Incrível, mas na Paraíba a Justiça é acionada para dar prioridade ao prioritário

Imagem meramente ilustrativa copiada do Diário do Nordeste

Incrível, mas na Paraíba a Justiça teve que ser acionada par dar prioridade a quem realmente é prioritário. Assim, decisão da juíza federal Wanessa dos Santos Lima, proferida ontem (15) em João Pessoa, deve salvar milhares de vidas ameaçadas pela desídia ou incompetência de autoridades federais, estaduais e municipais.

Doutora Wanessa atendeu a um pedido feito em conjunto pelo Ministério Público Federal (MPF), do Trabalho (MPT) e da Paraíba (MPPB). Ela decidiu que de agora em diante o que vier ou tiver de vacina contra a Covid terá que ser aplicada, primeiro, nos idosos. A priorização beneficia todos com 60 anos ou mais, ou seja, quem tem menos chance de sobreviver ao coronavírus.

Enquanto esse grupo não for totalmente vacinado, com exceção de quem está na linha de frente da guerra contra a Covid, qualquer outro não poderá receber as doses disponíveis. Para garantir que sua ordem será obedecida, a juíza também mandou suspender a vacinação de profissionais de saúde que não estão no front da pandemia.

Fez bem. Fez bem porque em alguns municípios, João Pessoa entre eles, a vacina pouca estava sendo dada a uns poucos, idosos ou não. Ah, e outra medida de bom senso adotada pela Doutora Wanessa assegura a segunda dose àqueles que furaram a fila ou foram contemplados no privilégio concedido a pessoas já privilegiadas.

Fez bem, Doutora. Fez bem porque são vidas humanas, afinal, merecedoras de completar o ciclo de imunização iniciado com a primeira dose. Sem a segunda dose, o desperdício da vacina será consumado e o risco de contágio renovado para os beneficiados pelo acesso aos seus iguais que se julgam mais iguais do que todos os outros.

  • Com informações da Sala de Imprensa do MPF-PB

MILTON DE TODOS OS SANTOS (2), por Francisco Barreto

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Milton Santos (Foto: Observatório do Terceiro Setor)

Em tudo o que fez ou ajudou fazer, Milton Almeida dos Santos foi grande, extraordinário, insuperável. Como geógrafo, escritor, jornalista, advogado ou professor universitário, o conjunto da obra desse baiano monumental o coloca com justiça entre os mais respeitados intelectuais brasileiros do século XX.

Na segunda parte deste escrito sobre quem tenho e guardo como referência, guia ou farol, destaco sua valiosíssima contribuição a uma nova epistemologia da geografia, via teses inovadoras e provocativas, além de criticas que tangenciavam os cristalizados conceitos de espaço.

O nosso Milton de Todos os Santos desmontou velhos conceitos de centro e periferia quando privilegiou a visão das novas tecnologias. Espaço e tempo não tinham limites físicos. Renovou o conceito do localismo e do território. Com precisão, criticou o conceito dominante de globalização oriundo das teses neoliberais, em que os espaços físicos e humanos doravante eram apenas o locus onde tudo se produzia e tudo se consumia.

Também de modo profundo, abordou o imperativo da concepção da ideologia consumista que tenderia a homogeneizar pela cultura mediática o consumo das massas. Acenou para a tese de um possível final das culturas locais, refutando com veemência os energúmenos arautos do fim da história.

As velhas noções de centro e periferia já não se aplicavam, pois o centro poderia, dizia ele, estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia abranger o planeta inteiro. Daí, a correlação dominante entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico submisso ao capital monopolista.

Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, Santos admitia que a força do lugar era a única que, por sua dimensão humana, a cultura coadjuvando, anularia os efeitos perversos da globalização.

Milton Santos debruçou-se sobre uma insuperável contradição: o global versus o local. Na medida em que os sistemas globalizados (circuitos superiores tecnológicos do capital induzindo padrões renovados de consumo) poderiam esmagar os sistemas locais (circuitos inferiores de produção e de consumo, incluindo a cultura) essencialmente enraizado nas necessidades do lugar, “a vontade e o mando longínquo”, dizia, criam espaços e territórios “partagés” ou divididos e derivados entre consumos induzidos longe das necessidades estruturais básicas.

