BOLSONARO HUMILHA MOURÃO por Rubens Pinto Lyra

Tem gente que só sente a brasa quando ela entranha nas profundezas da carne (Chico Buarque, em ‘A Fazenda)

Certamente não se trata apenas de caneladas, no sentido de golpes desferidos a esmo, praticados por impulsos, sem predeterminação. Estamos em presença de uma estratégia deliberadamente disruptiva, agressiva, que visa manter a imagem de alguém fora do “sistema”, sincero, portador de uma radicalidade necessária à construção de uma nova ordem política, escoimada do comportamento”tradicional” dos políticos, supostamente incapaz de assumir posições mudancistas.

Agressiva não apenas na forma, mas também no conteúdo, o que propicia uma espécie de catarse àqueles que sentem necessidade de um novo estilo, pretensamente contraposto à “velha política”. De quebra, essa estratégia põe em segundo plano a percepção do conteúdo de posicionamentos eivados de autoritarismo, em favor do barulho resultante do rancor e do destempero, absolutamente inéditos em autoridades de primeiro escalão em uma República democrática.

A inacreditável declaração de Bolsonaro sobre a escolha do seu candidato à Vice-Presidente, nas recentes eleições presidenciais, ilustra exemplarmente o que destacamos acima. Nela, o capitão reformado afirma que se arrependeu de ter escolhido “esse Mourão aí”, e não o “príncipe” Deputado Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, em relação a quem se derramou em elogios.

Essa declaração é reveladora de uma estratégia de quem alimenta, diuturnamente, dissensões internas, posição crescentemente subalterna dos militares no seu governo, cada dia mais personalista, além da absoluta falta de ética na forma como é tratado – de forma humilhante – o Vice-Presidente Mourão, general de Exército e segunda autoridade da República.

Mais inquietante ainda, porém, é o fato de que nem a mídia nem os partidos nem entidades da sociedade civil tenham ressaltado o mais grave: a identificação ideológica e política de Bolsonaro com um monarquista – o “príncipe” acima referido – que declarou considerar a escravidão ligada à própria natureza humana! Temos aqui o mais inquestionável exemplo de ultra-conservadorismo e de concepção retrógrada sobre a sociedade e a escravidão.

Por contraste, existe praticamente uma unanimidade nas ciências sociais – e mesmo na percepção do “senso comum” atual – de que a escravidão nada tem de natural, sendo, ao contrário, produto das relações sociais. Não poderia haver maior justificativa para a extrema desigualdade social do que a formulada pelo “príncipe” – com toda probabilidade, compartilhada pelo seu mais insigne admirador (e também escravista?): Bolsonaro.

Outra incrível manifestação do extremismo presidencial foi a negativa de assinar o diploma referente ao maior reconhecimento literário da língua portuguesa, instituído pelos governos brasileiro e português: o Prêmio Luís de Camões, conferido à figura impar do escritor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Comportamento totalmente diverso do adotado pelos presidentes Lula e Temer que, anteriormente, avalizaram o diploma em questão, a despeito dos escritores contemplados serem notórios críticos de seus governos.

  • Doutor em Ciência Política e Direito Público, Rubens Pinto Lyra é Professor Emérito da UFPB
  • Foto que ilustra o artigo foi copiada de 3.bp.blogspot.com

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