NÃO MERECEMOS SER CONFUNDIDOS, por Francisco Jácome Sarmento

Cercas de arame farpado dominam o entorno da Estação Ciência

O que uma cidade que não cuida de seu patrimônio histórico e natural diz de seus habitantes? Em tese, desprezando-se a heterogeneidade de visões individuais, se o poder público responsável tiver sido eleito de forma democrática, leia-se, sem vícios, o desprezo pela história e pela cultura local estará tão somente espelhando a mentalidade majoritária dos eleitores que escolheram tais representantes.

Outra situação hipotética é quando, no processo democrático, prevalece o interesse de uma minoria abastada, prevalência essa viabilizada pela conversão do poder político em mera correia de transmissão do poder econômico. Nesse caso, a essência da democracia é liquidada. Como se não bastassem todas as consequências de governos eleitos por vias tortas, são os habitantes locais que podem levar a má fama de pouco civilizados, ao tolerarem o abandono daquilo que a natureza e séculos de história os concederam.

João Pessoa, capital da Paraíba, é a cidade que abriga uma referência geográfica mundialmente reconhecida como “O Ponto Mais Oriental das Américas”. Historicamente, o tratamento dispensado pelo poder público à Ponta do Seixas e seu exuberante entorno natural não condiz em nada com o valor simbólico e cultural abrigado nesse reconhecimento.

Na chamada “capital de todos os paraibanos”, habitam inúmeros amigos de um verde já credenciado como marca indelével de nossa urbanidade. Não se pode atribuir à população de João Pessoa a falta de compromisso com o meio ambiente, muito menos macular a imagem da cidade perante o resto do mundo com o passivo acumulado por décadas, gerado pela falta de visão estratégica na promoção do turismo e do desenvolvimento econômico sustentável, exigíveis de órgãos públicos que têm o planejamento multisetorial e o meio ambiente como focos administrativos.

Enquanto marco simbólico, cultural e ambiental importante para o Brasil e o mundo, o ambiente natural de inserção da Ponta do Seixas clama por providências que, mesmo não demandantes de grandes obras de infraestrutura, esbarra em interesses que têm prevalecido ao longo do tempo, para prejuízo do interesse maior da coletividade.

Há quase uma década, foi apresentado à Prefeitura Municipal de João Pessoa a ideia de converter parte da área de entorno da Estação Ciência em um parque arborizado com espécies nativas da Mata Atlântica e dotado de toda infraestrutura necessária para que pedestres e ciclistas, turistas e moradores da cidade, já a partir da subida da ladeira do Cabo Branco (fim da avenida homônima), pudessem desfrutar daquele espaço.

Além de a iniciativa permanecer no plano das ideias, há muito o poder público fechou os olhos para a forma como a área vem sendo ocupada: da noite para o dia, surgem novas residências particulares e muros demarcadores de posse de terrenos, não raramente invasores de área pública, correspondente à faixa de domínio da rodovia existente.

Anúncios de “vende-se” se acotovelam onde cabem os letreiros, como que sabendo ser funcional o adensamento populacional (com pretensos vizinhos da obra de Oscar Niemayer) em velar o sono do poder público, cuja inércia secular banaliza uma referência cultural que, se transportável fosse, seria objeto de cobiça de toda e qualquer cidade litorânea das Américas.

O que desmotiva aplicar ao contexto ambiental do “Ponto Mais Oriental das Américas”, repita-se, marco mundialmente reconhecido, solução similar àquela que a Prefeitura de João Pessoa encontrou para a área desapropriada do Aeroclube, localizado no bairro do Bessa? Seria essa falta de motivação algo decorrente da impossibilidade de, no entorno da Estação

Ciência, serem edificados lucrativos espigões residenciais e comerciais – diga-se de passagem – acolhidos pelos impostos dos pessoenses, com arruamentos, novas vias, infraestrutura sanitária, além da área verde pública, como será o caso do parque do Aeroclube?

A criação do que à época de sua apresentação chegou-se a denominar “Parque do Extremo Oriental” demandaria dos órgãos competentes as desapropriações e, em montante menor, a implantação do paisagismo e do mobiliário urbano, apropriados a esse tipo de equipamento.

