ENCHENTE, por Ana Lia Almeida

Imagem meramente ilustrativa (Foto: Daniel Búrigo/A Tribuna)

Tão cedo da manhã, o sol já era o de meio-dia. A cidade inteira, um imenso cuscuz abafado. Rita fervia dentro do ônibus, indo para a casa de D. Laura, mas pelo menos vinha sentada, no lado do corredor. O passageiro ao seu lado instalou-se em frente à janela, barrando todo o vento que já era pouco, até mesmo porque o buzú mais parava que andava, engasgado no engarrafamento de todos os dias. Quando pegava um sinal aberto e uma faixa livre, o vento corria e a alegria era grande. Mas durava pouco. Logo em seguida, parava de novo, e tinha gente a ponto de desmaiar de calor.

Alguém chamou o nome de Rita, duas fileiras atrás. Era Taci, sua vizinha, guardando o lugar que acabara de vagar. Por sorte o rapaz de pé em frente ao banco respeitou, cedendo o assento à jovem senhora que rapidamente se deslocou até lá. Menina, que calor é esse, Rita já chegou reclamando, deixa eu sentar nessa janela um pouquinho pelo amor de Deus.

Logo cedo já está desse jeito, hein, Rita? Desde que eu moro aqui nunca tinha passado tanta quentura, tô achando que tá mais quente esse ano, não está? Rita fez que sim, com a cabeça, se abanando. E pouco choveu no meio do ano, não foi? Época de São João, que está sempre chovendo, foi quase seco, esse ano está doido. Olhe, eu não sei o que é pior: época de chuva ou esse calorão todo. Vida de pobre é sofrida de todo jeito, andando no sol quente ou debaixo do aguaceiro. Não vê esse povo de carro aí embaixo, ar-condicionado no máximo, quando chove, também, não faz nem diferença pra eles.

Logo que eu cheguei de Jaboatão, sabe, Rita, eu fui morar numa vila que tem perto do Rio Jaguaribe. É São Rafael, ali, uma casinha bem pequenininha, que dava para a ponte. Teve uma vez que choveu dois dias seguidos sem parar, enchente braba, e o Rio teve uma cheia. Quebrou até a ponte. A água entrou em casa e levou tudo: sofá, televisão, armário de cozinha, a geladeira novinha que eu tinha acabado de comprar, tudo, tudo que eu tinha. Sobrou só as coisinhas do meu quarto. Uma tristeza, perder tudo que você tem de uma hora para a outra.

Mas a gente tá sempre dando a volta por cima, né, Taci? A vida não roda, não, ela capota. Um dia esse pessoal tá no bem bom, no friozinho desses carros chiques, dinheiro que não tem nem onde gastar. Dando tudo fácil pra esses meninos aí, ó, que não sabem nem atravessar uma rua. No outro dia, não estão mais aqui e fica o povo todinho brigando por herança. Desse jeito. Melhor viver a vida simples, mesmo que passe mais calor. Vai descer na próxima, não é? Cuida.

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COM AFETO E PASSAS DE CAJU, por Francisco Barreto

Da janela da Casa de Cora Coralina, visitantes veem o Rio Vermelho que corta a cidade de Goiás (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Da janela da Casa de Cora Coralina, visitantes veem o Rio Vermelho que corta a cidade de Goiás (Foto e legenda: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A memória é como o vento, apaga pequenas chamas e flameja as grandes. Surpreende-me que a idade, longe de me cultivar mágoas, mantém a léguas de distância a ranzinzice tão epidérmica aos provectos. Melhor ainda, faz-me viver solitariamente intensos momentos onde o passado inunda o meu presente de alegres pensamentos. Como diriam os franceses, tais sensações e sentimentos conduzem a minha “destinée”. Afortunadamente, todos os dias me afloram remotas e radiantes lembranças.

