Juarez Félix e os cérebros movidos a nicotina

Juarez Félix, memorável editor de ‘Polícia’ de O Norte nos 70, aparentava muito mais idade que seus presumíveis 50 e pouco. Baixinho, magrinho, cabecinha branca, sua aparência tinha um quê de alguém castigado por bebida, excessos no cigarro ou as duas coisas juntas.

Como fumava o velho Jura! Ele e a ‘torcida’. Praticamente todos fumavam na Redação, ambiente fechado onde a fumaça deixava na roupa de todos e de cada um cheiro de rolo de fumo. Semelhante àquele à disposição do meu olfato de criança quando passava na calçada do ‘Armazém de Mozart’, na Rua do Canal, em Bananeiras.

Rapidinho… O armazém a que me refiro pertencia a Mozart Bezerra, ex-prefeito de Bananeiras, filho de Major Augusto e irmão de Doutor Clóvis, médico que entre as décadas de 50 e 80 do século passado foi a maior expressão política de Bananeiras, como deputado, presidente de Assembleia, vice-governador e governador. Já o velho Mozart, plantava, processava e vendia fumo de rolo para todo o Brejo da Paraíba.

Voltando ao fumante Juarez Félix… Mais um detalhe: ele praticamente não usava cinzeiro, pois enquanto ajeitava os textos dos repórteres Marconi Edson (Chapéu de Couro) e Zé de Souza, mantinha cigarro preso aos lábios praticamente até o fim. Ou até que o tubo de cinza formado para além da brasa se aproximasse do filtro, se filtro houvesse.

Dependia muito do fornecedor, ou seja, de quem lhe dava o que fumar. Juarez pedia e conseguia quase todo cigarro que fumava. Com ou sem filtro, não importava. Poderia ser um Continental (sem) ou um Hollywood (com). Importava, pelo menos para mim, observar e aguardar o momento de a cinza alongada derramar-se na camisa dele, sem que ele desse fé.

Quando notava, ato contínuo cuidava de acender o próximo cigarro, aproveitando o toco ainda aceso daquele que acabara de lhe preencher os pulmões e o cérebro, pois jornalista movido a nicotina – também fui da espécie – dependia daquele veneno para produzir algum texto aproveitável.

De muito pouca conversa, pelo menos com os colegas de Redação, Juarez me impressionava também pela tristeza que o seu semblante sugeria. Talvez enfrentasse dificuldades incontornáveis, tanto de saúde como de mantença própria ou dos seus, que ninguém sabia se os tinha ou não.

Assim como todo jornalista de batente do nosso tempo, o ganho era pouco, muito pouco, pouquíssimo. No caso de Juarez, o seu pouco deveria dar para bem menos. Em razão até mesmo da singularidade de sua situação aparente.

Suponho até hoje que vivia em estado de relativa penúria, denotada pela invariável vestimenta com que se apresentava para trabalhar todo santo dia: calça caqui e camisa de tecido de um amarelo claro que denunciava uma brancura de origem.

Nada disso autorizava, contudo, qualquer um inferir que se tratava de pessoa mal cuidada, desleixada. A camisa trazia sempre ensacada, com a ajuda de um cinturão que lhe garantia manter a calça presa à cintura. Além disso, jamais o vi com a barba por fazer ou senti algum odor que sugerisse falta de higiene. E digo isso com a autoridade de quem trabalhava na mesa ao lado, quase colada à dele.

Conto mais sobre Juarez amanhã, dessa vez relatando um pouco sobre como ele conseguia encher uma página inteira de crimes, ‘dramas e comédias da cidade’, mesmo quando a reportagem que lhe abastecia não produzia o suficiente sequer para metade do conteúdo necessário à edição.

  • • Foto que ilustra esta matéria foi copiada do site s2.glbimg.com

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