MARAVILHOSAS CURSIVAS, por Babyne Gouvêa

Foto: Divulgação/USP

Sempre gostei de escrever cartas. Na adolescência, trocava missivas com familiares que moravam fora de João Pessoa. Em viagens de férias escolares, tinha o hábito de escrever para o meu avô Eugênio, para as minhas tias Gouvêa e para amigas. Isto é fato.

Recebia a correspondência e a caligrafia, como denomino a escrita em geral, despertava minha atenção. Este motivo me levava a fazer várias leituras das notícias recebidas: o conteúdo em si e o tipo de letra dos remetentes.

Ficava encantada com a perfeição das letras dos parentes do passado. Havia nelas esmero, traduzindo respeito a quem se dirigia. A correção da gramática era nivelada à beleza do formato das letras.

Estas observações me faziam questionar sobre a queda da estética no ato da escrita, com o passar do tempo. Numa atitude natural, comparava os tipos de caligrafia dos meus antepassados com os contemporâneos. Explicação plausível para esta inquietação nunca obtive.

Atualmente, os estudos comprovam que é possível melhorar a letra em qualquer idade. Mas a dificuldade aumenta com o passar dos anos. Memória muscular é o que causa isto, devido ao tempo com a mesma escrita guardada. Uma coisa é certa: a escrita não é herdada. É inócuo tentar imitar a letra dos antecedentes.

Ato de escrever, hoje, não considera importante uma letra bonita. Acesso a processadores de texto torna mais fácil a produção da escrita em letra digitada – bônus da evolução das sociedades, para uns.

Desenvolvimento da tecnologia acelerou o processo dinâmico da escrita. Sem dúvida. Entretanto, não evitou o empobrecimento da caligrafia, que acabou perdendo o primor em face dos avanços tecnológicos.

Mas, lamentável mesmo, foi não ter podido subscrever a Carta em Defesa do Estado Democrático de Direito, à caneta. Espelharia nos arquivos da história a minha caligrafia com a vibração do verdadeiro patriotismo, que não abre mão de viver sob os mandamentos constitucionais e os valores da democracia.

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FASCINANTE INTERIOR, por Babyne Gouvêa

Bananeiras (Imagem: Turismo em Foco)

Certamente teria histórias interessantes para contar caso fosse natural do interior da Paraíba. Falo isto face ao que escuto e leio daqueles originários das cidades pequenas do nosso estado. São relatos que me deixam fascinada e incrédula, ocasionalmente.

Ainda na ativa costumava ouvir as resenhas de colegas sobre as suas respectivas cidades natais. Prestava atenção aos trejeitos como as histórias eram narradas – com manobras corporais e olhos brilhantes exalando profunda satisfação.

Ficava enfeitiçada com as descrições minuciosas de cada um -, fosse sertanejo ou de qualquer outra região longe da capital. Festas, namoros, banhos em açudes e rios, eram temas relatados com prazer. Como bons contadores de história, me levavam para um protagonismo imaginário.

Percebo que a maior parte dos pessoenses se liga ao forró e outras músicas do estilo por influências de conhecidos e pelos próprios meios de comunicação. Interiorano nasce com este gênero musical no sangue. É percebível, nem precisa ser tão perspicaz. Cidadão da capital gosta do carnaval, não sendo preferido pelo habitante natural do interior. Geralmente.

São diferenças retratadas nas inúmeras situações registradas pelo povo da região. Casos característicos de municípios menores são, geralmente, divertidos pela estranheza. Citações de cartórios de registro civil de algumas pequenas cidades constituíam motivo de sonoros risos. Muitas vezes o tabelião registrava apenas o prenome. Sobrenome, para quê? Afinal, todos se conheciam. Esta situação me causava perplexidade ao ponto de fazer tolas e inconvenientes perguntas.

Toda a coletânea de lembranças dos migrados para a capital tinha em mim uma fiel ouvinte. Pedia para que repetissem determinadas ocorrências, como episódios nas eleições e nas delegacias de polícia.

Delegado era respeitado à risca. Bastava a autoridade ameaçar denunciar ao pai alguma travessura, já intimidava o adolescente. Eleições municipais eram um pandemônio divertido. Terminada a votação havia disputa entre os que conduziriam as urnas. O rebu estava formado. Ninguém confiava em ninguém.

E os relatos dos namoros? Que gargalhadas dava à medida que surgia algo pitoresco entre os pares! Destaco duas boas contadoras de histórias, nascidas em distintos municípios. Nas suas explanações simultâneas, décadas depois, descobriram ter namorado o mesmo rapaz no mesmo período de tempo. Comprovaram o provérbio popular: “Nesta vida tudo se descobre”.

