BEIJO MATREIRO, por Babyne Gouvêa

Imagem meramente ilustrativa

Acordou com uma vontade danada de beijar. Julita era assim, cheia de manias. E esses desejos surgiam após acordar pela manhã. Eram os sonhos, dizia ela.

Pensou, meio cabreira, se valeria à pena pedir o beijo àquele com quem sonhou. Tomou o café matinal maquinando o que deveria fazer para resgatar o melhor beijo que tinha recebido até então. O cara já estava casado, mas isso não vinha ao caso. Ele era chegado a um beijo qualquer que fosse a circunstância. Julita o conhecia de longas datas.

A compulsiva exigia higiene bucal do parceiro, corria léguas de distância de mau hálito. Sentia atração pelo cheiro de uma boca cheirosa. Para ela, fazia toda a diferença no beijo.

Optava por um sorriso completo. Segundo ela era um sorriso com os principais dentes intactos. Muita exigência para uma mulher considerada balzaquiana.

Deixaria claro que o beijo serviria para concretizar um sonho; não iria além disso. Os “sonhos”, alegava, eram obsessões compulsivas não tratadas. Mas seguia adiante como dona do seu nariz. Ninguém tinha nada a ver com a sua vida e suas manias.

Não conseguiu convencer o personagem do sonho, velho conhecedor de suas matreirices. Saiu, então, à procura de outro na sua seleta lista de candidatos.

Pedia a Deus para que os seus desejos não fossem frustrados. Julita era seletiva, sabia direcionar as suas impertinências. Por se sentir esperta achava fácil enganar os pretensos com um hálito artificial, manipulado na hora do beijo. Mas essa maquiagem burlava apenas os ingênuos.

Resolveu insistir naquela boca do sonho e foi à igreja apelar aos santos. Súplicas ao seu protetor surtiram efeito contrário às suas ambições, ao ouvir uma voz surpreendente: “Moça, cumpriu a penitência?”. Era o padre que atendia Julita no confessionário auricular, lembrando a higiene bucal.

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

E O VENTO LEVOU, por Frutuoso Chaves

Acordei com uma saudade sem tamanho daqueles cartazes atados aos troncos de fícus na cidade aonde cheguei antes do primeiro aniversário e de onde saí aos quinze anos de idade.

As árvores de copas redondas, aparadinhas, em filas nos dois lados da rua, davam sombra para astros e estrelas de metade do mundo. Mas era quando abrigavam Buck Jones, Bill Elliott, Hopalong Cassidy e Roy Rogers que elas, de fato, me atraiam.

Dois cavaletes, não mais do que isso, exibiam de seis a oito reproduções fotográficas de galãs, divas ou cowboys, estes últimos com seus cavalos e seus revólveres. E ambos eram itinerantes: viajavam de tronco em tronco desde a frente dos Correios até a da Prefeitura. Um para anunciar o filme do momento e, outro, para o do dia seguinte.

Certa vez, ajudei o menino Jiló, três anos mais velho do que eu, nesses transportes. A tarefa seria bem fácil se o vento não teimasse em nos arrancar aquilo das mãos. Por conta da ventania é que os cavaletes – duas armações com superfície de madeira fina – precisavam de amarras aos pés de fícus. Nada, porém, que uns poucos metros de barbante não resolvessem.

Mocinhos ou bandidos, mesmo que fossem de carne e osso, não conseguiriam escapar daquele cordel feito no Cariri na época em que as fibras sintéticas americanas ainda não haviam rebaixado o agave nordestino, produto que então ocupava lugar de honra na pauta das nossas exportações.

Naqueles dias, brochas com a espessura dos alfinetes, mas com cabeças largas, prendiam as fotos nos quadros dotados de pernas e, assim, com a parte inferior meio metro acima do chão, sobretudo, em seu dia de maior sujeira, o sábado das feiras livres. Dia, também, de maior público. É que um pequeno grupo de feirantes, provindo dos sítios e pés de serra, costumava retornar à rua, à noite, para o cinema.

