A ÚLTIMA PODE SER PRIORITÁRIA, por Babyne Gouvêa

Imagem copiada de sabra.org.br

Sou sempre a última, mas ao contrário do que aparento sou a que mais chamo atenção, sem presunção. Na língua portuguesa sou exigente, coloco regras para a minha acentuação ou não.

Não sou comum na língua italiana, não sou páreo para a proparoxítona naquele vernáculo. Já no francês eu me destaco, sempre exijo um biquinho pra quem quer me usar corretamente.

Nem vou me atrever a citar outros idiomas. Só sei que no inglês sou usada sem complementos gráficos. Não vou atribuir o fato à descendência anglo-saxônica, até porque a real origem germânica data de séculos.

Na verdade, gosto quando a palavra me dá ênfase, parando na última sílaba com grau de força sonora. O aspecto fonético quando registra o timbre em mim sinto-me envaidecida.

Sem desmerecer as colegas proparoxítonas e paroxítonas, observem os adornos gráficos quando param na minha sílaba – a palavra ganha beleza e glamour.

Quem me elege numa escrita sempre encontra harmonia no teor de qualquer redação. Experimentem usar as minhas características de tonicidade quando escreverem. Irão perceber a força do destaque na última sílaba.

Reconheço que passo despercebida no cotidiano oral e escrito. Preciso procurar uma forma eficaz de chamar a atenção daqueles menos sensíveis aos assuntos gramaticais.

Vejam como é fácil me usar: são acentuadas graficamente as sílabas terminadas em a/as, e/es, o/os, e em/ens. As palavras terminadas em i/is e u/us somente são acentuadas se estiverem precedidas de outras vogais.

Ah, ditongos abertos, como éi(s), éu(s) e ói(s) devem ser acentuadas. Essas nuances não são fantásticas? Captaram a riqueza da minha sílaba? Basta estar atento às normas vigentes do nosso idioma.

Não me julguem presunçosa, estou defendendo a minha aplicação. De maneira correta, claro. Preciso ser competente na divulgação do meu uso.

Agradeço àqueles que fizerem opção por mim. Afinal, sou a última sílaba tônica, sou a glamourosa Oxítona.

CHUVA, PRA QUE TE QUERO? por Babyne Gouvêa

Estátua de São Francisco na cearense Canindé (Imagem: YouTube)

Canindé, no Ceará, nosso destino. Onde tive o prazer, ao lado de familiares, de testemunhar inesperada e desejada chuva numa terra árida, castigada pela seca!

O relógio marcava 12h quando chegamos à cidade cearense, num mês de dezembro. A nossa expectativa era conversar com residentes que nos falassem um pouco da história do lugar, notadamente das romarias.

A religiosidade da população atrai um alto fluxo turístico de peregrinação, recebendo anualmente romeiros de todo o país que lá depositam a sua fé e devoção a São Francisco, representado em bela estátua, monumento com mais de 30 metros de altura. 

Com aspecto de cidade-fantasma, a população canindeense estava retraída dentro de suas casas, protegida do sol escaldante. O panorama era estranho e hostil para quem visitava aquele lugar pela primeira vez. Fomos conhecer, inicialmente, a Basílica de São Francisco das Chagas, situada numa das principais vias públicas.

Ao sairmos da igreja, ficamos surpresos por nossas preces terem sido atendidas tão rapidamente: a dádiva da chuva, embora torrencial e rápida, banhou toda a cidade, colocando sorriso em todas as faces.

A chuva extemporânea e providencial irrigou a terra e os caminhos de Canindé, libertando a população dos seus casulos. Todos saíram às ruas com os braços voltados para cima em gestos triunfais e de agradecimento.

Percebemos a euforia das pessoas ávidas em se molhar louvando ao santo padroeiro. Toda a população brindou efusivamente cada gota caída, com abraços, danças e cantorias. Formou-se um espetáculo semelhante à magia carnavalesca, uma alegria bonita de ser assistida.

A chuva produziu um aroma terroso em nossas narinas quando caiu no solo depois de um longo período de estiagem.

Do desânimo e recolhimento, os habitantes rapidamente evoluíram para uma festiva agitação. Balde, bacia e vassoura nas mãos foram utilizados na faxina das casas, lojas, bares e calçadas. Tudo carente de limpeza. Souberam aproveitar com sabedoria o presente da natureza com muita disposição.