Nas festas o surreal acontecia. Em convite para a dança a mocinha disse para o rapaz: “Só se pagar um prato de sopa”. Ingenuidade que traduz beleza. Acho que é exatamente isto que me atrai no acervo interiorano.

Histórias de padres frequentadores de botecos, às escondidas das beatas, me faziam rir demais. Teve o caso de um celebrar a missa visivelmente cheio de pinga, e as carolas lhe atribuírem cansaço excessivo. Faziam bolinhos e chás para recuperar as energias do pároco.

Realidade bem diferente da minha – pessoense, com reminiscências distintas. Pelo menos, diante do farto banco de dados cativantes dos meus colegas naturais do interior do estado.

Hoje, procuro textos de memórias interioranas para ler e reler. A singeleza de seu conteúdo cativa e alimenta a minha alma de leitora.

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O MELHOR SÃO JOÃO DE NOSSAS VIDAS, por Guiany Campos Coutinho

(Foto: Reprodução)

Encerrado o “Melhor São João de Nossas Vidas” em Bananeiras, como nativa da cidade sinto-me no dever de tecer alguns comentários.

A cidade ficou linda! O bom gosto do artista que conduziu a decoração é louvável. A praça, então, ficou bela. Parabéns!

Em anos anteriores, um dos maiores problemas foi a questão da mobilidade urbana. Em dias de grandes atrações o trânsito não fluía, chegando um dia a travar. Em 2022, problema sanado.

Sanado com uma excelente organização do sistema de mobilidade. A maior reclamação que ouvi nesse quesito foi sobre valores cobrados de estacionamento e de transporte local.

As atrações, embora muito aplaudidas pelos jovens, fugiram demais da tradição junina. É dever nosso e do poder público preservar nossa história, nossa tradição e nossa lei.

Lei Municipal sim! Nem sertanejo nem eletrônica, nem religiosa nem gospel nem o axé condizem com o nosso Melhor São João Pé de Serra do Mundo. Foi assim que o nossa maior festa ficou conhecida.

É notório que o clima de Bananeiras nessa época do ano é chuvoso e muito úmido e mesmo assim os organizadores da festa não se preocuparam em oferecer um espaço abrigado da chuva. A estrutura do estádio O Bezerrão não recebeu com dignidade os que ali buscaram a diversão.

Fora os “Camarotes Arretados”, que tinha uma estrutura seca e cara, o resto ficava na chuva e na lama. Muita lama subindo no assoalho. Tive a visão de uma pocilga ao ver tanta gente – com suas roupas arrumadas – toda enlameada.

O São João de Bananeiras não foi uma festa para todos porque era tudo muito caro. Bebida, comida… Não se tinha opção. Nem pra levar o seu kit, como em festas anteriores.

Observei muita gente saindo da festa pra abastecer o seu copo. O terraço da casa de minha mãe foi abrigo para cooler de amigos e parentes.

Espero mesmo que o Melhor São João de Nossas Vidas ainda venha a acontecer na nossa Bananeiras. Que sejam corrigidos os erros cometidos em 2022 para que seja uma festa bonita e organizada.

Que tenha boas atrações com os bons artistas nordestinos. Que seja num espaço digno para todos e acessível para nativos e turistas, pobres e ricos. Que seja realmente um São João inesquecível!

  • Reproduzido do blog Poemas & Ideias
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AMIGAS, por Babyne Gouvêa

As amigas Babyne, Simone e Dodora

Muitos escritos há sobre amizade. Mas, convenhamos, existem amigas e amigas, amigos e amigos. Para bom entendedor mínimas palavras bastam.

Imaginem um reencontro entre amigas que são desde a infância, após passagens pela adolescência, fase adulta e atual terceira idade. Preservação da amizade requer discernimento e muito amor.

Com este embasamento se constrói uma bela amizade. Este é o segredo para a solidez de sentimento tão sublime. Não há eventual distanciamento físico que abale esta relação.

E assim a ansiedade tomou conta de mim. Como se fosse um encontro entre namorados, o frisson me fez procurar ficar bonita.

Usei vestimenta escolhida a dedo – de acordo com a importância do encontro. Brincos discretos realçando a indumentária e borrifada com perfume suave, fragrância que uso há mais de três décadas.

Abraços na chegada, depois de uma longa pandemia, tinham um sabor especial. Sabe aquela vontade de ficar eternamente sob um afago caloroso? Foi assim o início de uma tarde inesquecível de três grandes amigas.