Assim fui ao encontro de Cora Coralina nos idos de 1983, em Villa Boa de Goiás Velho. Tinha que conhecê-la. Ainda mais depois de aconselhado em Brasília por Flávio de Almeida Sales, seu neto. Ele assegurou que ela adorava visitas. Levei comigo passas de caju regadas com mel de engenho à linda morada na margem direita do Rio Vermelho. A porta de duas bandeiras estava entreaberta. “Ô de casa!” De pronto ouvi : “Já vou. Quem é?”. Subitamente, ela se aproxima de mim: “Que deseja?” Respondi: “Vim da Paraíba do Norte conhecê-la! Sou amigo de Flávio, seu neto”. “Seja bem-vindo”, disse ela. Entrei e me acomodei numa das poltronas na sala austera.

Iniciei a minha intromissão: ‘Dona Cora, se há uma coisa que não me permito nunca é me manter na ignorância. Tinha um enorme desejo de lhe conhecer e lhe presentear estas passas de caju com mel de engenho”. Agradeceu-me com um sorriso no olhar. “Maravilha! Vai me lembrar da minha mãe, que tinha origem nordestina”, disse, acrescentando: “Não sou poetisa, sou apenas uma doceira”.

Tivemos uma longa conversa. Falou-me de suas andanças em São Paulo, de suas caminhadas na Revolução Constitucionalista de 32, de Getúlio e de sua volta para o Goiás Velho nos anos cinquenta. Contei-lhe que Francisco de Paula Barreto Sobrinho, meu pai, junto com vários amigos, fora guerrear em São Paulo também em 32. Achou interessante e me revelou que seu pai também era Francisco de Paula. Sorriu quando disse que eu também me chamava de Francisco de Paula.

Confessou-me que abdicara seu nome de batismo, Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Cora Coralina se atribuíra como homenagem ao Rio Vermelho. Nesse ponto, pediu licença e foi ao interior da casa, de lá trazendo nas mãos um pouco trêmulas dois pequenos cálices com licor de leite. Calmamente bebemos aquele néctar. Criei coragem para pedir o autógrafo do seu então recente livro ‘Vintém de Cobre’. “Ao estimado amigo Francisco de Paula, por sua visita”, escreveu e assinou.

Segundo após recolher tão ansiado presente, senti ter chegado a hora de ir. Anunciei a minha saída. “Já vai?”, indagou. “Já, Dona Cora, já fui longe demais”. Nos despedimos e saí. Ao me encaminhar para uma ponte vizinha à casa, olhei mais uma vez e a vi parada na porta. Fixei a imagem com a certeza de que não a veria nunca mais. Ela tinha mais noventa anos.

Aquele foi um dos encontros mais memoráveis da minha vida. Eu, o visitante das passas de caju; ela, um espirito florido que exalava a sua bela alma poética. Pessoas como Cora Coralina não morrem nunca, simplesmente continua presente na memória de quem cultiva flores e afetos.

Feliz estou. Cora Coralina aninhou-se para sempre nas minhas arrebatadas lembranças de um passado que se mescla alegremente com o presente. Feliz porque o meu passado tem iluminado o meu hoje. A memória dos melhores instantes vividos levou-me até ela. Talvez só para endeusar todos os seus versos, a magia e ensinamentos de seus poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove as pedras e planta roseiras e faz doces.

Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

O QUE É QUE O MENTIROSO TEM? por Alexandre Libório

Quem conhece a música “O Que é Que a Baiana Tem?” Acredito que quase todos os brasileiros já escutaram ou pelo menos ouviram falar. Composta em 1938 por Dorival Caymmi, ganhou o mundo na voz e bailados de Carmen Miranda no filme “Banana da Terra” (1939). Conhecida por todas as gerações que sucederam a sua criação, a canção descreve com beleza e leveza a graça, as vestes e os balangandãs da baiana.

Quem assistiu ao filme “O Mentiroso”, produção de 1997 protagonizada por Jim Carrey no papel de um inescrupuloso advogado de Los Angeles que ama por demais o filho, mas é incapaz de cumprir as promessas que faz e mente compulsivamente? Quem viu deve lembrar que o comportamento de Fletcher Reede, o personagem, causa muitos problemas com o menino e a ex-mulher. Cansado de tantas mentiras, o garoto só tem um desejo: que o pai diga a verdade.

