no sentido inverso à inalação do ar que garante a vida.

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A Covid 19 é uma doença viral muito grave, pois provoca distúrbios de coagulação em órgãos do nosso corpo. Quando afeta os pulmões, esse processo patológico ocorre ao nível dos alvéolos, que sofrem uma inflamação brutal, impedindo a troca do gás carbônico por oxigênio natural do meio ambiente. Falta, então, oxigênio vital para todas as células do corpo.

Para que o paciente sobreviva enquanto as complicações são tratadas, além de medicação intensiva em altas doses é necessário que oxigênio puro seja injetado nos pulmões, através da árvore brônquica.

Na maioria dos casos isso é suficiente utilizando-se uma máscara de alta pressão, a Venturi. Nos casos mais graves, porém, é preciso que o paciente receba um tubo através de sua traqueia, pelo qual se joga oxigênio puro diretamente dentro dos pulmões.

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Para mim é muito angustiante assistir depoimentos desesperados obtidos durante reportagens que vêm sendo exaustivamente veiculadas sobre a imensa tragédia que está se abatendo sobre o Amazonas.

Tragédia anunciada. Há pelo menos nove dias, já se sabia que não haveria oxigênio suficiente para dar suporte ventilatório aos tantos pacientes portadores da forma mais grave e mais letal da doença Covid 19.

Inevitavelmente me vem à lembrança dois episódios recentes: as mortes de George Floyd, nos Estados Unidos, e de João Alberto Silveira Freitas, num supermercado de Porto Alegre. Em ambos os casos, as mortes por sufocação foram anunciadas e, portanto, poderiam ter sido evitadas.

Assim como muitas mortes poderiam ter sido evitadas caso as autoridades de saúde, em seus três níveis (Prefeitura de Manaus, Estado do Amazonas e Ministério da Saúde), tivessem envidado todos os esforços ao seu alcance, necessários para minimizar os efeitos da doença (ou mesmo evitá-la), especialmente o colapso da rede de hospitais.

Concorreram para esse desfecho tenebroso as autoridades, tanto municipais quanto estaduais e federais, ao autorizarem campanhas políticas no mês de novembro; ao permitirem concentrações festivas no mês de dezembro; ao terem desmanchado os hospitais de campanha; ao permitirem o desabastecimento de medicamentos e equipamentos essenciais ao tratamento da Covid 19 e ao terem negligenciado diante das evidências de que iria faltar oxigênio na rede hospitalar daquele Estado.

Pelo contrário, não apenas permitiram como também incentivaram o fim do distanciamento social e das demais medidas sanitárias.

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A imagem que mais representa a tragédia do Amazonas é digna de uma cena medieval, que poderia muito bem ser retratada nos mais expressivos quadros de Pieter Bruegel ou de Hyeronimus Bosch: uma pirâmide macabra, cuja base é composta por milhares de cadáveres carcomidos de pacientes mortos, a maioria por sufocação. E cercada por uma roda de pequenos demônios e esqueletos animados, que dançam alegres e agradecidos.

No alto da pirâmide está o presidente da República, Jair Bolsonaro, sorriso triunfante, que desde o início da pandemia vem escancaradamente sabotando o sistema de saúde do Brasil, estimulando o uso de tratamentos inócuos e a desobediência às medidas sanitárias. Aos seus pés está o seu ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que ocupa esse lugar por total e escancarada incompetência para dirigir pasta tão importante, especialmente neste momento tão grave de crise da saúde brasileira. E por aceitar, em troca do cargo, promover as insanidades emanadas pelo seu presidente, filhos dele e asseclas.

Logo abaixo deles vêm o governador do Amazonas, Wilson Lima, o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto e seus respectivos secretários da Saúde. Eles não só autorizaram concentrações eleitorais e sociais como participaram delas, dando o mau exemplo. E desmantelaram todo o serviço público de saúde, rede de farmácias e laboratórios, além dos hospitais de campanha.

Tenho a esperança de que essas autoridades, assim como todos aqueles brasileiros que tiverem algum grau de responsabilidade para a crise de saúde: empresários que se aproveitaram da crise para auferir lucros; políticos que se deixaram corromper para facilitar os negócios escusos acontecidos durante a pandemia…

Enfim, todos eles um dia serão julgados por haverem concorrido para as mortes resultantes, seja por imperícia, imprudência ou negligência. Por ação ou omissão.

  • ‘El triunfo de la Muerte’, de Pieter Bruegel el Viejo: imagem que ilustra este artigo (copiada da revista eletrônica Touch of Class)

PERDÃO, NERUDA, por Francisco Barreto

Quero apenas cinco coisas…
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera
para que continues me olhando.
Pablo Neruda

Exumando deslumbramentos dos meus dezessete anos, sinto ainda hoje que Pablo Neruda, sem pedir licença, invadiu a minha alma e passou a conviver comigo na minha adolescência e depois na maturidade.

Em 1965, de ônibus, movido pelo meu arrebatamento aventureiro, fui até Buenos Ayres via Montevidéu, e nesta ultima, a tiracolo, fiz de Neruda meu companheiro daquela longa viagem. Ele e os seus Cien sonetos de amor.

Com Neruda, aprendi que a grandeza da síntese é a alma da poesia. É o mais difícil dos gêneros literários, que nos faz desaguar em emoções, porque cada frase é lavrada com extremo afeto.

