E AGORA? por Madriana Nóbrega

Juliette no BBB21

Juliette Freire (Foto: reprodução de imagem da TV Globo pelo Metrópole)

Foi tão bom ouvir nosso sotaque ecoando em rede nacional!

Melhor ainda reconhecer nosso jeito de falar brilhando em horário nobre.

Nós somos muitos e precisamos nos reconhecer assim: nossas regionalidades formam esse país único.

Cada sotaque traz consigo uma ancestralidade que deve ser respeitada e exaltada. E, nesse ponto, Juliette deu aula.

Que mulher arretada, visse?

Essa é “lá de nói” e fala, “batendo nos peito”, como nossa cultura é rica e deve ser respeitada.

A bichinha é gasguita? É! Mas, pra ser ouvida, foi o jeito!

Também… Foi um perrengue atrás do outro. Nam!..

Ou ela botava pra torar ou era engolida pela arrogância e soberba que teve de enfrentar tão logo pisou os pés naquela casa.

Mas não teve avexame, não! Ela foi comendo pelas beiradas e conquistou o coração de uma ruma de gente.

Mostrou que é na humildade, no companheirismo, na empatia e no perdão que a gente cresce.

Fora disso, o caminho é paredão!

  • Madriana Nóbrega é Professora

CENSO 2021, por Eurípides Mendonça

Uma das pesquisas mais importantes para o destino de um país é o censo demográfico decenal. Suas informações são imprescindíveis para o estabelecimento de políticas públicas de educação, saúde e infraestrutura, entre outras.

Por temor de que o censo não seja realizado, um grupo de empresários nordestinos contratou um instituto de renome nacional para realizar um “minicenso demográfico”.

Considerando seu alcance, seus patrocinadores resolveram compartilhar os resultados com toda a sociedade. A seguir, serão apresentados alguns conteúdos e detalhes das ocorrências da coleta de dados em campo.

QUANTO À COLETA DE DADOS

1) A coleta de dados ocorreu com todos os requisitos de segurança para evitar a propagação da Covid-19, tais como o uso de álcool gel, máscaras e o distanciamento mínimo de 2m;

2) O protocolo da pesquisa estabelecia rígidas regras de conduta para o recenseador e recomendações e alertas para o recenseado, sendo uma das mais importantes que o pesquisador não comentaria as respostas do pesquisado, enquanto o pesquisado se comprometeria a apenas responder com a verdade às perguntas formuladas;

3) Que devido à diversidade do grau de escolaridade do recenseado, não foram raros diálogos não recomendáveis tais como:

“Ô Recensadô, tu não te mete a besta!” “Um pergunta e outro só responde. Simples assim”

QUANTO AOS RESULTADOS DO BLOCO – LAZER

4) À pergunta sobre se assistia na televisão algum programa tipo “reality show”, 95% dos pesquisados responderam que não.

5) Perguntado se torcia para algum candidato dos “reality show” atualmente veiculados na TV, a maioria absoluta, ou seja, 95% dos entrevistados, respondeu que não;

6) À indagação sobre qual o melhor filme que já assistiu, a resposta de 95% dos respondentes foi “Romeu e Juliette”.

Desobedecendo ao protocolo, o pesquisador interveio e disse: “O nome correto do filme é Romeu e Julieta”. E se irritou mais ainda quando o pesquisado fez uma segunda intervenção para provocar:

– Só falta o senhor dizer que essa Juliette do filme também se escreve com dois “T”!

7) Ao questionamento de qual o parque onde passa a maioria das festas de São João, cerca de 95% responderam ‘Parque do Povo’;

QUANTO AOS RESULTADOS DO BLOCO SITUAÇÃO DO TRABALHO

8) À pergunta sobre o nome do seu patrão, cerca de 95% responderam não ter patrão e sim uma patroa, cuja prenome era Juliette com 2 “T”;

9) À pergunta sobre qual a sua profissão, cerca de 95% responderam ser Tropeiro da Borborema.

Indevidamente ocorreu uma terceira intervenção do recenseador alegando que tropeiro não era uma profissão, o que motivou mais um protesto nos termos:

– Ô, Recensadô, tu não te mete a besta! Um pergunta e outro só responde. Simples assim.

