A NATUREZA AGRADECE, por Bethania Rolim da Nóbrega

Antigamente, as lojas de roupa concentravam-se nas coleções de inverno, verão, outono e primavera; hoje, temos enxurradas de peças renovando o estoque a cada semana, sempre com novas coleções e preços bem acessíveis, o que nos atiça a comprar mesmo sem necessidade.

Mas, como bem diz o ditado popular, “o barato sai caro”, porque a natureza paga boa parte dessa conta. Todo esse material para produção de vestuário vem dos nossos recursos naturais, na maioria das vezes utilizando-se de trabalho escravo, um custo muito alto para andarmos na última moda.

Um exemplo do que estou falando é a utilização de litros de água na produção de uma única calça jeans. Água é um bem finito. Se não cuidarmos, um dia acaba. Por isso é necessário refletir sobre a nossa responsabilidade socioambiental e sobre o consumo sustentável.

Chegamos a um tempo que não podemos continuar a consumir do mesmo modo. Temos que buscar novas opções, como ir à procura daquela costureira que faz um trabalho quase artesanal.

Já temos sinais de algumas marcas que estão se adaptando a nova realidade, adotando reciclagem e outros materiais que não prejudicam a natureza. Existe ainda a alternativa de consumo sustentável que é o brechó. Você já pensou em comprar roupas de brechó?

Se você quer sair desse modelo pronto, criado pela indústria da moda e feito para todo mundo se vestir igual, as roupas de brechó são uma ótima opção para sermos diferentes uns dos outros e procurar a nossa própria identidade de como nos vestimos. No brechó você encontra raridades e roupas diferenciadas, capazes de melhorar o seu estilo único de ser. E o melhor de tudo, sem agredir o nosso patrimônio natural.

Fiz o poema reproduzido abaixo para expressar melhor meus sentimentos sobre o trabalho dos brechós. Data de quando cursei a cadeira de Direito Ambiental e sobre o tema que aqui abordo defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso.

VIDA SUSTENTÁVEL

Vista-se de uma peça rara
Experimente o diferente, não seja igual
Vista-se de brechó
Sinta a energia da vida que se mostra sustentável
Que não é a mesma que sai de fábrica
Dali vem o cansaço, o suor, o trabalho, muitas vezes escravo

Enquanto isso
Tem água escorrendo, virando tinta que vai pro mar
São litros de água na produção de um jeans
É a vida que se esvai
É a água que escorre
É a sede que não tem fim

  • Bethania Rolim da Nóbrega é publicitária e bacharela em Direito

TEORIA DA INVOLUÇÃO, por Rubens Nóbrega

(Imagem deliberadamente ilustrativa. Foto: Globo)

Há mais de dois meses, desde quando a pandemia da covid começou a bater seguidos recordes de mortes no Brasil, um grupo de jovens participa de sucessivos embalos de quartas e sextas-feiras à noite numa mansão da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Festança regada a comes e bebes do bom e do melhor, mas sem qualquer distanciamento. Pelo contrário, quando chegam no grau, alguns só faltam se pegar no tapa e, vez em quando, num rala-e-rola. Tudo sem máscara, viu? E álcool, minha filha, só o que vem na bebida. Dose? Se for de vacina, nem pensar!

A esbórnia chama a atenção de todo o Brasil, revoltando alguns incomodados com a impunidade que protege aquela turma que se esbalda em tantas festas clandestinas. Afinal, por que não chega àqueles pândegos as medidas restritivas e os rigores da lei impostos por governadores e prefeitos à maioria?

“Por que a Prefeitura ou a Polícia não vai lá e acaba com essa farra?”, questionou ontem (27) indignado seguidor do líder da ‘liberdade do povo se aglomerar, não parar de trabalhar e se contaminar’. É da mesma galera que defende o ‘se morrer é menos gasto pra Previdência e ótimo pro mercado’.

Tal questionamento foi dirigido publicamente ao prefeito Eduardo Paes, do Rio. E pra não haver dúvida sobre a procedência do que aqui se afirma, reproduzo abaixo a indagação do revoltado e a resposta do alcaide carioca.

Por essa e muitas outras que venho ouvindo, lendo ou vendo nos últimos dois anos e meio, estou convencido de que se Darwin estivesse entre nós, hoje, certamente ele rebatizaria a sua tese sobre o aparecimento e desenvolvimento da raça humana.

Com certeza, o velho Charles adotaria a Teoria da Involução após estudar espécimes feito esse bovino interpelante.