A enorme riqueza a partir dos novos cânones intuídos por Milton Santos fez com que ele profetizasse com precisão a emergência e produção de novos totalitarismos, destruidores e recriadores de territórios em que as populações deixam de ser sujeitos e passam a ser meros consumidores homogeneizados pela voraz globalidade.

Na minha embrionária e limitada percepção da inteligência e riqueza teórica de Milton Santos, há quase meio século, não me permitira ter a precisão de sua colossal importância muito tempo depois. A convivência acadêmica com o sábio Milton Santos, enquanto modesto conviva, usufruía da alegria familiar que me foi concedida em sua baiana residência. Fui igualmente brindado pela delicadeza de sua Marie Hèléne.

Milton Almeida dos Santos foi Doutor Honoris Causa em cerca de 20 universidades estrangeiras, tem 52 livros publicados, centenas de artigos, recebeu dezenas de prêmios, medalhas e distinções nacionais e internacionais. Foi ainda reverenciado como Prêmio Vautrin Lud, em 1994, equivalente ao Prêmio Nobel de Geografia, conferido por unanimidade por universidades de 50 países.

Hoje, ele é reconhecido e homenageado por um seleto grupo de acadêmicos e intelectuais brasileiros que o reverenciam silenciosamente. O reconhecem como um dos mais importantes e renomados nomes da inteligência de todos os tempos. O alcance da sua sabedoria, do seu conhecimento e ciência, o largo e vitorioso sorriso deste monumento da negritude brasileira são reservados a poucos. Tenho este privilégio e a honra de ter vivido e conhecido Milton de Todos os Santos.

  • Francisco Barreto é escritor, economista e Professor de Direito da UFPB

A GUERRA RELÂMPAGO, por José Mário Espínola

Foto meramente ilustrativa. Crédito: Delirou Júnior/O Dia

Até a Primeira Grande Guerra, de 1914 a 1918, as batalhas eram mais estáticas. As tropas permaneciam a maior parte do tempo imobilizadas dentro de trincheiras cavadas no solo.

Apenas de tempos em tempos, as tropas arriscavam sair para o corpo-a-corpo. Nada disso, contudo, foi suficiente para evitar uma carnificina.

Na Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, a Alemanha trouxe novidades que mudaram totalmente a até então forma de se guerrear. A grande novidade foi, realmente, a que eles chamaram de blitz krieg ou guerra relâmpago.

Essa forma de combate se caracterizava pelo dinamismo, pela velocidade com que a Wermacht, exército alemão, atacava as tropas inimigas.

Ao mesmo tempo, simultaneamente, as tropas disparavam em carros de combate e tanques de guerra apoiados por aviões.

Usando a velocidade, a estratégia era ocupar posições cada vez mais profundas em território inimigo. As tropas se deslocavam por onde encontrassem mais facilidade, menos resistência. Igual ao deslocamento de um raio na atmosfera, quando a eletricidade se espalha pelas zonas menos resistentes da atmosfera. Daí a denominação blitz krieg, guerra relâmpago.

Em pouco tempo, os alemães tomavam amplas áreas de território inimigo. E, para alcançar sucesso, modernizaram a logística. Munição, combustível e alimentos seguiam logo atrás dos veículos de combate.

Depois disso as guerras nunca mais seriam as mesmas.

***

Os responsáveis por nossa forma particular de “guerrear” contra a covid-19, aqui na Paraíba, bem  poderiam aprender com a história como vacinar mais rápido a nossa população.

Atualmente, age como se estivesse na Primeira Guerra Mundial. Limitando a vacinação da população a “trincheiras” isoladas, três em João Pessoa, com filas quilométricas em locais inaccessíveis à maioria da população carente. Desta forma, conseguiu elitizar a vacinação, pois dificulta o acesso a quem more longe desses três locais, seja pela distância ou pela exiguidade de opções de postos.

Por outro lado, a nossa “guerra relâmpago” seria vacinar onde fosse mais fácil, e ao mesmo tempo.

Enxergo que essa facilidade é possível com a criação e multiplicação de postos de vacinação, ampliando o potencial de vacinar simultaneamente um número bem maior de pessoas, num período bem menor do que as atuais três ridículas filas permitem.