Os grandes poetas, e Neruda o era, nos fazem latejar e vicejar sublimes emoções. Todas as suas linhas foram impregnadas por emoções e nelas me encontrei. Sempre afetuosamente. Em seu Poema 20 nos faz delirar:

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.

Por Neruda, e sua grandeza poética, sempre conservei uma profunda e enraizada admiração. Atiçara-me sempre o desejo de ver e conhecer Pablo Neruda e poder dizer da minha extraordinária alegria.

Em 1973, fui atraído pela possibilidade de encontrá-lo. Lendo o Nouvel Observateur me deparei com uma entrevista feita pelo grande Jean Lacouture, autor de memoráveis biografias de André Malraux e Pierre Mendès France.

O habilidoso articulista, entrevistando Neruda, então Embaixador do Chile na França, de chofre lhe perguntou: “A América Latina não lhe falta?”. Neruda lhe disse: “Não, todas as semanas vou à América Latina. Todas as quartas-feiras vou a Librairie Espagnole”.

E ia mesmo. Lá encontrava muitos amigos latino-americanos, exilados ou não, e alguns resistentes da Guerra Civil da Espanha. Tinha uma reverência muito grande por Antonio Soriano, republicano e resistente, exilado no final da Guerra da Espanha. Era o dono da Librairie Espagnole.

Ao ler a entrevista do hebdomadário Nouvel Observateur, havia encontrado uma preciosa senha para ir ver Neruda. Numa quarta-feira qualquer, fui até à Rue de Seine, no Quartier Latin, em Paris.

Era um minúsculo estabelecimento, porta e vitrine que permitia ver tudo internamente. Passei na frente, e num exíguo espaço atrás da vitrine vi alguns idosos senhores palestrando alegremente. Uma cadeira de balanço de palhinha e lá estava Neruda; no colo, sua boina basca.

Demorei a acreditar no que estava vendo. E por segundos me detive vendo os desajeitados livros exibidos no mostruário da vitrine. Fiz meia volta, hesitei, em seguida entrei. Cumprimentei a todos e passei a deslizar a minha vista nas prateleiras de livros. Sem desgrudar da minha intenção, mantive os olhos fixos em Neruda.

Alguns minutos depois, retirei-me da Espagnole em estado de graça. Não tive a coragem de me dirigir a Pablo Neruda. Brutal e incomensurável timidez que se repartia como uma certa falta de coragem. Havia terminado o meu extraordinário encontro com Neruda. O arrependimento me incomodou sempre. Havia me conformado com um lapso de visão que sempre foi compensado pela leitura de seus escritos.

Tempos depois, ainda em 1973, Neruda regressa ao Chile para morrer. Sucumbiu a um câncer de próstata e foi embora 11 dias depois do golpe de Estado, em 23 de Setembro. Lembro-me com nitidez as imagens televisivas do seu funeral no Cementerio General em Santiago.

Impressionou-me o desfile do seu esquife ladeado por corajosos militantes comunistas que cantavam a Internacional. Ao longo do cortejo fúnebre muitas foram as vozes que gritavam “Companheiro Neruda!” e todos respondiam “Presente!”. O cortejo era escoltado por soldados armados. Terminada a cerimônia, todos foram presos e constaram da lista de mortos e desaparecidos sob as atrocidades pela ditadura chilena.

O grande Pablo Neruda não merecia ter tido um final tão dramático vendo o seu amado Chile trucidado por uma brutal e criminosa ditadura.
Os que sempre lhe amaram poderiam naquele 23 de Setembro de 1973 escrever os versos mais tristes.

Hoje mais do que nunca, se pudesse lhe diria: “Perdão, Neruda, não ousei lhe reverenciar com a minha alegria ao ter lhe visto de tão perto”.
Como Pablo Neruda sempre profetizou, “A timidez é uma condição alheia ao coração, uma categoria, uma dimensão que desemboca na solidão”.

Hoje, solitariamente, muito tempo depois me resta apenas rogar a Neruda que me perdoe por não ter lhe expressado a minha mais profunda homenagem por ter dado muita luz aos meus passos.

  • Francisco Barreto é economista e Professor de Direito da UFPB

MOTOBOY, por Ana Lia Almeida

Motoboy de pizzaria vai receber pagamento em dobro por não tirar folga aos  domingos – Sindvas

Imagem meramente ilustrativa copiada de sindivas.org

Estou de máscara, sim, senhor, pode abrir o portão. Veio errado, o sabor? Peço desculpas, senhor, pode entrar em contato com o estabelecimento para mandarem outra de quatro queijos. Infelizmente não posso, tem de ser o próprio cliente, pelo aplicativo. Sinto muito, mas meu trabalho é só a entrega, mesmo. Entendo. Espero, sim.

Senhor? E aí, disseram alguma coisa? É que ainda tenho outras três entregas. O senhor sabe, quando atrasa já vão logo avaliando o motoboy, dá problema pra mim. O pessoal não quer comer pizza fria, também. Mas não posso fazer nada, senhor. Reclame que mandam outra, já disse. Posso levar essa de volta, se o senhor quiser, mas geralmente a outra vem de cortesia.

Não adianta o senhor ficar me segurando aqui, não faz diferença para a sua reclamação. Ligue, reclame, e espere a sua pizza de quatro queijos. Eu estou calmo, mas tenho de trabalhar. Não tenho a sorte de descansar sábado à noite, pedindo pizza pelo celular. Tenho um monte de corrida, ainda, pra botar comida em casa. Não estou bravo, senhor, só preciso ir embora.