Ambiente com arredores verdes da natureza, chuva tênue refrescando os ares, música em harmonia com os assuntos abordados, tudo convergindo para um clima perfeito de conivência.

Descrição de viagem recente, um dos temas das conversas, protagonizado por uma delas. As ouvintes interagem e se inserem, ilusoriamente, nos caminhos da viajante em terras estrangeiras. Demonstração clara de cumplicidade com a amiga narradora.

Total ausência de censura é o fio condutor em momentos fraternos como este. Interceptações acontecem em torno do cardápio a escolher. Os pratos escolhidos incrementam a vontade de confabular e as vidas estabilizadas recebem um brinde.

Brindamos às nossas memórias e ao tempo saudável que permite a nossa união. Afinal, o tempo é o responsável em fazer a vida fraternal acontecer.

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A BOLHA, por José Mário Espínola

O Triunfo da Morte, quadro de Pieter Brugel (Reprodução)

Após ler o meu artigo sobre a atual conjuntura política pela qual o Brasil está passando, Querido Amigo me disse: “Zé, você escreve para a sua bolha, que deve ficar muito satisfeita por ler o que gosta”.

Bolha? Minha bolha? Fiquei me indagando sobre a que mesmo ele se referia. Imediatamente veio-me à mente uma coleção purulenta em alguma parte do meu corpo. Lembrei-me das aulas de Dermatologia, proferidas pela professora Rosele, nos ensinando o diagnóstico diferencial entre furúnculo e antraz.

Vieram também à lembrança as aulas de Patologia do professor Arnaldo Tavares, que desenhava no quadro negro toda a sequência do processo inflamatório, culminando com a coleção classificada como dermatite purulenta.

Examinei-me num espelho e não encontrei bolha nenhuma, nem mesmo uma pelotinha que pudesse ser classificada como bolha.

Lembrei-me de um amigo que frequentava o gamão do Clube Cabo Branco, carinhosamente apelidado de Bolha, talvez pelo seu índice de massa corpórea (IMC), bastante avantajado.

Lembrei-me ainda do clássico da ficção científica A Bolha Assassina, de 1958, dirigido por Irwin Yeaworth Jr, que tornou mundialmente conhecido o brilhante astro americano Steve McQueen, um dos melhores atores que o mundo já viu.

A Bolha Assassina foi o meu debut nos filmes de ficção científica, gosto que cultivo até hoje. Pois bem, não consegui associar o filme àquilo que disse Querido Amigo.

Comecei, então, a pensar sobre o conteúdo dos meus artigos e sobre o perfil das pessoas de quem eu tenha conhecimento que perdem o seu tempo lendo o que escrevo. As conclusões me fizeram dar resposta a Querido Amigo.

Primeiro, esclareci que geralmente escrevo movido pela emoção. Que consegui preservar o senso crítico e a capacidade de me indignar. E a autocrítica também.

Disse-lhe ainda que muitas vezes escrevo indignado com a atitude de líderes irresponsáveis que vêm a público espalhar o ódio, a discórdia, recorrendo à mentira tão escancarada que só pode ser acreditada por aqueles que perderam o senso crítico, não têm opinião própria e acreditam languidamente em tudo o que lhes dizem. Esses, sim, os crédulos, alienados, vivem numa bolha, uma bolha cheia de pus.

Fiz ver a Querido Amigo que não consigo deixar de me sensibilizar profundamente com o quadro de miséria que está assolando as nossas ruas, a nossa vida, homens e mulheres famélicos pedindo ajuda para comer.

Falei pra ele que não consigo ficar indiferente ao ver crianças esquálidas e maltrapilhas pedindo para lavar o pára-brisa do carro em troca de alguns tostões que lhe ajudem a mitigar a fome.

E o que dizer das carroças guiadas por homens encaveirados, puxadas por burros esqueléticos, carregando restos de lixo, além de cães e gatos igualmente esqueléticos lutando por lixeiras, que terminam sendo conquistadas por pessoas?

***

Percorrendo nossas ruas e prestando atenção ao que nos rodeia, é inevitável evocar a pintura ‘O Triunfo da Morte’, tela de autoria do pintor flamengo Pieter Brugel.

Também conhecido como O Velho, Brugel viveu na antiga região de Flandres, hoje território dos Países Baixos. Tinha estilo parecido com Hyeronimus Bosch.