CANSAÇO, por Ana Lia Almeida

Imagem meramente ilustrativa. Foto: Brasil de Fato/Pernambuco

Mas você está cansada de quê? A dois passageiros de distância, Rita se pôs a imaginar seus mil motivos para responder àquela pergunta que o rapaz fez à moça bem ali do lado. Sua noite mal dormida por causa da azia depois do cuscuz com leite no jantar. Suas horas extras para pagar a prestação do celular novo de Maria Clara assistir às aulas dela. O serviço que era muito na casa de Dona Laura. As varizes que ao fim dos dias doíam cada vez mais em suas pernas.

Estou cansada das suas brigas, do seu ciúme, de você não querer deixar eu fazer as minhas coisas. Estou cansada de você, Eugênio. Os olhos de Rita se encontraram com os de algumas outras pessoas que estavam ali perto do casal em crise. Os muitos passageiros que ouviam a conversa partilhavam expressões de assombro ou divertimento enquanto Eugênio continuava com o braço enlaçado na cintura da moça como se aquilo tudo não fosse com ele.

Calma, neném. Não me chame assim, já disse mil vezes. Ah é, e por acaso ele não te chamava de nenhum apelido carinhoso, hein? Está vendo só, Eugênio, é disso que estou falando; eu vou-me embora. A moça foi abrindo caminho entre os colegas da condução e Eugênio gritando que aquela não era nem a parada dela, que o motorista não abrisse a porta porque tinha uma mulher louca querendo descer fora do ponto, que ela ia se perder e podia ser atropelada, e nisso a moça já descia correndo as escadas do ônibus em direção à rua.

Cinco segundos de silêncio no lotação. Depois disso, foi o homem chorando alto com as mãos no rosto e o falatório generalizado, os mais de perto explicando aos de trás o que tinham visto e enfeitando a história de mil modos. Que a mulher não gostou do cara tê-la chamado de neném e foi-se embora; que um tal de Efigênio tinha levado um chifre daquela moça que saiu correndo; que um passageiro estava batendo na mulher mas ela conseguiu fugir e uma hora dessas deveria estar na delegacia com a Maria da Penha; que havia uma mulher louca no ônibus que fugiu correndo do irmão.

Rita, que era da turma dos mais perto e assistira a tudo com a maior atenção, não quis se meter. Não confirmava nem desmentia nada, concentrada em seus pensamentos. Sujeitinho esquisito, o tal do Eugênio. Não era à toa que a moça havia se cansado. Ficou lá gritando depois chorando, a maior cena, mas parado feito poste. Porque não foi atrás dela? Vai ver teve uma livrança deixando esse daí para trás. Agora, isso era lá conversa de se ter em ônibus? Ela que nunca ia se passar para isso, expor suas intimidades na frente de todo mundo daquele jeito. Já estava mais do que na hora de vagar um assento para ela, que as varizes hoje estavam demais.

O BIG BROTHER DE JOÃO PESSOA

Vid8 GME

(Imagem meramente ilustrativa. Crédito: Vid8)

A capital da Paraíba terá dentro de um ano, no máximo, um Big Brother pra chamar de seu. Trata-se, na verdade, de moderno sistema de monitoramento que vai funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, a partir de abril do ano que vem.

Até lá, serão instaladas mais de 700 câmeras em pontos estratégicos para ‘vigiar’ ruas, avenidas e áreas críticas de João Pessoa, de onde transmitirão imagens em tempo real para o Centro de Cooperação da Cidade, o ‘cérebro’ desse ‘Grande Irmão’ municipal que começa a ser construído em abril próximo.

A construção, já licitada, com empresa contratada e tudo o mais, representa investimento superior a R$ 11 milhões em um edifício planejado para dominar 1.800 metros quadrados do terreno da sede administrativa da Prefeitura de João Pessoa, no bairro de Água Fria.

O Centro de Cooperação da Cidade integrará e poderá acionar toda e qualquer secretaria ou autarquia do município para resolver problemas da população. De acidente a congestionamento no trânsito, de queda de barreira a inundação, de chamar Samu ou Zoonose… Tá valendo!

Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal, entre outros serviços estaduais e federais, também poderão ser chamados para atender às demandas do Centro de Cooperação, que é parte do Programa João Pessoa Sustentável, largo e multifacetado projeto de melhoria da infraestrutura urbana.

O programa está orçado em mais de um bilhão de reais, com metade dessa dinheirama assegurada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A outra metade virá de recursos próprios do município. Tudo nos conformes acertados com a instituição internacional pela gestão passada da PMJP.

