PRESENTE DE GREGO, por Frutuoso Chaves

A cavalo dado não se olha as pernas? (Divulgação/MME e Reprodução/Paulo Pimenta)

Eu até aceito o termo. Afinal de contas, é coisa incorporada ao longo dos séculos à memória da humanidade. Significa um mimo, um agrado capaz de prejudicar quem o receba.

Mas, perdoem-me os crédulos, nunca fui muito de confiar naquele Homero. Ô camaradinha para inventar histórias. Já fazia isso antes, muito antes, quase mil e duzentos anos antes de nascer aquele que Pôncio Pilatos mandaria para a cruz.

O crucificado, coitadinho, veio ao mundo em defesa dos pobres de Jó. E a plebe ignara, besta quadrada, imbecil à quintessência, a insultar o homem que poderia salvá-la: “Maltrapilho, comunista (alusão à doutrina da comunhão e não ao velho Karl Marx), filho de manjedoura… Vai para a Galileia”. E Barrabás se safou.

Mas essa é outra história. O tema aqui tratado é o do cavalo oco, o presente de grego aos troianos. Homero até que desperta o interesse pela conversa ao revelar como Odisseu imaginou o recheio daquela coisa gigantesca: um pequeno grupo de guerreiros encarregados de sair do bicho, noite alta, a fim de abrir o portão de Tróia para a invasão inimiga, pondo fim a uma guerra que já durava dez anos.

Admito a genialidade desse golpe. Mas, pensando bem, para que diabo serviria um cavalão de madeira ofertado à turma de Páris, o raptor de Helena, mulher de Menelau, este último amigo de Agamenon, Odisseu e de Aquiles? Bons amigos, sem dúvida, porquanto dispostos a dez anos de briga, com perda de soldados e dinheiro, para o resgate da mulher do outro.

Também aceito uma aliança a esse ponto, ao considerar a possibilidade do rateio dos despojos troianos entre os aliados. Faz sentido.

O que não faz é a proteção de uma deusa ao raptor. Afrodite não chegaria a tanto. Nem acho que possa ter existido outra deusa descuidada a ponto de esquecer de banhar os calcanhares do filho em águas mágicas, como assim teria feito Tétis, mãe do pobre Aquiles, um herói com pés de barro e, por conta disso, morto com uma flechada, exatamente, onde poderia ser ferido.

Um doido, aquele Homero. Mas pode-se dar-lhe algum desconto. Teria assim escrito por ouvir falar, uns 400 anos depois do ocorrido. Afinal, quem conta um conto aumenta um ponto, como diria a minha avó Amélia e as avós de muitos de vocês. Pela mesma razão, é preciso desculpar Virgílio, outro poeta a tratar do tal cavalo, séculos depois do primeiro.

Renovo o apelo ao perdão dos crédulos, mas eu prefiro mesmo é apostar na veracidade de um cavalo oco e sua carga de R$ 16,5 milhões atualmente despachado da Arábia Saudita. Esta, sim, é história bem contada, pois documentada com fotos, áudios e vídeos, ferramentas das quais, evidentemente, não dispunham os povos antigos.

Sabemos do nosso Páris. Mas quem seria a nossa Helena? Os adversários do moço asseguram que tem nome de homem: chama-se Landulpho e habita a Bahia.

Neste caso, o presente, ao invés de pôr fim a uma guerra, celebraria a venda de uma refinaria pela metade do preço. Será? Seja como for, é a história que acompanharemos em breves e emocionantes capítulos.

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