POR UM 2021 VACINADO, por Robson Nóbrega

Seleções Brasil

Imagem: Adriano Siker/iStock

Além de tudo de ruim, todas as dificuldades que enfrentamos durante o pior ano dos nossos dias, ainda temos que lidar com criminosas fakes news negacionistas em meio a tantas dores e sofrimentos, num país beirando as 200 mil mortes pela praga (invisível) que nos abate todo santo dia.

Clique para ler mais

CANCELAMENTO DO ANO-NOVO, por Ana Lia Almeida

Mídia de cabeçalho

(Imagem: Twitter/Bruno Acioli)

Querem cancelar o Ano-Novo, e agora? Como é que vamos sair de 2020 sem o momento exato da meia-noite anunciado pelos fogos diante da multidão? Meu medo é que assim, sem testemunhas, o Ano-Velho queira achar que não passou, venha dizer que foi só uma meia-noitezinha qualquer, dessas de quinta para sexta, a gente foi que perdeu o sono, normal, emendando um dia noutro.

Puro negacionismo, querendo driblar a passagem dos calendários. Não, isso não pode acontecer. Precisava mais do que nunca pular aquelas sete ondas, sabe, cada onda um desejo, cada desejo um protesto contra o ano que passou. O primeiro pulo, claro, para a vacina: eu lá em 2021, num posto de saúde, oferecida, dois braços e um bumbum à primeira seringa que passar na minha frente.

Pular, depois disso, para os muitos abraços e beijos nas pessoas amigas, nas conhecidas e nas desconhecidas também. Pulando para o meio da rua de volta. Pulinho na feira de Mandacaru com direito a comer tapioca sem máscara na barraca de D. Adriana. Pulão para os dias inteiros na praia, guarda-sol novo, isopor cheio de cerveja gelada, um livro e um frescobol. Um pulo para voltar a ver nascer a dúvida dos meus alunos na contração de suas testas, e perguntar, bem ao vivo, você aí, o que foi que não entendeu?

Por último, o maior salto de todos para a onda mais brincante, cheia de de espumas cintilantes dançando ciranda na beira da praia: hei de pular o Carnaval, mesmo fora de época, mesmo só paro ano; hei de me aglomerar de novo naquele imprensado, sem chances para qualquer distanciamentozinho, empurrando a pandemia ladeira baixo! “Ó o Pesado”, o coronavirus passando para nunca mais.

Não vai dar certo cancelar o Reveillón. E se ficarmos presos nessa tragédia para sempre, trancafiados na frente do computador? A virada vai ter que acontecer. Tracemos um plano: um balde cheio d’água com um pouco de sal grosso. Uma playlist com o som de fogos de artifício. Roupa branca, sidra Cereser. Na hora da virada, tocar os fogos em volume máximo, ir despejando nossos pés na água salgada do balde e pular até completar as sete vezes. Não esquecer dos desejos correspondentes. Estourar a sidra. Relaxar um pouco e aguardar o novo ano amanhecer.

Reparemos bem como o sol nasce todos os dias, mesmo nos mais duros tempos. Qualquer manhãzinha dessas ele nascerá de novo e as coisas estarão melhores. Que assim seja. Assim será.

PAPAI NOEL ONLINE, por Ana Lia Almeida

(imagem do blogconverse.com, de Flávia Barbieri)

“Querido Papai Noel, esse ano eu quero um monte de presentes porque fui muito boazinha. Não fui no shopping, nem na praia, nem pra canto nenhum; eu também não quero nunca mais ir pras aulas online”.

Meu whatsapp agora está lotado de mensagens como essa. Como é que se responde a isso, meu Deus do céu? Não sei por que cargas d’água inventei de trabalhar de Papai Noel no meio da doidice dessa pandemia.

Bem que a psicóloga disse, no curso online da Escola de Papai Noel, que receberíamos pedidos estranhos e tínhamos de estar preparados para os desejos pouco convencionais das crianças esse ano.