Cinema… Pois sim. Aquilo não passava da mera projeção de filmes num dos compartimentos do Mercado Público para onde se podia levar tamboretes, ou sentar em bancos de feira.

Os comparecimentos de mães e irmãs requereriam, sempre que ocorressem, o uso das cadeiras domésticas. Então, seria bom chegar mais cedo em busca das primeiras filas, arrumar tudo com o acesso ainda livre, esperar com os amigos na praça o fechamento do recinto e o subsequente funcionamento da bilheteria para daí retomar os assentos. Diga-se que ninguém ocupava o lugar de ninguém, pois todos conheciam as cadeiras de casa, aquelas do café da manhã, do almoço e da janta.

A trabalheira tinha suas vantagens: você de antemão saberia quem iria ter ao lado. Teria, também, a oportunidade de evitar essa companhia, se não a desejasse. Tivesse idade para o namoro, sentaria ao lado da menina, ou do menino, juntando os assentos, uma ou duas horas antes, sem que os pais de nada suspeitassem.

Foi não foi, eu me apiedo dos jovens. É sentimento que me assalta, de modo mais forte, quando falo dessas coisas aos três filhos e ao único neto que o primeiro deles me deu. Percebo, nessas ocasiões, a inveja em cada olhar.

Agora, preciso confessar o suborno que fez um amigo fechar os olhos e a boca quando subtraí o retrato de Roy Rogers com Dale Evans e o parceiro George “Gabby” Rayes, o velhote leal, mas sempre atrapalhado deste e de outros cowboys. Comprei um silêncio com dois pães doces da Padaria de Seu Juca, meu pai.

O vento levou. Assim poderia entender do sumiço dessa foto Seu Zé Ribeiro, o projecionista, o dono das velhas máquinas Bell and Howell e Pathé, o cinemeiro que pegava o trem para Recife na manhã de toda quarta-feira para dali voltar à noite com os filmes do sábado e do domingo obtidos dos escritórios da Metro, RCA e outras distribuidoras.

Apropriei-me do mocinho, da mocinha e do doidinho, os três juntos, cheek to cheek, naquele quadro 5×9 em papel fotográfico mesmo. Aquilo, sem dúvida, fora feito para mim. Só faltavam os autógrafos. Fosse eu levado a juízo, um advogado alegaria privação dos sentidos em virtude da paixão avassaladora de um pirralho de doze anos por aquele trio e o juiz me abrandaria a pena. Seu Juca, seguramente, não.

Perto de 1960, Seu Zé faria o pequeno Cine Ideal, tijolo por tijolo e cadeira por cadeira, sozinho, não fosse a ajuda precária de Jiló, para fechá-lo dois anos depois, quando a televisão começava a matar as salas de exibição do interior e as dos bairros nas Capitais. Até aí, Jiló teve, para mim e meus parceiros, o melhor emprego do mundo. O finado José Augusto de Brito, coletor de renda e professor dos meninos do meu tempo, tinha aquela dupla como “Dom Quixote e Sancho Pança”. De certa forma, aqueles dois assim o foram.

Mexem mais com minhas saudades, até pelo tempo da convivência, as projeções do Mercado Público em tela de brancura acentuada pelo pó da farinha de mandioca vendida, então, em ambiente distante do açougue com seu cheiro de peixe e carne crua.

Ali, quando os cowboys, seus sopapos e tiros começaram a me aborrecer, eu tive o sentido desperto para os filmes de romance e para o perfume daquela garota que riu de mim tanto quanto ríamos do doidinho de Roy Rogers. Nunca entendi por que ela buscava minha companhia na Praça da Matriz até Seu Zé Ribeiro suspender a difusão de músicas e nos chamar para as sessões de cinema por alto-falante do tipo trombeta afixado na fachada do Mercado. Mas este é um tema para filmes de outro gênero.

Meu Deus, como tudo isso me faz falta!

