GRANDES MESTRES, por Babyne Gouvêa

história da arte

Detalhe de ‘A Criação de Adão’, de Michelangelo, pintado em 1511 no teto da Capela Sistina (Vaticano)

Posso bater no peito e dizer que tive dois grandes professores com nível de excelência: Ivanildo Brito e Júlio Goldfarb, na década de 70, aos quais serei eternamente grata.

Desses dois grandes mestres guardo conhecimento e lembranças da didática utilizada por eles em salas de aula. Ambos tinham muito em comum, embora lecionassem matérias distintas: o primeiro ensinava ‘História da Arte’; o segundo, ‘Evolução do Pensamento Científico e Filosófico’.

Assíduos, transferiam para os alunos cargas incomensuráveis de sabedoria. Embora fossem sábios não eram esnobes ou distantes dos seus aprendizes. A condução do ensino era feita com maestria, facilitando o aprendizado dos seus receptores.

O legado que herdei deles foi rico para os padrões do ensino de graduação. Tenho essa percepção clara face à base que assimilei. As portas da mente ficaram firmadas para receber outros saberes.

Havia ocasiões em que o Professor Júlio ministrava a sua aula para um número reduzido de alunos, porque o assunto não era atraente para alguns colegas. Isso não era motivo para diminuir o seu entusiasmo em lecionar. Não sabiam os ausentes que aqueles ensinamentos seriam utilizados durante toda a nossa existência.

O pensamento científico está muito presente na vida cotidiana e nos permite fazer perguntas baseadas na razão. Uma pessoa com mentalidade científica quer saber o porquê dos acontecimentos. O Professor Júlio insistia nessa premissa.

O Professor Ivanildo preparava as suas aulas com o esmero comparável à uma defesa de dissertação. Ele estabelecia conhecimento e sabedoria amplos – das mais antigas pinturas até a arte contemporânea -, promovendo um passeio fascinante sobre a História da Arte.

Com a sua erudição e uma oratória fluente, era dono de um talento excepcional para comunicar o seu amor pelas obras de arte. Descrevia de forma impecável as características dos estilos artísticos.

Competência e credibilidade desses grandes mestres deram aos seus discípulos espaço para pensar, questionar e expressar. Souberam formar o alicerce das habilidades intelectuais dos seus pupilos.

UMA VIDA DE ATROPELOS, por Ana Lia Almeida

Protesto pela morte de Kelton Marques, assassinado por atropelamento no Retão de Manaíra (João Pessoa) no dia 11 de setembro último. Ruan Ferreira de Oliveira, acusado pelo crime, continua foragido (Foto: Felipe Costeira, publicada em termometrodapolítica.com.br)

O trânsito já estava parado há meia hora e os passageiros mais impacientes começavam a descer do ônibus para entender o que havia acontecido. Rita aproveitava para complementar o sono nunca dormido nas muitas horas roubadas pela patroa e pelas longas esperas do transporte público. Lá dentro sentada, cochilando, não se incomodava de esperar. Achava era bom, o barulhinho do motor lhe ninando, uma brisa leve saudando seu rosto bem em frente à janela, pedaços de sonho entretendo sua mente com as muitas histórias que ouvia dentro do busú.

A notícia chegou primeiro no sonho de Rita, no lusco-fusco entre o mundo dos que dormem e o dos já acordados. Ela sonhava correndo atrás do cachorro de dona Laura, que de vez em quando se soltava da coleira, mesmo, quando Rita o levava para fazer xixi durante as tardes, aproveitando para bater um papinho com as outras empregadas do condomínio. No meio dessa carreira, no sonho, ela tropeçava em uma pedra e voava por cima de Pimpão, certa de que ia morrer… Já era, já era… Acordou com um frio na barriga, assustada, no meio da reportagem de um dos passageiros que retornava ao ônibus ainda parado.