Disposição contagiante. A vontade em nós de adesão foi imensa, mas nos contivemos. Ficamos apreciando o banho coletivo nas ruas, todos entusiasmados com a graça dos céus. A higiene pessoal foi completa. Debaixo das bicas d’água naturais improvisaram duchas a céu aberto.

As crianças aproveitaram cada minuto de chuva para brincadeiras até com os mais velhos, comumente avessos à movimentação lúdica. Os adultos faziam tudo a um só tempo: lavavam as roupas, tomavam banho, limpavam os recintos e armazenavam o que fosse possível daquele tesouro.

Presenciamos uma chuva numa cidade com precipitação pluviométrica média anual de 639,3mm, segundo a Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos). Foi comovente observar a formação repentina de nuvens pesadas umedecendo a terra seca de Canindé. Especulamos a reação dos agricultores junto às suas plantações em toda a região.

Foi uma experiência enriquecedora, inesquecível, enfim. Que nos permitiu sentir de perto o significado da privação ou escassez da água, uma das maiores riquezas da humanidade. A mesma humanidade que vive a ameaçar constante e crescentemente um tesouro tão valioso para a própria vida humana.

A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS, por Francisco Barreto

Cena do cotidiano no Quartier Latin, Paris, Anos 60 (Foto: Francisco Barreto)

Existem livros e filmes que aterrissam como um corisco na memória. Por felicidade ou tristeza, entranham-se em nós para sempre. Viram tatuagens. Deles emergem profundas lembranças que nos excitam a controversos e necessários sentimentos. Retornar prodigamente a enevoados pensamentos por devoção à memória, quaisquer que sejam as sequelas, há de ter a força de revisitar o passado no presente. A memoria não se esvai e nunca se foge dela.

Subitamente, lembro-me de Rosebud, palavra pronunciada pelo Charles Foster Kane, segundos antes de morrer, numa cena final do filme de Orson Welles (Cidadão Kane, 1941), cultuado como um dos melhores da cinematografia universal. Intrigou a todos que viram filme o balbuciar terminal do magnata Kane: Por que Rosebud? A cena traz à tona a imagem de um trenó infantil envolvido pelas chamas. Tinha Rosebud como marca. Nos estertores, Kane (Orson Welles) recorreu à imagem da sua infância pobre, fazendo-se refém da memória que o tutelaria até a morte.

Assim somos nós, mortais viajantes, de olhos abertos nas curtas sendas que nos separam da vida e da morte que nos espreita. Apenas a velhice é capaz de nos dar as mãos até a infância, à juventude, aos felizes e terríveis tempos.

Paris entrou muito cedo na minha vida, sem pedir licença, e invadiu a minha alma. Depois, sob a influência de Hemingway e de Eric Maria Remarque, que com suas memórias me descortinaram o extraordinário cenário parisiense. Pelas mãos de Remarque, em vários dos seus livros passei a transitar por muitos anos nas avenidas, bulevares, parques, monumentos, sobretudo, e perambular nos cais dos buquinistas do Sena. Hemingway, apressado e equivocado, havia intuído que “quando jovens, quem viveu em Paris aprendeu que Paris é uma festa”. Não foi isto que vivi. Muito ao contrario. O meu ser e estar se repartia entre o pesadelo e o sonho.

De Paris, quando lá cheguei ao final dos anos sessenta, tudo que via não me era totalmente estranho. Em pleno apogeu da Ditadura brasileira, fui atraído pelo espírito libertário e sedutor das luzes de Paris. Feito uma esvoaçante e atônita libélula despencando em admiradas e estranhas terras, tal como descreve Albert Camus no ‘Estrangeiro’, após a sua saída da Argélia, saltei em queda livre no escuro, sem mãos e ombros para me amortecer, e o pior, sem perspectiva de volta.

Ainda quase ontem em Paris, à revelia do esplendor urbano, vivi a distância e convivi com a dialética do sofrimento ao estar longe e submisso ao encilhamento imposto pelo autoritarismo. Passei a sentir um forte alívio combinado com uma grande angústia alimentada pelo massacrante sentimento do exílio e de ser um desenraizado.

