COITADISMO BIZARRO, por José Mário Espínola

Imagem: Duo Oftalmologia

Ao apresentar-se num encontro em João Pessoa para cumprir agenda política programada pelo Partido Liberal, no qual arranjou emprego de presidente do PL Mulher, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro protagonizou uma cena no mínimo grotesca.

Ao passar a palavra para a sua vice-presidente, a deputada federal Amália Barros, do Mato Grosso, Michelle pediu-lhe. Pediu-lhe, não! Insistiu que ela retirasse a sua prótese ocular, antes que lhe passasse o microfone.

“Eu amo vê-la sem prótese, gente. Eu sei que seu trabalho é esse, amiga, mas tira!”. A deputada retirou o globo do olho de vidro e deu-o a Michelle, que colocou-o em seu bolso.

Sorrindo, a deputada afirmou: “Ela sempre faz isso, e eu ainda não aprendi a vir sem prótese”.

***

A cena não teve nada de espontâneo. É estudada e ensaiada. Há, claro, as exceções de sempre, mas em geral é uma prática antiga do ser humano: explorar a própria fraqueza como instrumento para auferir vantagens. Mesmo que seja um verdadeiro ou falso defeito físico, da própria pessoa ou de outra que lhe sirva de coadjuvante no exercício da ludibriação.

Gente assim aposta na comiseração excessiva muito comum a uma parcela do povo brasileiro. Esses caem fácil no velho golpe para despertar a compaixão alheia. Que funciona bem quando se tem de um lado um espertalhão ou uma espertalhona; do outro, alguém com um coração aparentemente transbordando de piedade pelo coitadinho ou coitadinha. No meio, uma multidão de incautos ou fanáticos movidos a mentiras, embustes, impostura, armações e produzidas fake news que inundam o zap e telegrans dos ingênuos e néscios de todo calibre.

Chamam essa prática de exploração do coitadismo. Encontramos, pela vida e pelas ruas, muita gente que cresce e faz carreira agindo como coitado. Alguns recebem com muito gosto benesses de madrinhas e padrinhos poderosos para compor a cena pública e comovedora no papel de alvo da ‘extrema bondade’ de quem lhes dá amparo e carinho supostamente desinteressados.

Isso dá certo quando é oferecida ao mesmo distinto público um ato convincente para os dóceis crédulos. E tal montagem ajuda, também, a desviar a atenção (ou atrair o perdão) para possíveis defeitos, pecados ou crimes tanto do coitado quanto de quem o acolhe.

No Brasil esse truque tem mostrado eficácia, sim. Mesmo que o candidato deficiente não tenha conteúdo para oferecer, sua exposição pública o torna competitivo. Do mesmo modo, dá resultado algum(a) mala demonstrar publicamente, repetidamente, que apoia pessoas com deficiência. Ainda que, escancaradamente, esteja apenas usando PCD para ganhar ponto e voto junto ao segmento.

Toda essa esperteza vai na mesma linha do uso recente que fizeram de uma facada mal-explicada. Aquela… Aquela que ajudou muitíssimo a fazer a diferença nas eleições de 2018. E o ‘coitado’ dessa história, pelo visto, fez escola. Dentro de casa.

É BOM ESCLARECER
O Blog do Rubão publica anúncios Google, mas não controla esses anúncios nem esses anúncios controlam o Blog do Rubão.

Uma resposta para COITADISMO BIZARRO, por José Mário Espínola

  1. Francisco Barreto escreveu:

    Extraordinária analise esta de José Mário que nos faz ter profunda vergonha de alguns ícones públicos tão reverenciados por uma grande parte de nossa rude e ignara população. Indignada vergonha desta nação, e de viver este presente com tanta desonra. O que será , o que poderão esperar do
    Brasil os nossos descendentes !