Já era, mermão, já era. Deve ter morrido antes de cair no chão. E o filho da puta ainda saiu fugido, alma sebosa. Fura o sinal vermelho em alta velocidade, atropela o motoboy e fica por isso mesmo. Eu vi o corpo, voou para longe da moto com a batida, ali no asfalto, todo ensanguentado. Que Deus o tenha. Entregador do Ifood, a família não vai nem receber o dinheiro do caixão. Vida de trabalhador não vale nada, mermão. Se nós não se ajudar, a vida atropela e pronto, não tem um que escape. Tudo que nós tem é nós, se liga na palavra.

Ainda sem entender direito o que estava acontecendo, Rita esfregou os olhos e reparou no movimento pela janela. Pessoas iam e vinham, agitadas; barulho de sirene e buzina por todos os lados. Ambulância. Polícia. Imprensa. O tumulto era grande, e ela resolveu descer do ônibus já praticamente vazio. Ao se aproximar da multidão em torno do corpo do motoqueiro atropelado, passou por trás das câmeras do Jornal Bem na Hora, noticiando a morte do rapaz. A jornalista também anunciava o protesto dos motoboys marcado para o dia seguinte ali mesmo, no local do acidente.

Diante daquele clima de revolta e tristeza, Rita desejou participar do protesto. Se tivesse coragem, amanhã inventaria uma enxaqueca para dona Laura e sairia mais cedo do trabalho. Ela se juntaria aos motoboys, sim, exigindo justiça pela morte daquele menino. Já estava na hora de terem mais direitos, também, que, depois das empregadas, era quem mais trabalhavam, pra cima e pra baixo se arriscando em cima de moto pra ganhar uma mixaria. O rapaz do ônibus tinha razão: se a gente não se ajudar, ninguém escapa dessa vida de atropelos.

O OSSO NOSSO DE CADA DIA, por José Mário Espínola

Capa do jornal Extra de 29 de setembro de 2021

A cena é dantesca. Parece a pintura Juízo Final, de Hyeronimus Bosch. Ou O Triunfo da Morte, de Pieter Brügel. Ambos pintores flamengos, eles se caracterizaram por registrar o que há de pior na espécie humana, realidade ou fantasia. Mas não se trata de arte pictórica e sim de realidade tenebrosa. O que eu li em reportagem da Folha de S. Paulo é que um açougue de Santa Catarina estava praticando a desumana cobrança por ossos e restos de carnes.

A reportagem estampava a placa do açougue, que causou revolta geral: “Osso R$ 4,00 kg. Osso é vendido não é dado.” E é ilustrada por cena tenebrosa de um caminhão cheio de ossos. E outra mostrando disputas por esse rebotalho da carne, que alguns ainda podem comprar nos açougues, para comer. Privilégio de um número cada dia menor de brasileiros.

Chocado, enviei para um grupo de amigos enxadristas, dizendo que aquelas cenas chocantes não foram registradas no Haiti, na Venezuela, em Cuba ou Somália. Muito menos nas Ilhas Virgens. Que elas são cenas de horror do novo cotidiano no Brasil. Grande Mestre respondeu candidamente: “É o resultado do: ‘Fique em casa, a economia a gente vê depois’”.

Enviei para Querido Primo, que respondeu, indignado: “Economia a gente vê depois. O ‘depois’ chegou!”
Referia-se ao fato de governadores e autoridades estaduais e municipais de saúde terem feito logo no início da pandemia opção pelo distanciamento social. Sabemos que eles agiram assim por recomendação das entidades que se orientaram pela ciência e não pela ignorância.

Querido Primo anexou à sua resposta dezenas de reportagens da imprensa européia, que alertam para o fato de que o mundo entrou em recessão global. E arrematou:

– Isso aí (referindo-se às reportagens anexas) não é no Brasil. É no 1º mundo!

Pensei: eu acho que é capaz de eles terem razão… Será? Será que o que está acontecendo no Brasil é mesmo consequência do fenômeno global? Afinal de contas, o atual governo recebeu o Brasil com o dólar na casa dos 4 reais; hoje, anda por volta dos  R$ 5,50 ou mais, na cotação oficial. Êpa! Isso significa forte desvalorização do real.

