“NÃO CONSIGO RESPIRAR, GENERAL…”, por José Mário Espínola

‘El triunfo de la Muerte’, de Pieter Bruegel el Viejo (imagem copiada da revista eletrônica Touch of Class)

Uma das sensações mais angustiantes que um ser vivo pode experimentar é a da sufocação. Respirar o ar puro é o mais importante fator necessário à condição de vida, mais ainda do que a ausência de água salubre para beber, que leva à sensação da sede. Esta, porém, ainda suporta alguns dias até a extinção da vida. A falta de ar só é suportável durante poucos minutos.

O mágico Houdini provocava a sensação de pânico na plateia que o assistia se livrar das algemas que o prendiam dentro de um tanque d’água. Ou dentro de um barril cheio de água descendo rio abaixo. Então ele surgia triunfante à superfície, trazendo a plateia abaixo.

São pouco frequentes casos de sufocação por obstrução das vias aéreas, principalmente em crianças. Em adultos são menos frequentes, mas acontecem. Anos atrás, perdemos um bom amigo que se engasgou com um pedaço de carne, durante um churrasco.

São casos esporádicos, felizmente. O que estamos assistindo no Amazonas, no entanto, é um verdadeiro morticínio em massa causado pela falta de ar em consequência da Covid 19, sem que os pacientes tenham oxigênio disponível para sobreviver.

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Para manter o organismo vivo, o ar que respiramos percorre um longo trajeto: ao ser inalado pelas narinas, desce para uma câmara, a faringe. Daí, penetra um pequeno orifício, a glote, que é obstruído pela epiglote quando o alimento passa pela faringe em direção ao esôfago ou se abre para a passagem do ar respirado.

O ar atravessa a laringe, acessada logo abaixo pela glote, e onde estão as cordas vocais, que geram os sons com a passagem do ar. Logo abaixo da laringe, o ar desce por um tubo largo, a traqueia, que dá origem aos dois brônquios-fontes correspondentes aos pulmões direito e esquerdo.

O ar desce pelos brônquios, que se estreitam dando origem a tubos cada vez menores e numerosos, os bronquíolos. Estes terminam em minúsculos saquinhos, os alvéolos. Em número de milhões e intimamente ligados à circulação pulmonar, é nos alvéolos que acontece a troca gasosa: o ar rico em oxigênio, que chega, por gás carbônico, lixo gasoso produzido pelos órgãos e trazido até os alvéolos pela circulação venosa. O ar, desta vez rico em gás carbônico, é eliminado através da árvore brônquica percorrendo no sentido inverso à inalação do ar que garante a vida.

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A Covid 19 é uma doença viral muito grave, pois provoca distúrbios de coagulação em órgãos do nosso corpo. Quando afeta os pulmões, esse processo patológico ocorre ao nível dos alvéolos, que sofrem uma inflamação brutal, impedindo a troca do gás carbônico por oxigênio natural do meio ambiente. Falta, então, oxigênio vital para todas as células do corpo.

Para que o paciente sobreviva enquanto as complicações são tratadas, além de medicação intensiva em altas doses é necessário que oxigênio puro seja injetado nos pulmões, através da árvore brônquica.

Na maioria dos casos isso é suficiente utilizando-se uma máscara de alta pressão, a Venturi. Nos casos mais graves, porém, é preciso que o paciente receba um tubo através de sua traqueia, pelo qual se joga oxigênio puro diretamente dentro dos pulmões.

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Para mim é muito angustiante assistir depoimentos desesperados obtidos durante reportagens que vêm sendo exaustivamente veiculadas sobre a imensa tragédia que está se abatendo sobre o Amazonas.

Tragédia anunciada. Há pelo menos nove dias, já se sabia que não haveria oxigênio suficiente para dar suporte ventilatório aos tantos pacientes portadores da forma mais grave e mais letal da doença Covid 19.

Inevitavelmente me vem à lembrança dois episódios recentes: as mortes de George Floyd, nos Estados Unidos, e de João Alberto Silveira Freitas, num supermercado de Porto Alegre. Em ambos os casos, as mortes por sufocação foram anunciadas e, portanto, poderiam ter sido evitadas.