Um final de tarde no Café Cluny, em St. Germain-des-Près, infelicitado, deu-me a clara percepção de que o meu chão era o da Paraíba e não me seduziria ser colonizado, menos ainda aculturado. As graves circunstâncias políticas impuseram evadir-me para longe da terra. Do além-mar iria algum dia voltar. Entendi que umbilicalmente era paraibano.

A diáspora parisiense me fez ver que o sofrimento tem virtudes dialéticas e pode haver um enorme aprendizado com a dor. O tempo, este pode, pari passu, se alternar, fazendo também fluir o prazer e a alegria de viver. Aprendi que o frio e o calor e os duros invernos andam de mãos dadas com as primaveras.

Passados 52 anos, nada diminuiu minha gratidão à grandeza de sempre de Paris e da França,  a “plaque tournante” dos exilados, dos apátridas, dos desenraizados. Ali fui também acolhido.

Em Paris, eu vi e vivi quase tudo. O amor e o desamor. A alegria e a tristeza. A paz e a desolação. A exclusão e a solidariedade. A distância e a intimidade. O respeito e a agressão. A grandiosidade e a estreiteza. O olhar e a cegueira. Os pesadelos e os sonhos. O bem e o mal. O mundo se descortinou. A juventude desabrochou. A maturidade colheu flores. Amores lindos e findos.

Paris nunca seria a minha terra, mas o lugar do acolhimento, da cultura, da inteligência e do saber. Lá, aprendi a intensidade dos princípios humanos e a louvar a retórica da humanidade pela grandeza dos sentimentos universais: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Hoje, mais do que nunca, fica a sensação de que, mesmo tendo saído do exílio, Paris nunca me deixou. Ficou tatuada para sempre na minha memória. Dela me despedi há décadas. Em Outubro de 69, a última vez que vi Paris. Dieu Merci.

SÓ UMA PERGUNTINHA, por Babyne Gouvêa

Imagem meramente ilustrativa (foto: Blog iClinic)

A clínica de exames de imagem estava repleta de pacientes aguardando serem atendidos. Todos com senhas em mãos, cada qual manifestando gestos de ansiedade – do banheiro ao bebedouro, da circulação aos assentos.

Um senhor de certa idade tomava água para encher a bexiga a fim de fazer um exame de próstata. Vez ou outra passava uma das atendentes e perguntava como estava se sentindo, se estava com vontade de esvaziar aquele órgão.

Para inflar o seu sistema urinário mais rapidamente o senhorzinho resolveu ficar na vertical e caminhar no entorno da clínica, deixando a sua esposa sentada lhe esperando com uma cadeira vazia ao seu lado.

O lugar passou a ser ocupado por um outro senhor com a mesma estatura e idade. Era grande a semelhança física entre os dois homens: o que saiu para caminhar e o outro que sentou em seu lugar.

A responsável em conduzir os clientes para os respectivos exames, parou diante do recém acomodado, e sem perceber que estava encarando uma outra pessoa, indagou-lhe sobre a ingestão de água.

Ele lhe respondeu afirmativamente e agradeceu a atenção. Atribuiu a pergunta a um gesto cortês da clínica. Não imaginava ter sido confundido com outro indivíduo.

Enquanto isso, o que estava andando na tentativa de ficar apto para se submeter ao exame de próstata, quis se acomodar no seu espaço original, mas se viu impedido. O local já estava ocupado pelo pretendente ao exame da cervical.

A mocinha se dirigiu mais uma vez a esse último lhe oferecendo água. Ele agradeceu e fez questão de dizer que era jornalista e que faria uma referência nos seus escritos ao gentil atendimento prestado por aquela clínica. Nunca tinha sido tão bem recebido num ambiente médico.

Na terceira vez que lhe abordaram sobre a produção de sua urina ele respondeu estar tudo sob controle, e passou a achar exagerado o questionamento. Mas se manteve sereno aguardando ser convocado.

A próxima indagação se a bexiga estava totalmente cheia, já provocando desconforto, o sujeito esqueceu que era jornalista, deixou o comportamento educado de lado, e partiu para a ignorância.

“Vem cá, senhorita, vou fazer um exame disso aqui ó – apontando o pescoço -, pra que tanta preocupação com as minhas partes baixas?”Sem baixar a voz questionou a relação da coluna cervical com o aparelho urinário.