QUANTO AOS RESULTADOS DO BLOCO DADOS DA FAMÍLIA

10) À indagação sobre o grau de expectativa de vida na família, cerca de 95% responderam que os homens morriam primeiro e, portanto, “eram famílias de viúvas”;

11) À pergunta se sabia o prenome de sua bisavó, cerca de 95% responderam ser Juliette com 2 “T”;

12) À pergunta se sabia o prenome de sua avó, cerca de 95% responderam ser Juliette com 2 “T”;

QUANTO AOS RESULTADOS DO BLOCO DE DADOS PESSOAIS

13) À pergunta sobre o estado civil, cerca de 95% responderam que eram solteiros;

14) À pergunta se consideravam beleza, altivez, resiliência, humildade, coerência, carinho, cultura e alegria como qualidades ideais para uma companheira, cerca de 95% dos respondentes responderam que sim;

15) À pergunta se sabiam o prenome de alguma mulher que possuísse todas as qualidades apontadas na questão anterior, cerca de 95% dos pesquisados disseram Juliette Freire.

QUANTO ÀS CONCLUSÕES DO MINICENSO DEMOGRÁFICO 2021

A auditoria interna do Instituto de Pesquisa Mendonça de Souza, tendo à frente o perito Daniel Abella Cavalcante Mendonça de Souza, Gerente de Projetos e Professor das duas Universidades mais tradicionais de Campina Grande, respectivamente – a Virtus/UFCG e a Unifacisa, recomendou uma auditoria internacional, porque detectou uma série de inconsistências (fraudes ou não) nos resultados tais como:

a) que em todas as perguntas o índice de resposta era sempre de 95%;

b) que o único nome feminino citado em 95% dos domicílios era Juliette;

c) que muitas perguntas do minicenso não eram condizentes para subsidiar a construção de políticas públicas;

d) que aparentemente a pesquisa apresentou um viés ao explorar apenas o gênero feminino;

e) que os recenseadores deveriam ser submetidos a uma reciclagem para respeitarem as respostas dos recenseados, evitando-se transtornos que podem comprometer os resultados.

QUANTO ÀS CONCLUSÕES DA AUDITORIA INTERNACIONAL

Coube ao brasileiro Felipe Abella Cavalcante Mendonça de Souza, que trabalha no insuspeito Google da Suíça, a decisão de validar os resultados.

O perito afirmou que realmente o fato de 95% das mulheres nordestinas se chamarem Juliette merecia uma reflexão, pois o esperado seria a predominância de “Marias e Josefas”, mas fundamentou que era um mero fenômeno de explosão emocional coletiva potencializado pela labilidade emocional, o confinamento prolongado e o resultado de que 95% não torciam para participantes de “reality”.

Acrescentou ainda que os supercomputadores do Google e o perito (cursou graduação em computação em Campina Grande e venceu Olimpíadas Internacionais) descobriram que a supercitada Juliette é natural de Campina Grande, fundamentado no fato da profissão de tropeiros lembrar os pioneiros que fundaram a cidade, no caso os Tropeiros da Borborema, além do mais o Parque do Povo é de Campina Grande.

Encerrou seu parecer pela validade dos resultados, com intervalo de confiança de 95%, inclusive o resultado indica que 95% dos lares nordestinos são ocupados por Juliettes, com dois “T’.

Recomendou  por último, que até a data de 4 de maio de 2021, o minicenso demográfico 2021 seja publicado em uma revista científica internacional.

Viva o Nordeste! Viva a Paraíba! Viva e boa sorte, Juliette Freire!

• Eurípedes Mendonça é Médico

COVID MATA UMA CAMPINA A CADA 6 MESES, por José Mário Espínola

Sexta-feira última, dia 30 de abril, a cidade de Campina Grande teria amanhecido vazia. Pelas ruas, somente gatos e cachorros vadios circulavam, errando em busca de alimento.

No Parque do Povo definitivamente silencioso, sanfonas, triângulos e zabumbas seriam nada mais do que ecos fantasmagóricos de um passado recente. No passeio da Rua Maciel Pinheiro, que já foi o mais movimentado da cidade, nada além de capim seco e poeira.