A gasolina, que girava em torno de 3,80, já está batendo nos 7 reais. A inflação, que estava em torno dos 4%, já atinge os dois dígitos (10,25% ao ano!). A taxa Selic, que regula contratos, empréstimos bancários e cartões de crédito, havia caído para o recorde de 2% ao ano. Foi elevada pelo Copom e já está em 6,25%, com viés de aumento. Isso frustra financiamentos e investimentos, barrando qualquer tentativa de crescimento econômico.

Em janeiro de 2019, brasileiros sobrevivendo abaixo da linha de pobreza somavam 6,5% da população, 13 milhões de pessoas. Ao longo desses dois anos e 10 meses, os mais famintos já são 9,1%.  Significa 19 milhões de pessoas em condições sub-humanas, sem acesso algum ao mínimo de cidadania, com renda mensal de até 140 reais, o que daria pra comprar um bujão de gás e 3 quilos de osso.

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego era 11,9% em janeiro de 2019. Agora está em 14,1%. São milhões de pessoas, jovens tentando entrar no mercado de trabalho em busca de algum futuro. Ou quarentões vendo se esvair uma nova chance de trabalho que lhes permita manter uma família. Os que podem correm para o mercado informal. Os que não podem correm para as ruas, desesperados, para mendigar.

Consequência de tudo isso, os alimentos, com destaque para a carne, tornaram-se inacessíveis a uma parcela muito significativa e crescente da população, sobrando-lhes apenas o osso. Nos açougues e supermercados, as filas estão mais curtas e ligeiras, pois diminui rapidamente o número de pessoas que ainda estão podendo comprar comida.

Por isso as ruas estão a cada dia mais cheias de zumbis vagabundeando, ora perambulando pela cidade, ora cercando os automóveis nos sinais dos cruzamentos das nossas principais avenidas, lavando para-brisas ou simplesmente rogando por qualquer modinha.

Mães esquálidas portando filhos famintos nos braços. Crianças e jovens sujos e mal vestidos. Mocinhas com as roupas manchadas pela menstruação, pois tiveram o acesso a absorventes higiênicos negado pelo presidente da República. O mesmo que comprou apoio no Congresso por 6 bilhões de reais.

Só faltavam nas esquinas os palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados, dançando dormindo de olhos abertos à sombra da alegoria do faraó embalsamado no Planalto, na bem retratada canção de João Bosco e Aldir Blanc. Mas eles já avisaram que estão chegando.

Por tudo isso, então, eu passo a achar que Grande Mestre e Querido Primo não têm razão, carecem de argumentação. O Brasil é que se deteriorou nitidamente ao longo de uma administração (?) desastrosa desde que assumiu (?) o governo federal. Mesmo detentor de maioria explícita adquirida no Congresso, para fazer o que quiser, o governo não tem competência nem para elaborar um projeto de lei decente que consiga aprovar.

O presidente nunca assumiu a administração do país, vivendo num eterno delírio de reeleger-se. Numa longa “viagem” de fazer inveja aos hippies dos anos 1960, sem pôr os pés no chão. A grande dúvida é: qual será o país que ele entregará no dia 1º de janeiro de 2023? O Brasil da carne ou o Brasil do osso?

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  • Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Banco Central e Receita Federal

CHARMOSO TREMA, por Babyne Gouvêa

A nossa Língua Portuguesa é uma riqueza, bela e motivo de orgulho. Tem it, como se dizia outrora. O vocabulário extenso esbanja diversidade de escolhas para a construção da escrita.

Para frustração de alguns patrícios, foi retirada a cereja do bolo do nosso vernáculo, no último acordo ortográfico: o trema. Puro charme.

Palavras que normalmente eram grafadas com o trema, tais como lingüiça, tranqüilo, lingüística, bilíngüe, freqüentar, cinqüenta e outras, não possuem mais o sinal gráfico.

