POEIRA DE OBRA, Ana Lia Almeida

Imagem meramente ilustrativa (Foto: Adriano Abreu/Tribuna do Norte)

Lá vinha Rita em pé, voltando do trabalho no ônibus lotado. Parecia que se adivinhava, os dias em que ela estava mais cansada, com as varizes mais lhe doendo as pernas, era quando o buzú vinha sem lugar nenhum pra sentar. Mesmo assim, Rita tentava cochilar no meio dos saculejos do trânsito, a cabeça encostada no braço levantado segurando na barra de apoio. Era um sono teimoso, meio aperreado, a pessoa toda hora despertando com medo de dormir de verdade e terminar desequilibrando ou então perder a parada. Foi quando começaram a espirrar ao seu lado, acordando Rita de vez.

Vá desculpando, senhora, não é covid não, viu? É a poeira lá em casa, vivo assim, espirrando, por causa de uma obra, não sabe, a reforma de um quartinho lá pra o meu menino vir morar comigo mais a esposa. A vida tá difícil, vou dar essa força para eles saírem do aluguel até as coisas melhorarem. É, minha filha, se Deus quiser, vai melhorar, sim, a gente tem de confiar nos planos D´Ele. Esse quartinho, mesmo, tantas vezes eu quis derrubar, sabe, para ver se aparecia mais um ventinho lá em casa, fazer uma área pra botar uma cadeira de balanço, umas plantas, mas nunca dava certo. Era esse plano de abrigar meu menino que já estava traçado, aguardando. Apareceu um dinheiro atrasado, das minhas férias, na hora certa, veja você. Foi pouquinha coisa pra ajeitar, só abrir uma janela, mesmo, e refazer o reboco das paredes, por causa da infiltração. Mas qualquer coisinha é gasto e poeira, né não?

Era mesmo, Rita sabia bem. Quando comprou a casinha dela, foi do mesmo jeito, tudo caindo aos pedaços, precisando arrumar. Parecia pouca coisa, mas nunca é. Seu Zeca, o pedreiro, prometeu aprontar em quinze dias. Foi para três meses. Quando o ajudante do pedreiro adoeceu, ela mesma cuidou da amarração dos tijolos junto com Seu Zeca. Aprumava o fio e assentava certinho, uma fileira sobre a outra, entrecruzada, finalizando com a massa de cimento e areia. Ela levava jeito e até gostava daquilo. Era melhor que trabalhar em casa de família, pena que não tinha muita chance, sendo mulher, de trocar um serviço pelo outro. O ruim era só o pó, mesmo, e os gastos, claro. Conforme a poeira ia subindo, o dinheiro ia se acabando. Rita já estava pensando em desistir de tudo, abandonar a obra e voltar para a casa da avó. Foi quando resolveu fazer o empréstimo e terminou dando tudo certo, depois de muito aperreio.

Atchin. Aaaaaaatchin. Ai minha nossa Senhora, me traga saúde e o fim dessa reforma. Amém. Dê licença aí para eu descer – Rita se espremeu mais um pouquinho para a mulher passar. Atchin. Vão desculpando, minha gente – ela se explicava a todo mundo no ônibus – não é covid não, é só poeira de obra, mesmo.