No Parque da Criança não mais se ouviriam risos infantis, mas tão somente o barulho do vento, como nos vilarejos fantasmas dos filmes de caubói. E todas as pessoas que por lá se exercitavam teriam desaparecido.

O Campus 1 da Universidade Federal de Campina Grande, orgulho do nosso Estado, transformado em cidade universitária deserta, não mais produzia tantos programas de computação que têm ajudado a melhorar o mundo e a salvar vidas.

Enfim, no dia 30 de abril já não haveria mais ninguém na cidade, pois foi justamente nessa data que o Brasil ultrapassou a cifra dos 400 mil mortos pela epidemia de covid 19. O equivalente a uma Campina Grande completa.

***

Há pouco mais de um mês, completávamos os 300 mil mortos. Na ocasião, os brasileiros dotados de sensibilidade e piedade ficaram consternados.

Aqueles indiferentes ao sofrimento da nação, os dotados de psicopatia, não chegaram a se manifestar, tão grande a indiferença. Pelo menos não comemoraram. Talvez não.

Os números frios revelam uma mega tragédia, inédita no nosso país. Pois nunca se morreu tanto e tão rapidamente.

Desde a primeira morte, a 17 de março do ano passado, são 402 mil mortos em 408 dias. Média de 985 mortos a cada 24 horas. O equivalente à queda de 3 aviões Airbus A380 lotados, todos os dias, ao longo de pouco mais de um ano, fazendo desaparecer nesse período toda a população de uma Campina Grande.

Mantida essa média, alcançaríamos o meio milhão de mortos aproximadamente no dia 7 de setembro. Todavia, a média atual é de 2.400 mortos por dia, o que anteciparia o 500.000º morto para o dia 11 de junho. É como se caíssem 6 Airbus A380 todos os dia, só aqui no Brasil.

***

A ciência vem demonstrando que a velocidade de novos casos de morte por covid 19 pode ser modificada por diversos fatores. Pode ser retardada com a adoção de medidas sanitárias, das quais se destacam o uso de máscaras, a higienização e o distanciamento social. Tudo isso associado à vacinação em massa.

Temos a prova de que isso é possível quando observamos a evolução da doença em alguns países, como aconteceu no Reino Unido, em Israel e na Nova Zelândia.

Nem precisamos ir tão longe: quando ainda não havia acesso às vacinas anti-covid 19, a cidade de Araraquara, no interior paulista, impôs o isolamento social e demais medidas sanitárias. Conseguiu reduzir internações hospitalares, ocupação de leitos de UTI e novos óbitos por covid 19. Paralelo a isso, o resto de São Paulo e outros estados, como o Amazonas, “ardiam em chamas” com o aumento estúpido de mortos pela terrível doença.

Todas as medidas exaustivamente recomendadas contra a covid estão ao alcance das decisões de autoridades da saúde. Mas não é tão simples assim: os cuidados sanitários têm que ser adotados por todos.

Por outro lado, a taxa de óbitos diários pode ser acelerada. É o que atualmente está acontecendo no Brasil. É o que estamos observando especialmente entre os mais jovens, que desprezam o perigo aglomerando-se, falhando no uso das máscaras e nas medidas de higiene.

A mudança na atitude da população é possível, desde que mude também a atitude das autoridades da saúde. Isto requer uma campanha intensa e decisões duras por parte dessas autoridades, principalmente do Governo Federal, não só da parte do presidente da República como de seu Ministério da Saúde.

O próprio presidente, entretanto, numa atitude genocida, dificulta como pode o processo de imunização, desobedece todas as regras sanitárias e incita a população à desobediência às determinações da OMS, dando o mau exemplo à população.

Quanto às vacinas, o Governo Federal, responsável maior pelo Plano Nacional de Imunização (PNI), falhou feio ao não reservar e comprar em tempo hábil as doses necessárias para vacinar a população, o que poderia frear a marcha do extermínio em massa.