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

UM CUBANO FEZ O BRASIL CHORAR, por Frutuoso Chaves

Amilton Fernandes (1919-1968), o dr. Albertinho Limonta, e Isaura Bruno (1916-1977), a Mamãe Dolores (imagem copiada de museudatv.com.br)

Fez, mesmo, acredite. E é bem possível que também tenha levado sua avó às lágrimas. Na verdade, o moço, em seus bons tempos, abalou o coração de tudo o que era mãe e avó neste País de dimensões continentais.

Já passou dos 50? Então, não deu outra: mesmo que você ainda não houvesse nascido, sua mãe e a mãe dela suspiravam de dor e emoção, cinco dias por semana, da segunda à sexta-feira, logo depois de cada pôr do sol.

E, creia, seu pai não gostava nada disso. Tiro pelo meu. Lembro dele a esbravejar pelos cantos da casa, a ponto de chutar as paredes. “Essa janta sai, ou não sai?”, perguntava meu velho para obter silêncio por resposta. Aquelas duas, em tais ocasiões, somente tinham ouvidos para as tramas do cubano.

Conhece alguma Isabel Cristina? Uma Maria Helena, porventura? Pois é… culpa do cubano. Foi ele quem as pôs nesse mundão de Deus. De 1950 a 1951, por meses a fio, as nossas, ou as irmãs dos nossos amigos, foram à pia batismal com nomes assim dobrados, em homenagem você sabe a quem.

Mas, afinal, quem era esse sujeito e o que fazia para o envolvimento da mulherada? Pois bem, chamava-se Félix Caignet e escreveu “O Direito de Nascer”, a novela irradiada em países sucessivos. No Brasil, foi inicialmente posta no ar pela Rádio Nacional, com tradução de Eurico Silva.

O elenco reunia nomes de peso a exemplo de Paulo Gracindo, Saint Clair Lopes, Isis de Oliveira, Yara Sales, Dulce Martins, Talita Miranda e Darcy Cazarré. Conta-se que Eurico Silva foi além da mera tradução, porquanto inseriu no enredo original personagens novos e histórias paralelas.

O mais retumbante sucesso da radiofonia brasileira tinha capítulos de quase meia hora, se somado o tempo dos comerciais apresentados na abertura e no encerramento de cada um deles.

Um narrador de voz aveludada (Nélio Pinheiro) conduzia a trama e a ela dava a carga de emoção da qual resultava o pranto invariável das donas de casa, de suas mães e filhas desde que tivessem, estas últimas, idade suficiente para o namoro e as paixões.

A Rádio Nacional, sediada no Rio de Janeiro, entrava com som de boa qualidade em quase todos os pontos do País. Em cima de mesinhas dispostas, orgulhosamente, nas salas de visita, os aparelhos de rádio traziam as marcas Philips, RCA Victor, Philco, ou Pilot, as mais famosas. Com o advento dos transistores, passaram a tomar o apelido “bunda quente”, alusão às válvulas sempre incandescentes, de tamanhos diversos.

“O Direito de Nascer” contava a saga de Maria Helena, uma mãe solteira na sociedade preconceituosa. Para piorar as coisas, a moça engravidara de um homem casado, um cafajeste por quem fora enganada. Seu pai, Dom Rafael, que rejeitava o neto, só não o matou porque a empregada da família, a negra Mamãe Dolores, cuidou de esconder e criar o menino. Maria Helena, amargurada, interna-se num convento.

Sob a proteção de Mamãe Dolores, o pirralho cresce com o nome de Albertinho Limonta, entra na faculdade e termina Medicina. Tempo depois, desconhecedor da própria história, salva a vida de Dom Rafael, vitimado por um derrame cerebral. Paralítico, o velho percebe-se, finalmente, avô de Albertinho, sem nada poder contar, muito embora arrependido, em razão de também haver perdido a fala.

