
O poeta Caixa d’Água e o tribuno Mocidade
Embora cidade grande e capital do Estado, João Pessoa teve um rico panteão de figuras folclóricas. Portadoras de manias que podiam ser classificadas como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) também formaram um segmento social, como nas cidades pequenas.
Os que são da minha geração lembram bem de algumas figuras exóticas, ou esquisitas. Era o caso de Pão-de-Bico, que foi como apelidaram o Sr. João Ramalho. Padeiro, percorria a cidade empurrando seu carrinho tocando um realejo e apregoando os seus produtos: “Pão de bico, suíço e doce!” A molecada anarquista o provocava (de longe, é claro). Quando ele gritava “Pão-de-bico!”, a meninada respondia: “Suicidou-se!” Ele respondia com referências pouco edificantes às mães dos moleques.
Lembro-me de dois irmãos, Catabio e Catapedra, ambos doidos. Tinha também o Levi Doido. Ele dava expediente todo uniformizado, certo de que era servidor. Às vezes saía com o Governador no carro oficial. No fim do governo, João Agripino pediu a Otacílio Silveira que levasse Levi para o Tribunal de Contas e ele ficou por lá até o fim da vida.
Havia David, megalomaníaco, outro personagem da capital, que achava que se dizia “Ô Dono do Mundo”. Chegava ao Banco do Estado da Paraíba e sentava no birô do gerente. Entrava numa repartição do Estado ou da Prefeitura e demitia o governador ou o prefeito.
Durante seu mandato, o governador João Agripino Filho adorava ser cortejado e cultivava um povo folclórico em torno dele. Depois foi sucedido pelo governador Ernani Sátiro, que também tinha lá os seus.
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Vassoura era uma das que frequentavam a corte de João Agripino. Cavalgava pela cidade, noite-e-dia, montada num cavalo todo engalanado, e portando um mastro que tinha duas funções: sustentar a bandeira do Brasil e meter na cabeça de quem a aperreava! Na realidade, ela se chamava Isabel Maria Bandeira Brasileira.

Isabel Bandeira, a popular Vassoura
Na “Classificação Internacional de Doidos – CID” (se existir uma!), ela era aquilo que conceituavam como Doido-de-pedra! Pois sempre portava uma bolsa contendo duas pedras. Usava para jogar nos meninos e nos rapazes cretinos que mexessem com ela. Tinha ódio quando gritavam: “Vassoura, mulher de corno!” E tome pedra!
Às vezes, entrava nos estabelecimentos com cavalo e tudo. Certa vez, João Agripino estava visitando Dr. Humberto Nóbrega, reitor da UFPB, quando passa Vassoura e, vendo o carro oficial, entra pela casa de cavalo e tudo: “Me dê uma cerveja!”. Ao se aproximar, foi falando pro governador:
– Diz, João.
Aí, João Agripino falou, só pra provocar:
– Vassoura, eu descobri porque você está indo muito ao Palácio.
– Por que, João?
– Você está dando em cima do meu chefe da Casa Militar!
– O que, seu filho da puta! Vá tomar no…!
Esporeou o cavalo e foi-se embora, soltando fumaça. Todos os presentes ficaram às gargalhadas!
Sobre Vassoura tem um episódio mais interessante, contado por João, filho mais velho do governador. Ela chegou a cavalo no portão dos fundos do palácio e disse ao guarda que queria entrar. O guarda disse que ela podia entrar, mas sem o cavalo. Ela apeou-se, amarrou o cavalo no poste e entrou. Chegou pelo terraço dos fundos e pediu a alguém pra dizer ao governador que queria fala com ele.
Disseram ao Governador e ele a mandou entrar. Ela foi logo se queixando que não deixaram o cavalo entrar. Ele foi com ela até o portão e disse ao guarda que o cavalo podia entrar. Ela amarrou o cavalo no jardim dos fundos e ele ficou lá comendo a grama enquanto ela voltava pra conversar com o Governador. Desse dia em diante, todas as vezes que ia ao palácio entrava com o cavalo e sua bandeira do Brasil.
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Havia em João Pessoa o Grande Tribuno das Calçadas, mestre-orador Mocidade, um intelectual de origem modesta, que bebia muito e percorria a cidade proferindo discursos brilhantes, todos de improviso. Seu nome era João da Costa e Silva.

João Costa e Silva, o Mocidade
Ele frequentava muito a Faculdade de Direito, onde Francisco Espínola, meu pai, lecionava Direito Penal, e meus irmãos estudavam. Mocidade falava com sotaque francês, carregando no ”R”. Sempre que via Humberto, gritava: “Jurrrriiista!”
Como morava perto de nós, às vezes aparecia lá em casa. Mamãe odiava, mas papai tratava muito bem. Certa vez, ele passou a noite sentado num toco na frente de nossa casa, fazendo discurso, para desespero de mamãe. E apontava para papai, dizendo: “Tu és justitia!” Papai paciente: “Vá dormir, Mocidade.”
Corria por essa época a ditadura militar, e Mocidade aproveitava as manifestações da estudantada para destilar impropérios contra os militares e (ele não se continha!) contra o governo do Estado.
Certa noite, João Agripino chegou à residência oficial do Governador, então no Cabo Branco, e ao passar pela cozinha encontrou ninguém mais, ninguém menos que Mocidade tomando uma sopa. Não conseguiu resistir:
– Muito bem, seu Mocidade: passou a tarde discursando contra mim, e agora está aí tomando da minha sopa!
Mocidade fez uma pausa segurando a colher, olhou blasé de soslaio, dizendo:
– Ora, governador: governo foi feito para sofrer!
E voltou a se dedicar à sua sopa.
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Havia uma grande rivalidade entre Mocidade e Manuel Caixa D’água, apelido popular de Manuel José de Lima. Este era um grande poeta popular. Só usava terno de linho branco e perambulava pela cidade portando sempre uma maleta 007 preta. Não desfrutava de tanto cartaz com o governador João Agripino e sentia-se preterido.

Caixa: estátua no centro da cidade
Quando Agripino terminou o mandato foi substituído pelo governador Ernani Sátiro, que também gostava de corte e tinha lá os seus doidos. Sua maior afinidade era com o poeta Manuel Caixa D’água.
Ernani Sátiro era escritor renomado. Esta qualidade motivou o comentário maldoso de Caixa D’água, na posse do governador:
– Finalmente a Paraíba terá um governo de intelectuais!
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Esses relatos revelam um aspecto pouco conhecido da personalidade dos dois governantes: a bondade para com pessoas desvalidas.
- José Mário Espínola é Médico e Cronista
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