O PNI já foi modelo de excelência para o mundo. Foi desmantelado na titularidade anterior do Ministério da Saúde, causando enorme prejuízo de vidas para o Brasil. Existem evidências que o ex-ministro da Saúde evitou a aquisição das vacinas oferecidas para não desagradar o presidente da República, que sempre se posicionou contra a vacina, ao ponto de ministros seus se vacinarem escondidos, na calada da noite. Talvez em garagens de empresas de ônibus. Ambos, presidente e ex-ministro, são diretamente responsáveis por essa chacina que vem acontecendo no Brasil.

O PNI está agora passando por processo de recuperação, iniciado pela nova administração do Ministério da Saúde, que age orientado pela ciência, acendendo uma nova esperança para a população brasileira.

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Observando todos os cuidados, não só da parte da população mas, principalmente, dos governos federal, estaduais e municipais, poderemos, enfim, evitar a perda de uma Campina Grande a cada seis meses.

O IMPOSTO DA TREVA, por Babyne Gouvêa

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Imagem copiada de tributarionosbastidores.com.br

Um país que se preza investe em educação. Nações são construídas e desenvolvidas a partir do conhecimento, fundamentado pela leitura. Isso é fato, não é novidade. No entanto, não há em nosso país uma ação governamental nessa direção; o que está existindo de fato parece ser uma conspiração para manter a alienação de boa parte da população.

Um estudo da Receita Federal está propondo uma taxação para os livros na ordem de 12%, na Reforma Tributária, utilizando a alegação de que a camada de menor poder aquisitivo não lê. Mas por que não existe esse hábito entre as famílias de baixa renda? A resposta é óbvia: os livros têm um custo alto para a camada menos favorecida e, por essa razão, os livros deveriam ser mais baratos, e o hábito de leitura, incentivado.

Se a leitura constituísse um projeto de nação, o cenário seria outro, com benefícios para o cidadão no desenvolvimento da imaginação, da criatividade, conhecimentos gerais, além de expandir o vocabulário e a visão crítica.

Estudos apontam que no Brasil a média de leitura dos brasileiros é de 1 livro por ano. O número de bibliotecas públicas é insuficiente considerando o tamanho do país, concentradas em algumas cidades.

Essas informações contribuem para o país apresentar dados longe do ideal: três em cada dez brasileiros têm dificuldade para ler, interpretar textos e fazer operações matemáticas simples, segundo dados de 2018 do INAF ( Indicador de Alfabetismo Funcional).

O desenvolvimento de todo e qualquer país passa por uma população rica de conhecimentos, com consciência para reivindicar os seus direitos e lutar por condições melhores de vida. Uma mente instruída pode e deve, ainda, contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico, convergindo para o crescimento econômico do país. Mas livros não interessam aos governos autoritários.

A leitura gera conhecimento e conhecimento gera pensamento crítico. Quanto mais ler, mais aprendizado o cidadão vai obter, formando um ser humano que pensa de forma racional e baseado em argumentos. Nos dias atuais, ter censo crítico é fundamental. Essa premissa parece incomodar àqueles que insistem em manter a ignorância da massa para facilitar a manipulação dos iletrados e desinformados.

O raciocínio da Receita Federal é que a isenção tributária para a venda de livros está beneficiando apenas os brasileiros economicamente mais abastados e, por isso, poderia ser reconsiderada. Desta forma, ainda de acordo com o órgão, o governo passaria a arrecadar dinheiro com essa tributação e poderia destinar esse recurso a políticas destinadas aos mais pobres.

Essa “lógica” é tão absurda que o melhor seria recomendar leitura a quem propôs essa estupidez, ao invés de tributar o livro. “E por que não tributar os ricos?”, perguntam quase todos que leem.

RESPEITEM NOSSO SOTAQUE! por Eurípedes Mendonça

Juliette Freire (imagem de vídeo do YouTube reproduzido ao final do texto)

Na sua infância, o autor costumava frequentar as rodoviárias de João Pessoa e Campina Grande, como ponto de partida para o gozo das férias escolares na casa dos avós maternos no interior da Paraíba. Destino: o município brejeiro de Alagoa Nova.

Nessas viagens, passou a prestar atenção no povo local. Sua simplicidade, singularidade, vestimentas de cor rosa choque, seu linguajar próprio, onde pontificavam o ôxente e o sotaque típico. Com a globalização dos costumes só restou de característico o sotaque, “o rebolado da voz”, segundo o poeta Antônio Mesquita.