Eles registraram flagrantes da vida medieval da Holanda. Tinham um traço fino, desenhos claros, nítidos, de belo colorido, mostrando o cotidiano daquele povo.

O incrível quadro de Brugel retrata Flandres assolada pela peste bubônica. A Morte, representada por um verdadeiro exército de esqueletos, é vista por todos os lados da tela, individualmente ou em grupos, atacando vivos e levando mortos em carroças, caixões com rodinhas e  carroças puxadas por cavalos só pele e osso.

Em primeiro plano, a Morte é vista matando adultos, crianças e animais. Atacando pessoas que estavam jogando cartas e gamão. Atacando casais namorando. Penetrando em banquete para o qual não foi convidada, onde são servidas caveiras em bandejas. Cavalgando o esqueleto de um cavalo, brandindo uma foice. Empurrando a multidão para dentro de uma imensa caixa. Tocando entusiasmadamente um tambor ao alto.

Em segundo plano, é possível ver esqueletos espalhando a morte pela região de Flandres assolada também pela seca, com árvores ressecadas ardendo em chamas, a natureza destruída pelo fogo. Ao fundo, na baía, navios incendiados.

***

Quando prestamos a atenção para o momento político que o Brasil atravessa, com uma atmosfera mais tóxica do que a da Los Angeles do filme Blade Runner… Com as instituições democráticas ameaçadas pelo golpe escancaradamente preparado… A nação dividida pelo ódio disseminado, a pregação da morte e da destruição da natureza, em palavras e ações…

Enfim, quando assistimos a tudo isso, fica nítida a associação com o quadro de Pieter Brugel. Então, perguntamos: a Morte vai mesmo triunfar?

Portanto, Querido Amigo, eu escrevo para mim mesmo, como se estivesse preenchendo as páginas de um Querido Diário público, mesmo que ninguém venha a ler.

Escrevo para dizer a mim mesmo que eu tenho a certeza de que a Morte não triunfará.

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LAMENTAR É PRECISO, por Babyne Gouvêa

Leio os textos dos escritores Lira Neto (Carta para uma ex-amiga) e Abelardo Jurema Filho (A Convivência dos Contrários) e acalanto o meu pranto. Sinto que não estou sozinha na minha percepção política, diante do que ocorre no nosso país, atualmente.

Gente, o que é isso? Bombas, drones com excrementos, assassinatos, bolo de aniversário com ornamento de arma – em clara continência ao crime -, discursos mentirosos, ambiente de intolerância, frases-gatilho atiçando atos de violência, falta de respeito ao contraditório, falta de civilidade, ameaças…

Lamento ter escrito esta justificativa para sair de alguns grupos entre amigos, embora tenha sido necessária:

– O grupo não interage comigo, por não haver afinidades de ambas as partes, pelo menos no momento. Não quero me indispor com alguém, até porque essa conduta não faz parte do meu perfil. O que eu temia vem acontecendo. Venho reiteradas vezes, de forma sutil, chamando a atenção para o que se deve postar em redes. Usar o bom senso e saber argumentar não significa ‘estar do meu lado’. Pelo contrário, gostaria que houvesse um contra-argumento de nível elevado. Mas o que vejo é uma intolerância que foge ao normal, beirando o histerismo. Não nos acrescenta nada. Só ‘emburrece’. Estou cansada de receber postagens copiadas e coladas de baixo nível, e inverídicas. Gostaria de entrar numa discussão talentosa. O grupo possui integrantes com alto discernimento, mas subutilizado.

Confesso que chorei e choro, muitas vezes, por ouvir explicações ilógicas, dos meus amigos, sobre os atos irracionais dos governantes. Como posso ter convivido durante tanto tempo com alguém sem conhecer os seus valores?

Não posso dizer que “há mal que vem para o bem”, em alusão ao comportamento do governante-mor aprovado por certos amigos. Ainda fico com a esperança de haver, num rompante de lucidez, uma mudança nas suas convicções e no comportamento.

Não repetirei aqui os incansáveis exemplos das arbitrariedades absurdas e perversidades proferidas pelo equivocado ídolo. Confesso que provoca em mim um sentimento de tristeza, por não ver mais coerência na personalidade de muitos queridos que tive o prazer de conhecer com uma índole admirável, em outras épocas.

Meus caros amigos, inseridos nesse contexto, segue aqui o meu afeto, embora frustrada pelas incompatibilidades entre nós.

Finalizo parafraseando FHC (não significa que seja sua seguidora):
“É importante sempre manter a expectativa de um futuro melhor. Mesmo que ele não venha, você terá a expectativa”.

