ESPELHO, ESPELHO MEU, por Juca Pirama

Existe na Alemanha uma revista semanal que é muito popular. E respeitada no mundo todo pela sua linha editorial independente.

Fundada em 4 de janeiro de 1947, menos de dois anos após o final do conflito que destruiu a Alemanha, Der Spiegel surgiu de iniciativa do Comando Militar da Alemanha ocupada. Foi editada pelo major britânico John Challaner.

Demonstrando sagácia e impessoalidade ímpares, o major observou que os jornalistas alemães necessitavam de um veículo que fosse democrático e pudesse praticar a imprensa livre, após décadas sob o jugo de Josef Goebbels. Queriam ter voz.

Challaner decidiu então criar uma revista semanal chamada Die Woche (A Semana)*. Para isso ele convidou vários jornalistas, todos germânicos, para serem redatores. E deixou-os totalmente à vontade.

Mas os jornalistas se soltaram demais. A forma irreverente em suas críticas a todo mundo: políticos alemães, Comando Aliado, e principalmente as forças de ocupação, causou incômodo, e fez com que o seu editor fosse demitido.

O novo editor foi um jovem jornalista alemão de Hannover, Rudolf Augstein, que mudou o nome da revista para Der Spiegel (O Espelho). Augstein manteve a mesma linha editorial independente, até a sua morte, em 2002.

Der Spiegel adotou como linha editorial a independência jornalística acima de tudo, doa a quem doer. Pode-se dizer que tem sido até os dias de hoje um bom espelho para a formação democrática da nação alemã.

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Os espelhos são uma aplicação prática de um fenômeno da física: o reflexo. É estudado no capítulo da ótica. Tem todo tipo de serventia, desde artefato inseparável de narcisistas até super-telescópios. Mas nem sempre é bem-visto.

Existem pessoas que não gostam do que vêem, quando defrontadas com a imagem de si mesmas. As que têm senso crítico aproveitam para dar um retoque em sua fisionomia; ou em sua vida, sua conduta, as suas atitudes.

Outras, diante do espelho, gostam do que veem e podem despertar para uma nova personalidade, assumindo outra vida, que estava dentro de si e não sabiam.

É este o fenômeno sociológico que está acontecendo no Brasil. Porém o que surpreende é o “espelho” que lhe fez despertar: Jair Bolsonaro!

Ao mirar-se em sua figura, em sua personalidade complexa, patológica, pois não é que milhões de brasileiros se identificaram, e assumiram essa personalidade?!

De repente, descobriram-se admiradores capazes de se tornarem mentirosos, pornofônicos, enganadores, arrogantes, fãs de torturadores, odiosos de manifestações e instituições democráticas, indiferentes ao sofrimento alheio e capazes de atitudes canalhas.

Passaram a agir como ele, em suas atitudes, no seu pensamento. Comportam-se como psicopatas, refletindo o espelho.

Soltaram a fera que existia reprimida dentro de si, e passaram a desprezar tudo o que lhe parece ser demonstração de fraqueza: educação, bons modos, gentileza, cortesia, manifestação cultural, pessoas pobres, negras ou homossexuais, ciganos, cotas para minorias, Estatutos de proteção a menores e a idosos. E, não duvidem, serão capazes de combater, brevemente, até faixas para pedestres.

Passaram a aplaudir o seu espelho, a segui-lo incondicionalmente, a acreditar em tudo o que ele diz, e imitá-lo em tudo o que ele faz.

Esse fenômeno já deve estar sendo estudado por sociólogos, antropólogos e psiquiatras. E acho que dificilmente se reverterá.
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*NA: Não confundir com o jornal diário Die Woche, que circulou por Berlim de 1899 a 1944. Era controlado pela censura nazista, como os demais veículos noticiosos da época.