FRATURAS EXPOSTAS, por Francisco Barreto

Assim se passaram 57 anos da ditadura militar. E hoje, aos 74 anos, ainda não tive o reconhecimento de minha aposentadoria. Tudo porque a Ditadura me prendeu aos 17 anos incompletos em Abril de 64, em Janeiro de 1969; aos 21 anos incompletos, fui escorraçado da UFPB pelo AI-5 e o Decreto 477. Estava no 4º ano de Direito. Perdi inexoravelmente a minha carreira jurídica. Em seguida, fui embora para a França recomendado pelo valoroso advogado Nizi Marinheiro, advertindo-me que poderia ser preso com destino a Itamaracá. Onde a tortura campeava.

Tinha que sair do Brasil. Havia processos com prisão preventiva na 4ª Auditoria Militar. No exterior, aos 27 anos completei Graduação, Maitrise e Doutorado e retornei ao Brasil no final de 1974. Desta ultima data, até janeiro de 1980, não conseguira nenhum trabalho formal; por conseguinte, passei 10 anos sem lograr a formalidade laboral. Tentei ingressar na UFRJ/FAU, onde ensinei alguns meses. No IBAM, na SEPLAN/PR – IPEA/IPLAN, UNB, UFPE sempre fui obstaculizado pela decisão dos órgãos de segurança ligados ao SNI. Sempre trabalhei como “bóia fria político”.

Não logrei anistia porque a punição tinha sido sobre a minha vida estudantil. Na UFPB, nós éramos mais de uma centena de estudantes, professores e funcionários. Não tive a sorte do ínclito cidadão Luís Inácio da Silva, que por militância sindical obteve anistia e uma bem remunerada aposentadoria.

A UFPB foi o algoz da minha geração, sem conceder o sagrado direito de defesa aos “crimes” dos que lutaram pela liberdade e a democracia. Muito tempo depois, em agosto de 1999, a mesma UFPB fez uma digna retratação pública de sua perseguição política. Apaziguou as nossas dores, mas não impediu que as fraturas continuassem expostas.

Em 1997, por concurso público, finalmente ingressei formalmente nos quadros docentes da UFPB, Campus de Campina Grande. Vinte e oito anos depois depois. Graças à justiça que foi me atribuída pela UFCG e a inúmeros companheiros do Centro de Humanidades, foi decretada o fim da minha diáspora laboral. Hoje, continuo na luta na tentativa de lograr a minha aposentadoria. Quando finalmente conquistar o direito, já terei possivelmente perdido vários benefícios que já não mais me serão concedidos.

No ocaso da minha vida, olhando para o passado, vejo com clareza os malefícios do autoritarismo que se serviu da submissão ditatorial da UFPB no período de Guilhardo Martins. Tenho com precisão e clareza que não havíamos errado, quem errara fora a UFPB, logo ela, uma instituição pública que sempre deveria ter sido depositária da propugnação dos conhecimentos, do respeito à liberdade de expressão, do culto à dignidade e aos Direitos Humanos.

Se tivesse que recomeçar, recomeçaria. Não me arrependo de nada, apesar dos sofrimentos que me foram impostos. Faria exatamente o mesmo caminho na minha vida pública. O escuso e deletério clamor, aqui e agora, pela volta da Ditadura, revela a brutalidade que pode ainda imperar, por iniciativa de frações da inconsciência nacional.

Longe, muito longe da minha capacidade de luta na juventude, apenas e tão somente permanecerei de pé enfileirado na defesa acreditando que os nossos caminhos não podem prescindir da fé nos ideais da liberdade, da democracia e dos direitos humanos nesta combalida Nação.

2 Respostas para FRATURAS EXPOSTAS, por Francisco Barreto

  1. Há 500 anos somos o que somos: A Lixeira do Capitalismo, o Esgoto onde as leis são atiradas para que apodreçam e a sobrevida da escravatura. Durante uma década um filho do povo, Lula, nos fez saborear alguns petiscos de nação, daí o ódio sobre ele.

  2. Como Barreto existem hoje milhares de injustiçados intensamente prejudicados pela ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964, a qual querem resgatar atualmente.
    Mas não passarão!

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