O autor adentrou ao universo do preconceito quando ao final da adolescência soube que aluna de um colégio religioso de João Pessoa, onde ministrava aulas de Biologia, dizia jocosamente que ele falava cantando. Meses depois, o episódio foi superado.

Um dos primeiros brados de repúdio ao preconceito foi protagonizado pelo alagoano Zagallo quando após a conquista pelo Brasil da Copa América, bradou o “vocês vão ter que me engolir”, após o ser sutilmente discriminado por ser nordestino e ocupar o cargo de técnico da Seleção Brasileira de Futebol que mais ganhou títulos.

Outra forma de repelir com altivez o preconceito é demonstrar o nosso orgulho de ser paraibano e ou destacar as nossas riquezas culturais, musicais e naturais. Neste sentido, um dos pioneiros nessa estratégia de luta contra a discriminação foi o professor Genival Veloso de França.

Doutor Genival sempre encerrava as suas palestras magistrais para médicos do Brasil e de Portugal convocando todos a visitarem o nosso sublime torrão. O seu bordão: “A Paraíba não é um lugar, é, sim, um destino”. Orgulha-se o autor de ter sido seu aluno na UFPB.

Uma terceira frente no combate ao preconceito é expressar o orgulho de morar na Paraíba, abdicando até de um maior crescimento profissional, para residir próximo de suas raízes. Temos dois exemplos bem atuais de paraibanos arretados que assim decidiram: Jessier Quirino e Rossandro Klinjey.

O poeta Jessier Quirino alardeia seu amor pelo matuto nordestino e vangloria-se de morar em Itabaiana, seu lugar de origem, e assim absorver a cultura do deu povo. Uma visita ao seu ateliê é uma inesquecível aula de cultura, história e geografia da Paraíba

Já o Psicólogo e palestrante nacionalmente conhecido Rossandro Klinjey descreve – na sua preleção intitulada “Sobre ser nordestino” – como enfrentou o preconceito quando quiseram “abrandar o seu sotaque e fazê-lo trocar o DDD 083 por um 011”. Até hoje orgulha-se de morar em Campina Grande.

Mas “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Desponta o fenômeno midiático campinense Juliette Freire. Vítima de preconceito sistemático no início de um programa televisivo, o Big Brother Brasil 2021, não apenas superou como venceu a luta.

As armas de Juliette são puro amor à Paraíba, altivez, simplicidade, humildade, veracidade, arrojo e carisma inquestionáveis. Em tempos de Oscar, seus concorrentes tiveram que estender-lhe um tapete vermelho. Para quem já foi vítima de discriminação, vivenciar sua vitória é um lenitivo.

Parafraseando Zagallo, aos preconceituosos devemos dizer: ‘Queiram ou não, vocês vão ter que engolir a nossa paraibana arretada Juliette!”.

  • Eurípedes Mendonça é Médico

CARTÃO DE VACINAÇÃO, por Eurípedes Mendonça

Comprovante de vacinação da cidade de São Paulo (imagem da Internet)

O cartão de vacinação é um documento que descreve e comprova sumariamente um ato profissional de vacinação e habilita o portador a, caso cabível, tomar as doses complementares da vacina. Por ser um documento profissional deve ser assinado (e não rubricado), conter o número de registro profissional do vacinador e respeitada a sua confidencialidade/privacidade.

CARTÃO DE VACINAÇÃO OU DE VACINA?

Há uma variação na nomenclatura do documento. O nome legal é cartão de vacinação (Portaria 69/21, do MS). Pelo fato de constar além dos dados da vacina (fabricante, nome e lote), há informações sobre o vacinado e o vacinador, logo é impróprio chamá-lo de cartão de vacina. Também por seu alcance mais amplo, não é apropriado denominar-se apenas um “comprovante de vacinação”. Aliás, há também diferença entre cartão, carteira e caderneta.

Cartão de vacinação de João Pessoa (Internet)

CUIDADOS AO DIVULGAR O CARTÃO DE VACINAÇÃO

É natural que muitos vacinados queiram demonstrar sua emoção exibindo o documento legal nas mídias sociais. Porém, para evitar o uso indevido de dados pessoais do vacinado (CPF por exemplo) e do vacinador por quadrilhas de golpistas, recomenda-se que sejam OCULTADOS.