Atendeu? Está certo, eu falo. Alô, Dona Janete? Eu vim aqui fazer a entrega, o cliente não quis receber porque veio errado, frango com catupiry, quando o pedido foi quatro queijos. Eu disse a ele, já, que a senhora mandava outra, mas insistiu pra eu falar, está me segurando aqui, eu cheio de entrega. Já começaram a reclamar, não foi? Pode deixar que eu corro, sim, Dona Janete, é bem pertinho daqui, cinco minutos no máximo chego lá com a pizza deles. Não se preocupe, até mais.

Satisfeito, agora? Não entendi. Devolver o seu dinheiro? Aí o senhor liga de novo e resolve com a pizzaria. Eu? Mas era só o que me faltava, olhe, tenha uma boa noite e boa sorte com sua próxima pizza ou com a devolução do seu dinheiro, como quiser. Por favor me solte, não me faça perder a cabeça. Como é? Repita, se for homem. O senhor vai ver quem é o macaco. Tome, seu imbecil. Eu avisei, não foi? Coma uma fatiazinha de frango com catupiry, que passa. Fui.

Diga, Dona Janete. Já estou aqui na frente, esperando o cliente vir receber. O quê? Descontar da minha corrida?

REPRESENTADO, OUTRA VEZ, por José Mário Espínola

Imagens de médicos vítimas da Covid-19 são projetadas em prédio de SP

Imagens de médicos mortos pela Covid projetadas em edifícios paulistanos (Crédito: Metrópoles)

No início da década passada, as entidades médicas brasileiras travaram uma luta desigual no Congresso Nacional, pois até então o exercício da nossa profissão ainda não tinha sido regulamentado por lei.

Diferente das demais profissões de saúde, por descuido das gerações médicas anteriores nunca havia sido apresentado um projeto vitorioso, na Câmara Federal e no Senado, para regulamentar uma profissão tão antiga e prestigiada.

Em sua longa trajetória no Congresso, originalmente recebeu no Senado a denominação PL 268/2002, do senador Benício Sampaio, do PPB do Piauí. Após demorada evolução, foi aprovado por unanimidade no Senado e seguiu para a Câmara do Deputados, onde passou a ser denominado PL 7703/2006.

Ao longo de sete anos, o PL 7703/2006 sofreu todo tipo de agressões por parte das representações das outras 13 profissões de saúde. Tal hostilidade baseava-se em equívocos estimulados por dirigentes suspeitos que comandaram outros profissionais – dentistas, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistente social, biólogo, biomédico, farmacêutico, fonoaudiólogo, profissional de educação física, terapeuta ocupacional e técnico e de radiologia – numa verdadeira guerra santa contra aquilo que foi denominado Ato Médico.

Esses dirigentes das profissões citadas convenceram seus liderados que a aprovação da Lei do Ato Médico os transformaria em meros subordinados aos médicos e esses, por sua vez, limitariam as atividades daqueles profissionais.

Tamanha má vontade para com a classe médica parecia ter raízes históricas, originadas em comportamentos inadequados e arrogantes de médicos do passado.

Hoje, os tempos são outros e as novas e atuais gerações têm relações em que predomina o respeito mútuo aos outros profissionais de saúde, encarando a sua atividade como um trabalho de equipe, onde o bem comum é a saúde plena do paciente sob os seus cuidados.

Esse verdadeiro ranço encontrou eco no Congresso, todavia, mais exatamente na Câmara dos Deputados. Isso fez com que a lei atrasasse, demorando 11 anos até ser aprovada e sancionada.

Antes de ser aprovado, o projeto foi distorcido e politizado, especialmente por representantes do Partido dos Trabalhadores, com destaque para o então deputado paraibano Padre Luiz Couto, influenciado pelos representantes das outras profissões, com destaque para os psicólogos e fisioterapeutas.

Por causa disso, o projeto sofreu cortes substanciais nas prerrogativas da profissão médica. Teria sido pior, não fosse o denodo com que o seu relator, o senador paraibano Cássio Cunha Lima, defendeu a conservação do texto original, que continha definição justa das atividades exclusivas da formação do médico, que de modo algum cerceava atividades das outras profissões.

Aprovada com ressalvas na Câmara Federal, retornou ao Senado, onde foi aprovada por unanimidade. Finalmente, em 10 de julho de 2013, a então presidente Dilma Rousseff sancionou a lei, mas, mal assessorada por seu ministro, o “médico” Alexandre Padilha, vetou dispositivos essenciais do texto aprovado pelo Senado, amputando assim a Lei do Ato Médico.

Pois bem: a luta heroica e desigual das nossas entidades representativas, com destaque para o Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Médica Brasileira (AMB), foi renhida e mobilizou todos os médicos do Brasil.

Os cortes que a presidente Dilma, do Partido dos Trabalhadores, realizou na nossa Lei, e a concomitante luta da classe médica brasileira contra a aprovação da regulamentação do Projeto Mais Médicos, que escancarou as nossas fronteiras à invasão de profissionais que se diziam médicos, sem que pudesse ser realizada uma comprovação, visto que foi proibida a revalidação do diploma para esses “médicos”, fizeram com que os nossos colegas aprofundassem o seu repúdio ao PT e seus representantes.