Albertinho apaixona-se pela prima, Isabel Cristina. Amor correspondido, é claro. Lágrimas de encher açude até o dia em que, do alto do seu convento, Sóror Helena da Caridade descobre-se mãe daquele moço. E todos foram felizes para sempre. Não é assim que se diz?

Ah, sim… O mesmo enredo chegaria à televisão em duas versões. Em meados da década de 1964, pelos sinais da finada Tupi. Depois, em 1978, sem o mesmo sucesso, evidentemente, dado o sabor de filme já visto. Seja como for, depois de “O Direito de Nascer” o Brasil nunca mais foi o mesmo. Virou o País das novelas. Culpa de quem? Você adivinhou: do cubano.

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

PERNAS, PRA QUE TE QUERO? por Babyne Gouvêa

Foto: Wikimedia commons

Às quintas-feiras, Candinha visitava o túmulo de sua mãe. Saía do trabalho, à tardinha, passava na floricultura e seguia para o bairro Varadouro, na Cidade Baixa do Centro Histórico de João Pessoa. Um ritual inalterado, invariável, impostergável. 

“O cemitério é um lugar resguardado pelas almas, o perigo está nos vivos que ali rodeiam”, dizia, repetindo sem temor algum as palavras da mãe. Tinha o hábito de rezar e florear o jazigo em todo o seu entorno. Para sua surpresa, em uma determinada visita, viu o túmulo violado, em parte.

Tomou a iniciativa de fazer a reclamação ao administrador. Prontamente foi atendida, mas Jarbas, o funcionário designado para inspecionar com ela as avarias, desde logo fez cara de poucos amigos e até o túmulo arrastou os pés sem pressa alguma de chegar e constatar necessidade de reparos.

No percurso, o jeito de Jarbas intimidou Candinha, inclusive porque o dia já estava se despedindo e a escuridão começava a dar sinais. Em dado momento, quando já era visível o temor da mulher, o funcionário perguntou se ela estava com medo e sugeriu que ela se achegasse a ele.  

Confusão mental instalada, Candinha perguntou a si mesma: “Por que danado tenho que vasculhar um buraco no escuro?” E começou a pensar em uma maneira de se livrar da situação, mas observou ao largo do ambiente e percebeu que seria inútil pedir socorro.

Lembrou, instantaneamente, das advertências de sua mãe. “Naquele lugar, o perigo está nos vivos”. E foi tomada por essa lógica que Candinha correu na direção da saída do cemitério, faltando poucos minutos para o fechamento. Correu mesmo, embora duvidasse da capacidade de seus músculos e o coração, batendo forte, suportarem a corrida.

Depois daquele episódio, Candinha passou muito tempo em desassossego, tendo pesadelos com Jarbas, que reencontraria dias depois numa peixaria, ele com um facão em mãos cortando peixe. Não pensou duas vezes. Acionou novamente o “pernas, pra que te quero?”, inclusive esquecendo sobre o balcão o quilo de garoupa em posta que comprou, pagou e não levou. 

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

COLO DE MÃE, por Frutuoso Chaves

Imagem meramente ilustrativa copiada de eusemfronteiras.com.br

Muito pequeno, eu não entendia por que minha mãe chorava enquanto uma Nossa Senhora emoldurada na parede da sala de visita me abria um sorriso claro, indiscutível. Bastou eu contar: “A santa está sorrindo”. Pronto, Dona Vininha não conteve as lágrimas. Foram tantas que algumas respingavam em mim que ardia em febre, no sofá de palhinha. O colo materno me servia de travesseiro.

Fazia pouco tempo que o sol ali penetrava por brechas no telhado. Minha mãe, bem cedinho, retirou-me da cama, silenciosamente, de modo a não acordar os filhos mais novos. Acomodou-me no sofá sem cobertas, abriu as duas janelas principais, sentou e se fez de almofada para este seu primogênito, enquanto uma brisa leve e refrescante invadia a casa.