O que há de comum entre a música e o filme? Aparentemente nada. Ambos são atrações, embora a música seja sucesso até hoje e a produção cinematográfica, nem tanto. De qualquer modo, tanto o título da composição de Caimmy quanto o filme servem ao propósito deste artigo. Porque referenciam a enganação e a falta de escrúpulos que caracterizam a maneira como o Brasil vem sendo governado nos últimos dois anos, dez meses e 17 dias.

Entre os cidadãos do bem atordoados diante de tamanha incompetência de gestão e o mal que essa desgovernança causa à maioria, a expectativa dos sensatos e responsáveis patrícios acredita num desfecho de efeito passageiro quanto às inúmeras mentiras pronunciadas insistentemente. Que todos os responsáveis diretos por essa ruína sejam desmascarados definitivamente, punidos pela desgraça que produzem e seus apoiadores finalmente despertem do estado hipnótico em que se encontram.

Essa esperança se faz premente face às necessidades de um povo que pede socorro e urgência para se manter vivo. É difícil ouvir diariamente discursos enganosos sobre a situação econômica do país “em prosperidade”. Enquanto a lorota está sendo proferida, o povo faminto enterra a cabeça dentro de um caminhão de lixo à procura de alimentos. Apoiar um dirigente que tergiversa essa situação é ser conivente com ele. Não há distinção entre quem manda e quem acredita em suas falácias.

A nossa vergonha diante da multiplicidade de mentiras disseminadas se tornou internacional. No exterior, a nossa economia está sendo divulgada com números adulterados, assim como os dados da Amazônia, como se os chefes de outras nações não conhecessem o real quadro do nosso país. A economia é retratada em relatórios de organizações de âmbito internacional, enquanto a Amazônia é monitorada por suportes tecnológicos de várias nações.

Não sabemos quando a nossa pátria conseguirá se reerguer depois dos inúmeros e consecutivos estragos dos quais está sendo vítima. A irresponsabilidade paira em todos os setores, seja na economia, meio ambiente, saúde, educação, todos recaindo sobremaneira na população sofrida por tantos desprovimentos. E a mentira continua cotidianamente, impávida e acatada pelos crentes carentes de sensatez.

A desumanização em cartaz dói. Dói muito. É preciso gritar por nossos irmãos que não têm meios nem força suficiente para manifestar a sua dor. Dor da pobreza. Dor de ter um governo desvairado mostrando ao povo o que o mentiroso tem.

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CARTA AO AVÔ DOS MEUS FILHOS, por Babyne Gouvêa

Imagem meramente ilustrativa copiada da Wikimedia Commons

Hoje sonhei com você e me deu uma vontade danada de conversar. Fiquei pensando no seu encantamento com apenas sessenta e oito anos, exatamente a idade em que me encontro.

Estava lhe vendo na praia e na fazenda, seus dois locais prediletos. Tinha o hábito de andar com os braços cruzados nas costas, e saía a esmo. Com corpo de halterofilista costumava usar bermuda sem camisa, não sei se pelo clima quente ou por exibicionismo. E se fosse, qual o problema?

Você me ensinou muito, principalmente a diversificar iguarias. Assava um cabrito como ninguém, e a partir daí comecei a comer esse caprino pelo qual sentia aversão. Lembra das gororobas que receitava na hora da sobremesa, sabendo que é o meu prato favorito? O mamão recheado com doce de goiaba em calda foi invenção sua. Essa delícia inesquecível degusto até hoje.

E o peixe Serigado assado na brasa? Sabia que eu apreciava e me chamava para ver o que a gente ía saborear. São mimos difíceis de serem desmemoriados.