Se cada uma dessas 3 filas vacina 3 pessoas a cada 10 minutos, serão vacinadas 54 pacientes por hora. Já 20 filas vacinando simultaneamente 20 pessoas nos mesmos 10 minutos, em uma hora terão sido vacinadas 120 pessoas! Dá para imaginar quantos estariam vacinados, ao final de uma jornada de trabalho…

A sociedade organizada poderá contribuir muito para facilitar a vacinação. Conselhos de medicina, farmácia, enfermagem, fisioterapia, odontologia, psicologia, veterinária, corretores, engenheiros, arquitetos, corretores de imóveis, contadores. associações de professores, Ministério Público, juízes, Amatra, Polícia Federal, Correios e Telégrafo, Academia Paraibana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico, igrejas de todos os credos…

Puxa vida! Em muito pouco tempo vacinaríamos todos os nossos idosos, profissionais de saúde, índios, maqueiros, massagistas, motoristas de ambulância, magistrados, promotores… Tudo isso conseguido simplesmente com a identificação das formas mais fáceis de atingir o público-alvo.

Para tanto, teremos de deixar de lado os nossos preconceitos. E todas as entidades civis reivindicarem as suas respectivas vacinações e assim poderem dar as respectivas contribuições para o sucesso de todos.

Muitas outras unidades do país já estão fazendo isso. E alcançando cobertura de vacinação bem mais eficiente do que a Paraíba.

Se, além de toda essa mobilização, o Ministério da Saúde conseguir melhorar a sua logística, tão deficiente até agora, o Brasil poderá alcançar ainda este ano o grau de imunização tão desejado para permitir diminuir o isolamento social e obtermos o retorno ao crescimento econômico já no próximo ano.

MILTON DE TODOS OS SANTOS (1), por Francisco Barreto

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Milton Santos (imagem copiada do blog da Academia de Cultura de Colônia Leopoldina, Alagoas)

Milton Almeida dos Santos continua sendo um ilustre desconhecido. Tinha tudo para ser apenas um negro a mais em cuja gênese estava o brutal escravismo que devastou o Brasil Colônia. Tinha nas suas origens uma sofrida geografia do além mar. Trazia nas suas veias uma enorme capacidade de superação. Foi muito além do que lhe era reservado como descendente de escravo. A rigor soube como poucos afro-brasileiros trilhar caminhos dantes apenas reservados à elite branca.

Fortemente influenciado pelos avós e os pais, todos integrantes do magistério primário, percebeu que indo muito além da régua e do compasso iria se defrontar com promissores desafios nas salas de aulas. Adolescente, passou a ensinar álgebra, matemática, geografia e a língua francesa no Instituto Baiano de Ensino. Aos dezoito anos ingressou na vetusta Faculdade de Direito da Bahia. Como jornalista conviveu com Jorge Amado em Ilhéus tendo sido editor do Jornal da Tarde. Escreveu ainda jovem o compendio Zona do Cacau (Coleção Brasiliana).

Na esquerda baiana foi um ativo militante. Professor de Geografia da Universidade Católica de Salvador, em 1956, a convite do Prof. Jean TRICART fez o seu Doutorado na conceituada Universidade de Estrasbourg apresentando tese sobre o Centro da Cidade de Salvador. Em 1960, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, e tornou-se Livre Docente em Geografia Humana na UFBa.

Em 1964, foi preso; tempo depois, recebeu convites de várias universidades francesas, e sob a interferência da diplomacia francesa partiu para o exilio indo ensinar na prestigiosa Universidade de Toulouse na França. Em 1967, ingressou na Universidade de Bordeaux, então o núcleo acadêmico mais importante da França no campo da Geografia Humana e Urbana. Em seguida, migrou em 1968 para o IEDES – Universidade Paris – I/ Pantheon-Sorbonne.

Nesta última paragem foi quando conheci Milton Santos apresentado que fui pelo grande Prof. Pierre MONBEIG, Diretor do Institut de l´Amérique Latine. Logo em seguida, ele me convidou para ir fazer o 3º Ciclo/Doutorado no IEDES. Foi fundamental para a minha trajetória acadêmica. Fui seu aluno na disciplina Instrumentos da Análise Espacial e Desenvolvimento Regional, e em seguida sob a sua orientação teórica e metodológica, em 1970/72 apresentei o meu projeto de pesquisa intitulado ‘Uma Contribuição à Análise Histórico-Econômica da Formação das Desigualdades Regionais no Brasil’. Fiquei órfão, pois em 1971/72 ele foi embora para o MIT para ser parceiro do famoso Noam Chomsky.