Mas execução ficou, claro, a cargo do governo empossado em janeiro deste ano. Que vai ter quatro anos para dar conta de todas as metas e prioridades combinadas com o BID, que abarcam desde intervenções em comunidades vulneráveis à transformação do antigo Lixão do Róger em parque de lazer e esportes.

Depois conto mais. 

IMPASSES ETÍLICOS, por Babyne Gouvêa

VÍDEO: Homens ficam enciumados em bar e dão início a pancadaria  generalizada em Cuiabá

Imagem meramente ilustrativa e propositadamente desfocada. Crédito: YouTube

Tudo começou quando dois companheiros de bar sentaram juntos à uma mesa para um aparente embate político. Logo chamaram a atenção de alguns presentes, que inadvertidamente tentaram interromper o diálogo manifestando opiniões divergentes e opostas às tendências ideológicas dos protagonistas.

Um deles se manifesta questionando o seu interlocutor sobre o conceito de comunismo. Sem titubear, o interpelado responde, didático, professoral:

– É um sistema econômico e político que defende uma sociedade sem classes. Nele, os meios de produção e outros bens pertencem ao governo e a produção é dividida igualmente entre todos…

– E agora, o que você me diz do capitalismo? – retruca o parceiro de mesa.

– O capitalismo tem como objetivo principal a acumulação de capital através do lucro – responde.

Surge uma terceira voz perguntando se alguém tem conhecimento de algum país que tenha efetivamente implantado um regime comunista, com sucesso ou se algum companheiro de bebida conhecia alguma nação capitalista verdadeiramente justa com os direitos dos seus concidadãos.

Sem responder, o primeiro a indagar chama o garçom e aparenta indisposição estomacal, pedindo um antiácido. Levanta-se, sai do seu assento, afastando os curiosos que estavam próximos, chamando-os de comunistas, pejorativamente, atestando intolerância ao diálogo. Um dos afastados interroga em voz alta:

– Por que agora virou lugar-comum chamar as pessoas de comunistas?

Um frequentador com o dedo em riste complementa a pergunta com um argumento inquisitivo:

– Por que defender uma sociedade igualitária desperta tanto ódio?

Mais um entra no debate. Esse, fazendo gesto de arminha com uma mão para o alto e segurando garrafa com a outra, tangencia e interpela:

– Vamos ficar isentos de pagamento de impostos na compra de berros e munição. Tem presente melhor para a população?

– Bom mesmo é no País Tupiniquim, onde o Salve-se Quem Puder é o sistema vigente – atalha um ébrio articulando palavras com dificuldade e com ares de deboche.

Surgiram novas intervenções defendendo tanto democracia quanto regime autoritário. Pandemônio no bar. Cada um argumentando em voz alta sobre a sua vertente filosófica, política, ideológica… Alguns à direita, uns à esquerda e os indefectíveis “sou de centro”.

Convocado, o gerente do estabelecimento tentou apaziguar os ânimos. Expôs a todos uma ideia supostamente sensata: não pagaria as despesas quem apresentasse proposta de governo que implementasse planos estratégicos de saúde e educação, criasse oportunidades de empregos, proporcionando mais dignidade à população e, condição sine qua non, lançasse um condutor de caráter retilíneo.

Ouvida a proposta-desafio, os exaltados circunstantes entreolharam-se e a discussão deu lugar ao silêncio. Calados, todos miraram o garçom e na direção dele dispararam o gesto universal de pedir a conta.

  • Babyne Gouvêa é Biblioteconomista

DO MITO AO MINTO, por Juca Pirama

Gripezinha' testa 'histórico de atleta': Bolsonaro irá recuar após infecção  pela COVID-19? - Sputnik Brasil

(Imagem: Sputiniknews)

Ontem, no dia em que as mortes por Covid ultrapassaram o total de 300 mil, desde o primeiro caso no dia 17 de março de um ano atrás, o Brasil foi surpreendido por notícias alvissareiras.

A primeira foi pela manhã, quando o presidente do Senado e do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, promoveu uma reunião com os presidentes da República, Sr. Jair Messias(?) Bolsonaro; do Supremo Tribunal Federal, ministro Luis Fux; e da Câmara, deputado Artur Lira.

Esta reunião, tão desejada pela população enlutada e pela parcela que ainda tem esperança, selou, espera-se, a união dos Poderes constituídos em prol da unificação das ações de saúde dedicadas à pandemia que assola o planeta, em especial o nosso país.