Assim como muitas mortes poderiam ter sido evitadas caso as autoridades de saúde, em seus três níveis (Prefeitura de Manaus, Estado do Amazonas e Ministério da Saúde), tivessem envidado todos os esforços ao seu alcance, necessários para minimizar os efeitos da doença (ou mesmo evitá-la), especialmente o colapso da rede de hospitais.

Concorreram para esse desfecho tenebroso as autoridades, tanto municipais quanto estaduais e federais, ao autorizarem campanhas políticas no mês de novembro; ao permitirem concentrações festivas no mês de dezembro; ao terem desmanchado os hospitais de campanha; ao permitirem o desabastecimento de medicamentos e equipamentos essenciais ao tratamento da Covid 19 e ao terem negligenciado diante das evidências de que iria faltar oxigênio na rede hospitalar daquele Estado.

Pelo contrário, não apenas permitiram como também incentivaram o fim do distanciamento social e das demais medidas sanitárias.

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A imagem que mais representa a tragédia do Amazonas é digna de uma cena medieval, que poderia muito bem ser retratada nos mais expressivos quadros de Pieter Bruegel ou de Hyeronimus Bosch: uma pirâmide macabra, cuja base é composta por milhares de cadáveres carcomidos de pacientes mortos, a maioria por sufocação. E cercada por uma roda de pequenos demônios e esqueletos animados, que dançam alegres e agradecidos.

No alto da pirâmide está o presidente da República, Jair Bolsonaro, sorriso triunfante, que desde o início da pandemia vem escancaradamente sabotando o sistema de saúde do Brasil, estimulando o uso de tratamentos inócuos e a desobediência às medidas sanitárias. Aos seus pés está o seu ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que ocupa esse lugar por total e escancarada incompetência para dirigir pasta tão importante, especialmente neste momento tão grave de crise da saúde brasileira. E por aceitar, em troca do cargo, promover as insanidades emanadas pelo seu presidente, filhos dele e asseclas.

Logo abaixo deles vêm o governador do Amazonas, Wilson Lima, o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto e seus respectivos secretários da Saúde. Eles não só autorizaram concentrações eleitorais e sociais como participaram delas, dando o mau exemplo. E desmantelaram todo o serviço público de saúde, rede de farmácias e laboratórios, além dos hospitais de campanha.

Tenho a esperança de que sejam responsabilizadas, uma vez encontradas em culpa, todas essas autoridades. E todas as outras que fizeram algo em favor da tragédia e não das vítimas, além de todos aqueles com algum grau de responsabilidade na crise da saúde. Aí cabem empresários que se aproveitaram da crise para auferir lucros, políticos que se deixaram corromper para facilitar os negócios escusos durante a pandemia et caterva.

Enfim, todos eles um dia serão julgados por haverem concorrido para as mortes resultantes, seja por imperícia, imprudência ou negligência. Por ação ou omissão.

  • ‘El triunfo de la Muerte’, de Pieter Bruegel el Viejo: imagem que ilustra este artigo (copiada da revista eletrônica Touch of Class)

2 Respostas para “NÃO CONSIGO RESPIRAR, GENERAL…”, por José Mário Espínola

  1. PAULO montenegro escreveu:

    Seu artigo acima, merecia ser o editorial desta semana de toda imprensa nacional e mundial. Verdadeiro parricídio, foi cometido contra a comunidade amazonense e, ao mesmo modo, está ocorrendo agora com o IFA, para produção da tão esperada vacina. As mortes diárias advindas da Covid-19, parecem ser comemoradas pelas autoridades satânicas que habitam os palácios de Brasília! Só cérebros privilegiados e com a coragem da sua altivez, dão gritos como esse seu!

  2. Múcio escreveu:

    Congratulações pelo belo é oportuno artigo Zé Mário. Agora, para além da tragédia humana, fico aqui torcendo para que esse desastre de desempenho do nosso general, “especialista” em logística – função sem a qual nenhum exército funciona -, não faça despertar no Paraguai vontade de reclamar novamente, pela força, uma saída para o mar.