Milton Santos literalmente me adotou como seu pupilo. Mantivemos uma extremosa relação de amizade. Me convidava com alguma frequência a ir até sua residência na Av. René Coty, e tinha sempre a agradável hospitalidade de Marie Hélène, a gentil Mme Santos. A nossa nordestinidade etno-cultural, o fato de também de ser muito jovem e o viver na França forçado pela Ditadura me valeram de Milton Santos a sua indulgência afetiva.

O Mestre Milton tinha uma invejável capacidade criativa, o que me impunha enormes sacrifícios em acompanhar o seu desassombrado ritmo de ideias para as quais não estava preparado teoricamente para absorve-las. Evitava ficar perguntando para não ter que sucumbir à uma avalanche de ideias complementares. Ele desprezava a conduta cartesiana de encadeamentos desprovidos de hipóteses, premissas, teses etc. Simplesmente, ia ao cerne de suas inquietações teóricas e conceituais sem recorrer a demonstrações praticas sem nenhum formalismo ou recursos quantitativos. Diante de uma extraordinária visão teórica e crítica, respeitava Vidal de la Blache, André Cholley, Pierre Georges e o pernambucano Josué de Castro.

Enquanto ele falava, quieto ficava no meu canto, profundamente admirado com a sua desenvoltura e conhecimentos. O meu projeto de pesquisa dormitava timidamente ao meu lado, não me expunha de nenhum modo. Despejava a sua exímia verbalidade que tinha similitude com a agilidade dos capoeiristas do Largo do Pelourinho. Inatacável. Anotava apressadamente as sugestões que podia colher. Para minha sorte, de vez em quando a Mme Santos interrompia com taças de chá, o professor Milton era interditado de tomar café.

Dessas conversas percebia que era inesgotável o seu baú de utopias. Falava gesticulando fortemente e entrecortava a conversa comandada por ele com largas e generosas risadas. A nossa condição de nordestinos me propiciava breves interlocuções e ele adorava falar das suas memórias em Brotas, na Chapada Diamantina no Oeste Baiano. Dizia que havia descortinado o seu interesse pela Geografia quando acompanhara o Prof. Francisco, seu pai, nas viagens pelo belo território da Chapada, e que segundo ele não havia nada igual como síntese das paisagens do Brasil. Encostas íngremes, cânions, grutas, quedas d´aguas imensas, chapadões, com uma cobertura vegetal com todas as variações brasileiras: cerrados, caatingas, campos de vegetação rala, contrastando com enclaves de matas atlânticas.

Conviver algum tempo com Milton Santos era algo formidável, ele tinha sempre uma enorme capacidade de sedução que se aguçava com o brilho dos olhos que sempre eram sucedidos de sonoras e contagiantes risadas. Estava sempre de bem com a vida. Aos colegas franceses, em seminários primava pela ironia e a provocação. Não respeitava manuais, tinha uma incomensurável criatividade como aliada.

  • Francisco Barreto é escritor, economista e Professor de Direito da UFPB

UMA QUESTÃO DE BOM SENSO, por José Mário Espínola

Imagem meramente ilustrativa copiada do Diário do Nordeste

O presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba, Dr. Roberto Morais, zeloso pela sua categoria, solicitou à Secretaria Municipal de Saúde doses de vacinas e autorização suficientes para imunizar os seus membros maiores de 60 anos contra a covid 19, doença que está assolando a face da terra, especialmente no Brasil, que partiu muito atrasado na luta contra a pandemia, por falha justamente de logística, entre outras causas.

A SMS, na pessoa do secretário Fábio Rocha, deferiu o pedido, e então o CRM agendou para vacinar o pretendido grupo de risco na sua espaçosa sede. Nada mais justo.

