CANCELAMENTO DO ANO-NOVO, por Ana Lia Almeida

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(Imagem: Twitter/Bruno Acioli)

Querem cancelar o Ano-Novo, e agora? Como é que vamos sair de 2020 sem o momento exato da meia-noite anunciado pelos fogos diante da multidão? Meu medo é que assim, sem testemunhas, o Ano-Velho queira achar que não passou, venha dizer que foi só uma meia-noitezinha qualquer, dessas de quinta para sexta, a gente foi que perdeu o sono, normal, emendando um dia noutro.

Puro negacionismo, querendo driblar a passagem dos calendários. Não, isso não pode acontecer. Precisava mais do que nunca pular aquelas sete ondas, sabe, cada onda um desejo, cada desejo um protesto contra o ano que passou. O primeiro pulo, claro, para a vacina: eu lá em 2021, num posto de saúde, oferecida, dois braços e um bumbum à primeira seringa que passar na minha frente.

Pular, depois disso, para os muitos abraços e beijos nas pessoas amigas, nas conhecidas e nas desconhecidas também. Pulando para o meio da rua de volta. Pulinho na feira de Mandacaru com direito a comer tapioca sem máscara na barraca de D. Adriana. Pulão para os dias inteiros na praia, guarda-sol novo, isopor cheio de cerveja gelada, um livro e um frescobol. Um pulo para voltar a ver nascer a dúvida dos meus alunos na contração de suas testas, e perguntar, bem ao vivo, você aí, o que foi que não entendeu?

Por último, o maior salto de todos para a onda mais brincante, cheia de de espumas cintilantes dançando ciranda na beira da praia: hei de pular o Carnaval, mesmo fora de época, mesmo só paro ano; hei de me aglomerar de novo naquele imprensado, sem chances para qualquer distanciamentozinho, empurrando a pandemia ladeira baixo! “Ó o Pesado”, o coronavirus passando para nunca mais.

Não vai dar certo cancelar o Reveillón. E se ficarmos presos nessa tragédia para sempre, trancafiados na frente do computador? A virada vai ter que acontecer. Tracemos um plano: um balde cheio d’água com um pouco de sal grosso. Uma playlist com o som de fogos de artifício. Roupa branca, sidra Cereser. Na hora da virada, tocar os fogos em volume máximo, ir despejando nossos pés na água salgada do balde e pular até completar as sete vezes. Não esquecer dos desejos correspondentes. Estourar a sidra. Relaxar um pouco e aguardar o novo ano amanhecer.

Reparemos bem como o sol nasce todos os dias, mesmo nos mais duros tempos. Qualquer manhãzinha dessas ele nascerá de novo e as coisas estarão melhores. Que assim seja. Assim será.