A moça, um tanto desajeitada, pediu desculpas, saiu de mansinho com vergonha dos outros presentes na sala de espera, e repetiu baixinho: “Pra que tantos gritos? Afinal, foi só uma perguntinha”.

OSSOS DA POLÍTICA, por Francisco Barreto

política

Ilustração copiada de ibccoaching.com.br/

Logo cedo tive a compreensão de que o exercício de ser político com mandato e ter um efêmero poder era caminho certo para trilhar amarguras e desesperanças. Após algum tempo, entendi na extensão o sentimento expresso por Mário Vargas Lhosa. “Quem faz política não tem tempo para amar”, disse o Nobel peruano. Acrescento: “Tem todo o seu tempo de vida útil no cenário atual, armando e desmontando sacanagens”.

Os prazeres da vida pessoal e familiar de um político são literalmente desprezados. E mais: quase todos os políticos são potencialmente inimigos do povo, que assim os considera. Afinal, as enfermidades que corroem o caráter e os padrões éticos são pandêmicos na vida da política e nos políticos. Eis porque a ignorância aliada à inconsciência brutal dos homens comuns, atrelados ao fisiologismo imprescindível à sobrevivência, aceita a histórica permanência da má qualidade da representação popular.

Sempre considero o sentimento de que todas as funções e profissões públicas são nobres porque inerentes à servidão pública. Nenhuma, entretanto, sem demérito para as demais, é mais nobre do que ser representante de seu povo. Ser um eleito é profundamente gratificante à condição humana. O grande desafio é não se deixar sucumbir pela corrupção e aos atos criminosos contra a sociedade e à vida pública. Podem os honestos até escaparem do encilhamento da vida corrupta, dificilmente, no entanto, conseguem se preservar dos atos destrutivos dos políticos desonestos.

O Estado não é monolítico, tem homens do bem. Saiba-se, no entanto, que poucos dos que ascendem ao Poder tem meridiana clareza ética e moral do que ele é e do que não quer ser. Em grandes contingentes os políticos são tragados pelo Poder. Ser fiel servidor da Nação e do povo é condição sine qua non à grandeza política. Ter o iníquo pertencimento enquanto donatário da Nação e do Povo é a regra que nós conhecemos muito precisamente.

Tudo isto me leva à reflexão sobre as minhas andanças políticas e me dá a consciência de que o tempo decorrido desde então me impôs inexoravelmente um distanciamento em benefício da minha sanidade ética e moral e, é claro, emocional. Quero viver em paz com os meus, sobretudo comigo mesmo.

Num país onde a perversidade e a corrupção é o lugar comum, revelam-se estas as mais dominantes invenções da política. O que fazer numa “democracia representativa” onde prevalece a cumplicidade do voto popular com a má qualidade. Para a opinião pública, maciçamente, e sem distinção, todos os políticos são escopeteiros.

O povo, de um modo míope, em frações exponenciais contribui alegre e feliz para emergência de representantes que vão exclui-lo em seguida. Aos maus políticos, cumpre de modo “magnânime” conceder ossos para seus cúmplices roerem. O que se alardeia hoje, nesta infeliz sociedade, é o que “bravamente” se designa de Bolsa Família reciclada agora de Auxilio Brasil.

É doloroso admitir, como preconizava Cicero: “Todo governo é inimigo de seu povo”. Em tempo, o sábio das Catilinárias não nos reverberou o que dizer do povo, que hoje, elege os seus inimigos. Grave patologia política.
Políticos seremos sempre, o que não me permito é conviver com o prostíbulo parlamentar. Vivi esta fase, e saí ileso, Dieu Merci.

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  • Em Tempo. Há bastante tempo, fui abordado duramente pela então valorosa Paula Fracinete, da extinta APAN, a ex-Branca Dias da natureza. “Você não tem o direito de abandonar a política” (subentendendo uma certa e positiva avaliação política). Ao que respondi: “Você votaria em mim?”. O silêncio constrangedor se revestiu de uma negativa não dita. Completei: “Não me peça isto nem me leve para um caminho que você não irá”. Terminamos assim. O sacro altar de Ricardo Coutinho era indevassável e piedosamente respeitado.