Na eleição para presidente acontecida em 2018, sem ter bom-senso nem autocrítica, o PT lançou um candidato próprio. Isso provocou uma reação dentro da categoria médica, que compreensivelmente não havia esquecido as feridas abertas pelo Mais Médico e a Lei do Ato Médico. A eleição tornou-se, então, plebiscitária para a maioria em peso da nossa categoria. Cresceu a ojeriza ao candidato do PT, tendo os nossos médicos por maioria esmagadora abraçado qualquer um que fosse adversário do candidato do PT.

Quis o destino que um doido esfaqueasse o candidato da extrema-direita, um apagado político sem nenhum projeto expressivo na sua vida. A comoção nacional provocada pelo gesto do tresloucado, muito bem explorada pelas redes sociais que disseminam intrigas e ódio, teve o efeito de uma catapulta em sua candidatura.

Dentro da classe médica essas redes exploraram muito bem a aversão da categoria ao PT e tudo aquilo que o representasse. Essas redes souberam manipular muito bem o sentimento dos médicos brasileiros, fazendo com que contribuíssem fortemente para eleger Jair Bolsonaro presidente da República, numa eleição democrática. Até aí, tudo bem.

Em primeiro de janeiro de 2019, o cidadão tomou posse do cargo de presidente do Brasil. Foi o último ato importante por ele realizado. Pois, desde então, ele deixou de trabalhar e passou a ser um fazedor de piadas, comportando-se como um moleque adolescente no Palácio do Planalto, levando a vida sem seriedade, delegando o trabalho verdadeiro a seus ministros e ao seu vice-presidente, Hamilton Mourão.

A vida era uma festa até que o mundo mudou. E o Brasil foi assolado pela pandemia, que já ceifou a vida de mais de 200 mil brasileiros.

Em nenhum momento o presidente assumiu a liderança de ações que pudessem reduzir o impacto inevitável causado pela doença, na população e nas consequências econômicas.

Antes pelo contrário, ele sempre que pôde estimulou a desobediência às determinações das autoridades de saúde; por puro e ridículo ciúme demitiu o ministro da Saúde, que estava fazendo a coisa certa, terminando por nomear um incompetente em políticas de saúde, tão somente porque ele não lhe faz concorrência; ajudou a disseminar falsos e inócuos tratamentos, sem nenhuma comprovação científica, mobilizando recursos importantes desperdiçados na fabricação de remédios por ele eleitos como tratamento eficaz para a covid 19, e que nenhum estudo sério comprovou a sua eficácia; demorou a tomar (ou não tomou) atitudes que pudessem ajudar a reduzir o número de mortes causadas pela doença. Em resumo: negou a ciência, a lógica e estimulou o caos da ignorância, colaborando para a perda de mais de 200 mil vidas.

Ao longo dessa marcha para o desastre o que fizeram as nossas entidades de saúde? Partiram em defesa da medicina? Tomaram o partido da ciência? Nada disso. Colaboraram com a pregação da ignorância, da politização da ciência. Aplaudiram a alquimia.

Agora que o caos está instalado, cala-se num mutismo gritante, abandonando aqueles pelos quais fez o seu juramento de defesa. Deixou a classe médica e a ciência órfãs de representatividade.

Nem todos engoliram o canto de sereia do negacionismo oficial. Eis que médicos notáveis, cada um em sua respectiva época, com relevantes serviços prestados à nação e aos brasileiros que padecem, lançaram um manifesto lúcido, onde perguntaram às entidades médicas, representadas pelo Conselho Federal de Medicina:

– Onde estão vocês, que apoiaram a anticiência e a oficialização do atraso, dando as costas para a sociedade que deveriam defender? O que defendem agora?

Medicina é pura ciência. Medicina não é partido nem religião. Ao politizarem a medicina e a ciência, as entidades nacionais não representaram a totalidade da classe médica.

Eu nunca mais havia sentido que as minhas instituições de classe me representavam. Agora, sim, após tantos anos, voltei a me sentir novamente representado.

José Mário Espínola
Ex-Presidente e ex-Corregedor do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB)

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  • A fotografia que ilustra o artigo, copiada do site Metrópoles, mostra imagens de médicos mortos pela Covid projetadas em edifícios paulistanos

PADRONIZANDO O CAOS, por José Mário Espínola

(Imagem copiada de quilomboinvisivel.com.br)

Muitos analistas tecem teorias sobre o comportamento do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tentando encontrar alguma lógica, algum padrão. Realmente, chama a atenção a forma como ele vem se conduzindo ao longo desses dois anos.

Desde que assumiu o cargo, ele frequenta o Palácio do Planalto todos os dias. Nem sempre como local de trabalho, pois parece comportar-se mais como um visitante. Usa aquele espaço como alguém que não tem vínculo trabalhista por lá.

Eleito democraticamente, esperávamos que ele assumisse o trabalho para o qual concorreu e venceu. Pensamos: “Deixem o homem trabalhar”. Mas ele sempre se portou qual adolescente deslumbrado com responsabilidade de adulto que inesperadamente lhe caiu no colo. Lembra o personagem de Tom Hanks no filme “Quero Ser Grande,” de 1988.

Já é de domínio público a sua atitude (ou a falta de) ao despachar com subordinados. Não é levado a sério, apenas temido pela capacidade de perseguir e prejudicar aqueles que ele nomeia como desafetos.