Foi criada uma comissão mista com o objetivo de unificar o combate à Covid, potencializando e unificando as ações de saúde realizadas pelo Ministério da Saúde, os governos estaduais e municipais, e distribuindo os insumos e equipamentos necessários a todos os cidadãos.

Pelo menos foi o que anunciou o senador Pacheco… A reticência fica por conta da máxima de que, no Brasil, quando não se quer resolver um problema, cria-se uma comissão. Mas eu acho que essa irá funcionar, sim. Pois parece que a tragédia sanitária finalmente sensibilizou os senhores políticos.

***

A outra boa notícia foi a declaração do presidente da Câmara, deputado Artur Lira. Ele enquadrou o presidente(?) da República, Jair Bolsonaro, exigindo deste um bom comportamento, em todos os sentidos, fazendo-lhe ameaças constitucionais.

Artur Lira, ocupando a presidência da Câmara com o apoio explícito e decisivo de Bolsonaro, surpreendeu assim a todos nós. Ele fez em dois meses o que Rodrigo Maia não fez em dois anos.

Agindo assim, tanto o deputado Lira quanto o senador Pacheco conferiram Bolsonaro à sua real dimensão: a insignificância. Demonstraram-lhe que a nação é maior do que ele. Que o país pode passar com ele, sem ele ou apesar dele.

Que Jair Bolsonaro não passa de um adorno feio totalmente perdido na beleza do Palácio do Planalto…

Coincidência ou não, na noite anterior ele havia feito um pronunciamento à nação, durante o qual relatou como realização sua tudo aquilo que não fez, até o momento. Reafirmou, assim, a sua alcunha de O Minto.

Ficou evidente que o pronunciamento não foi muito bem recebido, dada a manifestação espontânea de panelaços pelo Brasil inteiro.

***

Não perdendo a oportunidade, liguei para o amigo patriota:

– E aí, Verde & Amarelo, tudo bem? Ontem foi um dia histórico: pela manhã o presidente do Senado assumiu o protagonismo e fez O Minto recolher-se à sua insignificância. E à tarde O Minto foi ameaçado veladamente pelo presidente da Câmara, caso não quisesse se recolher. Como homem dos bastidores que você é, o que acha que o G.O., Gabinete do Ódio, vai fazer? Vai deixar por isso mesmo? Ou vai reconhecer a própria covardia, botar o rabinho entre as pernas e num fazer nada? Não vai espalhar nenhuma sujeirazinha dos dois políticos? Ou será que o G.O. já não mais destila esses ódios todos? Será que o G.O. não passa de um WC pestilento (daqueles de posto de gasolina) anexado ao gabinete do presidente?

Tut-tut-tut… A ligação caiu antes que ele respondesse.

PODERES, A QUEDA LIVRE E O RÉS-DO-CHÃO, por Francisco Barreto

“Independência ou Morte’, quadro de Pedro Américo

O Brasil de hoje iletrado, inculto e desprovido de educação e consciência politica relega os seus heróis e heroínas ao mais injusto esquecimento de sua história.

Homens como José Bonifácio, Frei Caneca e formidáveis mulheres do populacho como Joana Angélica, Maria Quitéria, Barbara Heliodora e a Princesa D. Leopoldina, cada um ao seu modo e lutas, foram artífices da Independência do Brasil. Em 1822, foram construtores do ato da Independência perpetrado pelo Príncipe Pedro I, vacilante e envolvido em incursões amorosas com D. Domitila de Castro, expondo escandalosamente seus rompantes libidinosos que por pouco não fraturaram a sua autoridade de Regente.

Diante das hesitações do imperador, entra em cena o Senado, no inicio de 1822. Foi edificado o Clube da Resistência, em cuja gênese estava a Loja Maçônica “Comércio e Artes”, encabeçada por Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira, então presidente do Senado, que de início pugnou pelo Fico. Ato contínuo, pressionado pelo Senado e a Maçonaria, o regente Pedro de Alcântara, em 9 de Janeiro daquele ano, convencido de seu papel histórico, secundado por valorosos patriotas maçons e profanos, deu um grande abraço ao Brasil.

A Inglaterra patrocinou a independência com os dispêndios de dois milhões de libras esterlinas.

Em agosto dos ainda 1822, por unanimidade o Senado, via Clube da Resistência, coadjuvado pela valente Maçonaria, foi instado a proclamar a Independência e a realeza constitucional do Brasil.

Assim, na tarde de 7 de setembro de 1822, D. Pedro limitou-se, com seu gesto, apenas a promulgar o que já fora resolvido a 20 de agosto no Grande Oriente do Brasil.