DOCES VITALINAS, por Babyne Gouvêa

Pouca massa muscular nos braços e nas pernas aumenta risco de morte em  idosos - PEBMED

Imagem meramente ilustrativa, copiada de pebmed.com.br

Era bonito de ver a cumplicidade entre as duas irmãs solteironas. Dolores, comunicativa, procurava conversar com muita gente nas poucas vezes que saíam de casa. Já na recatada Isaura até o sorriso era tímido. Uma complementava a outra, de qualquer sorte e modo, e esse companheirismo beneficiava principalmente Dolores.

Vez por outra, ela costumava cometer gafes pelo exagero de sua expansividade. Isaura fazia o papel de moderadora da irmã, feito aconteceu quando faleceu João, irmão delas. Foram ao velório, Dolores sempre à frente, ansiosa para abraçar o morto. Mas fez de uma maneira que deixou perplexos muitos dos presentes.

Ao pé do caixão, aos prantos, primeiro lamentou a aparência do falecido. “O bichinho tá tão magrinho!”. Logo em seguida… “Ô, João, por que foi que você foi trair sua mulher, hem?”. Isaura procurou intervir. Sem sucesso. Dolores não parava de falar, sem dar trégua nem mesmo ao finado. “Joãozinho, meu irmão, você errou, errou feio, porque você foi infiel a minha cunhada”. E soltou mais algumas frases nessa linha.

Isaura conseguiu, finalmente, um ‘aparte’. Aproveitou uma pausa de respiração da irmã. “Dolores, esse não é Joãozinho. O nosso irmão está na sala vizinha”, explicou. Tarde demais, a viúva do suposto João, alertada por parentes, aproximou-se das duas e sobre elas descarregou um caminhão de impropérios e questionamentos.

“Agora, você vai me dizer com quem ele me traía”, gritou a ‘dona’ do velório. A turma do deixa disso tentou, em vão, contornar o barraco e conter a fúria da mulher que se sentiu por demais ofendida. Mas ela não conseguiu atingir as irmãs com algo mais do que palavras fortes. Dolores e Isaura escaparam para a sala ao lado, onde descansava o verdadeiro João.

Assim viviam as irmãs, vez ou outra ‘aprontando’, passando por situações inusitadas. Como na feira que frequentavam semanalmente. Eram conhecidas por pechincharem com irritante insistência, embora transmitissem ternura na suavidade da voz de cada uma. E desse jeito quase sempre arrancavam algum desconto do feirante.

“Meu bichinho, baixe o preço da banana… Por favor, vai”, apelava Dolores! Alguns vendedores cediam de primeira, para não esticar a peleja. “Com essa falinha mansa, bem diferente daquela víbora lá de casa, atendo na hora”, dizia um. “Dá vontade até de dar a mercadoria de graça, minha senhora, só pra senhora parar de insistir”, atalhava outro.

O trânsito da cidade também ‘sofria’ nas mãos e nos pés de Dolores e Isaura. Especialmente os demais motoristas. As duas não se davam conta de que dirigiam com certa imperícia e imprudência, porque trafegavam em excessiva baixa velocidade. Causavam aborrecimentos e ligeiros congestionamentos. Afinal, não passavam da segunda marcha.

Quem viesse atrás, sem chance de ultrapassagem, que aguentasse. “Passa a terceira, comadre”, gritava um ou outro, sem a menor desconfiança de que elas ignoravam gozações ou irritações alheias.

E na missa dominical? Católicas fervorosas, ocupavam bancos da primeira fileira diante do celebrante. Terços nas mãos e cobertas por mantilhas, permaneciam de braços dados durante toda a liturgia. Desgarravam-se apenas no momento da comunhão ou quando percebiam um olhar reprovador do padre.

Uma das melhores histórias das irmãs, Dolores sempre protagonista, aconteceu com um flanelinha. No estacionamento ao lado da igreja, saindo da missa, ela procurou e não encontrou na bolsa algum trocado para dar ao rapaz que ficara ‘tomando conta’ do carro delas.

“Ah, moço, vá me perdoando, mas não tenho um vintém pra lhe dar”, disse. “Quero vintém não, minha senhora. Basta me dar um dinheirinho”, respondeu o flanelinha.