Gostava de vê-lo sozinho naquele barco pescando. Fiz companhia a você em uma das vezes, e comprovei que o silêncio e a tranquilidade daquela imensidão de mar eram seus reais parceiros. Ficamos emudecidos para a isca atrair o alvo; pescamos, mas liberamos de imediato a presa. Você entendeu a minha angústia em ter privado o peixe de sua liberdade. Foi um momento nosso de solidariedade com a natureza.

Na beira-mar o via acompanhar a chegada dos pescadores e suas redes de arrasto. Ficava identificando em voz alta cada peixe fisgado – sabia que eu desconhecia as espécies. Sou-lhe grata por mais esses ensinamentos.

E o dia em que meu segundo filho nasceu? Foi você que me levou à maternidade e, no caminho, ficava clamando: “segure mais um pouco, aqui dentro do carro, não”. Para nossa sorte deu tudo certo, o meu parto foi no lugar devido. E pensar que podia ter sido no seu Dodge Dart verde e preto, hein? Sabe que eu me lembro dessa situação e fico rindo sozinha?

Na fazenda, eu lhe observava explorando as suas terras; notava a sua presença mais frequente diante da plantação de inhame. Estou certa? E a fila de netos lhe acompanhando, hein? Lembro bem que as frutas colhidas no pomar eram distribuídas com todos os filhos, nenhum era preterido. Eram manifestações carinhosas que jamais podem ser esquecidas.

As festas juninas eram organizadas com capricho. A fazenda se tornava um arraial colorido, com fogueiras, bandeirolas e muita comida de milho, preparada pela magistral matriarca. A alegria dos netos ficava completa quando compartilhavam os fogos de artifício com o avô. Você se lembra dessas festividades, certamente.

Vou lhe contar um condicionamento que ocorre comigo desde que você esteve hospitalizado. No trajeto que eu fazia para lhe visitar na Beneficência Portuguesa sempre ouvia Chopin quando passava por uma escola de música. Você subiu ao céu, mas a associação do compositor com você continuou presente.

Passaria horas aqui conversando mesmo com as nossas divergências ideológicas. A gente sabia conviver harmoniosamente numa relação de admiração e respeito mútuos.

Vou ficando por aqui, acho que deu para amenizar a saudade. Sim, esqueci de dizer que o mar avançou na faixa de praia onde ficava a sua casa. Acredito que por sentir a sua falta.

Fique bem. Até qualquer dia!

POEIRA DE OBRA, Ana Lia Almeida

Imagem meramente ilustrativa (Foto: Adriano Abreu/Tribuna do Norte)

Lá vinha Rita em pé, voltando do trabalho no ônibus lotado. Parecia que se adivinhava, os dias em que ela estava mais cansada, com as varizes mais lhe doendo as pernas, era quando o buzú vinha sem lugar nenhum pra sentar. Mesmo assim, Rita tentava cochilar no meio dos saculejos do trânsito, a cabeça encostada no braço levantado segurando na barra de apoio. Era um sono teimoso, meio aperreado, a pessoa toda hora despertando com medo de dormir de verdade e terminar desequilibrando ou então perder a parada. Foi quando começaram a espirrar ao seu lado, acordando Rita de vez.

Vá desculpando, senhora, não é covid não, viu? É a poeira lá em casa, vivo assim, espirrando, por causa de uma obra, não sabe, a reforma de um quartinho lá pra o meu menino vir morar comigo mais a esposa. A vida tá difícil, vou dar essa força para eles saírem do aluguel até as coisas melhorarem. É, minha filha, se Deus quiser, vai melhorar, sim, a gente tem de confiar nos planos D´Ele. Esse quartinho, mesmo, tantas vezes eu quis derrubar, sabe, para ver se aparecia mais um ventinho lá em casa, fazer uma área pra botar uma cadeira de balanço, umas plantas, mas nunca dava certo. Era esse plano de abrigar meu menino que já estava traçado, aguardando. Apareceu um dinheiro atrasado, das minhas férias, na hora certa, veja você. Foi pouquinha coisa pra ajeitar, só abrir uma janela, mesmo, e refazer o reboco das paredes, por causa da infiltração. Mas qualquer coisinha é gasto e poeira, né não?