DEZ FALHAS APONTADAS NO PROCESSO DE VACINAÇÃO

Há várias denúncias envolvendo a vacinação. Alguns exemplos:

1) simulação de injeção;

2) pseudo-vacinadora;

3) aplicação de vacinas vencidas;

4) erros de aviamento de sua prescrição (1ª dose e 2ª dose de vacinas diferentes);

5) evidente falta de diálogo entre o Ministério da Saúde e as secretarias de saúde municipais consubstanciado no descumprimento de dispositivos legais na elaboração e preenchimento do cartão de vacinação;

6) Prioridades não padronizadas nacionalmente;

7) Desrespeito às prioridades (fura-filas);

8) Terceirização do preenchimento dos dados do cartão de vacinação (o recomendável é que o próprio vacinador preencha e assine);

9) Vacinador(a) não higieniza as mãos entre as vacinações;

10) Idosos vacinados em pé, posição embora prevista pelo manual do Ministério da Saúde (deveria ser uma excepcionalidade pois pode acarretar, entre outros, quedas e até a morte).

Helô Pinheiro (Foto: Reprodução Instagram)

Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema, vacinada aos 75 anos em São Paulo (Foto: Instagram)

Os fatos mencionados justificam que seja valorizado o correto e adequado preenchimento do cartão de vacinação, até como possível prova material junto aos conselhos profissionais, às policiais e à Justiça, associada à filmagem (proibida nos Estados Unidos).

FALHAS DETECTADAS NOS CARTÕES DE VACINAÇÃO

Em decorrência, o autor – à luz da Portaria MS 69/21 (ver quadro 1)  fez uma análise de alguns cartões de vacinação e identificou as seguintes não conformidades:

1) Omissão do documento de identificação e data de nascimento (Fortaleza e SP);
2) Preenchimento do nome incompleto do vacinado (não pode abreviar o nome);
3) Omissão do campo nome da vacina, apenas o fabricante, levando à confusão notadamente quando o Butantan tiver duas ou mais vacinas;
4) Informação imprecisa do serviço de vacinação (às vezes, apenas o código, e, de outro lado, a norma não estabelece como preencher nos casos extramuros, a exemplo de ginásios e drive thru);
5) Impossibilidade de identificação do vacinador (falha gravíssima, pois dificulta a imputação de responsabilidade, posto que em muitos casos apenas há um rabisco, rubrica ou só o prenome, infringindo o Manual de Vacinação do MS).

Apenas nos cartões de São Paulo havia a aposição do carimbo do vacinador. Outra importância deste último dado é a proteção contra pseudo-profissionais (vide caso em Belo Horizonte, onde uma falsa enfermeira é acusada de ter vendido uma falsa vacina a empresários do setor de transporte da capital mineira).

NOVE ITENS QUE OBRIGATORIAMENTE DEVEM CONSTAR NO CARTÃO DE VACINAÇÃO ANTI-COVID 19

I – dados do vacinado (nome completo, documento de identificação e data de nascimento);
II – nome da vacina;
III – dose aplicada;
IV – data da vacinação;
V – número do lote da vacina;
VI – nome do fabricante;
VII – identificação do serviço de vacinação;
VIII – identificação do vacinador(a);
IX – data da próxima dose, quando aplicável.

RECOMENDAÇÕES

As normas de vacinação – salvo melhor juízo – não contemplam orientações para o preenchimento do cartão por parte de estagiários ou estudantes dos cursos de graduação da área da saúde. Daí, seria interessante que nos cartões de vacinação fosse registrado o local (braço direito ou esquerdo) conforme recomenda o Manual do MS, a fim de identificar a ocorrência de evento adverso local e associá-lo à respectiva vacina.

Mas temos novidade: está sendo lançado o cartão de vacinação digital, incluindo o registro da nacionalidade e do gênero.

Já o cartão de vacinação dos EUA traz em destaque – em dois idiomas – uma mensagem alertando sobre a importância de sua guarda. Não exige o nome completo. Logo…

Não esqueça de guardar e preservar o seu cartão de vacinação.