Causos e casos do tipo marcavam o cotidiano de Dolores e Isaura. Mas, apesar dos percalços e certas distrações, digamos, eram conhecidas e queridas pela candura com que tratavam todas as pessoas. Tanto que muitas de suas amigas e amigos, se lhes fosse dada tal atribuição, não hesitariam em identificá-las em vida e em lápide como ‘doces vitalinas’.

FRATURAS EXPOSTAS, por Francisco Barreto

Assim se passaram 57 anos da ditadura militar. E hoje, aos 74 anos, ainda não tive o reconhecimento de minha aposentadoria. Tudo porque a Ditadura me prendeu aos 17 anos incompletos em Abril de 64, em Janeiro de 1969; aos 21 anos incompletos, fui escorraçado da UFPB pelo AI-5 e o Decreto 477. Estava no 4º ano de Direito. Perdi inexoravelmente a minha carreira jurídica. Em seguida, fui embora para a França recomendado pelo valoroso advogado Nizi Marinheiro, advertindo-me que poderia ser preso com destino a Itamaracá. Onde a tortura campeava.

Tinha que sair do Brasil. Havia processos com prisão preventiva na 4ª Auditoria Militar. No exterior, aos 27 anos completei Graduação, Maitrise e Doutorado e retornei ao Brasil no final de 1974. Desta ultima data, até janeiro de 1980, não conseguira nenhum trabalho formal; por conseguinte, passei 10 anos sem lograr a formalidade laboral. Tentei ingressar na UFRJ/FAU, onde ensinei alguns meses. No IBAM, na SEPLAN/PR – IPEA/IPLAN, UNB, UFPE sempre fui obstaculizado pela decisão dos órgãos de segurança ligados ao SNI. Sempre trabalhei como “bóia fria político”.

Não logrei anistia porque a punição tinha sido sobre a minha vida estudantil. Na UFPB, nós éramos mais de uma centena de estudantes, professores e funcionários. Não tive a sorte do ínclito cidadão Luís Inácio da Silva, que por militância sindical obteve anistia e uma bem remunerada aposentadoria.

A UFPB foi o algoz da minha geração, sem conceder o sagrado direito de defesa aos “crimes” dos que lutaram pela liberdade e a democracia. Muito tempo depois, em agosto de 1999, a mesma UFPB fez uma digna retratação pública de sua perseguição política. Apaziguou as nossas dores, mas não impediu que as fraturas continuassem expostas.

Em 1997, por concurso público, finalmente ingressei formalmente nos quadros docentes da UFPB, Campus de Campina Grande. Vinte e oito anos depois depois. Graças à justiça que foi me atribuída pela UFCG e a inúmeros companheiros do Centro de Humanidades, foi decretada o fim da minha diáspora laboral. Hoje, continuo na luta na tentativa de lograr a minha aposentadoria. Quando finalmente conquistar o direito, já terei possivelmente perdido vários benefícios que já não mais me serão concedidos.

No ocaso da minha vida, olhando para o passado, vejo com clareza os malefícios do autoritarismo que se serviu da submissão ditatorial da UFPB no período de Guilhardo Martins. Tenho com precisão e clareza que não havíamos errado, quem errara fora a UFPB, logo ela, uma instituição pública que sempre deveria ter sido depositária da propugnação dos conhecimentos, do respeito à liberdade de expressão, do culto à dignidade e aos Direitos Humanos.

Se tivesse que recomeçar, recomeçaria. Não me arrependo de nada, apesar dos sofrimentos que me foram impostos. Faria exatamente o mesmo caminho na minha vida pública. O escuso e deletério clamor, aqui e agora, pela volta da Ditadura, revela a brutalidade que pode ainda imperar, por iniciativa de frações da inconsciência nacional.

Longe, muito longe da minha capacidade de luta na juventude, apenas e tão somente permanecerei de pé enfileirado na defesa acreditando que os nossos caminhos não podem prescindir da fé nos ideais da liberdade, da democracia e dos direitos humanos nesta combalida Nação.

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS, por Francisco Barreto

Imagem copiada do blog O Contemporâneo

Sinto hoje, mais do que nunca, uma profunda indignação com os seres abjetos e inferiores, racistas infames que hostilizam os negros.