Ocorre que o Ministério Público, sempre zeloso no cumprimento de suas atribuições, porém talvez mal-aconselhado, no caso em tela vislumbrou o ato como um desrespeito a outras categorias, e notificou a SMS por possível favorecimento indevido. Como havia de ser, a SMS suspendeu a operação que seria realizada no CRM.

Analisando à distância, qual teria sido o “possível desrespeito?” Não é o que observo. Acho que a iniciativa do CRM e da SMS é digna de aplauso, pois se fosse concretizada e ampliada permitiria que um número significativo de pessoas simultaneamente, ampliando com rapidez a cobertura vacinal.

Pois justamente era o que devia vir sendo realizado, com vantagens para a SMS: ampliar o número de centros de vacinação, incluindo órgãos de classe para vacinarem cada um os seus membros, respeitando como principal critério o conceito de prioridades: Conselho Regional de Enfermagem, de Psicologia, de Fisioterapia, de Odontologia, OAB, Associação do Ministério Público, AMATRA, CREA e, por que não?, o Conselho Regional de Medicina. Será muito mais organizado.

Todas essas entidades são órgãos responsáveis, que podem (e devem) ser observados pelos órgãos de fiscalização. E devem ser responsabilizados, quando for necessário.

Todos agindo simultaneamente, vacinando de acordo com as faixas etárias e profissões de risco, dentro dos critérios adotados pelas autoridades de saúde.

Se a SMS adotasse estes critérios, por exemplo, ao invés de 03 (três) longas filas ao longo de vários dias, teríamos até dezenas de pequenas filas vacinando ao mesmo tempo, cumprindo o calendário de vacinação em muito poucos dias.

Eu acho que faltou bom senso, e sobrou rancor, no nosso caso. Mas tenho a certeza de que o Ministério Público ainda irá rever a sua decisão, e vamos alcançar a necessária cobertura vacinal em bem menos tempo.

Tudo se resume, portanto, numa questão de bom senso.

José Mário Espínola
Cardiologista

NUNCA GANHEI NO MILHAR, por Aderson Machado

Comecei a me familiarizar com o jogo do bicho ainda nos meus bons tempos de menino. É que o meu pai, por algum tempo, colocou uma banca de bicho em nossa casa, onde também ele tinha uma bodega.

O resultado do jogo vinha de Recife, captada através da Rádio Clube, todos os dias da semana, pontualmente às 16h. Ainda me lembro que o resultado do jogo, à época, não vinha de forma direta, porque através de um código, formado por um conjunto de dez letras do nosso alfabeto, cada letra correspondendo a um número de zero a nove. Assim, se o código era PERNAMBUCO, a letra A correspondia ao número 5. E por aí vai.

O fato é que todos os que apostavam no jogo do bicho eram todos ouvidos, às 16h, ao pé do RCA VÍCTOR do meu pai, à espera de acertar no tão sonhado bicho. Literalmente, porque muitas pessoas jogavam em determinados bichos em função mesmo de terem sonhado com eles. Às vezes dava certo, às vezes não. Mas havia muita gente que não sabia interpretar os seus sonhos. Foi o caso de um vizinho de meu pai, um contumaz jogador, que falou para o meu genitor que sonhara com um gato caindo de cima de um telhado. Nesse dia não teve dúvidas: jogou tudo o que tinha nesse animal. Quando veio o resultado, com ele veio a decepção: dera burro no jogo! Aí o meu pai interveio: – Meu amigo, um gato que cai de cima de um telhado só pode ser muito burro! Era para você ter jogado no burro!…

Há várias modalidades de se jogar no bicho. O mais tradicional é jogar nos bichos em si, começando com avestruz e terminando com vaca, num total de 25 bichos. Depois pode-se jogar na dezena, centena e milhar. Este é o que paga melhor, dada a probabilidade ser menor de acertar, haja vista que há dez mil milhares no jogo do bicho.

A minha mãe era uma apostadora diária do jogo do bicho. Só que ela gostava muito de jogar no grupo, isto é, no bicho em si. E tinha predileção por determinados bichos. Até onde eu me lembro, ela fazia muita fé no cavalo, na cobra, no jacaré e na vaca. Se desse um desses bichos, com certeza ela era uma das ganhadoras.