Uma me pediu máscaras de presente, mais nada, disse que a dela estava frouxa e ela vivia com medo por causa disso. Várias pedem a cura para o coronavírus junto com os presentes. Teve um menino que foi direto ao assunto em sua carta de linha única: “Oi, Papai Noel, quero a vacina e um X-box”.

Pelo menos com as mensagens eu tenho algum tempo para pensar e posso pedir ajuda. Difícil mesmo é nas sessões online, quando as crianças pedem essas coisas e eu tenho que responder ali, na lata; ou então tenho de vê-las chorando por não ganhar um abraço. Ainda assim, prefiro esse contato do que o contato nenhum das lives ou das gravações do totem, horas e horas no estúdio fingindo interagir com as crianças.

O pior de tudo é que, mesmo com todo mundo morrendo de novo, o povo não para de lotar o shopping. Querem morrer comprando, agarrados aos produtos. Coisa mais esquisita esse tempo. E olha que eu já vi de tudo com esses 65 anos nas costas.

  • • Imagem que ilustra a crônica é do blogconverse.com, de Flávia Barbieri

ÀS COMPRAS, por Ana Lia Almeida

(Imagem: Instagram@covidartmuseum/Veja)

Já não havia mais arroz nem cuscuz há três dias, o café acabaria dali a dois turnos, mas foi com o fim do papel higiênico que a verdade se impôs: a feira não poderia mais ser postergada.

Ir ao mercado nunca foi o meu forte. Essas coisas mundanas do comer e do limpar, grande prisão do cotidiano, desde sempre roubaram a minha paz. Depois da pandemia, no entanto, as compras se transformaram de vez num inferno.  

Mais se parece com uma missão de guerra. Armado de máscara e álcool em gel você sai para a batalha, corajoso, ciente dos riscos. Nunca sem uma lista de compras, dessa vez organizada pelas seções do supermercado, para evitar a cena clássica de atravessar todos os corredores de volta em resgate de um produto esquecido lá para as bandas da entrada.

Ao entrar no supermercado,  você lamenta profundamente a presença de todas as outras pessoas, desumanizadas em sua mente como potenciais transmissores de coronavírus. Acabou-se aquela intimidade dos corredores, aquelas avaliações sobre o sabão que lava a roupa do mesmo jeito pela metade do preço, a indignação compartilhada pelo quilo de feijão custar nove reais. Nada disso, agora é foco na missão: cumprir a rota das prateleiras, manter distância e chegar o quanto antes, são e salvo, em casa. 

Na volta para casa você nem se anima mais, pois sabe que os seus problemas estão apenas começando. Terá de tirar a roupa do lado de fora, na área de serviço, correndo o risco de dar lance para a vizinhança. Borrifar álcool 70 em todas as sacolas e deixa agir enquanto toma banho. Desinfetado,  volta à última luta: o banho das compras. Experiente em banho de menino e banho de cachorro, o banho dos produtos me deixa até hoje estarrecida. 

Feliz por estar vivo, você encontra as últimas forças para guardar tudo em seus devidos lugares. Toma um copo d’água. Passa um café. E reza em prol da multiplicação da feira na dispensa para que você nunca mais precise passar por isso.

EXILADOS COM CRISTO, por Francisco Barreto

Capa do livro de Francisco Barreto, publicado este ano pela Editora Ideia, de João Pessoa

A memória age sempre como um rastilho de pólvora iluminando as noites escuras de passados longínquos. Vêm-me sempre os sentimentos e a tristeza dos duros anos de uma distante e penosa juventude. Hoje, mergulhei em uma das minhas remotas cicatrizes: Natal de 1969.

Clique para ler mais

A HISTÓRIA SE REPETE MESMO COMO FARSA? por José Mário Espínola

Bolsonaro ao lado do deputado Arthur Lira Foto: Reprodução Redes Sociais

Bolsonaro com Artur Lira, candidato do Planalto para presidir a Câmara (Foto de redes sociais)

Após o Supremo Tribunal Federal ter feito valer a Constituição brasileira, a quem cabe defender, e ter assim decidido que seria inconstitucional a reeleição dos atuais presidentes David Alcolumbre, do Senado e do Congresso, e Rodrigo Maia, da Câmara Federal, percorreu o Brasil o maior frisson, causado pela especulação sobre quem serão os nomes que irão substituí-los nas respectivas Casas.