Já é notória, também, a sua fuga dos ossos do ofício, dos encargos do cargo. Está sempre transferindo culpas, deveres ou prerrogativa do fazer para outras pessoas ou instituições.

Quanto às suas briguinhas ou polêmicas diárias (semanais, no começo), evidente que lhe trazem benefícios.

Em relação aos seus fanáticos seguidores e àqueles que ainda lhe têm alguma simpatia, ele mantém o clima sempre eletrizante. Impulsiona  comentários e falatórios pelo resto da semana. Parece ser adepto da máxima infame: “Falem bem ou falem mal. Mas falem de mim!”.

Quanto àqueles que nunca caíram no canto de sereia ou descobriram amargamente que não fizeram boa escolha, suas arengas infanto-debiloides trazem dificuldades para se pensar e organizar algum tipo de ação. E, dentro da mídia, Bolsonaro garante um bom espaço, uma boa fatia no noticiário. E a pecha de ser perseguido pela imprensa, coitadinho.

Outro efeito positivo para o ocupante da Presidência da República é manter a oposição sempre desarticulada, acuada, sem capacidade para organizar propostas que possam ser aprovadas pelo Congresso ou adotadas pelo povo.

Mas, dentro do caos de relacionamento de Bolsonaro com o Brasil, já dá para perceber alguma regularidade, algum padrão. Ele solta as suas bombas de gás para se beneficiar. Ao reconhecer que não tem capacidade para administrar nem o seu condomínio residencial na Barra, o Milician Paradise, Bolsonaro promove a bagunça para não ter que tomar decisões.

Ele promove a desordem e pula fora, para observar a poeira descer, e ver como ficou.

Parece surgir alguma luz no fim do túnel político no qual Bolsonaro enfiou o Brasil: os parlamentares mais sensatos estão se unindo para reduzir a sua influência política no Congresso. É uma esperança para o Brasil, pois poderá controlar as suas investidas contra as instituições democráticas.

Temos que ser otimistas, porém com um pé atrás. Pois a eleição das mesas da Câmara Federal e do Senado ainda não aconteceu e há sempre o risco de ser servida sopa de traíra durante o sufrágio.

Vamos ver.

CHEGA MAIS, FALCÃO, por Francisco Barreto

Fernando Falcão (Foto: iscogs.com)

Na contagem regressiva da vida é renitente o meu desejo de me enveredar e fazer reluzir os afetos que se exilaram há décadas. Muitos foram e ainda são meus amigos, amigos que procuro todo tempo em noites insones. Alguns ainda lindos e vivos estão ao meu lado e de leve povoam a minha alma quase esmaecida, mas o tempo e a distância vêm tristemente nos dizimando.

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REALIDADE, por Ana Lia Almeida

banheiro

(Imagem: shutterstock)

Lá em casa pegou todos os três. Não precisou de hospital, não, graças a Deus. Curou com chá de alho e limão, mesmo, porque os remédios, minha filha… Lá no postinho não tinha mais, aí eu nem procurei saber na farmácia. Remédio é pra quem pode, né? A gente fica no chá, mesmo.

Parada eu fiquei só uma semana, depois a patroa me mandou logo botar a máscara e voltar pra faxina. Esse pessoal não sabe, né, pegar numa vassoura, lavar um banheiro, botar um feijão no fogo. Eles não ficam, não, sem gente em casa, até copo d´água querem na mão. 

Com Manoel, foi mais grave. Passou quinze dias em casa, eu cuidando, e quase bateu no hospital. Começou um cansaço, uma chiadeira no peito, uma agonia! Dei chá de hortelã miúdo, foi acalmando, acalmando, e ficou bom. Mas a obra não pára, né?! Deu quinze dias, ele voltou para o trabalho, curado. 

A menina Clarinha não teve nada, mas ficou positiva também. O trabalho foi ela querer ficar em casa, pra cima e pra baixo. “Assintomátchica”, dizia que era, toda importante. Mas não pode não, disseram no postinho, passa a doença do mesmo jeito. Dava conselho, mas era de uma festa para outra. Só parou mais quando a vizinha morreu, quase da idade dela. Morre mesmo, viu! A bichinha passou cinco dias ardendo de febre, quando levaram para o hospital já era tarde. 

Gripezinha nada, eu vi como foi aqui. Até hoje é um cansaço, não sabe, uma boca seca, eu ainda não me recuperei totalmente não. Faltou o repouso devido, a madame inventando isso e aquilo, que ia chegar visita. 

Não entendo esse povo, tem tudo pra ficar quieto, isolado, e é andando em casa dos outros. Sei não, viu… Uma coisa é a gente, que trabalha fora, mesmo, senão não come. Mas esse povo?! Tudo em romeófici, bem chique, como eles enchem a boca pra dizer, e em vez de ficar parado se dana para o meio do mundo, lotando praia, comprando em shopping. Eu mesma, nem que tivesse dinheiro. O tempo não está pra isso não, minha filha. E parece que as coisas vão piorar de novo, não é? 

O ANTI-MESSIAS, por José Mário Espínola

(Imagem copiada do Blog do Moisés Mendes)

A figura do Messias é a expressão maior do pensamento positivo para três religiões: cristã, judaica e muçulmana. Significa a fé em tempos melhores e a esperança de que as suas dificuldades chegarão ao fim. Outras religiões têm figuras equivalentes.