Na banca de meu pai havia vários bicheiros, que saíam à procura de apostadores ao longo das propriedades da redondeza. Em casa, meu pai se encarregava de “vender” os bichos. Quando faltava uma hora para o bicho “correr”, isto é, para o resultado ser divulgado, havia o ritual da apuração das cadernetas. Ao fim dessa apuração, saber-se-ia o quanto a banca havia arrecadado em dinheiro, que seria para pagar aos possíveis ganhadores, e o que sobrasse, evidentemente, seria o lucro diário da banca.

Reiterando, devo dizer que no jogo do bicho o milhar é o prêmio mais valioso, porque o mais difícil de ganhar. A propósito, eu nunca acertei no milhar. E não foi por não jogar. Ao longo de minha vida – já estou na terceira idade -, já fiz milhares de tentativas. Em vão. E palpites não me faltaram: placas de carro, número de casas, ano de nascimento de filhos… tudo, e nada! Dir-se-ia que o melhor mesmo é sonhar com o milhar. Mas o grande problema, para mim, é que quando tenho a oportunidade de sonhar, no outro dia não consigo me lembrar do número! A meu ver, a forma mais infalível de acertar no milhar é um bom palpite, ou, talvez, um insight. Foi o que aconteceu ao meu mano Moacir Machado. O fato aconteceu quando ele ainda era estudante e morava numa pensão. Pois bem, certa feita ele presenciara um menino puxando uma caixa de papelão, e nela havia um milhar escrito. Incontinenti, o mano procurou a banca mais próxima para jogar esse milhar. Não deu outra! Acertara em cheio no milhar. Com o prêmio, ele pagou a mensalidade da pensão, comprou roupa, calçado, e ainda lhe restou dinheiro para tomar umas cervejinhas…

Por fim, como última tentativa de acertar no milhar, fui aconselhado a escolher um determinado número e ficar jogando ele todos os dias, porquanto um dia ele iria sair. Aí escolhi a placa de um dos veículos da repartição onde trabalho. Passou uma semana, um mês, e nada. No dia em que me esqueci de jogar… o milhar saiu!

Pelo posto e exposto, cheguei à conclusão de que não nasci para ganhar no milhar…

Fazer o quê?!

BOTE PRA FUNCIONAR, PREFEITO!

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Imagem por mera ilustração copiada do site Diário do Poder

Senhor Cícero Lucena,

Volto a me valer do espaço que me cabe para tentar colaborar com a sua gestão. A sugestão de hoje (em feitio de apelo) é a seguinte: oriente a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) a ampliar e melhorar os canais de atendimento ao público, especialmente aquele mais precisado de vacina, a exemplo dos mais idosos.

Né brincadeira não, Prefeito. Há uma semana, por aí, os números de telefone (3214-7219 e 3214-7971) do Serviço de Atendimento em Domicílio (SAD) da Secretaria parecem programados para dar sinal de ocupado. Justamente os números destinados ao agendamento da vacinação de pessoas acamadas com mais de 80 anos.

Impossibilitado de me dirigir pessoalmente ao SAD, comecei a ligar pr’aqueles números no sábado (6), pra ver se conseguia agendar a vacinação de Dona Maria Aparecida, minha mãe. Aos 84 anos, sob atenção de filhos e três cuidadoras que se revezam em assistência direta e ininterrupta, mesmo cadastrada há quase um mês na Unidade de Saúde da Família (USF) do bairro onde mora, ela não foi contemplada com vacina nesse final de semana dedicado aos prioritários entre os quais se inclui.

Não tenho receio algum de expor publicamente uma necessidade de ordem familiar, Prefeito. Se o faço é porque presumo e temo que milhares de outras cidadãs possam estar enfrentando o mesmo problema. Estimo em 8 mil, por baixo, as  Marias e Josés de 80 ou mais ainda não vacinados. Estimativa baseada numa conta que fiz a partir de dados do IBGE sobre a população idosa da nossa cidade. Trata-se, portanto e enfim, de uma reivindicação coletiva.