De olhar fixo numa réstia que escalava a parede em direção à tela retribuí com um sorriso leve a atenção que daquela imagem eu então recebia. “O que foi?”, perguntou-me, curiosa, minha mãe. E se pôs a chorar quando ouviu a resposta. O mais impressionante é que a cena não me assustava. Parecia-me natural, completamente normal, o cumprimento da moça retratada, ela também, com um menino gordinho e rosado ao colo.

Que dia! Aliás, que noite! Em plena madrugada, eu teria tomado um tiro do meu pai se, num escuro de breu, houvesse aberto a porta da casa em socorro a um amigo de quem supunha ouvir o chamado. Contaram-me isto muito depois. O barulho da chave ainda emperrada ao cabo de várias tentativas acordara os donos da casa. O velho Juca (novo, àquela época, naturalmente) catou a espingarda de dois canos e preparou a mira. Ladrão nenhum ali entraria.

Foi minha mãe que percebeu o filho em pé sobre uma cadeira a mexer na fechadura. Gritou horrorizada, ultrapassou o marido e abraçou-se comigo. “Claudinho está lá fora”, expliquei. A febre alta causava o delírio. Fui devolvido à cama, submetido a compressas frias e obrigado a beber um remédio gotejado num chá de alho com limão e mel. Cedo da manhã, eu respondia ao sorriso cálido, confortante, daquela moça feita de papel e tinta, mas tão bela, tão calma, tão terna.

Pois bem, de tempo em tempo, esta passagem da minha infância me vem à memória com espantosa nitidez. E, a cada lembrança percebo, de modo mais forte, que eu, sim, tanto quanto o menininho do quadro, tive o colo de uma santa.

Minha agonia com as febres altas do meu primeiro filho, seus delírios ocasionais e suas dores quase me deram um coração de mãe. Nascera com refluxos de urina para os dois rins. “Defeito de fabricação”, brincou o médico, amigo meu, a quem eu e minha mulher fizemos as primeiras consultas. Um “raio x” inicial e, depois, duas ultrassonografias confirmaram o problema: os ureteres, de tão espessos, conduziam de volta aos rins a urina ali produzida. Resultavam disso infecções urinárias repetidas e combatidas com cargas reforçadas de antibióticos até o êxito de duas cirurgias feitas em São Paulo, a primeira delas quando o pirralho tinha um ano e meio de vida.

Perdi a conta das vezes em que eu o pus no colo sem repetir o conforto e o socorro que um dia recebi daquelas duas mulheres: uma com seu riso doce, brando, protetor. Outra, com sua ternura, seus cuidados sem descanso e sem limites. Ambas me deram a impressão de que as mães cometem milagres. O fato é que nunca deixei de supor que saí vivo daquele sofá pela sorte dessas duas proteções. E nunca deixei de entender que a cura de um filho em muito depende do colo e das lágrimas daquelas de cujos ventres saíram. É por isso que, até agora, tento em vão alcançar o grau de aflição e desvelo das mães, no que pese a idade que hoje tem cada fruto da minha união com a moça saída do Rio Grande do Norte para meu encanto e meu sossego.

Parimos três rebentos. O mais velho, o dos ureteres espessos, já tem idade que passa dos 40 anos. Vem dele o único neto que possuímos. O do meio se aproxima disso enquanto o caçula ruma para os 35. Todos, sem exceção, com seus lugares cativos no peito deste pai absurdamente incapaz, todavia, de repetir o afago e os beijos da mãe desde que lhes chegaram à cara os primeiros pelos.

Assim ocorre, geralmente, entre pais e filhos homens. Mais dia menos dia, as demonstrações físicas de amor e carinho perdem os espaços do colo e a frequência dos beijos, por mais que invejemos as exceções. É coisa cultural. É algo advindo da ancestralidade. Foi assim com meu pai, com meu avô e com os avós destes.