Tal iniciativa proclamaria ao mundo o respeito, o reconhecimento e a real envergadura da cultura do povo da capital paraibana, finalmente redimida da injustiça de ter sua mentalidade confundida com a de diversos mandatários, inscritos na história política da Paraíba, para quem eleitores socialmente vulneráveis nunca passaram de uma mercadoria venal, portanto, adquirível sempre que necessário à perpetuação no poder, cujas engrenagens se movem bem azeitadas quando há negócios à vista.

Note-se que a implantação de tal equipamento não depende dos ditos “projetos de engordamento” e de “estabilização da falésia”, propalados pela Prefeitura da Capital como “em fase de estudos”. Terá, sim, efeitos imediatos benéficos e mitigantes tanto dos agentes naturais como antrópicos, atuantes no processo erosivo estabelecido no contorno da falésia e na praia do Cabo Branco.

Nas matas recompostas do novo parque certamente não mais rugiriam aos turistas e visitantes as cercas de arame farpado hoje dominantes no entorno da Estação Ciência, agressivas a ponto de lembrarem uma espécie de campo de concentração, onde o trabalho do poder público não liberta, mas sim aprisiona e deixa definhar a própria beleza.

  • Fotos: Francisco Sarmento

ANTES QUE O BREJO VÁ PRO BREJO DE VEZ

Esta foto da Barragem de Canafístula, copiada do site Focando a Notícia, é de fevereiro de 2015. Ou seja, desde então medidas preventivas de colapso deveriam ter sido adotadas

Ao receber a cidadania honorária de Bananeiras na noite do 21 de abril de 2017, exortei autoridades locais presentes à solenidade na Câmara de Vereadores a formarem um consórcio intermunicipal pelo reflorestamento do Brejo.

Aproveitei a honrosa homenagem que me fizeram o então vereador Ramom Moreira e seus pares para relançar apelo por reposição vegetal da região, algo que defendo há mais de 20 anos nos espaços que me cabem ou me dão cabimento.

Na ocasião, acrescentei um alerta: sem replantar árvore nem reabrir olho d’água, o Brejo deixa de ser brejo para sempre. Porque logo mais a capoeira que resta vira deserto e até o friozinho que afortuna o turismo local vai embora, para nunca mais voltar.

Proponho o consórcio reflorestador desde quando opinava em colunas de jornal nos dois primeiros decênios deste século. Hoje, lamento a pouca receptividade àqueles escritos. Pouparia, pelo menos, a publicação desta crônica da tragédia anunciada.

Escrevo agora inspirado no lamentável e absolutamente previsível anúncio do fim da água tratada para Bananeiras e Solânea. Ainda este mês. Doravante, o povo vai ter que se virar com carro-pipa e outros arranjos de governos municipais e estadual.

O suprimento improvisado deve se estender por dois anos ou mais. Se, nesse tempo, for concluída adutora prometida pelo governador para puxar água de Campina Grande até a Grande Bananeiras, passando por Esperança e Remígio.

A catástrofe é resultado do esvaziamento de Canafístula, barragem construída em terras de Borborema. Dela as duas cidades bebiam a água que em boa parte se perdeu na evaporação, desperdício e assoreamento do rio homônimo que alimentava o manancial.

Canafístula comporta 4 milhões de metros cúbicos. No começo de maio deste ano, restavam apenas 244 m3 (6% do total). De lá pra cá, sem chuva abundante ou medidas preventivas de colapso, o volume baixou para 80 mil m3 (2 %).

Torço fervorosamente para que as excelências estaduais e locais, políticas e técnicas, compreendam que a solução para o Brejo e outras área secas do Estado vai muito além da construção de adutoras e açudes.

Um bom projeto de regeneração dos ecossistemas brejeiros, envolvendo e articulando todos os seus municípios, é capaz de atrair financiamentos de porte considerável até do exterior. Inclusive a fundo perdido, aposto.

A pauta ambiental domina o mundo rico e inteligente que sonha com um Brasil menos burro e menos destruidor do nosso patrimônio natural. Governos de nacionalidades várias abrem ligeiro o cofre para ajudar quem pode e quer salvar o planeta.

Aproveitem, senhoras e senhores do poder na Paraíba. E, se me permitem, batizem a proposta aqui proposta de Projeto Canafístula. Em homenagem póstuma à finada barragem e também como boas-vindas à árvore que leva esse nome.

Afinal, especialistas no assunto recomendam com muita ciência e convicção o plantio de canafístula para reflorestamento de áreas degradas como o nosso ameaçado Brejo.