O PARAIBANO QUE EXPLICOU FREUD, por Jocelino Tomaz
É de Caiçara (PB), um dos pioneiros da Psicanálise no Brasil e primeiro tradutor da maior obra de Freud para nossa língua. O Dr. Walderedo Ismael (1917-2005) além desses feitos, foi fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro; fundador e presidente da Sociedade Brasileira de
Psicoterapia de Grupoe presidente da Associação Psiquiátrica do Rio de Janeiro.
Além de “Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud, traduziu obras marcantes da Psicanálise; escreveu três livros e uma vasta produção científica. Infelizmente, mesmo no meio psiquiátrico e psicanalítico do seu estado ele ainda énpouco conhecido e reconhecido, na sua cidade acontece o mesmo. Assim, buscamos dar mais visibilidade a esse grande cientista. Remetendo ao adágio “Freud explica!”, eis um “paraibano que explicou Freud”.
Ele nasceu em 21 de março de 1917, filho de Severino Ismael de Oliveira e Ana Soares da Costa Frazão. Seu pai foi o político de maior projeção da história da sua cidade, sendo duas vezes prefeito e deputado estadual por cinco legislaturas (1947-1967). Além de Walderedo, Severino Ismael teve quatro filhas. Dizem que era seu desejo que Walderedo fosse prefeito de Caiçara, mas ele se recusava. Assim, em vez de um prefeito desmotivado, tivemos um cientista de projeção internacional.
Fez o curso primário No Grupo Escolar “João Soares” em Caiçara e as experiências da infância foram muito marcantes em sua vida. A inspiração para a medicina veio de seu tio farmacêutico “Zé Ismael” e do médico caiçarense Waldemir Miranda. As lembranças e o orgulho de ser caiçarense eram evidentes nele, o que pode ser comprovado por seus depoimentos, suas visitas e até pelo nome que deu à sua fazenda em Petrópolis-RJ, o “Rancho Caiçara”.
Como em Caiçara só era oferecida a educação primária, Walderedo fez o curso ginasial no Colégio Diocesano Pio X, escola Marista de João Pessoa. Lá também fez os cursos de datilografia e francês. Em 1934, com apenas 17 anos, ingressou na Faculdade de Medicina de Recife. Na faculdade se envolveu com o movimento estudantil e depois filiou-se ao Partido Comunista. Chegou a sofrer represálias pela sua militância e por apoiar o trabalho de psiquiatria social do Dr. Ulisses Pernambucano.
Em 1935, passou a trabalhar e morar na “Tamarineira”, principal hospício de Recife. A partir de então, aos 18 anos, optou por dispensar ajuda dos pais e viver por conta própria, mesmo com dificuldades. Nessa época, Walderedo atuou como assistente da Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina do Recife. Foi nesse período que escreveu seu primeiro trabalho, “Observações Psicológicas e Esquizofrênicas tratadas pelo Método de Sacre”, e, em seguida, um interessante estudo sobre o alcoolismo em Pernambuco.
Walderedo foi demitido pela ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Foi também em Recife que teve o primeiro contato com o livro que mudaria sua vida, “A Interpretaçãobdos Sonhos”, de Sigmund Freud. A psicanálise lhe foi apresentada pelo prof. Nelson Pires através de um livro sobre histeria, de Freud. Ele comparou o deslumbramento da leitura da obra com a de ver pela primeira vez uma moça nua tomando banho na cachoeira denominada Cajarana do Rio Curimataú, em Caiçara.
Em 1940, após um curso de neurologia no Rio de Janeiro, voltou para o Recife e também passou a visitar mais sua terra natal, devido a um câncer da sua mãe, que tinha como um dos motivos de resistência à doença a vontade de ver a formatura de Walderedo, sonho que realizou em 1940. Com a morte desta, em 1941, mudou-se em definitivo para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Walderedo chegou no Rio com dinheiro para as despesas de menos de dois meses, porém logo conseguiu emprego na Colônia Juliano Moreira onde atuou até 1947. Em 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, fez curso de extensão sobre Psiquiatria na Guerra. A partir de 1943, passou a acumular com atuação no Sanatório Imaculada, onde também trabalhava aquela que se tornaria sua esposa no ano seguinte, Olga de Sales Marques. Nesse mesmo ano, devido a guerra, foi convocado para servir ao Exército Brasileiro, onde atuou como 2º Tenente Médico.
Em 1944, através de concurso, tornou-se médico psiquiatra do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Em 1944, junto com outros psiquiatras, fundou o Centro de Estudos Juliano Moreira. Foi esse grupo que deu início ao movimento para a institucionalização da Psicanálise no Brasil.
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