Com os registros da crônica histórica e social, findou a dominação colonial com enorme protagonismo do Senado de textura maçônica, impedindo este que o regente não deslizasse em queda livre para o rés-do-chão da história.

História que prossegue para o advento da República diante do estarrecimento nacional debruçado sobre a incapacidade da monarquia de atender aos interesses e demandas da sociedade brasileira.

Homens como Aristides Lobo, Benjamin Constant, Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva, José do Patrocínio e muitos outros membros do Congresso Nacional, aliados ao insatisfeito Exercito Nacional, tendo à frente Deodoro da Fonseca, rumaram à edificação da República tão prenunciada pelos ideais federalistas do Manifesto Republicano de 1870.

Nas crises intestinas da Monarquia e da República, exceto nos episódios ditatoriais, os congressistas sempre tiveram a ousadia e o senso patriótico ao enfrentar as crises que devastaram o país. Hoje, os passos dados pelo Congresso Nacional, diante da avassaladora crise pandêmica, o Parlamento brasileiro, coadjuvado pela enorme contestação que assoma à Nação, traz à tona o valente histórico exercício da representação popular.

Ninguém neste país é capaz de desvendar os fatos que se seguirão. Mas a conduta congressual começa a indicar que irá se postar nas trincheiras de luta pela salvação nacional diante da brutal incapacidade do Poder e do Governo Central de bloquear a inaceitável perda de vidas que se somam aos milhares, e que partiram sem terem tido a suprema oportunidade de uma profilaxia vacinal ou terapêutica tão necessária e urgente à continuidade da vida.

O Poder Central, renitentemente imobilizado por amarras incompreensíveis e inaceitáveis, transita no submundo da incompetência e da incúria públicas.

Os recentes e decididos gestos e atos movidos pelo estarrecimento e a indignação nacional talvez logrem impedir que em breve tempo possa evitar a celeridade e o avanço desumano ao ir além de 300 mil mortes. Os sofrimentos dos que perderam os seus se somam aos milhões. Há que se estancar essa mortandade infame.

Sabemos que da tristeza nasce a esperança. Em nenhum momento histórico nacional, as crises da sociedade brasileira conviveram com tamanha insanidade. O Congresso Nacional tem o formidável desafio restituir a dignidade humana e assegurar a perenidade da vida das pessoas.

Neste lampejo de extraordinária esperança, conduzido pelo Parlamento brasileiro, só Deus o sabe se será estancada a perda de vidas e se finalmente veremos que os nossos eleitos não irão também se esparramar no rés-do-chão da história.

Estamos todos em queda livre num despenhadeiro em que faltam mãos fraternas para nos segurar.

Não temos alternativas. No momento temos apenas a morte e a morte. Não há um só dia em que, sobressaltados, acordamos sob o pesadelo buscando saber quem serão as próximas vitimas. A luz que nos ilumina já não é a mesma.

Esperemos que haja a ressureição do espírito dos nossos heróis do passado. E que estes, longe do maniqueísmo e das perversidades sociopatas e ideológicas, souberam ser caminhantes de olhos abertos e nos conduziram pelas veredas da paz e da democracia nacional.

Hoje, como ontem, os representantes do povo têm uma histórica missão: não permitir com suprema coragem que o nosso destino seja o rés-do-chão tão próximo do silêncio sepulcral.

Inspiram-nos os exemplos do passado nacional. Independência e vida, sim; intendência, não.

UM RIO MARCADO PRA RENASCER

Rio Jaguaribe (João Pessoa) – Wikipédia, a enciclopédia livre

Rio Jaguaribe assoreado: ameaçado de morte por acentuada poluição e degradação ambiental (Foto: Wikipédia)

Ascendino Leite morreu há mais de dez anos, mas não morreu o sonho dele de ver o Jaguaribe renascer como rio. Dele e de milhares que habitam João Pessoa desde os 60 do século passado, testemunhas da crescente agonia do hoje riacho prestes a morrer por sufocamento, feito paciente de covid em estado terminal.

Insuficiência respiratória: escritor Ascendino Leite morre aos 94 anos em  João Pessoa - PB AGORA

Ascendino faleceu em 2010, aos 93 anos

Desfrutei certa proximidade com o aclamado escritor em 2007, se não me falha a memória pouca. Naquele ano, confiaram-me a coordenação do Conselho de Notáveis do velho Correio da Paraíba de guerra. Um colegiado de avaliação editorial no qual também luziam, além de Ascendino, estrelas como Sandra Moura, Luiz Augusto Crispim, Teotônio Neto e Afonso Pereira, entre outros luminares.