Era mesmo, Rita sabia bem. Quando comprou a casinha dela, foi do mesmo jeito, tudo caindo aos pedaços, precisando arrumar. Parecia pouca coisa, mas nunca é. Seu Zeca, o pedreiro, prometeu aprontar em quinze dias. Foi para três meses. Quando o ajudante do pedreiro adoeceu, ela mesma cuidou da amarração dos tijolos junto com Seu Zeca. Aprumava o fio e assentava certinho, uma fileira sobre a outra, entrecruzada, finalizando com a massa de cimento e areia. Ela levava jeito e até gostava daquilo. Era melhor que trabalhar em casa de família, pena que não tinha muita chance, sendo mulher, de trocar um serviço pelo outro. O ruim era só o pó, mesmo, e os gastos, claro. Conforme a poeira ia subindo, o dinheiro ia se acabando. Rita já estava pensando em desistir de tudo, abandonar a obra e voltar para a casa da avó. Foi quando resolveu fazer o empréstimo e terminou dando tudo certo, depois de muito aperreio.

Atchin. Aaaaaaatchin. Ai minha nossa Senhora, me traga saúde e o fim dessa reforma. Amém. Dê licença aí para eu descer – Rita se espremeu mais um pouquinho para a mulher passar. Atchin. Vão desculpando, minha gente – ela se explicava a todo mundo no ônibus – não é covid não, é só poeira de obra, mesmo.

HERANÇA MALDITA, por José Mário Espínola

Congresso Nacional (foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A vida mostra que a vaidade é o melhor artigo de se vender. Está na calça de marca, no carro do ano, nos óculos, sapatos, bolsas, cirurgias plásticas, botoxes, jóias, viagens do tipo “Eu fui para a Disney!”. Ou “Conheci 20 países em 20 dias!”. O vaidoso, ou a vaidosa, não mede esforços para satisfazê-la.

A propósito, dizem que a mulher é vaidosa por natureza. Eu não acho, são exceções. Por outro lado, conheço homens que se comportam como verdadeiros pavões.

No nosso mundo capitalista, a vaidade é estimulada já na infância, em peças publicitárias veiculadas pelos meios de comunicação e voltadas para o público infantil, num estímulo deletério ao consumismo. Poucos escapam.

A vaidade é, portanto, inerente e exclusiva da espécie humana. A história tem muitos exemplos de atitudes vaidosas, e o que fizeram para satisfazê-las.

Reis, príncipes, condes, duques, marqueses vaidosos, famosos ou não, chegaram a cometer crimes para satisfazerem os seus desejos. Mas jamais eles conseguiriam se não tivessem o apoio de figuras como bajuladores, aristocratas, conselheiros e bobos da corte, todos pendurados nas tetas do monarca.

Mas eles não dariam esse apoio garantidor da vaidade senão comprados a peso de ouro.

***

A história moderna também registra atitudes políticas impensáveis no momento atual da evolução, num país moderno, embora composto por sociedade atrasada. É o caso da reeleição.

Em 1998, principalmente para satisfazer a própria vaidade, mas também por outros motivos inconfessáveis, Fernando Henrique Cardoso moveu mundos e fundos (êpa!) para aprovar Proposta de Emenda Constitucional que permitiria a reeleição para cargos executivos: presidente, governador e prefeito.

Bem documentado à época, o esforço exercido por FHC causou escândalo entre os cidadãos honestos e de bom senso, que predominavam na sociedade da época. Não entre os políticos, como se viu, que já se mostravam como seriam no futuro. E assim FCH conseguiu a garantia de ser reeleito.

Por sua vez, eleito quatro anos depois, Luiz Inácio Lula da Silva, um dos cidadãos que mais estrebucharam denunciando a manobra de FHC, e que foi eleito em 2002 detendo a maioria na Câmara dos Deputados, ao tomar posse não teve a hombridade de enviar para o Congresso PEC que extinguiria a reeleição. Por omissão, agiu em causa própria.