“Este fato não tem a ver com grafia e sim com fonética!” Foi a justificativa apresentada. A supressão do trema na palavra ‘lingüiça’ compromete o seu sabor. Ela seria bem mais saborosa se mastigada e digerida com o güi. Experimentem.

“Abaixo o trema, viva a independência do ditongo!” Há controvérsia. Vejam que um atleta ‘cinqüentão’ terá o físico melhor apreciado se apresentar o qüen. Certamente os suspiros despertados serão mais intensos.

“Há ditongos na língua que não precisam do trema, como em tranqüilo!” Essa premissa não é consensual. Percebam que num ambiente conturbado um indivíduo poderá perder a serenidade caso não sinta a presença do qüi em seu temperamento comumente ‘tranqüilo’.

“O modo de falar não tem que concordar com o de escrever, tornando o trema desnecessário!” Pura falácia. Tentem ‘seqüenciar’ aulas de oratória. O qüen será decisivo para garantir uma compensatória ‘eloqüência’.

Um tanto ‘loqüaz’ a autora ‘argüiu’ tentando sensibilizar o leitor quanto à retirada do charmoso sinal gráfico da Última Flor do Lácio. Cabe à ‘lingüística’ aceitar a divergente decisão com ‘eqüidade’.

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  • (N.A. Os apóstrofos destacam palavras sem o trema, atualmente. A Reforma Ortográfica, concluída em 2009, entrou em vigor em janeiro de 2016, resultante de acordo entre os países de Língua Portuguesa)

NO CABRESTO, por Babyne Gouvêa

(Imagem copiada e adaptada do Fórum da Construção)

D. Severa iniciava o seu dia com uma série de espirros. Não reprimia nenhum deles. Corria para o beco lateral da casa para praticar esse hábito, com escarros sonoros, acordando as suas vizinhas vitalinas, sem compaixão.

Seguindo um ritual diário passava nos quartos acordando os marmanjos – seus filhos adultos -, que a obedeciam sob a Lei de Chico de Brito. E ai deles se tentassem permanecer deitados. Ali mesmo já forravam as suas camas.

O xodó dela era a sua caçula. Preparava logo cedo o seu jerimum com leite, antes de a filha seguir para a escola. Amassava o legume já cozido provocando o movimento das mamas que, de tão volumosas, pareciam fazer parte do alimento.

As tetas de D. Severa eram enormes e caídas se apoiando no ventre. Quando cortava o pão com a serra passava ‘fino’ nas próprias dando arrepios em quem presenciava. Não tinha o costume de usar a roupa íntima para sustentá-las e o peso das glândulas mamárias provocou-lhe uma postura nada esguia.

Sentava à mesa do café da manhã do lado oposto ao Sr. Castor, seu marido, sempre acompanhado da cadela Lolita – uma fiel companheira. Ele colocava no prato tomates cortados em rodelas; comia uma e dava uma outra ao cão. Foi o primeiro canino comedor de tomates que se tem notícia na história dos canídeos.

Após o desjejum, D. Severa reunia os pratos numa pia e cada um dos filhos fazia a lavagem do que tinha usado. Eles deveriam fazer um serviço impecável senão haveriam de retornar à lavagem. A desobediência provocava nela o levantamento lateral do lábio superior – sinal de furor já conhecido pelos familiares.

Todos saíam para os respectivos trabalhos e D. Severa aproveitava para limpar a casa. Colocava o Sr. Castor à frente da cozinha para preparar o almoço. Ficava inspecionando o serviço do marido sempre emitindo pitacos e broncas. E quando o cozinheiro experimentava o conteúdo da panela ela batia em sua mão fazendo voar comida para tudo que é lado.

“Severiana – esse era o seu nome -, olhe o que você fez”, dizia o marido. Ela respondia: “É pouco; agora, limpe”. Esse era o dia a dia do casal. Ela dando ordens e ele obedecendo, numa perfeita simbiose.