Nas reuniões quinzenais do órgão, invariavelmente Ascendino cobrava-me cobranças aos governos de todas as esferas. Cobranças que poderia fazer em socorro do Jaguaribe no espaço que me cabia. Era colunista do diário mais lido do Estado, à época líder de circulação e da força de opinião que até há pouco era uma das marcas do jornal impresso. Atendi. Escrevi artigos com fortes apelos em favor da causa. Em vão.

Ascendino, cidadão do mundo, das letras e do jornalismo, conhecia de leitura ou de ver de perto o que fizeram com rios urbanos na Europa, por exemplo. Sonhava algo parecido pro nosso Jaguaribe. Um rio desassoreado em toda a sua extensão, despoluído em todo o seu curso e leito, perenizado e volumoso o suficiente para servir, até, de via navegável para transportar gente e coisas.

Pois bem, a boa notícia é a nova e fortíssima chance de o Jaguaribe voltar a ser o rio dos sonhos do piancoense Ascendino e deste nativo da capital paraibana. A possibilidade vem do Programa João Pessoa Sustentável, que a prefeitura municipal, sob nova direção, garante fazer acontecer finalmente já a partir de abril próximo. Tudo graças ao apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Esse apoio significa investir R$ 1,1 bilhão – metade bancada pelo governo municipal com recursos próprios – na melhoria da infraestrutura urbana, principalmente mediante recuperação de áreas degradadas da cidade. O Rio Jaguaribe foi incluído no grupo prioritário merecedor das primeiras doses da verba emprestada pela financeira internacional, segundo contrato negociado e fechado em gestões anteriores.

Negociado, fechado, mas muito pouco ou quase nada executado, o que teria exigido da nova gestão da Prefeitura da Capital razoável esforço para convencer o BID a desistir de cancelar o financiamento. Por inércia de aplicação. Mas isso é outra história, carente da apuração que permitirá concluí-la amanhã. Por hoje, importa mais lembrar Ascendino Leite e o sonho de que o Jaguaribe é mesmo um rio marcado pra renascer.

PREPOTÊNCIA OFENDE E PODE MATAR, por José Mário Espínola

(Imagem copiada do JusBrasil)

Após rever a paciente em seu consultório, analisar os exames apresentados, especialmente a ultrassonografia muito bem detalhada, feita pelo Dr. Roberto Ney, o médico-assistente (MA) chegou a um diagnóstico definitivo. E disse à paciente ansiosa, à sua frente:

– A Senhora é portadora de um tumor, benigno, na glândula suprarrenal, acima do seu rim esquerdo. E esse tumor o que está provocando as crises de hipertensão, elevando a sua pressão a níveis preocupantes.

A paciente ficou aflita:

– O que fazer, doutor?

– O caso tem tratamento, mas exclusivamente cirúrgico. A senhora ficará boa, definitivamente, saindo da área de riscos de um acidente vascular cerebral, por exemplo.

– O senhor opera?

– Não, sou apenas clínico. Vou procurar me informar quem faz esta cirurgia aqui na nossa cidade. Quanto mais rápido, melhor.

O MA consultou os colegas da área. Foi então informado que a cirurgia era muito difícil e delicada, não havendo ainda suporte pós-cirúrgico na cidade.

Um colega nefrologista recomendou um médico de Recife, uma sumidade na especialidade, que fazia essa cirurgia rotineiramente, inclusive nos Estados Unidos. O médico-assistente lembrou-se imediatamente dele. E disse para o colega:

– Logo o Dr. Medalhão?! Ele é muito estrela…

– Mas é uma sumidade… Deixe comigo! – prontificou-se o nefrologista, garantindo que falaria com o Doutor Medalhão, recomendando o caso.

Dois dias depois, o MA comunicou à paciente as informações obtidas. Que à época ninguém fazia esse tipo de cirurgia em João Pessoa, mas em Recife havia um excelente cirurgião, que trabalhava num bom hospital, que poderia operá-la. E repassou o número do telefone do Dr. Medalhão, que no contato informou que não operava por planos de saúde, que a cirurgia teria que ser em caráter privado.

Consultada a família, que tinha em Teresa, irmã da paciente, uma líder, a data, o hospital e os valores da cirurgia foram acertados. Durante as tratativas, ela perguntou ao Dr. Medalhão se o Dr. MA poderia assistir e este, por sua vez, informou que não poderia estar presente em razão de compromissos profissionais. Mas procurou tranquilizar a família.

