DERRADEIROS MOMENTOS COM GALVÃO, por Francisco Barreto

Walter Galvão (foto copiada do portal T5)


A Jória e Clarice, a minha extremada afeição e admiração que guardo por Walter Galvão, um respeitado homem de bem.

Dia 21 de junho último (Mensagem de Galvão) – Bom dia, amigo. Posta aqui seu endereço que preciso mandar um livro pra vc.

Dia 22, respondi: Merci. Enviando o endereço. Bom dia. Passei um período difícil. Tive no início de maio um evento cardíaco: Arritmia (bloqueio atrioventricular total); in extremis, sobrevivi. Estava no mato e excepcionalmente fui socorrido por um filho (que estava) a 130 km de distância. Em quarenta minutos me levou a uma UTI em João Pessoa. Cheguei com frequência de 15 BPM. Estava parando o meu coração. Cinco dias depois, voltei à superfície… Hoje, 45 dias depois, estou bem. Todas as contas feitas, estou bem. E vocês, como estão neste desastre que é o Brasil?

Responde-me Galvão no mesmo dia 22 – Ainda bem que vc está bem. Jória e Clarice enfrentando com a saúde o caos dentro do tsunami. Quanto a mim… Fui diagnosticado em março com um câncer nas vias biliares, tumor agressivo em fase avançada. Não cabe transplante, nada além da quimioterapia, tentativa de impedir o crescimento. Agora sei o que significa a expressão “lutando contra o câncer”, guerra ciclópica de uma pessoa às voltas com o exército Persa no seu auge. Forte abraço.

Ainda em 22, retornei – Sei que coragem não lhe faltará. Meu respeito e afeto ilimitados. Abrs.

Em 2 de julho, enviei – Bom dia. Fiquei muito inquieto com a sua saúde. Como está? Resista, você é um ser superior. Abrs.

Dia 3 – Barreto, aqui é Jória. Está no Hospital desde o dia 23. Estamos na luta. Abraço, amigo.

No mesmo dia 3 – Bom dia, querida. Causou-me tristeza e angústia saber da via crucis de Galvão e vocês. Ele sempre fez parte da minha agenda afetiva. Deus abençoe vocês. Tem previsão de alta? Quero muito vê-lo. Avise-me, por favor. Abraço grande.

Jória – Aviso, amigo. Abraço.

Ainda enviei um Deo Gratias.

***

Walter Galvão não saiu dos meus terríveis e angustiados presságios. Galvãozinho, como o chamava, era um queridíssimo amigo. Espraiou-se naqueles dias um terrível e sepulcral silêncio.

Na terrível madrugada do dia 7, Galvãozinho, bem de mansinho, dormiu. E, como acontece aos justos, não mais acordou. Ficou comigo uma tristeza brutal, sobremodo, porque não pude abraçá-lo. Apenas e tragicamente se abateu um silêncio avassalador.

Escrevi penosamente a Jória, ainda no dia 7 – Amargurado e infeliz estou. Abraço você e Clarice. Imagino o sofrimento de vocês. A Paraíba e os amigos perderam um exemplo de honestidade, de inteligência e humildade cristã. Ele não morreu. As pessoas que amamos continuam vivas entre nós. Como dizia a queridíssima Clarice, ele está vivo. Resistam. Ele nunca estará longe de vocês. Abraços Fraternos.

Tive o prazer de conhecê-lo no início de 1986. Encontrei-o na Secretaria de Planejamento do Estado, quando lá estive, e ele liderava a inteligência na área da Comunicação. Me foram feitas reiteradas excelentes referências por inúmeras pessoas sobre o profissional e a pessoa humana que era. Permaneceu para minha alegria. Intempestivamente, certo dia fui instado a demiti-lo. Não acatei a ordem. Vinha de uma longa caminhada permeada de exílio e perseguição ditatorial. Me insurgi e comuniquei a Walter Galvão que não o tiraria. Ele, do alto de sua dignidade e grandeza, disse-me, agradecendo:

– Não concordo. Você será prejudicado. Me obrigo ir embora.

Tentei dissuadi-lo. “Não saia!”. Mas ele, com distinguida e arrebatada grandeza, despediu-se e voltou como a noblesse oblige ao batente das redações.

Em 2005, nossos caminhos se cruzaram no primeiro governo Ricardo Coutinho na Prefeitura de João Pessoa. Foi um lúcido e magistral Secretário da Educação do município. O seu equilíbrio, espirito público e dignidade moral aportaram grandeza na mais importante área governamental. Causando espécie à mediocridade e à indignidade aos que rodeavam. O então edil sucumbiu diante de um ato autoritário. Foi removido sumariamente da Educação. Disse-lhe:

– Estou também na linha de tiro, em breve serei eu…

Galvão comentou, ponderando:

– Fui alvejado porque sou amigo. Com você é diferente. Você é um secretário do município e não de Ricardo.

Saí. Nos perdemos de vista. Sabia da presença dele em A União. Não nos falávamos nunca. A distância entre nós fora como o vento que apaga as pequenas chamas e acende as grandes. Soprava entre nós os alísios do afeto.

Em 2020, animadamente desembarquei no gabinete dele no Espaço Cultural e me permiti lhe dedicar os livros que havia publicado. Fui porque não sabia mais onde ele morava. Ficou emocionado. Quanto prazer tive em ter estado com ele. Um raro momento de alegria nos uniu.

Até receber as últimas mensagens dele, ignorava completamente a sua via crucis. Ficou consolidada a minha renitente tristeza e o sentimento de que deveria ter estado perto dele mais vezes.

Tudo consumado. Fica a irascível e imperdoável sensação de que a minha distância não deveria ter acontecido. Fica a dolorosa lição. Aos amigos queridos, devo ser dedicado como se fossem flores dos meus jardins no Engenho Laranjeiras.
Hoje, mais do que nunca, ainda o vejo com Jória e Clarice, pequenininha, caminhando nos meus jardins, aflita e contestando o pai:

– Branca de Neve não morreu, está viva.

Galvão não morreu. Está vivo no nosso afeto e na memória dos que o amavam.

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