O Messias é muito aguardado por aqueles que creem. Eles acreditam que virá à terra O FILHO de Deus. E que ele chegará para SALVAR.

Embora achem que Jesus Cristo a princípio era o Messias, os cristãos ainda acreditam que este ainda virá para combater e derrotar o Mal, para lutar contra a iniquidade que está sofrendo o seu povo, esperançoso da sua vinda.

Os judeus, por seu lado, consideram que está para acontecer a Era Messiânica, quando diversos acontecimentos prepararão todo um ambiente favorável à chegada daquele ser. Entre estes está a reconstrução do Templo de Salomão.

Acreditam, também, que isso só acontecerá no Fim dos Tempos. Enquanto isso não acontecer, surgirão os falsos messias. É assim que eles consideram Jesus Cristo.

Já os muçulmanos acreditam que o Mahdi (Guia ou Messias) chegará no momento final, com tempo suficiente apenas para corrigir todos os males sofridos por seu povo.

Em comum, essas três religiões têm a certeza de que só será salvo quem crê e pertença à sua fé. Todos os outros serão condenados às chamas do inferno.

***

Até 2012, o Brasil viveu uma década de governos voltados para ações populares, durante a qual aconteceram muitos progressos econômicos e sociais.

O país melhorou muito, como atestam todos os indicadores da época: IDH, Bolsa de Valores, câmbio, salário-mínimo, bolsa-família, geração de empregos, alunos no ensino fundamental e no curso superior, balança comercial, preço da gasolina e do botijão de gás, IPCA, IGPM. Todos os brasileiros percebiam a melhora do país, como atestam os registros do insuspeito jornal Valor Econômico.

Uma das principais consequências é que o Brasil passou a ser a sexta economia do mundo, superando até o Reino Unido. E por isso passou a ser respeitado pelas grandes potências.

Durante esses governos não apenas as camadas populares experimentaram melhoria significativa, retirando uma grande parcela de indivíduos da zona de pobreza, como igualmente foram beneficiados o agronegócio e o empresariado brasileiro.

Seria desonesto omitir que houve uma base importante para esse progresso econômico, construída nos últimos governos de orientação liberal, que tiveram o dom de exterminar a hiperinflação, criar agências reguladoras, gerar estatutos sociais, entre outros benefícios. Porém, nesse período as camadas sociais elevadas foram as realmente beneficiadas.

Os últimos quatro anos de governo popular, da presidente Dilma Rousseff, caracterizaram-se por dificuldades de origens diversas, como o panorama externo desfavorável e a falta de competência administrativa. Agravados pelo contexto econômico mundial adverso, equívocos administrativos provocaram a perda de muito o que havia sido conquistado, tanto na área social como na empresarial.

A elevação da temperatura social causada pelo aumento do número de desempregados agravou o clima político do Brasil. A presidente Dilma demonstrou que não tinha habilidade política, e perdeu a governabilidade quando o Centrão mudou de orientação.

Estabeleceu-se um clima de instabilidade política, quando entraram em cena figuras oportunistas e predadoras, verdadeiros mercenários que haviam aderido durante os governos anteriores. Elas abandonaram a presidente e passaram a compor as hostes dos seus adversários políticos, onde enxergaram maiores vantagens.

Daí para a defenestração da presidente, por motivo fútil e forçado, foi um salto. Tal processo jamais teria acontecido se ela tivesse a habilidade política demonstrada por seu antecessor, Luís Inácio da Silva, e por seu vice-presidente, Michel Temer, que provou que tinha muita habilidade para conspirar.

Temer tinha tanta habilidade que, já exercendo a presidência, foi alvo de denúncias muito mais consistentes e escapou de ser impedido. Pois tinha muito mais jeito para administrar o apoio político dos mercenários do Centrão.

O clima social, cuja apoteose deveria ter sido a destituição da presidente Dilma, não arrefeceu, continuando a ser envenenado pelas chamadas redes sociais, onde profissionais da mentira compondo milícias digitais mantiveram em atividade as suas usinas do ódio.

***

Sob a bandeira de que a agenda de conquistas sociais dos governos populares ameaçava a Família Brasileira, essas hordas passaram a combater tais progressos sociais e açularam a nação contra essa agenda: a lei do aborto; o feminismo, pois acham que a mulher deve ser submissa ao homem; o casamento homoafetivo; a política de ensino de gênero nas escolas públicas; os sistemas de cotas; o estado laico e a falta de obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas.

Essas agressões tiveram eco em parte significativa do povo brasileiro, especialmente os praticantes de religiões evangélicas, que se consideram os maiores defensores da instituição Família.

Paralelo a isso, a elite brasileira, sentindo-se ausente do poder desde 2003, buscava desesperadamente um candidato que a representasse na eleição de 2018 para presidente. Tentaram Geraldo Alkmin, porém este nunca entusiasmou o eleitorado fora de São Paulo, não alcançando densidade suficiente para vencer uma eleição para presidente.

O então candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, encampou a agenda conservadora religiosa, que veio juntar-se ao armamentismo e o combate ao “comunismo”. Tornou-se assim o candidato preferido do conservadorismo brasileiro. Mas faltavam muitos votos para poder vencer a eleição. Foi quando aconteceram dois fatos que asfaltaram a sua candidatura.