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CANTIGA DE RODA, por Babyne Gouvêa

Ciranda em Itamaracá, Pernambuco (Imagem do YouTube)

Estava pensando cá com meus botões. Cadê as cantigas de roda que tanto encantaram a nossa infância? E a vida adulta também, por que não?

Final dos anos 70  fomos à Ilha de Itamaracá, Pernambuco, dançar Ciranda com Lia – personagem icônica dessa dança de roda. Juliana, nossa filha, então com seis anos, era a participante mais animada do folguedo.

Ciranda é cultura popular, notadamente no Nordeste brasileiro.
Possivelmente, a falta de divulgação sobre esta manifestação acarrete a sua imerecida desvalorização.

Nossas tradições culturais já não são as mesmas. Ou melhor, as novas gerações não alimentam o senso de tradição. Difícil pontuar os motivos não sendo uma estudiosa no assunto. Lamentar é possível.

Lembro bem de uma passagem do ex-Presidente Juscelino Kubitchek e esposa pela Paraíba, em 1972. Foram recepcionados pela família de Humberto Rabelo, na Praia do Poço, Cabedelo. Na ocasião, à beira-mar, houve uma apresentação da Dança do Coco – cultura popular de suposta origem afro-indígena, com dança, música e poesia.

A dançarina Lau, famosa por dominar a arte do Coco, deixou os convidados embevecidos. Atualmente, tenho dúvidas se essa exibição constaria em agenda de uma autoridade nacional em visita ao nosso Estado.

Algumas cantigas de roda, como Coco e Ciranda, têm ritmos de origem incerta. Há versões que creem na ascendência afro-indígena, no ambiente dos engenhos de açúcar com influências dos batuques africanos e dos bailados indígenas.

Cantigas de roda não são cantadas e dançadas como outrora. Constituídas de textos anônimos simples, as suas rimas facilitam a memorização e o aprendizado. Embalam o imaginário infantil como autênticas manifestações socioculturais populares. São brincadeiras infantis que caem no gosto dos adultos também.

Melodias folclóricas sempre participaram do meu mundo lúdico. A rua da minha infância promoveu o companheirismo entre as crianças a partir de um repertório vasto de cantigas de roda. Estendi aos meus filhos o senso de coletividade com este importante componente da cultura popular. E, como efeito dominó, eles repassam para os meus netos.

Seguimos o lema: proibido se sobrepor à cultura. Assim, fica garantida a tradição na família com vivas às brincadeiras de roda!

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A NOTÍCIA QUE NÃO QUER CALAR, por Alexandre Luna Freire

O jornalista João Manoel morreu no último dia 8, em João Pessoa, aos 87 anos (foto copiada do site de Sony Lacerda)

É aquela mais difícil. E só quem sabe é quem faz o último título. Da primeira à última página. Do diário, matutino ou vespertino, revista ou suplemento, até a última hora de fechamento, do colocar em circulação. A redação em polvorosa para encontrar a melhor chamada.

A que será a primeira na competição para encartar o destaque na Ronda das Ruas. O que faz a notícia exceder os retardatários das madrugadas ou do fim-de-semana. Se em vídeo ou fonográfica o que desperta o leitor ou ouvinte mais perspicaz. A comoção não esperada.

Os títulos que os publicitários mineram para dizer tudo em segundos.

No Jornal Contraponto tornou-se a própria legenda: “Mestre, quais são as novas?” Era sempre assim indagando aos companheiros quando percebíamos que estava ciente da pauta e das legendas ou do que é preciso e é sintético.

A devoção ao jornalismo foi o seu destaque. O espírito popular, o sonho e sua alma.

A Alma deixou impressa principalmente nas duas últimas décadas coroando o exímio redator e o faro de repórter. Não dirigia, liderava. As notícias iam até a ele. E a nova edição diária recomeçava.

Fechou as portas há algum tempo o semanário pelas mesmas causas materiais que atingem as editoras e os livros. O seu legado passa a referencial do último jornalismo clássico.

Não tínhamos convívio semanal. A permanência era na convivência de suas páginas ainda atuais no mundo da notícia. Sabem isso quem publicou no Jornal Contraponto onde o Dr. João Manoel de Carvalho legendou sua trajetória longa e pertinaz.

Ficamos a recordar como era bom publicar o que escrevíamos e a falta do jornal para ler na rede. A rede onde dormimos ou líamos se não estivéssemos no sofá.

  • Alexandre Luna Freire é escritor e membro da Academia Paraibana de Letras
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