UM CUBANO FEZ O BRASIL CHORAR, por Frutuoso Chaves

Amilton Fernandes (1919-1968), o dr. Albertinho Limonta, e Isaura Bruno (1916-1977), a Mamãe Dolores (imagem copiada de museudatv.com.br)

Fez, mesmo, acredite. E é bem possível que também tenha levado sua avó às lágrimas. Na verdade, o moço, em seus bons tempos, abalou o coração de tudo o que era mãe e avó neste País de dimensões continentais.

Já passou dos 50? Então, não deu outra: mesmo que você ainda não houvesse nascido, sua mãe e a mãe dela suspiravam de dor e emoção, cinco dias por semana, da segunda à sexta-feira, logo depois de cada pôr do sol.

E, creia, seu pai não gostava nada disso. Tiro pelo meu. Lembro dele a esbravejar pelos cantos da casa, a ponto de chutar as paredes. “Essa janta sai, ou não sai?”, perguntava meu velho para obter silêncio por resposta. Aquelas duas, em tais ocasiões, somente tinham ouvidos para as tramas do cubano.

Conhece alguma Isabel Cristina? Uma Maria Helena, porventura? Pois é… culpa do cubano. Foi ele quem as pôs nesse mundão de Deus. De 1950 a 1951, por meses a fio, as nossas, ou as irmãs dos nossos amigos, foram à pia batismal com nomes assim dobrados, em homenagem você sabe a quem.

Mas, afinal, quem era esse sujeito e o que fazia para o envolvimento da mulherada? Pois bem, chamava-se Félix Caignet e escreveu “O Direito de Nascer”, a novela irradiada em países sucessivos. No Brasil, foi inicialmente posta no ar pela Rádio Nacional, com tradução de Eurico Silva.

O elenco reunia nomes de peso a exemplo de Paulo Gracindo, Saint Clair Lopes, Isis de Oliveira, Yara Sales, Dulce Martins, Talita Miranda e Darcy Cazarré. Conta-se que Eurico Silva foi além da mera tradução, porquanto inseriu no enredo original personagens novos e histórias paralelas.

O mais retumbante sucesso da radiofonia brasileira tinha capítulos de quase meia hora, se somado o tempo dos comerciais apresentados na abertura e no encerramento de cada um deles.

Um narrador de voz aveludada (Nélio Pinheiro) conduzia a trama e a ela dava a carga de emoção da qual resultava o pranto invariável das donas de casa, de suas mães e filhas desde que tivessem, estas últimas, idade suficiente para o namoro e as paixões.

A Rádio Nacional, sediada no Rio de Janeiro, entrava com som de boa qualidade em quase todos os pontos do País. Em cima de mesinhas dispostas, orgulhosamente, nas salas de visita, os aparelhos de rádio traziam as marcas Philips, RCA Victor, Philco, ou Pilot, as mais famosas. Com o advento dos transistores, passaram a tomar o apelido “bunda quente”, alusão às válvulas sempre incandescentes, de tamanhos diversos.

“O Direito de Nascer” contava a saga de Maria Helena, uma mãe solteira na sociedade preconceituosa. Para piorar as coisas, a moça engravidara de um homem casado, um cafajeste por quem fora enganada. Seu pai, Dom Rafael, que rejeitava o neto, só não o matou porque a empregada da família, a negra Mamãe Dolores, cuidou de esconder e criar o menino. Maria Helena, amargurada, interna-se num convento.

Sob a proteção de Mamãe Dolores, o pirralho cresce com o nome de Albertinho Limonta, entra na faculdade e termina Medicina. Tempo depois, desconhecedor da própria história, salva a vida de Dom Rafael, vitimado por um derrame cerebral. Paralítico, o velho percebe-se, finalmente, avô de Albertinho, sem nada poder contar, muito embora arrependido, em razão de também haver perdido a fala.

Albertinho apaixona-se pela prima, Isabel Cristina. Amor correspondido, é claro. Lágrimas de encher açude até o dia em que, do alto do seu convento, Sóror Helena da Caridade descobre-se mãe daquele moço. E todos foram felizes para sempre. Não é assim que se diz?

Ah, sim… O mesmo enredo chegaria à televisão em duas versões. Em meados da década de 1964, pelos sinais da finada Tupi. Depois, em 1978, sem o mesmo sucesso, evidentemente, dado o sabor de filme já visto. Seja como for, depois de “O Direito de Nascer” o Brasil nunca mais foi o mesmo. Virou o País das novelas. Culpa de quem? Você adivinhou: do cubano.

RUMO DO TEMPO, por Babyne Gouvêa

Imagem copiada de Aliança Traduções

“Oh que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”.

Minha mãe costumava recitar esta estrofe do poema ‘Meus Oito Anos’, do ilustre romancista brasileiro Casimiro de Abreu. Quando menina não entendia muito bem o quanto significava para ela os versos do notável poeta.

Anos se passaram, o poema se tornou de domínio público e o saudosismo transferido para mim, hoje na maturidade. Saudade um tanto diferente da materna. Saudade de uma época em que podíamos colocar cadeiras nas calçadas para conversas com a vizinhança, de poder andar pelas ruas sem medo de ser abordado, de um cumprimento atencioso, de relacionamentos respeitosos e tantos outros modi vivendi de outrora.

Alguém poderá contra-argumentar e citar as facilidades tecnológicas gerando formas de poder como um dos motivos para atenuar saudades. Da minha parte lanço a réplica e justifico as lamentações no aspecto moral. Não é nada agradável tomar conhecimento de fraudes na compra de alimentos para famílias carentes – este é apenas um entre tantos exemplos.

Percebia menos dissabores na época dos ‘ladrões de galinha’. Inexistia Internet, mas a decência fazia parte inconteste do caráter do cidadão. Houve mudanças nos preceitos da nossa sociedade – a esperteza em substituição à dignidade. Clara indicação de uma inversão de princípios, passados às novas gerações.

Situação de indecência social sem precedentes está se consolidando. Esse quadro assombra os honrados. Acompanhar atentamente os trâmites das mudanças de comportamento se faz necessário para o bem coletivo.

Violência no nosso cotidiano passou a ser banalizada e vista como algo natural. A população com indigência moral, num patamar doentio, me faz interrogar em que trecho do rumo do tempo desviamos a poesia.

Presumo, enfim, que o tempo pode ditar o seu próprio ritmo mas não deve traçar sozinho o seu rumo.