A NOTÍCIA QUE NÃO QUER CALAR, por Alexandre Luna Freire

O jornalista João Manoel morreu no último dia 8, em João Pessoa, aos 87 anos (foto copiada do site de Sony Lacerda)

É aquela mais difícil. E só quem sabe é quem faz o último título. Da primeira à última página. Do diário, matutino ou vespertino, revista ou suplemento, até a última hora de fechamento, do colocar em circulação. A redação em polvorosa para encontrar a melhor chamada.

A que será a primeira na competição para encartar o destaque na Ronda das Ruas. O que faz a notícia exceder os retardatários das madrugadas ou do fim-de-semana. Se em vídeo ou fonográfica o que desperta o leitor ou ouvinte mais perspicaz. A comoção não esperada.

Os títulos que os publicitários mineram para dizer tudo em segundos.

No Jornal Contraponto tornou-se a própria legenda: “Mestre, quais são as novas?” Era sempre assim indagando aos companheiros quando percebíamos que estava ciente da pauta e das legendas ou do que é preciso e é sintético.

A devoção ao jornalismo foi o seu destaque. O espírito popular, o sonho e sua alma.

A Alma deixou impressa principalmente nas duas últimas décadas coroando o exímio redator e o faro de repórter. Não dirigia, liderava. As notícias iam até a ele. E a nova edição diária recomeçava.

Fechou as portas há algum tempo o semanário pelas mesmas causas materiais que atingem as editoras e os livros. O seu legado passa a referencial do último jornalismo clássico.

Não tínhamos convívio semanal. A permanência era na convivência de suas páginas ainda atuais no mundo da notícia. Sabem isso quem publicou no Jornal Contraponto onde o Dr. João Manoel de Carvalho legendou sua trajetória longa e pertinaz.

Ficamos a recordar como era bom publicar o que escrevíamos e a falta do jornal para ler na rede. A rede onde dormimos ou líamos se não estivéssemos no sofá.

  • Alexandre Luna Freire é escritor e membro da Academia Paraibana de Letras

ANTES DO PERFUME, por Ana Lia Almeida

Manifestação Ni Una a Menos no vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, em 8 de março de 2017 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

As perfumarias anunciam, com suas promoções, o Dia da Mulher. Que bom! É o dia em que muitos se esquecem de que somos vendidas o tempo todo como produtos e se esforçam em vender produtos para nós.

Estão lá, na novela e no programa do domingo, as moças bonitas que levantam a audiência com seus corpos nus. Estão também na propaganda da cerveja, tentando nos exigir que bebamos à vontade sem ter nenhuma barriguinha. Já as com cara de certinha estão vendendo cuscuz e máquinas de lavar roupa, ótimas donas de casa. Todas absolutamente transformadas em coisas, assujeitadas.

Os produtores e consumidores destas mulheres negam a história do Oito de Março. Há cento e cinqüenta e três anos, operárias americanas da indústria têxtil organizaram uma paralisação exigindo redução da jornada de trabalho de dezesseis para dez horas. Resultado: morreram carbonizadas por seus patrões, que simplesmente fecharam a fábrica e atearam fogo, em represália aos protestos.

Em reconhecimento à luta contra a opressão que estas mulheres vivenciavam, e que nós ainda vivenciamos em todas as esferas da vida além da do trabalho, foi criado o Dia Internacional da Mulher. Não é um dia bonitinho, feito para se ganhar um perfume. É uma data de muita luta, ainda que essa perspectiva às vezes pareça distante.

Isso porque a condição de ser feminista não é tão natural quanto a condição de ser mulher. Exige a percepção das relações desiguais e injustas travadas entre homens e mulheres, e a vontade de construir outra história. Sou feminista porque desde criança lembro de me indignar com a divisão das tarefas domésticas. Porque sou solidária com as mulheres violentadas pelos homens de sua família. Porque tenho uma filha a quem ensinarei a ser feminista também. Sou feminista porque quero um mundo melhor e tenho “a estranha mania de ter fé na vida”.

Antes das flores, do perfume ou do presente qualquer que você receba ou dê neste 8 de Março, pense no significado político deste dia. Pense nas suas relações dentro de casa, em que medida você anda lavando os pratos e decidindo os rumos da sua família. Pense no seu trabalho, como as mulheres são tratadas e que cargos ocupam. Pense no esforço quase sobre-humano de ser mãe, e como as funções que esse papel acarreta podem ser compartilhadas.

Só então passe o seu melhor perfume, companheira, e vá para a rua protestar por um mundo com igualdade de gênero.

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Publicado originalmente em março de 2010 no jornal Contraponto