BEIJO MATREIRO, por Babyne Gouvêa

Imagem meramente ilustrativa

Acordou com uma vontade danada de beijar. Julita era assim, cheia de manias. E esses desejos surgiam após acordar pela manhã. Eram os sonhos, dizia ela.

Pensou, meio cabreira, se valeria à pena pedir o beijo àquele com quem sonhou. Tomou o café matinal maquinando o que deveria fazer para resgatar o melhor beijo que tinha recebido até então. O cara já estava casado, mas isso não vinha ao caso. Ele era chegado a um beijo qualquer que fosse a circunstância. Julita o conhecia de longas datas.

A compulsiva exigia higiene bucal do parceiro, corria léguas de distância de mau hálito. Sentia atração pelo cheiro de uma boca cheirosa. Para ela, fazia toda a diferença no beijo.

Optava por um sorriso completo. Segundo ela era um sorriso com os principais dentes intactos. Muita exigência para uma mulher considerada balzaquiana.

Deixaria claro que o beijo serviria para concretizar um sonho; não iria além disso. Os “sonhos”, alegava, eram obsessões compulsivas não tratadas. Mas seguia adiante como dona do seu nariz. Ninguém tinha nada a ver com a sua vida e suas manias.

Não conseguiu convencer o personagem do sonho, velho conhecedor de suas matreirices. Saiu, então, à procura de outro na sua seleta lista de candidatos.

Pedia a Deus para que os seus desejos não fossem frustrados. Julita era seletiva, sabia direcionar as suas impertinências. Por se sentir esperta achava fácil enganar os pretensos com um hálito artificial, manipulado na hora do beijo. Mas essa maquiagem burlava apenas os ingênuos.

Resolveu insistir naquela boca do sonho e foi à igreja apelar aos santos. Súplicas ao seu protetor surtiram efeito contrário às suas ambições, ao ouvir uma voz surpreendente: “Moça, cumpriu a penitência?”. Era o padre que atendia Julita no confessionário auricular, lembrando a higiene bucal.