No aguardo de suas urgentes providências para resolver algo aparentemente simples de resolver (bote mais gente para atender ou telefones que funcionem), sou, 

Respeitosamente,

Rubens Nóbrega

FAÇA ISSO NÃO, PREFEITO! por Rubens Nóbrega

Senhor Prefeito Cícero Lucena,

Conforme sugeri em privado, e agora o faço publicamente por se tratar de assunto de interesse público, peço encarecidamente que descarte ideia ou proposta de quebrar o piso do Largo do Busto, em Tambaú, para reabrir passagem de carro – de quem vem pela Epitácio – até a avenida da praia.

“Façisso não, Prefeito”, rogaria Comadre Cinlena. Se o propósito é melhorar trânsito no pedaço, o melhor é não despedaçar o calçadão. O mais simples, sem custo algum para os mantenedores do município (ou seja, todos nós),  é permitir que os veículos que vêm pela Epitácio dobrem também à esquerda.

Dobrem na Antônio Lira e sigam até a Avenida Olinda. No percurso, três oportunidades (nas ruas perpendiculares) de acesso à Avenida Tamandaré. Pronto. Se o problema for esse, resolvido! Ah, mas se o problema for o acesso ao ainda inacabado Hotel do Hulk, como diz a maledicência, problema algum!

O estacionamento do futuro hotel, dele ou do vizinho Marinas, tem acesso pela mesma Antônio Lira. Que continuará acessível também à direita de quem vem pela mesma Epitácio. E, pra não deixar o Hulk verde de raiva, é só lembrar que ele pode mandar fazer uma recepção também na ‘parte de trás’. Pronto, resolvido!

Com a entrada na Avenida Antônio Lira livre à esquerda e à direita de quem vem pela Epitácio, mais uma vantagem teremos: o trânsito não precisará mais de retenção no semáforo que supostamente controla o fluxo de motoristas que demandam Tambaú ou Cabo Branco, vindos pela Epitácio Pessoa.

Por enquanto é isso, Senhor Prefeito. Outras sugestões, contribuições e alternativas de solução oferecerei por aqui, nas próximas edições. Esta de agora tentei fazê-la em particular, como o senhor bem sabe. Mas tive medo de ir ao seu encontro. Medo de pandemia, aglomeração e riscos que a idade impõe.

Além disso, como pretensão e água benta não fazem mal a ninguém, sou pretencioso o bastante para acreditar que esta sugestão é pro bem da gente, de toda a nossa gente. Publicamente deve ser exposta e tratada, portanto. E perdoe o ‘croquis’ acima, que toscamente montei para indicar a mudança aqui sugerida.

Respeitosamente, 

  • Rubens Nóbrega
  • seu concidadão, morador e natural de João Pessoa

 

ESPELHO, ESPELHO MEU, por Juca Pirama

Existe na Alemanha uma revista semanal que é muito popular. E respeitada no mundo todo pela sua linha editorial independente.

Fundada em 4 de janeiro de 1947, menos de dois anos após o final do conflito que destruiu a Alemanha, Der Spiegel surgiu de iniciativa do Comando Militar da Alemanha ocupada. Foi editada pelo major britânico John Challaner.

Demonstrando sagácia e impessoalidade ímpares, o major observou que os jornalistas alemães necessitavam de um veículo que fosse democrático e pudesse praticar a imprensa livre, após décadas sob o jugo de Josef Goebbels. Queriam ter voz.

Challaner decidiu então criar uma revista semanal chamada Die Woche (A Semana)*. Para isso ele convidou vários jornalistas, todos germânicos, para serem redatores. E deixou-os totalmente à vontade.

Mas os jornalistas se soltaram demais. A forma irreverente em suas críticas a todo mundo: políticos alemães, Comando Aliado, e principalmente as forças de ocupação, causou incômodo, e fez com que o seu editor fosse demitido.

O novo editor foi um jovem jornalista alemão de Hannover, Rudolf Augstein, que mudou o nome da revista para Der Spiegel (O Espelho). Augstein manteve a mesma linha editorial independente, até a sua morte, em 2002.

Der Spiegel adotou como linha editorial a independência jornalística acima de tudo, doa a quem doer. Pode-se dizer que tem sido até os dias de hoje um bom espelho para a formação democrática da nação alemã.

                                  ***
Os espelhos são uma aplicação prática de um fenômeno da física: o reflexo. É estudado no capítulo da ótica. Tem todo tipo de serventia, desde artefato inseparável de narcisistas até super-telescópios. Mas nem sempre é bem-visto.