Um deles foi a desunião das esquerdas, bem caracterizada pela decisão de Lula, maior ícone do PT, que estava impedido de se candidatar por estar preso em Curitiba, despido de autocrítica e agindo tal qual um “coronel” do Partido dos Trabalhadores, tomou a decisão de lançar Fernando Haddad.

O outro fato foi o atentado de um doido, que esfaqueou Bolsonaro durante um evento em Juiz de Fora. A consternação da parcela emotiva da nação fez com que ele se tornasse um coitadinho e prestasse mais atenção à sua agenda do atraso.

Foi a gota d’água que faltava para que ele se tornasse o padrão ouro das elites e do conservadorismo brasileiro, pois subitamente passou a apresentar densidade eleitoral capaz de competir com o candidato do PT.

Este estava crescendo muito, especialmente entre o eleitorado nordestino, maior beneficiário das ações sociais dos governos do PT. Atropelou Ciro Gomes, candidato de centro-esquerda que apresentava maiores chances de se eleger e chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro.

***

Assim, gerado por um louco, que usou uma faca como espermatozoide, e por um coronel das esquerdas, que nunca teve autocrítica; gestado pela elite brasileira; e finalmente parido por um número significativo de brasileiros amedrontados, nasceu o rebento Jair Bolsonaro. Evoé, disseram alguns.

Sem nenhuma vocação para ser uma liderança responsável, com tanta certeza de que não se elegeria, ao ponto de não ter nenhum programa de governo, e sem quaisquer resquícios de preparo para dirigir qualquer coisa, Bolsonaro foi eleito num pleito livre e democrático. No entanto, plebiscitário.

Ele chegou num momento de desconstrução política e de caos da informação que se instalou no país. Desde que tomou posse, nunca disse a que veio, criando um problema atrás de outro. Essa tem sido a sua estratégia para não precisar governar no sentido maior da palavra: estar sempre em estado de beligerância.

Em 2019, esteve prestes a provocar um autogolpe, que só foi abortado, naquele momento, porque faltou a adesão de uma base militar mais extensa do que aquela com que já conta.

Até que a nação brasileira entendeu, estarrecida, qual o significado do seu advento, qual o motivo, os seus desígnios na nossa terra: ele decididamente não é O Salvador que tantos acreditavam ser.

Quem o enviou, não sei. Mas desde os seus primeiros minutos como mandatário da nação ele deixou claro que não veio para salvar nada, senão o próprio bolso e da sua família.

Durante a campanha presidencial de 2018, foi vendido ao povo brasileiro que ele era o Messias tão esperado. E foi isso o que um segmento expressivo de brasileiros comprou, especialmente os evangélicos. Dentre esses, principalmente os monetaristas.

O Brasil conservador, que realmente acreditou em suas promessas, até hoje aguarda que elas sejam cumpridas. Mas não é isso o que o povo brasileiro está percebendo.

Na realidade, estamos vendo é que o que foi comprado, mesmo, foram mitos que ele próprio está se encarregando de desmistificar.

O mito da defesa da família está caindo, revelando que a família que ele defende com unhas e dentes é exatamente a sua. Ou as suas, uma vez que tem logo três. Está fazendo de tudo, sem o menor escrúpulo (o que é isto?!), para livrar os seus filhos da responsabilidade de haverem cometidos ilicitudes, todos eles investigados.

O mito do combate aos privilégios também está indo por água abaixo, quando reserva os melhores cargos, as melhores oportunidades para os filhos e asseclas mais próximos. Por exemplo: a tentativa de nomear Eduardo Bolsonaro embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Sustentou quanto pode os ex-ministros Marcelo Antônio, alvo de investigações policiais no Ministério do Turismo, e Abraham Weintraub, um semianalfabeto que ocupou até outro dia o cargo de ministro DA EDUCAÇÃO. Ambos por compartilharem a mesma ideologia (?) do presidente e seus filhos.

O mito de que a interferência do Estado é nociva à economia pode ser facilmente derrubado pelo simples fato de que tanto o presidente como seus filhos sempre viveram somente do Estado.

O mito do fim da interferência do Estado na economia vem sendo atropelado frequentemente com medidas conservadoras que protegem setores empresariais.

O mito da segurança foi derrubado logo que assumiu, quando desligou os radares das rodovias, ampliando o número de acidentes. E quando aprovou a dilatação escancarada do número de pontos de infração de trânsito. Isso tudo tornou mais leniente o controle do mau motorista.

O descaso com a segurança do cidadão também pode ser aquilatado quando Bolsonaro defende a inimputação dos agentes de segurança, o excludente de ilicitude que também foi defendido pelo ex-juiz Sérgio Moro, quando ministro da Justiça.

O mito do combate à corrupção foi abandonado quando o presidente se viu, a si próprio e a seus filhos, ameaçados de investigação na esfera policial, por envolvimento com negócios ilícitos e com milícias criminosas espalhadas pelo Brasil.

Ele então enxergou que precisava ser blindado no Congresso contra ameaças de impedimento, e procurou cercar-se do que havia de escroques na política brasileira.

E foi exatamente isso o que derrubou outro mito: o do combate à velha política, o metiê do toma-lá-dá-cá. Comprou, então, vários partidos do Centrão do Centrão, garantindo futuro mais seguro.

O mito de que o funcionário público é um parasita do Estado é facilmente derrubado pelo simples fato de que tanto o presidente como seus filhos sempre viveram somente do Estado.