Nós temos assistido, ao longo dessas quase três décadas, o imenso prejuízo que a reeleição tem causado ao Brasil. Ao tomar posse no primeiro mandato, o presidente, governador ou prefeito, em sua quase totalidade, não pensa em outra coisa senão em se reeleger. E passam quatro anos fazendo de tudo para alcançar esse intento. Tudo mesmo!

***

Este é o caso do atual presidente, Jair Bolsonaro. Desde o dia 1º de janeiro de 2019, esse cidadão só fala em se reeleger. E só toma atitudes administrativas e políticas que possam concorrer para alcançar esse fim.

Para isso não tem escrúpulos. Compra tudo e todos que estiverem à venda no mercado negro da política minúscula, principalmente nesse limbo político chamado Baixo Clero, que ele conhece muito bem, pois foi de onde veio.

São muitas as manobras e atitudes que ele e sua turma têm tomado com esse fim. O caso mais recente é a PEC dos Precatórios.

Ano passado, o país foi paralisado pela grave doença que se abateu sobre o mundo, a pandemia de Covid 19, gravíssima, de imensa facilidade de contágio, podendo levar à morte ou causar a incapacidade física por longo período.

As autoridades de saúde, baseadas em estudos científicos aceitos por entidades respeitáveis, como a Organização Mundial de Saúde, recomendaram o isolamento para evitar o contágio. E o uso de vacinação em massa logo que surgissem vacinas de eficácia comprovada.

Era inegável que o isolamento refletiria de forma negativa sobre a economia. Porém evitaria o pior: a morte de um número elevado de cidadãos brasileiros. Por outro lado, permitiria salvar o maior número possível de pessoas até que chegassem as vacinas.

No Congresso surgiu projeto que visava criar um auxílio temporário para o exército de profissionais diretamente atingidos pelo isolamento: artistas, trabalhadores informais, faxineiras, pessoas que perderam o emprego pelo fechamento dos milhões de estabelecimentos em que trabalhavam pelo Brasil afora, e muitos outros brasileiros atingidos pela tragédia sanitária e econômica.

Embora tenha sido bem aconselhado pelo ministro da Saúde da época, o presidente Bolsonaro foi veemente e publicamente contrário à criação de qualquer auxílio.

A princípio, Bolsonaro sabotou como pôde a tramitação do Projeto. Quando viu que o auxílio seria inevitavelmente aprovado na Câmara Bolsonaro, fez de tudo para diminuir o valor que seria concedido.

Posteriormente, à luz da reeleição, e ao ver que a sua popularidade se derretia, ele correu para assumir descaradamente a autoria do benefício. Até aí, nenhuma novidade, considerando a falta de caráter.

As pesquisas mais recentes mostram que a popularidade do presidente derreteu tanto que já exala mau cheiro. Nesse momento, entram em cena os garantidores de vaidosos: bajuladores, aristocratas, conselheiros e bobos da corte, travestidos na forma de deputados federais, todos pendurados nas tetas do presidente.

Capitaneados pelo presidente da Câmara Artur Lira, de Alagoas (que no início do ano foi cooptado, no mínimo seduzido, por Bolsonaro), eles aprovaram em primeira votação uma PEC que vai permitir estourar o teto de gastos, instrumento criado para conter extravagâncias de presidentes irresponsáveis.

O estouro estimado é de 91,5 bilhões de reais, mas apenas 50 bi serão usados no bolsa-reeleição de Bolsonaro e de sua bancada, que vão rachar os 40 bi restantes com emendas parlamentares e otras cositas mas. 

Essa PEC representa um calote criminoso contra uma parcela da população, que poderá ser penalizada com a proibição de pagamento de parcela considerável de dívidas do governo com cidadãos que ganharam causas na Justiça em razão de prejuízos perpetrados pela União, especialmente em planos econômicos como o famigerado Plano Cruzado, que roubou as economias de imensa parcela da população.

