A GERINGONÇA PORTUGUESA, por Rubens Pinto Lyra

Geringonça: vitrine do socialismo europeu (Foto: Geringonça.com/365Forte)

Em contraste com o que ocorre em Portugal, as esquerdas brasileiras dão espantosos sinais de indigência política no que diz respeito à sua capacidade de promover a necessária unidade, que tornaria possível a elaboração de estratégias e propostas alternativas às políticas de extrema-direita do governo Bolsonaro.

Em lugar de se dedicar a essa urgente tarefa, o principal líder do PDT, Ciro Gomes, ocupa-se precisamente do contrário: busca isolar o PT . Este, por sua vez, não teme perder o que resta de sua credibilidade, recusando-se a fazer indispensável autocrítica, afundando-se no apoio ao regime autoritário e falido de Nicolás Maduro.

Já em Portugal, nas eleições de 2015 o Partido Socialista (PS) perdeu, isoladamente, para a agremiação majoritária da direita, o Partido Social Democrático (PDS), tudo fazendo crer que iria permanecer na oposição. Tanto é assim que a coalizão partidária que levou nesse ano o PS ao poder, com o apoio crítico do Bloco das Esquerdas, do Partido Comunista Português (PCP) e do Partido Verde, foi chamada pejorativamente – enquanto não demonstrou sua viabilidade – de “Geringonça”. Essa coalizão persiste até hoje!

Sua denominação tornou-se motivo de orgulho para os que compõem o atual governo, que vê as suas políticas aprovadas pela maioria dos portugueses. Situados à esquerda do PS, o apoio do Bloco, do PCP e do PV a um governo minoritário, sem, todavia, fazer parte dele, viabilizou a investidura e garante a permanência dos socialistas no poder.

Tão distantes estão as esquerdas do Brasil dessa demonstração inteligente de unidade que muitos dirigentes e políticos tupiniquins devem até se deslembrar da existência do significado do conceito de apoio crítico. Em Portugal, esse apoio se traduziu na ascensão de um governo socialista cujas políticas nem sempre recebem o endosso dos partidos à sua esquerda, mas se tornou possível com base num acordo sobre aspectos econômicos e sociais considerados prioritários, objetivando evitar mal maior: a manutenção do governo de centro-direita, de forte orientação neoliberal.

Alguns dos compromissos assumidos traduzem a defesa do Estado Social e dos direitos dos trabalhadores, especialmente mediante a recuperação do poder aquisitivo dos salários; a cessação das privatizações, com reversão de algumas já consumadas e na reintrodução de jornada semanal de 35 horas no serviço público, investindo-se mais na qualidade do trabalho.

Tão importantes quanto os resultados já obtidos são, talvez, os sub-produtos resultantes dessa inédita conjunção de forças de esquerda. Primeiramente, a participação do PCP (e demais partidos da esquerda radical) na determinação das políticas governamentais – de que estiveram desde sempre afastados – resultante do apoio crítico ao seu maior rival: o P S.

Há também o reverso da medalha: os comunistas portugueses – os mais ortodoxos da Europa – tenderão provavelmente a flexibilizar certas posições, como a oposição irredutível à construção européia, visto darem sustentação política a um governo que lhe é ardentemente favorável.

Com relação ao PS, o apoio parlamentar de partidos à sua esquerda o afastou das alianças políticas com o centro-direita, restabelecendo a sua credibilidade como opositor das políticas neoliberais.

Ressalte-se, finalmente, o efeito pedagógico e multiplicador em potencial dessa coalizão sui generis das esquerdas portuguesas, em que pese o fato de os socialistas brasileiros não terem, até agora, manifestado interesse por essa experiência . Parafraseando o cônsul romano Marco Túlio Cícero, “até quando abusarão de nossa paciência?”.

Torçamos para que esse comportamento omisso não comprometa as chances de uma alternativa democrático-popular no país.

  • Rubens Pinto Lyra é Doutor em Direito Público e Ciência Política, Professor Emérito da UFPB
  • Contato: rubelyra@uol.com.br

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