Com as mães, não, posto que são feitas de outra substância. Não percebem que suas crias envelhecem por mais que engrossem a voz e branqueiem os cabelos. Colo de mãe, portanto, é coisa imune ao tempo. Eles sabem disso desde a mais tenra idade e, portanto, é para as mães que mais correm quando a vida, em qualquer época, lhes impõe dissabores. Sabem que elas têm o riso e as lágrimas que aplacam os sofrimentos. Os pais não têm isso e, dificilmente, terão.

***

Nota do editor – Absurda desatenção atrasou a publicação desta maravilha de crônica de Frutuoso Chaves. Não há desculpas a pedir, porque o atraso é indesculpável. Não se faz isso com escrito de forma tão perfeita para conteúdo de tamanha sensibilidade.

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

RÔMULO PALITOT NO TJPB

Rômulo Palitot vai disputar vaga de desembargador

Soube que o Tribunal de Justiça da Paraíba vai abrir vaga para novos desembargadores. Uma delas para o Quinto Constitucional reservado a juristas de foro e cátedra. Soube também de uma candidatura que me trouxe sincero arrependimento por ter dado baixa na seccional da Paraíba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PB).

Porque se não tivesse me desligado estaria apto a votar no Doutor Rômulo Palitot e ver este nome na lista sêxtupla que seus pares vão eleger para a OAB enviar ao TJPB. Uma vez advogado habilitado, embora jamais militante no contencioso, já estaria em campo fazendo campanha rasgada, aberta, por esse super criminalista paraibano.

Sem desapreço ou menosprezo à concorrência, digo que toda a advocacia paraibana sabe que Rômulo Palitot qualifica qualquer colegiado, do Judiciário à Academia. Por todos os atributos pessoais e profissionais, aí incluídos títulos acadêmicos de Mestre e Doutor em Direito, ele merece – e muito – figurar entre os seis que a OAB elegerá.

Merece também, claro, passar na peneira do TJ e compor a lista tríplice que os desembargadores encaminharão depois ao governador do Estado para o ato final de nomeação. Bona fortuna, Doutor Rômulo!

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

OSTENTAÇÃO NAS MÍDIAS SOCIAIS, por Palmari Lucena

Turistas aguardam na fila abertura de loja Louis Vuitton em Paris (Foto: Jean-Pierre Muller/AFP)

Em uma era onde parecia que a modéstia estava começando a prevalecer, nos deparamos novamente com uma onda crescente de exibicionismo e ostentação que se espalha pelas mídias sociais. Este fenômeno não se limita apenas a imagens de pessoas em resorts luxuosos ou vestindo grifes caras; estende-se também a poses em frente a carros de luxo e lojas de marcas famosas. Essas postagens não só redefinem o mise-en-scène do turismo de ostentação, mas também revelam uma preocupante superficialidade na forma como a cultura e o sucesso são representados.

A grande maioria desses “turistas” e “consumidores” demonstra ter pouco ou nenhum conhecimento sobre os locais, obras de arte ou mesmo sobre os produtos que exibem. A superficialidade é patente quando um casal, ao fotografar a filha em frente ao majestoso Opera Garnier, não reconhece o nome do edifício; ou quando alguém se encanta com “a ópera”, referindo-se ao musical da Broadway “O Fantasma da Ópera”, sem apreciar a verdadeira essência de uma casa de ópera histórica.

Em destinos como Dubai, essa desconexão se manifesta quando pessoas posam em trajes tradicionais opressivos ou em shoppings extravagantes, não como forma de genuína apreciação cultural, mas como um meio de projetar uma imagem de sucesso e riqueza. Tal comportamento sugere que o valor pessoal e o status social são medidos por associações materiais, e não por qualidades intrínsecas ou realizações pessoais.

Essa cultura de comparação nas mídias sociais incentiva uma vida de aparências, pressionando as pessoas a exibir um sucesso muitas vezes inatingível, o que pode levar a sentimentos de inadequação e uma incessante busca por aprovação social. De fato, é crucial refletir sobre as motivações dessas postagens e o impacto que elas têm sobre a percepção de valores na sociedade.