Ele tinha a mania de usar os antebraços juntos à cintura subindo a calça do pijama com a qual passava o dia. Esse sestro era um demonstrativo de temor à consorte.

Certo dia, um dos filhos resolveu comprar uma lambreta e, todo satisfeito, levou-a para a sua casa estacionando-a no terraço. Efusivo, levou a mãe para ver a sua aquisição. A reação materna não podia ser diferente, deu-lhe umas bofetadas. O motivo da ira foi ter posto a lambreta num local recém-lavado por ela.

D. Severa exibia alguns pelos grossos no queixo e ausência de alguns dentes em sua prótese dentária, assobiando à medida que dava ordens. Essa imagem, junto a outras características físicas, a deixavam parecida com uma personagem de Fellini. A verdade é que era uma figura temida pelos vizinhos, talvez pelo seu biotipo um tanto ameaçador.

Providenciar presentes de aniversário não era problema para ela: alguma residente na sua rua tinha a ‘obrigação’ de lhe ceder uma caixa de sabonete, um biscuit, ou qualquer outro objeto, caso contrário coitada da vizinha não teria mais sossego. Ela pedia sem constrangimento e era prontamente atendida.

A mesma coisa acontecia quando resolvia fazer um bolo. Na falta de manteiga, por exemplo, exigia de alguém; da mesma forma, demandava ovos do galinheiro vizinho. Pronto, tinha todos os ingredientes fornecidos involuntariamente pelas moradoras.

A segunda televisão da rua foi instalada em sua casa. Os vizinhos se acomodavam no piso da sala principal recebendo o odor dos gases emitidos pela cadela Lolita. “Dê chá de erva-doce a essa cachorra, Castor”, dizia ela. Os convidados tinham o direito, apenas, de assistir à novela da época. Era uma advertência irrevogável.

Terminado o episódio, os telespectadores eram enxotados para as suas moradas. D. Severa, sem papas na língua, dizia: “Se avexem, todos pra casa dormir, vão pegando o caminho da rua”.

Afinal, chegava a hora do descanso da família Marques. Pelo menos durante a madrugada todos seriam poupados do cabresto da matriarca.

TJ reverte tendência de ‘queda’ e fica entre os melhores do país

Tribunal de Justiça reunido em sessão plenária (Foto: Gecom/TJPB)

Nos últimos dois anos, a Justiça Estadual paraibana conseguiu reverter tendência que a colocava entre as piores do Brasil. A reversão pode ser conferida no Relatório Justiça em Números 2021, divulgado ontem (28) pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Ainda não dá pra dizer que o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) subiu para a ‘primeira divisão’ do Judiciário nacional, mas os resultados obtidos ano passado garantem que a equipe, formada por juízes e funcionários, distanciou-se com folga da ‘zona de rebaixamento’.

Segundo dados que podem ser conferidos no documento do CNJ, o TJ paraibano ficou em terceiro lugar geral entre 90 tribunais na redução de processos em andamento durante 2020.

“De cada 100 processos que entraram no TJ, arquivamos 179 ano passado e o nosso Tribunal foi aquele, entre os de pequeno porte, que mais liquidou acervo no período”, informou fonte do TJPB procurada pelo blog.

Tal performance deve-se em boa parte a um sensível aumento da produtividade tanto de magistrados (33,9%) quanto dos servidores técnicos e administrativos (21,6%) ano passado, em comparação com 2019.

“Para ter uma ideia do avanço na produtividade, basta reparar que de pouco mais de 700 sentenças por juiz em 2018 saltamos para 1.100 sentenças em 2020, ou seja, saímos da lanterna com folga”, comemorou o analista consultado.

Na avaliação de quem entende, 2020 foi realmente um ano vitorioso para o TJPB, validando o acerto de medidas (“algumas amargas, mas necessárias”) que teriam recuperado “um pouco nossa autoestima como agentes da Justiça”.