Embora essa figura tenha sido escolhida para combater as iniquidades, o que ele vem dizendo em pequenas doses semanais ao longo dos seus dois anos de mandato cristalizou-se com a instalação e evolução da epidemia que assola o mundo.

Desde que a doença do século chegou ao Brasil que ele vem fazendo de tudo para que o brasileiro padeça: estimulando a desobediência às medidas sanitárias.

Desmantelou as instituições de saúde, politizando, por exemplo, a Anvisa e o Ministério da Saúde, que foi entregue a um leigo explicitamente incompetente para dirigi-lo. Com isso conseguiu atrasar todo o calendário da vacina salvadora.

Todas essas atitudes têm contribuído para agravar o número de vítimas fatais da covid 19, que já ultrapassa as 200 mil. Em atitude tipicamente psicopata nunca se apiedou desses brasileiros mortos.

Todas as suas ações para dificultar o combate à epidemia, a falta de compromisso para evitar tantas mortes e sofrimento do nosso povo, demonstram que ele não tem compromisso com A VIDA, com o bem-estar do povo brasileiro.

Não podemos dizer que ele seja a encarnação do Anticristo, figura tão temida por todos os cristãos. Seria dar muita importância a alguém tão pequeno. Nessa linha, não há como discordar de alguém que disse, recentemente, ter o Brasil “o menor presidente do mundo”.

Ele é, na realidade, o ANTI-MESSIAS.

O DIA EM QUE A UFPB PEDIU PERDÃO, por Francisco Barreto

Neiliane Maia

Há mais de 50 anos reside na minha carcomida memória, alimentada por um sofrimento ancestral, graves fatos gestados e consumados pelo autoritarismo e brutalidade ditatorial.

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ZÉ-LIMEIRIANDO BELCHIOR, por Rubens Nóbrega

Retrato falado de Zé Limeira, por Fran Lima (Imagem copiada da Folha Patoense)

Eu cantei lá no Recife
perto do Pronto Socorro:
ganhei duzentos mil-réis
comprei duzentos cachorro;
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro

O Professor Romero Antônio, de quem sou amigo e fã, apresentou-me estrofe e autor na antevéspera do réveillon que não houve. Só assim descobri que essa cria pertence ao paraibano Zé Limeira de Tauá e não ao cearense Belchior de Sobral.

Refiro-me particularmente aos dois últimos versos, transformados em estribilho de ‘Sujeito de sorte’, canção de Belchior lançada em 1976. Três anos antes, os mesmos versos já estavam gravados na primeira edição de ‘Zé Limeira, o Poeta do Absurdo’, do menestrel campinense Orlando Tejo.

Não li, vi ou ouvi em canto algum que Belchior tenha dado o crédito devido de autoria a Zé Limeira/Tejo. Talvez o inspirado e talentosíssimo compositor tenha assimilado que ‘ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’ seria de “domínio popular” ou mais um surrealíssimo mourão cantado por sucessivas gerações de repentistas.

Vamos dar o benefício da dúvida ao venerado Belchior. Não acredito que ele tenha cometido o absurdo da omissão ou ação deliberada adubada na má-fé. Vamos dar crédito à ignorância, possível a qualquer humano. Crédito extensivo a Emicida, rapper paulistano que também zé-limeiriou. O brado contra a morte em 2021 tá no refrão de ‘AmarElo’, de 2019, música-tema do documentário que leva o mesmo título.

Um título, por sua vez, puxado de um poema de Paulo Leminski. Para o qual, da mesma forma, não vi, não li nem ouvi qualquer referência – quanto à autoria – da parte de Emicida ou de seu filme. Ainda assim, não vamos condenar o rapaz, criador de primeira linha, cidadão da melhor qualidade, merecedor de toda a justa admiração causada por quase tudo o que faz.

De qualquer modo, tanto Emicida como Belchior me trouxeram Chico Anísio à lembrança. Guardei nas “paredes da memória” o inesquecível Pantaleão que o gênio do humor despudoradamente copiou de Xandu, personagem maior de ‘Alexandre e outros heróis’, obra primeva do gênio alagoano que atendia pelo nome de Graciliano.

Nunca vi, li ou ouvi – em Chico City, Europa ou Nova Iorque – qualquer menção ao protagonista original das mentiras absurdas e fanfarronices recriadas nos setenta do século passado para divertir telespectadores de todo o Brasil.

A propósito, só pra encerrar…

Lá por 1975 este proto de escriba editava páginas no finado O Norte, de João Pessoa. Em uma semana qualquer, carreguei aquele livro de contos do Major Graça para ler nos ônibus que me levavam do Boa Vista pra Epitácio, daí pro campus da UFPB, onde estudava, e de lá para o então carro-chefe dos Associados, na Pedro II, onde trabalhava.

Na redação do jornal, em momento qualquer, botei o livro pra dividir com uma velha Remington BJ o tampo da mesinha de trabalho. Pela capa, o livro atiçou curiosidade de incensado intelectual que viera deixar artigo para publicação. Ele pegou o exemplar sem pedir licença. Não abriu, apenas leu o título, conferiu a espessura e perguntou ao foca aqui, em voz alta, de zomba: “Oxe, e quem disse que Alexandre foi herói?”.

  • • Imagem que ilustra este artigo é um retrato falado de Zé Limeira, obra da arista plástica Fran Lima