Que todos sejam vacinados!

  • Eurípedes Mendonça é médico

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CARTA AO MEU IRMÃO, por Babyne Gouvêa

Imagem: Wikipedia

Estava aqui, plena madrugada, pensando em você, meu irmão querido, e me lembrando de tudo o que você me ensinou.

Iniciei as memórias com a sua fase do rock, está lembrado? Vestido como Elvis Presley, incluindo o topete fixado com brilhantina e, com alguns talheres, batia nas panelas penduradas na cozinha, fazendo o som da bateria. A nossa mãe ria, como uma grande fã. Eram momentos plenos de felicidade.

E o Let’s Twist Again, lançada por Chubby Checker? Você me dando aulas da nova dança para eu exibir no colégio toda orgulhosa diante das colegas? E olha que eu assimilava bem as suas orientações.

Ah, querido, as lembranças da sua coleção de vinil na radiola portátil contribuíram muito para os meus interesses musicais, mantidos até hoje.

Como esquecer a primeira vez que escutei La Vie En Rose, de Edith Piaf e Louis Guglielmi, e interpretada por Louis Armstrong? Lembro, inclusive, da capa do disco exibindo Armstrong com o seu trompete e um plástico protetor que, de tanto zelo, você não admitia retirá-lo.

Você foi o responsável por me apresentar à voz magistral de Frank Sinatra, chamado intimamente por você de Frank. Lembra como eu reagi ao ouvir Nat King Cole? Sabe que está bem vivo na minha memória esse instante de exaltação diante da beleza da voz desse imortal cantor? Se eu fosse enumerar os tantos prazeres musicais que você me proporcionou, não terminaria essa carta.

Entre uma canção estrangeira e outra nacional, você me chamava para ouvir Celly Campello e o seu Estúpido Cupido. Cantava para os meus amigos da rua da minha infância, com os movimentos do twist. Estendi esse aprendizado às minhas amigas do colégio e toda envaidecida dizia que o instrutor tinha sido o meu irmão mais velho.

Quando veio a Jovem Guarda você se esquivou, não tinha tanto interesse, preferia escutar a Bossa Nova. Nesse momento, conciliei a Bossa Nova e a Jovem Guarda, era seguidora dos dois movimentos; a primeira discórdia musical entre nós, mas o respeito continuou. Você, também, não foi fã ardoroso dos Beatles, ao contrário de mim, que sempre os acompanhei.

Lembro do seu ciúme quando fui ao cinema assistir aos filmes dos quatro cabeludos. Eu ria com essa situação, dizendo que era a hora de você acompanhar a sua irmã caçula.

Ah, meu irmão, quantas lembranças boas. O seu Jeep Candango que, de tão desconfortável, derrotou os seus rins, segundo as suas explicações, atribuindo ao veículo a causa dos seus cálculos renais. Só você mesmo desenvolveria essa teoria nos seus instantes de desabafos hilários. Quem lhe conhece fará toda a cena no  imaginário.

Não conheço um contador de histórias melhor do que você. Um conto desagradável você tem a capacidade de transformá-lo em risível, leve, levando graça a quem o escuta.

E aquele acontecimento em Ilhéus, hein? Já estou rindo, só recordando os seus gestos interpretando o protagonista da história, mostrando o local recém-operado que, por discrição, prefiro omitir. Só com você poderia acontecer esse fato.

Não quero me estender muito, abomino ser cansativa, mas não poderia deixar de enaltecer o seu espírito amoroso e solidário, motivo de lhe engrandecer e ser amado por todos de seu convívio.

Estou com saudade. Saia desse lugar que não combina com você. Eu e um grupo enorme de pessoas que amam demais você estamos aguardando a sua saída para podermos retomar os nossos dias felizes.

Sinta-se beijado pela sua irmã caçula, 

Babyne

CASA DE FAMÍLIA, por Ana Lia Almeida

Foto: Ana Patrícia Almeida

Continuo lá, com D. Laura. Os meninos crescidos, estudando, ficou melhor para mim. Nessa idade, você sabe, não dá mais para ficar correndo atrás de criança pequena. Já vou fazer o quê? Quarenta e… Sete! Não ria não, Aleide, jajá você também vai começar a esquecer. É tanta idade que a gente vai parando de contar. O tempo corre, também, repare que já faz mais de ano que a gente é amiga de ônibus, encontro marcado aqui, toda semana.