Clique para ler mais

IMPEDIMENTO, por Aderson Machado

Image for post

(Imagem copiada de medium.com)

Eu não entendo por que, até agora, a International Board ainda não aboliu, de uma vez por todas, essa malfadada Regra do Impedimento no esporte mais popular do mundo – o futebol!

Clique para ler mais

A LINGERIE VOLTOU! por José Mário Espínola

(Imagem copiada do ParlamentoPB)

E eis que passeando pela nossa cidade volto a encontrar as nossas árvores cobertas pela ornamentação luminosa, luzinhas brilhantes que trazem de volta a deliciosa lembrança de casais abraçados, numa imagem tão bela que chega a ser sensual.

Desde o último dezembro que esta cena vem sensibilizando os olhares mais atentos, enchendo de graça e alegria as nossas praças, parques, ruas e avenidas principais, no período natalino. Com destaque para as avenidas Epitácio Pessoa e Beira-Rio, a Lagoa e a Praça da Independência.

Logo, logo, virão se unir às árvores-de-natal elétricas aqueles ipês que, por enquanto, ainda não floresceram. Estes sim, para mim são as verdadeiras árvores natalinas de nossa João Pessoa, haja vista que só florescem no mês de dezembro, cobrindo com um tapete dourado as nossas artérias e praças e, principalmente, o Parque Solon de Lucena, mais conhecido pelo nome de A Lagoa.

Os ipês amarelos, por esta época, marcam a nossa paisagem com o seu amarelo característico. Percorrendo nossas vias urbanas, assim como as rodovias que nos servem de ligação com o litoral norte e as praias do sul, é uma alegria identificá-los no horizonte próximo.

Chegando da vizinha capital de Natal, ou indo para Recife ou Campina Grande, visualizamos os ipês amarelos florescidos. Mas, para minha tristeza, esse deleite visual está sendo cada vez mais difícil de se ver. Pois o desmatamento programado para fazer plantações, ao mesmo tempo em que nos beneficia com o aumento da oferta de alimentos, está cobrando caro da natureza, à custa da sua beleza.

O mesmo acontece com os ipês urbanos, assim como as nossas outras árvores, que vêm sendo ceifadas para dar lugar a loteamentos, a projetos de urbanização da cidade. É, sinais dos tempos…

Para as gerações mais velhas, como a minha, é muito triste ver a nossa cidade ir se despindo, ano-a-ano, da sua beleza natural, que está sendo substituída pelas luzes e os plásticos.

Claro que vem sendo incorporado à ornamentação da cidade figuras belíssimas, cobertas de cores harmoniosas e luzes coloridas. Porém, enquanto não acontecer totalmente a perda da decoração natural, vamos continuar desfrutando todo fim de ano dessas figuras humanas sugeridas pelaS luzinhas que delineiam as curvas das árvores, e da presença dos ipês floridos. Juntos, esses elementos parecem vestir a cidade com uma linda lingerie dourada.

Todos esses elementos – ipês dourados, árvores que parecem gente e árvores de natal luminosas – juntam-se para saudar a mais bela das nossas datas: o Natal!

FELIZ NATAL A TODOS!

PERDAS E LEMBRANÇAS, por Rubens Nóbrega

Humberto Lira, jornalista paraibano, morreu aos 77 anos vítima de Covid-19 — Foto: Arquivo Pessoal

Vítima da Covid, o jornalista Humberto Lira (foto de arquivo pessoal) faleceu aos 77 no 31 de agosto deste ano, em João Pessoa

Lendo Sílvio Osias, hoje, lembrando ‘Lennon, 40 anos esta noite’, lembrei-me de Antônio Vicente Filho, o AVF, com quem compartilhei muito batente de redação e alguma cerveja no balcão.