No dia marcado, Teresa deu a noticia ao Dr. MA: na data agendada, a paciente fora operada e estava passando bem. Relatou, contudo, que algum problema acontecera durante a cirurgia, pois fora bem mais demorada que o esperado.

Teresa pediu encarecidamente que o Dr. MA fosse com ela fazer uma visita à irmã, no hospital. Pediu com tanta veemência que o médico aquiesceu. No dia seguinte, partiram para Recife.

No hospital, MA encontrou a paciente com bom aspecto, ligeiramente descorada, porém sem queixas. Pressão arterial normal. Ausculta cardíaca normal. Mas, quando foi auscultar os pulmões da paciente, o Doutor gelou! A incisão cirúrgica, muito longa, da cicatriz umbilical à região dorsal, logo acima da crista ilíaca, estava visível. À DIREITA!

Veio a dúvida: não era o rim esquerdo?? Dr. MA não se precipitou. Nada disse à paciente nem à família. E retornou à capital paraibana com aquela dúvida martelando a cabeça. Uma viagem sem graça.

Na mesma noite, foi até o consultório para ver o prontuário da paciente. Lá estava bem claro o resultado da ultrassonografia: tumor na glândula suprarrenal ESQUERDA!

MA constatou que havia sido operada a glândula errada da paciente. A paciente teria que ser reoperada.
Pouco dormiu essa noite, pensando nos riscos e consequências. Ela ficaria sem as duas glândulas, teria que fazer uso de hormônios para o resto da vida.

Dia seguinte, ligou para a irmã da paciente, relatando tudo: a constatação do erro, a sua confirmação, os riscos, a necessidade da reoperação. Ligou, também, para o nefrologista que havia indicado o Dr. Medalhão, pedindo-lhe que se comunicasse com o colega do Recife, para tomar uma decisão sobre o que fazer com a paciente. Afinal de contas, havia sido uma referência dele, nefrologista, que se havia prontificado a comunicar o caso ao cirurgião, assim tendo feito.

O nefrologista recusou-se a admitir que o seu ídolo tivesse cometido algum erro médico. Após MA ter lido para ele o laudo da ultrassonografia, disse que iria pensar. Mais tarde ligou de volta, para dizer que não telefonaria para o Dr. Medalhão, pois era uma situação muito vexatória. Assim, deixou o Dr. MA com a batata quente na mão.

Mais um dia e a paciente teve alta hospitalar, retornando para João Pessoa. Dr. MA recebeu, então, a visita dos irmãos da paciente que vieram do sertão para saber com detalhes o que havia acontecido. Dispunham-se a ir até Recife para tomar satisfações com o Dr. Medalhão.

Dr. MA procurou acalmar os ânimos: o momento exigia serenidade, pois havia a necessidade de tomar uma atitude que beneficiasse a paciente. E telefonou para o Dr. Medalhão. Que esperneou do outro lado da linha, não admitiu que tivesse cometido um erro médico, que aquilo nunca lhe acontecera na vida profissional.

Dr. MA esperou que o Medalhão parasse de estrebuchar, disse-lhe que tinha provas documentais de que tinha havido um erro e lembrou-lhe o artigo 29 do então vigente Código de Ética Médica, que versava sobre erro médico. O doutor continuou a bradar, indignado.

Dr. MA disse-lhe, por fim, que os irmãos da paciente, todos sertanejos brabos, vieram da cidade de Patos dispostos a ir conversar com ele, caso MA não obtivesse sucesso. Silêncio do outro lado da linha… Segundos após, mais calmo, voz mansa, Medalhão anunciou que iria rever o caso, se necessário reoperar a paciente. Mas pediu que somente Teresa lhe telefonasse, para acertar tudo o que fosse preciso.

A cirurgia foi remarcada para dali a duas semanas. A irmã da paciente exigiu a presença do Dr. Médico-Assistente na cirurgia. O que foi acertado.

***

Na data marcada, Dr. MA estava lá na sala com a paciente, após ter se apresentado a um afável e atencioso Dr. Medalhão, que ficou na sala de estar do centro cirúrgico, aguardando a sua equipe preparar a paciente. Só então ele entraria, com o toque-de-mestre.

Na indução anestésica, a paciente logo adormeceu e o anestesista passou a tentar a intubação da traqueia. Foi quando começaram as dificuldades. O médico não conseguiu fazer com que a cânula endotraqueal entrasse pela glote, pois a paciente tinha o pescoço muito curto e não exibia o ângulo laríngeo. Nervoso, suando em bicas, tentou um bom tempo e… Nada!