D. Laura está bem, sim. Esse pessoal vive bem, por mais que não achem. Sempre tem um grande problema que pra gente é pequenininho, é ou não é? Eu bem queria os problemas desse povo. Inventou crise de pânico com a mania de limpeza dela, foi pra médico de cabeça e tudo. Não pode ver uma sacola de supermercado que começa a suar frio. Sobra sempre para mim. É um tal de água sanitária em maçaneta, passar pano na casa três vezes por dia, banho de álcool nas compras, um aperreio só. Hoje, mesmo, minha filha, não foi moleza, a casa estava uma bagunça, ainda bem que tinha lugar aqui pra sentar porque minhas varizes vão estourar.

Você acredita, Aleide, que dia desses sonhei que eu era D. Laura tendo um piripaque desses que ela tem de vez em quando? Eu estava na sala da casa dela, é uma sala meio cafona, mas cafonice organizada, de gente que tem dinheiro. É um tal de quadro de foto de família misturado com santo e time de futebol na parede, que nem em casa de pobre, mas cheio de moldura dourada, não sabe? E a mobília da avó dela: uma mesinha de centro de madeira com um jarro de flor natural, que ela manda comprar toda semana; com mais dois cinzeiros chiques pra ninguém fumar, que ela é asmática; e também tem um troço de madeira, alto, que não serve para nada, só pra apoiar um calendário da igreja dela, com a Virgem Maria olhando praquelas janelas de vidro nas paredes de madeira.

“Rústico”, ela diz, D. Laura. Eu acho é brega, mesmo. Se eu tivesse dinheiro ia querer uma casa toda moderna, os móvi tudo novinho, jamais uns troços daqueles.

Pois eu estava lá, no sonho, bem sentada no sofá listrado, olhando para as flores, quando vi que o jarro branco da avó dela estava todo empoeirado, como se a empregada, que não era eu, lógico, tivesse esquecido de limpar. Aquela sujeira me descontrolava, subia um nervoso pelas pernas até a cabeça, eu começava a me tremer todinha. Eu caía no chão de tanto me tremer, quando acordei.

Trabalhar em casa de família não é fácil não, viu, Aleide? Tem uma hora que a gente endoida com as esquisitices deles. Vá com Deus, minha amiga, daqui a pouco chega meu ponto também. Só eu que falei hoje, depois você me conta as coisas do salão. Até pra semana, amém.

DESATANDO OS NÓS, por Bethania Nóbrega

(Imagem: Hierophant)

A vida na sua imperfeição nos ensina que relacionamentos perfeitos não existem, mas toda história pode mudar e onde houver dor pode vir a existir amor através do perdão, que é o remédio que falta pra desatar muitos dos nós dessa vida.

Essa história fictícia que vou contar é entre um pai e um filho machucados com o que a vida lhes causou. Fala de sentimentos e mostra o quanto é importante a gente falar e não deixar que o tempo passe. Por que será que temos tanta dificuldade de falar de sentimentos pro outro?

Penso que, nessas coisas de relacionamento, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Enfim, o tempo não volta, mas sempre dá pra tentar, a partir do perdão, o recomeço de uma nova história.

Desatando os nós

Estava tudo certo
Já foi, já passou
O tempo não traz
O tempo não é capaz
De se mostrar diferente
Do que existiu
Esse amor de agora
Não nos cabe
Ele se modifica ao sabor
Dos seus sentimentos
Não quero ser infantil
Não sou mais criança
Aceitar seus erros é fácil
Seus sentimentos não
Seus olhos não
Me enganam mais
Retorcidos e enxaguados
De mágoa que a vida lhe causou
E você me diz que a culpa é minha
Foram suas, as escolhas
Eu fiquei com as consequências
Que o destino me deixou
Não lutemos mais
Pois só o perdão
Pra desatar esse nó
Em nós

@bethania_nobrega