Lembro bem da gente no velho Correio de guerra, onde ele carimbava com o seu indefectível lamento qualquer notícia de morte sobre a morte de alguém de nossa estima, admiração profissional ou idolatria. 

“Fogo, né? A gente perde nosso amigo… Enquanto isso, Pinochet (por exemplo) fica por aí, vendendo saúde…”, martelava ele, realmente sentido com a falta que humanos como John Lennon (por exemplo) podem fazer à humanidade.

Faz tempo, não me comunico de alguma forma com AVF, que veio do seu Piancó, final dos setenta, para brindar amigos e colegas em João Pessoa com sua verve e incrível memória sobre expoentes e eventos da música popular brasileira.

Nesse tempo tanto, perdemos muitos dos nossos colegas mais queridos. Cristovam Tadeu, Bosco Gaspar, Wellington Seixas, Castor, Crispim, Ricardo Prado, Magidiel Lopes, Humberto Lira…

Lista tristemente imensa, merecedora dos três pontinhos que remetem ao infinito e além, para além das reticências da saudade, jamais da dúvida sobre tão imerecidos fenecimentos.

Porque pessoas do bem jamais terão dúvida quanto à dor verdadeira da perda dos bons e a sensação assistirmos, hoje no Brasil, a milhares de perdas evitáveis, mas desgraçadamente consumadas pela desgraça da Covid.

Por favor, AVF, tantos outros colegas, todo mundo, mas por favor mesmo… Cuidem-se. Cuidemo-nos. Para que vocês nem eu sejamos tentados a pronunciar – diante da pior notícia (pros seus ou meus) – aquela ‘frase dizendo assim’:

– Perdemos R… Fogo, né? Enquanto isso, esse psicopata genocida fica por aí, vendendo saúde…

ESCAPULIDAS, por Ana Lia Almeida

Sei que ninguém aguenta mais esse papo de quarentena e isolamento social. Mas a pandemia ainda não acabou, o que se há de fazer? Nós, os Isolados, continuamos bem guardados em casa.

Devo confessar, no entanto, que tenho lá minhas escapulidas. Peço que não se zangue, cara leitora, e que não me julgue, estimado leitor. Atire a primeira pedra aquele que, no meio de uma pandemia, nunca escapuliu.

Não falo do protesto ao qual eu tive de ir, nem das providências policiais e bancárias de quando a minha mãe foi roubada. É outro o departamento.

Vou logo confessar tudo de uma vez, do menos para o mais grave. Primeiro que durante a feira, às vezes, eu me aproveito e passeio no supermercado. Entre uma prateleira e outra, eu me distraio com itens coloridos, que eu nunca vou comprar, só pelo sabor de estar mais um pouco fora de casa. Segundo: dia desses, voltando da farmácia, eu acabei parando em um café. Ele surgiu na minha frente, luminoso, recém-inaugurado, perto da minha casa. Eu não pude resistir.

Terceiro, e o mais grave, pelo que desde logo peço a caridade de vosso perdão. Não é tanto pelas medidas sanitárias, que foram todas preservadas. O pecado residiu na luxúria. No desfrute de tanta felicidade numa só escapulida, enquanto meus companheiros isolados padeciam trancafiados em suas casas numa tarde tão bonita.

Eu ganhei as ruas de novo, em cima da minha bicicleta. A padroeira da cidade me saudou quando passei em frente à sua catedral. Confraternizei com os irmãos venezuelanos que celebravam um culto no Ponto dos Cem Réis. O vento acariciou meu rosto entre as árvores da Praça Rio Branco. Desci para a Lagoa, natalina, festejante.

Do alto do meu êxtase, pensava: eu amo a rua, a rua é a minha casa, um dia eu volto pra rua de vez. Um dia, próximo, mais perto do que longe. Um dia em que eu poderei abraçar as pessoas, apertar as mãos delas, beijar-lhes as bochechas. Será o dia mais feliz da minha vida.

Enquanto isso, continuarei em casa. Escapulindo, de vez em quando, que ninguém é de ferro.