Ao longo de décadas, prejudicados pela proverbial lentidão da Justiça brasileira, homens e mulheres que tiveram seus direitos finalmente reconhecidos esperam pacientemente ser ressarcidos. Agora, vão morrer sem receber o que é deles por direito.

Parte dessas dívidas de precatórios será usada para pagar a bolsa-esmola com a qual Jair Bolsonaro espera recuperar a popularidade, o que poderá garantir a satisfação da sua vaidade de ser reeleito presidente.

O auxílio-miséria que Bolsonaro autorizou poderia muito bem ser pago com a verba destinada aos partidos para financiar a eleição do próximo ano. Mas esses deputados não dariam de graça o apoio à PEC, que vai garantir a realização da vaidade de Bolsonaro. Eles não agem assim por “amor à arte”. De alguma forma foram ou serão beneficiados.

Votaram a favor de Bolsonaro e, portanto, contra os brasileiros que têm precatórios a receber, os deputados paraibanos Agnaldo Ribeiro, Edna Fenandes, Julian Lemos, Efraim Filho, Pedro Cunha Lima, Hugo Mota (que defende a PEC com unhas e dentes, pois é o seu relator), Rui Carneiro, Wellington Roberto e Wilson Santiago.

O único deputado paraibano que teve a coragem de votar em favor dos cidadãos que têm precatórios a receber foi o deputado Gervásio Maia.

Estão em jogo os direitos de milhões de pessoas simples, na maioria funcionários públicos esperando o resgate da economia de toda uma vida, o sonho da casa própria escorrendo pelo ralo da velhice, de quem talvez morra sem ver os seus trocados.

É esperar para ver se os congressistas da Paraíba fazem mesmo parte do grupo garantidor de vaidades do presidente ou se estão a favor dos brasileiros.

FAMÍLIA POR PERTO, por Babyne Gouvêa

Dia das Mães: E quando os papéis se invertem?

Imagem meramente ilustrativa copiada de Canção Nova Notícias

É primordial. Comprovado recentemente com caso familiar próximo à autora. A assistência dos filhos adultos aos pais idosos, vítimas da Covid, foi decisiva para a recuperação dos infectados.

O envelhecimento assusta, preocupa e exige acolhimento. É um processo natural do qual ninguém escapa. Ter família por perto faz a diferença. As limitações físicas surgem à medida que a idade avança; e olhem que nem as mentais estão aqui cogitadas.

Os casos conhecidos levam à reflexão. As interrogações tomam proporções muitas vezes exageradas, mas compreensíveis. O temor de olhar para o lado e não ver um familiar por perto chega a dar arrepios.

A distância não só preocupa os mais velhos, mas todos os integrantes do núcleo familiar. Basta uma ocorrência na saúde para bater o sentimento de desamparo. E como faz bem saber que um parente pode lhe proteger com a sua presença.

Estar junto do ente querido é tudo o que uma pessoa precisa para se recuperar de uma enfermidade ou circunstância imprevista. A angústia por haver oceanos e estradas dificultando o contato presencial desestabiliza quem estiver necessitando de cuidados.

Da mesma forma, comemorar algum acontecimento com pessoas íntimas é a certeza de aconchego. Trocar olhares, abraços e confidências com quem tem afinidade é celebrar a felicidade.

Há quem não goste de família numerosa, mas entre tapas e beijos os integrantes desse grupo são, geralmente, os primeiros a prestigiar ou a prestar socorro a um consanguíneo.

Em tempos difíceis, como o atual, o afago presencial é terapêutico. Funciona como um fármaco eficaz. Essa afirmação é comprovada com exemplos no nosso entorno.

Ocorre de alguém migrar do continente europeu para prestar assistência a familiar no continente americano – não é uma iniciativa acessível a qualquer um. É um privilégio para quem dá o apoio, como para quem recebe.

