AS PREGAS DE QUELÉ, por Frutuoso Chaves

Antiga Casa dos Leões na Praça Siqueira Campos, Crato-CE (foto copiada de ‘O Crato de Antigamente’, de Armando Lopes Rafael, no Blog do Antônio Morais)

Num desses passeios costumeiros pelas trilhas da Internet pus as vistas em resenha antiga do livro “Narrativas Orais no Bairro Vermelho”, uma coletânea de ditos populares organizada pela historiadora Ana Rosa Dias Borges. E ali descobri a origem da expressão “As pregas de Quelé”. Com edição aprovada em edital do MEC e, portanto, com o selo da Funarte, a obra trata, em meio a outros temas, de um dos bairros mais antigos do Crato, município cearense.

Seu Quelé, homem negro, pintor de parede e servente de pedreiro, trajava, fora do trabalho, roupa de linho branco engomada a capricho e com a qual tinha cuidados extremos. Cuidava, por todos os meios, de não amassar aqueles vincos, o que era inevitável dada a necessidade de sentar e levantar, ato imperioso a qualquer ser humano.

Na minha e, certamente, em todas as infâncias desta nação chamada Nordeste, tinham as pregas de Quelé aquelas e aqueles metidos a besta, gente de nariz empinado, afetada, com ar de nobreza. Quem não conheceu tipos assim? E quem não os conhece, hoje em dia, porquanto o deslumbramento e a afetação desse gênero atravessam os séculos?

Seu Quelé e suas pregas advêm de princípios de 1950, informação que me trouxe a resenha do livro surgido da coleta de causos, expressões e ditos por jovens moradores do bairro cratense, a mão de obra inicial de que se valeu Ana Rosa.

Até essa leitura, eu e minha estupidez atribuíamos outro significado ao dito popular. Quelé, nome cuja terminação não permite identificação de gênero, poderia ser homem ou mulher. Mas, em ambos os casos, teriam, ele e ela, certas pregas em comum. Não me ocorria, porém, o que, porventura, com elas houvesse acontecido. Coisa boa, certamente, não era.

Pobre do Seu Quelé. Evidentemente, não merecia o deboche. E disso não seria vítima se a vizinhança, esta sim, não supusesse que o trabalho braçal e a pobreza exigem pouca higiene, mãos sujas e vestes rotas. O defeito estava, sem qualquer dúvida, naqueles que dele se acercavam. Nos despeitados com seus bons modos e seu linho branco.

Assim, peço-lhe perdão por todas as vezes em que vi suas pregas nos presunçosos nossos de cada dia, alguns com postos badalados na literatura, outros na administração pública e outros mais na política.

Também me desculpo com aquela moça a quem, por algum tempo, atribuí o ar indevido de superioridade, a deseducação expressa em respostas sempre monossilábicas, a indisposição para encarar nos olhos o interlocutor, a recusa sumária a qualquer convite. Contaram-me que ela já somava três consultórios psiquiátricos, a fim de se livrar da timidez aguda e renitente.

E, afinal, quem sou eu para julgar alguém? Pareço, no mal sentido, as pregas de Quelé.

E TEMOS DITO, por Frutuoso Chaves

“O pior cego é aquele que não quer ver”. Mal ingresso em jornal, vi a expressão creditada ao paraibano José Américo num comentário político cuja autoria não guardei. Seria mais uma daquelas tiradas geniais atribuídas ao homem. Coisa à altura de outra citação: “Ninguém se perde na volta”.

Nova leitura, muito tempo depois, me encaminharia para outra origem do termo, desta vez com o endereço de Câmara Cascudo. O cego em questão, de nome Angel, cuja visão fora recuperada em cirurgia feita na cidade francesa de Nimes, em 1647, ganharia na Justiça o direito de voltar à cegueira, decepcionado que estava com as cores e as coisas do mundo.

Agora mesmo, ponho meus olhos de catarata em texto contendo explicações para outros ditos populares. A coisa começa com o famoso Amigo da Onça. O caçador mentiroso contava que, desarmado, havia espantado a bicha com um grito. Ao ouvinte que então debochava de sua história ele perguntou: “Você é meu amigo, ou amigo da onça?”.

O “Maria vai com as outras” adviria do tempo de D. Maria I, a rainha louca. E de seus passeios a pé sob escolta de numerosas damas de companhia. E sabe onde Judas perdeu as botas? No lugar ermo onde se enforcou e de onde também desapareceram os 30 dinheiros que tinha na bolsa. As tais moedas, há quem diga, nunca voltaram para Roma, nem as botas para o defunto.

“Comer com os olhos” era o que restava aos comensais dos banquetes oferecidos aos deuses, na Roma Antiga. A ninguém era permitido, nessas ocasiões, tocar na comida.

No tempo das carroças e dos cavalos, a determinação para alguém “tirar o cavalinho da chuva” reforçava o convite à permanência. O animal iria para lugar coberto porque a conversa com os donos da casa seria demorada, ao contrário do que pensasse o visitante apressado. O termo é, hoje, a expressão do contraditório: esqueça, de jeito nenhum.

Originalmente, não se faziam ouvidos de mercador e, sim, de marcador, o cara que nos escravos aplicava ferro em brasa insensível aos gritos dos desgraçados.

“Queimar as pestanas” advém dos tempos anteriores ao aparecimento da lâmpada elétrica quando a leitura noturna requeria a vela próxima dos olhos.

Se você fosse o governante que naqueles idos não mandava nem em Chipre nem em Jerusalém, você seria o Duque Emanuele Filiberto de Savoia, o Testa de Ferro.

“Jurar de pés juntos”. Deus nos livre. Isso vem dos pés atados pela Santa Inquisição. Vem do óleo quente no lombo de seres humanos e gatos de bruxos assim também pingados.

“Pensando na morte da bezerra?”. Então, você está como o filho menor de Absalão, o hebreu que à falta de outros animais sacrificou para Deus a bezerrinha do garoto. Este último, a partir de então, postava-se triste e pesaroso ao lado do altar das oferendas.

Coitada de Joana, a Rainha de Nápoles, a condessa de Provença, aquela que libertou os prostíbulos de Avignon. Cada bordel daqueles, depois disso, passou a ser tomado como Casa da Mãe Joana.

E nem queira saber dos inícios do termo “afogar o ganso”. Era ganso mesmo. O bicho tinha a cabeça afundada na água para ampliação do prazer que certos degenerados sentiam com seus espasmos. Pois é, nem sempre é pura e bela a origem das expressões nossas de cada dia.