Propõe-se, então, uma mudança no foco das nossas partilhas digitais: que tal valorizarmos momentos genuínos de felicidade, conquistas pessoais e experiências que refletem verdadeiramente quem somos? Essa abordagem não só preservaria a dignidade dos locais visitados, como também promoveria uma cultura digital mais autêntica e menos competitiva.

Este novo exibicionismo nas mídias sociais não apenas dilui a experiência de viagem e consumo, mas também reflete uma crise mais ampla de valores. É hora de repensar nossas intenções e a maneira como compartilhamos nossas experiências, buscando promover o conhecimento, o respeito e a genuína apreciação cultural.

• Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

• Artigo publicado originalmente em palmarinaestrada.com.br

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

Brasil melhora, mas violência contra jornalista continua e diploma é fundamental

Por FERNANDO PATRIOTA
Jornalista e produtor cultural 

Imagem: Abraji

Um estudo da Organização Repórteres sem Fronteiras revelou que o Brasil subiu dez posições no ranking de liberdade de imprensa, ficando na posição 82 entre 180 países avaliados. O levantamento, divulgado na sexta-feira passada (3), também revelou que os desafios, como violência contra jornalistas e desinformação permanecem presentes e precisam ser enfrentados, pelas instâncias governamentais e organizações representativas da categoria e o diploma de Jornalismo é fundamental e deve ser obrigatório.

Em 2021, o Brasil atingiu seu pior índice e ficou em 111ª posição e entrou na chamada zona vermelha do ranking, a segunda pior do ranking. Agora, o país se situou na zona laranja clara, a terceira melhor. O relatório também destacou que 100 repórteres palestinos foram mortos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, pelo menos 22 deles enquanto exerciam a profissão.

“O novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva traz de volta uma normalização das relações entre as organizações estatais e a imprensa, após o mandato de Jair Bolsonaro marcado por uma hostilidade permanente ao jornalismo”, disse o relatório. A liberdade de imprensa é um dos pilares fundamentais de qualquer democracia saudável. Infelizmente, durante o governo Bolsonaro, houve um aumento alarmante nos casos de violência contra jornalistas e ataques à liberdade de imprensa em todos os estados da federação.

Durante quatro anos de governo Bolsonaro foi adotada uma retórica hostil em relação à imprensa, rotulando veículos de comunicação críticos como ‘fake news’ e desqualificando o trabalho dos jornalistas. Devido a essa postura foi criado um ambiente propício para a escalada da violência contra profissionais da mídia, difícil de ser desfeito. O relatório da Organização Repórteres sem Fronteiras ainda afirma que a desinformação intoxica o debate público. “O Brasil continua muito polarizado e os ataques contra a imprensa, que se tornaram comuns nas redes sociais, abriram caminho para agressões físicas contra jornalistas”, diz o estudo.

Para alguns observadores, Lula fortaleceu a democracia brasileira ao permitir uma imprensa mais livre, com a disposição para enfrentar perguntas difíceis em entrevistas coletivas e sua tolerância a críticas públicas. Além disso, apontam para políticas que promoveram a diversidade e a pluralidade na mídia, como o incentivo à criação de novos veículos de comunicação e a expansão do acesso à internet. Contudo, o presidente precisa colocar em pauta o fortalecimento das mídias alternativas e trabalhar junto à Câmara dos Deputados a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Essa matéria (PEC 206/12) já foi aprovada no Senado, em dois turnos.

Para a diretora científica da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, Iluska Coutinho, à volta do diploma para jornalista é fundamental. “Os processos de descredibilização, o avanço da desinformação e a violência têm ligação com processo de perda de confiança e de qualidade decorrentes da queda da exigência do diploma para atuação como jornalista, que ocorreu em 2009. Aliás, a regulamentação do exercício profissional se relaciona com outra muito urgente: a regulamentação das plataformas digitais, essa em tramitação no Congresso Nacional”, destacou.

• Artigo escrito em colaboração para o Observatório Paraibano de Jornalismo 

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.