Entre as medidas acertadas e lembradas, mencionou a agregação de comarcas, digitalização e virtualização de processos em larga escala, implantação do processo judicial eletrônico na área criminal, a priorização do primeiro grau de Justiça, motivação e engajamento da maioria dos magistrados e funcionários.

A melhora de desempenho do TJPB pode ser creditada à gestão do desembargador Márcio Murilo Ramos (2019-2020) na presidência do órgão, mas ele não quis se aprofundar em comentários sobre o relatório do CNJ.

Limitou-se a dizer: “Qualquer melhoria deve ser atribuída a todos – juízes, desembargadores, servidores – e também ao que fizeram as mesas diretoras (do Judiciário Paraibano) que antecederam aquela da qual participei”.

VERMELHO, por Robson Nóbrega

ATRASO DE VIDA, por Ana Lia Almeida

(Imagem: Ônibus da Paraíba)

Depois de meia hora de espera, Rita começava a se preocupar na parada de ônibus. Ela não teria tempo de preparar o café da manhã antes de D. Laura se levantar. As frutas cortadas, o café passado, o queijo assado, a manteiga nem derretida nem congelada na manteigueira, o açucareiro cheio e sem formigas, o pão fresco comprado todos os dias por Rita quando saltava em frente à padaria da esquina. Um longo dia de reclamação e hora extra a aguardava, sem a mesa posta de D. Laura. 

Uma pequena multidão se acumulava à espera das poucas linhas que se negavam a passar naquela manhã. Três meninos carregados de mochilas pesadas e espinhas no rosto também esperavam, mas, ao contrário de Rita, não pareciam nem um pouco preocupados. Animados por perder a primeira aula, espalhavam a notícia anunciada nas redes sociais de um acidente na saída da Integração, desorganizando a rotina da cidade.

Vocês terminaram a redação que ele pediu para enviar por e-mail? Quem é que ainda usa e-mail, véi? Esse professor é muito das antigas! Além do mais, fala como se estivesse escrevendo: “Daniel, queira vir à frente da turma apresentar a resenha do livro, por obséquio”… Não dá nem para entender o que ele diz. E naquele dia que chamou a turma toda daquela palavra esquisita, como era mesmo? Catrapoços. Levantou da cadeira, ajeitou os óculos e disse, bem sério: “Seus catrapoços”. A sala inteira caiu na risada, sem entender do que ele tava xingando a gente, até que alguém deu um google, o que era mesmo? Catrapoço: coisa que não presta, que não serve pra nada.  

Rita quase havia se esquecido daquela palavra. Era como a avó se referia ao amontoado de coisas entulhadas no quintal da sua antiga casa. Potes de margarina, xampú e condicionador, embalagens de amaciante e sabão de lavar roupa, eletrodomésticos quebrados, roupas velhas, garrafas de vidro, caixas e mais caixas de papelão vazias ou cheias de troços esperando um dia serem consertados, doados ou virarem jarro de planta. Mas esse dia nunca chegava e o entulho só ia aumentando, virando ninho de rato e criação de barata.

A casa de D. Laura também tinha lá seus catrapoços, mas de um jeito diferente. Vida de gente rica já é entulhada por natureza, cheia de coisas que não têm razão de ser. Aqueles objetos espalhados pela sala, por exemplo: umas bolas de cerâmica ocupando a mesinha de centro para nada, porque nem bonito era; uns potes de vidro cheios de papel picado colorido em cima de um aparador, e por aí vai.

Rita tampouco via motivo para a maioria das atividades e preocupações de D. Laura, um tal de ir em salão toda semana e continuar pálida daquele jeito, sem querer ir à praia pra não estragar a escova; um tal de ficar atrás de Seu Rogério, querendo saber toda hora os caminhos do marido, como se não tivesse mais nada para fazer. E não tinha mesmo. Vai ver por isso D. Laura se entulhava dessas coisas sem serventia e se deixava ficar nesse atraso de vida. E vai ver também por isso inventava de precisar de Rita tão cedinho da manhã.