DESABAFOS DE UMA CIDADÃ, por Babyne Gouvêa

A cidadã que vive em mim ainda tem esperanças de encontrar um Brasil de brasileiros respeitando os seus pares. Sou uma mulher que sonha em viver em um Brasil menos desigual, um Brasil cujo símbolo máximo não sejam dedos apontados para nós em forma de arma, um Brasil onde o projeto do governante seja o de salvar vidas e não o de incitar o ódio, o medo, o delírio, o preconceito, a intolerância, a mentira e tantos outros sentimentos avessos a um Estado Democrático de Direito.

Sou de um tempo em que a decência e o dever de cidadania faziam parte incondicional do caráter do homem. Tento externar a minha perplexidade diante da mudança de valores na nossa sociedade, onde a esperteza vence a dignidade. Eu me pergunto que gente é essa que vemos nos governos? Que gente é essa que passou por universidades e se comporta como desumanos? Houve uma inversão de princípios, passados às novas gerações, que levianamente se comportam como se não vivessem numa comunidade civilizada.

Em nenhum momento o presidente assumiu a liderança de ações que pudessem reduzir o impacto inevitável causado pela doença Covid, na população e nas consequências econômicas. Negou a ciência, a lógica e estimulou o caos da ignorância, colaborando para a perda de mais de 260 mil vidas, além de contribuir para o país se tornar uma ameaça à humanidade.

Por outro lado, temos a violência fazendo parte do nosso cotidiano, sendo vista como algo ‘natural’ e o salve-se quem puder tomando proporções indomáveis, totalmente sem controle. E como é triste ver gente cultivando o sentimento de ódio e aversão ao semelhante, numa perversão sem precedentes, sendo estimulada à compra de armas por iniciativas do seu comandante.

Não, a esse caos não podemos assistir inertes; devemos, pelo menos, nos indignarmos. Vivemos um daqueles momentos da História em que pensar profundamente o presente é o único caminho para vencermos a passividade e caminharmos para construir um futuro socialmente justo e verdadeiramente democrático.

  • Babyne Gouvêa é Biblioteconomista