Chamaram o anestesista da sala vizinha, que também não obteve êxito. Para piorar o clima, surgiu o Dr. Medalhão nervoso, que brigou com todo o mundo e falou, aos brados:

– Foi a MESMA COISA NA OUTRA CIRURGIA! Vocês não têm a competência para realizar uma intubação!

Nesse ínterim surgiu uma luz. Foi quando a sedação começou a perder o efeito, a paciente esboçou uma respiração. Aí, foi possível ao anestesista visualizar a epiglote, podendo passar a cânula pela glote. E a cirurgia pode ser realizada com sucesso.

***

Analisando o acontecido, as palavras do Dr. Medalhão deixaram claro para o Dr. MA o que havia causado o erro: na primeira operação, o cirurgião, prepotente e arrogante, diante do que estava acontecendo deu um show de grossura e contaminou toda a sua equipe, criando um clima de medo generalizado. E retirou-se para a sala de estar, deixando seus assistentes com o problema.

Pouco depois, muito provavelmente a paciente voltou a respirar, viabilizando o acesso da cânula, permitindo assim que a cirurgia pudesse acontecer. Quando finalmente prepararam a paciente para ser operada, esta foi colocada no DECÚBITO ERRADO. O cirurgião, retornando à sala de cirurgia, operou a glândula oposta.

Esse tipo de cirurgião era muito encontrado na medicina do passado: ostentava arrogância e prepotência para que nunca fosse questionado. Não sabia trabalhar em equipe. Comportava-se sempre como uma prima-dona. Felizmente, não existem mais. Os cirurgiões de hoje sabem o que é trabalhar em equipe, com maior benefício para os seus pacientes.

***

O episódio acima, real, deixa bem claro a importância do líder, quando se está diante de um problema coletivo. Se ele for tranquilo, porém decidido, transmitindo firmeza, chega-se à melhor solução possível e desejada. Se ele, reconhecendo as suas limitações, não tem liderança, não tem serenidade, só sabe agir provocando um clima de terror e de insegurança, contaminando os seus liderados, termina levando-os para a direção errada.

Com muita preocupação, vemos que atualmente é o que está faltando ao paciente Brasil: uma liderança sábia e serena, que saiba trabalhar em equipe e dê o bom exemplo. Que comande todos os seus liderados, especialmente aqueles que têm poder de decisão para resgatar a saúde plena da população. Caso contrário, o resultado será uma catástrofe. O genocídio a que estamos assistindo, por exemplo.

SONHAR É PRECISO, por Babyne Gouvêa

Ilustração

(Imagem: Getty/BBC)

Com o aparecimento de vírus tão letal, um pensador passou a administrar o sentimento que tomou conta dele – a saudade do cotidiano – e procurou diversas formas de conviver com tal situação.

No início, difícil, muito difícil. Medos, quebra de rotina, indecisões sobre certo ou errado… O banzo que lhe envolvia seria o causador de suas agonias e hesitações, avaliou. Resolveu, então, enfrentar o que lhe angustiava dando um alô ao imaginário, seu melhor aliado, e apelou à alucinação que lhe apresentou um leque de alternativas para saber lidar com tantas aflições.

Essa opção funcionou como idealizadora de desejos aparentemente absurdos, mas possíveis de se concretizar, embora morador de uma nação carente de civilidade num grau que beira o irracional. Começou a fazer conjecturas.

Quem sabe uma transformação radical e repentina no comportamento da população, deixando todos menos desiguais e vulneráveis. Que tal governantes despertando para o seu verdadeiro papel na sociedade, dispostos a proporcionar educação, moradia e alimentação dignas às crianças, por exemplo?

Os pensamentos fluíram em torno dos cidadãos tendo acesso rápido aos serviços essenciais de saúde, ousou imaginar também todos os cidadãos se direcionando exclusivamente às atividades e condutas assertivas com generosidade e empatia. 

A sua fértil imaginação arriscou uma vida em sociedade sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem as suas próprias necessidades, contando com a sabedoria dos seus conterrâneos sobre a importância de aderirem à sustentabilidade ambiental. Os pulmões do planeta seriam poupados.

Todos esses modelos têm sido imaginados pelo pensador no período de isolamento imposto pela Covid. Um tanto romanceada, é verdade, mas a sua viabilização seria compensatória depois de um longo momento de tormento e incertezas. Segundo ele, esse estado onírico tem funcionado como enorme facilitador de dias tão sofridos. Afinal, concluiu, sonhar é preciso!

  • Babyne Gouvêa é Biblioteconomista