Situação realmente ideal numa adversidade é contar com parentes morando nas proximidades; facilita a vida de todos os envolvidos. É suficiente uma mensagem e todos ficam interligados, caem em campo à disposição do necessitado.

A segurança se instala com a presença do parente. O natural receio é superado instantaneamente. A solidariedade familiar é sublime, milagrosa e contagiosa. Família por perto é um porto seguro em nossas vidas.

INSTANTES ENTRE ESTANTES, por Babyne Gouvêa

Imagem interna da Biblioteca Central da UFPB (Campus de João Pessoa), copiada do portal da instituição, que não identifica autoria da foto

“Sempre achei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca” (Jorge Luís Borges)

Experimentei literalmente o paraíso em vida a que se refere o venerado escritor argentino. Durante quarenta anos na Universidade Federal da Paraíba. Foi um privilégio ter vivido junto a livros e amigos, todos estimados e valiosos.

Dourados anos convivendo com eles foram fundamentais para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Não houve um dia sequer que me sentisse entediada no ambiente de trabalho; diariamente, seguia motivada para aquele lugar onde se encontravam colegas preciosos e alojava os meus tutores – as coleções bibliográficas.

Em alguns intervalos das atividades técnicas, costumava ir ao encontro dos meus caros aliados, impressos e armazenados em estantes enfileiradas. Procurava conhecer as obras de assuntos diversos, mas sempre parava atenta às de literatura. Percorrer as estantes das publicações constituía instantes enriquecedores, de puro bem-estar.

Impossível numerar as vezes em que ‘escapuli’ para retirar o exemplar do meu interesse da prateleira. Levava-o para uma cabine individual, e ali, tendo como pano de fundo o verde da Mata Atlântica, dava vazão ao prazer da leitura. Difícil descrever o sentimento que se apossava de mim – um real contato com as minhas emoções. Foi um vício mantido por quatro décadas.

Podia estar diante de obras já manuseadas ou recém adquiridas. O entusiasmo era o mesmo. É verdade que gostava de sentir o cheiro que o livro novo exalava. Aquele cheirinho denunciando ter saído do ‘forno’. Sim, a vontade era de devorá-lo; com os olhos, é claro.

Os locais onde ficavam armazenados eram aprazíveis demais. Existia um campo de atmosfera em seu entorno. À noite, a brisa atravessava as aberturas funcionais das paredes e contatava os leitores ávidos por conhecimentos. Sentia satisfação em ser um deles.

Muitas vezes, durante o dia, o calor se fazia presente, mas a temperatura da obra ofuscava a ambiental. Ao memorizar esses momentos, o ânimo percorre todo o meu corpo, deixando-me plena de contentamento.

Questionava quando encontrava algum livro vitimado por ações de vândalos. Ficava perplexa perguntando a mim mesma o que teria provocado aquela insanidade. Logo com o objeto responsável por nosso enriquecimento individual. Nunca consegui entender essa conduta.

Apreciava o trabalho de restauração do livro danificado. Era uma laboração minuciosa exigindo conhecimento específico. Reconfortante era vê-lo recuperado, colocado novamente à disposição dos usuários.

Obra extraviada era motivo para me frustrar. Na minha concepção, deixava de contribuir para um aprendizado coletivo e socializado, para se resumir a um conhecimento unitário.

Ah, que saudade da Coleção Paraibana! Os nossos escritores reunidos naquela sala como um rico mostruário da produção intelectual dos nossos conterrâneos ou patrícios em geral sobre a Paraíba. A atualização desse acervo era automática. As editoras se comprometiam em enviar exemplares à medida que publicavam. Gratificante mesmo era recepcionar os autores in loco.

Circular cotidianamente no universo das letras contribuiu para que gotas de sabedoria fossem depositadas em mim. Sou grata à vida por ter me dado o imenso prazer de ter trabalhado num paraíso.

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  • Homenagem da autora ao Dia Nacional do Livro, comemorado neste 29 de outubro