O Brasil é uma nação negra em todos os sentidos. O que seria de nós se não fosse, lamentavelmente, a dolorosa história da negritude que se enraizou pelo sofrimento do escravismo e fecundou o que hoje somos por sua incomensurável grandeza humana, sociocultural e o sincretismo religioso.

A brutal desonra pelos crimes históricos tem que se dobrar e reverenciar a grandeza de gentílicos africanos que somaram aos milhões brutalmente extirpados de sua terra e do seu ser.

Ao aportarem na Terra Brasilis submetidos ao “um sonho dantesco… o tombadilho. Que das luzernas avermelhava o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros … estalar de açoites (Castro Alves)” se tornaram degredados e escravizados por vis homens sem almas.

O Brasil os algemou e os impiedosamente matou as suas almas e os seus corpos. Não tiveram a indulgência que se concediam aos animais irracionais. As lágrimas nos olhos, e o fel nas bocas dos homens e mulheres, ainda ontem, eram “simples, fortes, bravos” se tornando, sem luz, sem ar, sem razão: apenas míseros escravos.

Os clamores épicos e humanistas de Castro Alves até hoje ressoam diante das brutalidades do passado e de um presente aterrador: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura … se é verdade Tanto horror perante os céus!”

Que abominável absurdo testemunhamos pela perpetuação do racismo, da insanidade que até hoje persiste no Brasil. A miséria humana, de ontem e de hoje, tem em sua gênese a crueldade, o crime e a desonra de almas sebosas que humilham, agridem pelo mais asqueroso prazer de se sentirem falsamente superiores.

Recorro a minha modesta trajetória pessoal. Desde a minha mais remota infância, sempre tive uma afetuosa convivência com os negros que conheci e viviam ao meu lado. Lembro da Nêga Rita, da fazenda do meu pai, que com mais de um dezena de filhos me acolhia na sua pobre moradia. Adorava entrar na fila do comer com seus pobres filhos, me esgueirar até a panela de barro no fogo com fava, farinha e rapadura. A fila andava devagar, a mãe Rita, com uma colher, ia com justiça servindo de boca em boca várias vezes.

Nunca esqueci do preto Lídio que morava na minha casa e à tardinha o esperávamos trazendo nos bolsos pirulitos de maracujá. Lídio era o avô que já não tínhamos.

Ao longo da minha diáspora politica, dois negros, espíritos superiores e generosos, abraçaram-me e me deram grandes alentos.

Monsieur Christian Vyeira, na Unesco, meu tutor, oriundo do Dahomey, ex-Ministro da Educação, bisneto de escravo baiano alforriado, e que retornou à Africa. O M.Vyeira era a reminiscência viva de uma origem escrava no Brasil. Vinha de africanos que retornaram e constituíram uma importante elite intelectual e comercial. Falavam o brasileiro.

Não poderia apagar da minha vida o Prof. Milton de Todos os Santos que me acudiu nas minhas veredas acadêmicas em Paris. Os dois tinham por mim uma ternura paternal.

Não consigo assimilar os sentimentos raivosos contra os negros. Logo eles que trazem consigo histórias submersas de crueldades que os ancestrais sofreram e derramaram sangue, suor e lágrimas.

Ao olhar os negros, tenho o sentimento de extremo respeito por serem descendentes diretos do maior sofrimento humano brasileiro que foi imposto às suas massacradas ancestralidades.

Insurgir-se contra a discriminação racista é um dever histórico de reconhecimento da importância dos negros na formação da nacionalidade brasileira.

Nenhuma presença étnica que se acomodou na Terra Brasilis é mais importante do que a contribuição afro-brasileira. Em todos segmentos intelectuais, artísticos, culturais, sociais, religiosos, inclusive, linguísticos, musicais, culinários etc., as raízes negras foram as mais profundas e generosas ao que hoje se convencionou chamar de “nacionalidade brasileira”.

O Brasil de ontem e de hoje tem uma dívida histórica com os sacrifícios dos negros que rastejaram por terras encharcadas de sangue, suor e lágrimas. Por uma razão elementar, deve-se respeitar aqueles que sopraram a alma deste extraordinário e cambaleante pais.

Cumpre-nos, por consciência e grandeza humana, ao contemplar os negros, destinar-lhes homenagens pela resistência e o espírito de sobrevivência que lhes legou Zumbi dos Palmares.