IMPASSES ETÍLICOS, por Babyne Gouvêa

VÍDEO: Homens ficam enciumados em bar e dão início a pancadaria  generalizada em Cuiabá

Imagem meramente ilustrativa e propositadamente desfocada. Crédito: YouTube

Tudo começou quando dois companheiros de bar sentaram juntos à uma mesa para um aparente embate político. Logo chamaram a atenção de alguns presentes, que inadvertidamente tentaram interromper o diálogo manifestando opiniões divergentes e opostas às tendências ideológicas dos protagonistas.

Um deles se manifesta questionando o seu interlocutor sobre o conceito de comunismo. Sem titubear, o interpelado responde, didático, professoral:

– É um sistema econômico e político que defende uma sociedade sem classes. Nele, os meios de produção e outros bens pertencem ao governo e a produção é dividida igualmente entre todos…

– E agora, o que você me diz do capitalismo? – retruca o parceiro de mesa.

– O capitalismo tem como objetivo principal a acumulação de capital através do lucro – responde.

Surge uma terceira voz perguntando se alguém tem conhecimento de algum país que tenha efetivamente implantado um regime comunista, com sucesso ou se algum companheiro de bebida conhecia alguma nação capitalista verdadeiramente justa com os direitos dos seus concidadãos.

Sem responder, o primeiro a indagar chama o garçom e aparenta indisposição estomacal, pedindo um antiácido. Levanta-se, sai do seu assento, afastando os curiosos que estavam próximos, chamando-os de comunistas, pejorativamente, atestando intolerância ao diálogo. Um dos afastados interroga em voz alta:

– Por que agora virou lugar-comum chamar as pessoas de comunistas?

Um frequentador com o dedo em riste complementa a pergunta com um argumento inquisitivo:

– Por que defender uma sociedade igualitária desperta tanto ódio?

Mais um entra no debate. Esse, fazendo gesto de arminha com uma mão para o alto e segurando garrafa com a outra, tangencia e interpela:

– Vamos ficar isentos de pagamento de impostos na compra de berros e munição. Tem presente melhor para a população?

– Bom mesmo é no País Tupiniquim, onde o Salve-se Quem Puder é o sistema vigente – atalha um ébrio articulando palavras com dificuldade e com ares de deboche.

Surgiram novas intervenções defendendo tanto democracia quanto regime autoritário. Pandemônio no bar. Cada um argumentando em voz alta sobre a sua vertente filosófica, política, ideológica… Alguns à direita, uns à esquerda e os indefectíveis “sou de centro”.

Convocado, o gerente do estabelecimento tentou apaziguar os ânimos. Expôs a todos uma ideia supostamente sensata: não pagaria as despesas quem apresentasse proposta de governo que implementasse planos estratégicos de saúde e educação, criasse oportunidades de empregos, proporcionando mais dignidade à população e, condição sine qua non, lançasse um condutor de caráter retilíneo.

Ouvida a proposta-desafio, os exaltados circunstantes entreolharam-se e a discussão deu lugar ao silêncio. Calados, todos miraram o garçom e na direção dele dispararam o gesto universal de pedir a conta.

  • Babyne Gouvêa é Biblioteconomista