Existem pessoas que não gostam do que vêem, quando defrontadas com a imagem de si mesmas. As que têm senso crítico aproveitam para dar um retoque em sua fisionomia; ou em sua vida, sua conduta, as suas atitudes.

Outras, diante do espelho, gostam do que veem e podem despertar para uma nova personalidade, assumindo outra vida, que estava dentro de si e não sabiam.

É este o fenômeno sociológico que está acontecendo no Brasil. Porém o que surpreende é o “espelho” que lhe fez despertar: Jair Bolsonaro!

Ao mirar-se em sua figura, em sua personalidade complexa, patológica, pois não é que milhões de brasileiros se identificaram, e assumiram essa personalidade?!

De repente, descobriram-se admiradores capazes de se tornarem mentirosos, pornofônicos, enganadores, arrogantes, fãs de torturadores, odiosos de manifestações e instituições democráticas, indiferentes ao sofrimento alheio e capazes de atitudes canalhas.

Passaram a agir como ele, em suas atitudes, no seu pensamento. Comportam-se como psicopatas, refletindo o espelho.

Soltaram a fera que existia reprimida dentro de si, e passaram a desprezar tudo o que lhe parece ser demonstração de fraqueza: educação, bons modos, gentileza, cortesia, manifestação cultural, pessoas pobres, negras ou homossexuais, ciganos, cotas para minorias, Estatutos de proteção a menores e a idosos. E, não duvidem, serão capazes de combater, brevemente, até faixas para pedestres.

Passaram a aplaudir o seu espelho, a segui-lo incondicionalmente, a acreditar em tudo o que ele diz, e imitá-lo em tudo o que ele faz.

Esse fenômeno já deve estar sendo estudado por sociólogos, antropólogos e psiquiatras. E acho que dificilmente se reverterá.
_____________
*NA: Não confundir com o jornal diário Die Woche, que circulou por Berlim de 1899 a 1944. Era controlado pela censura nazista, como os demais veículos noticiosos da época.

O TRISTE DA PANCADA DO SINO, por Rubens Nóbrega

Novo aviso aos navegantes: o blog não vai mais postar comentários que não  acrescentem nada às nossas conversas | Blog do Chico Maia

Imagem copiada do Blog do Chico Maia

O ser humano é bicho muito interessante. Conheço um que volta e meia tem surtos de homofobia explícita, chama todo mundo de ‘viado’, diz que odeia ‘bicha’ e, se pudesse, matava todos os LGBTQ+ do planeta. Mas, vejam só, há tempo descobri que o cara é gay. Um gay super enrustido.

Suas explosões públicas de preconceito não passam, portanto, de suposta esperteza para esconder orientação ou preferência sexual diversa daquela que o senso comum carimba de ‘normal’, bem distinta de outra que provavelmente seu círculo mais íntimo estranharia ou condenaria.

Eis o tipo que acredita no seguinte: repetindo a todo instante que fulano é ‘viado’ e sicrano é ‘bicha’, quem o ouve proferindo palavras que julga ofensivas não percebe a real dimensão da infelicidade que deve ser a vida do infeliz. E nunca, nunquinha na vida, desconfiará que ele não é o machão que propaga ser.

Conheço outros – poucos, ainda bem – que jogam da mesma forma, mas no campo político. Os espertos desse jaez elegem determinado expoente para chamar de ‘corrupto’. Sistematicamente, em qualquer momento ou espaço, infamam como ‘safados’, ‘bandidos’ e assemelhados quem odeiam de paixão por razões estritamente ideológicas.

Com tal mantra ou bordão, imitando o gay irresolvido que jamais destranca as sete chaves do dilema que o mantém no armário, as criaturas horrendas pretensamente politizadas tentam se convencer, primeiro, de que são puras e castas.

Secundariamente, mas não menos importante, os insultadores da inteligência alheia – toscamente goebbelianos – supõem que a população mundial os emoldura na galeria dos honestos, quando, na verdade, eles apenas reeditam o punguista que bate a carteira e grita “Pega ladrão!”.

É como diria o jornalista Werneck Barreto, meu amigo de fé, irmão, camarada: gente assim é o que a gente pode chamar de ‘o triste da pancada do sino’.