DEZ GUERRAS DO PARAGUAI, por José Mário Espínola

Imagem: Wikipedia

Ao longo de sua existência como nação, o Brasil sofreu poucas tragédias que provocaram mortandades tão grandes em tão pouco tempo como a que estamos vivenciando.

Nos quase seis anos de guerra contra o Paraguai (dezembro de 1864 a abril de 1870), por exemplo, o Brasil perdeu 50.000 combatentes. Foi o evento em que o país perdeu mais habitantes em intervalo de tempo relativamente curto.

Durante a Segunda Grande Guerra, o Brasil perdeu, entre militares e civis, aproximadamente dois mil patrícios. O período foi de quatro anos, desde que o governo de Getúlio Vargas, pressionado pelos Estados Unidos, declarou guerra à Alemanha, após assistir ao torpedeamento de navios brasileiros repletos de civis, com milhares de mortos.

Dizem que aqueles navios foram afundados por submarinos americanos, mas eu não acredito. Acho que não passa de teoria da conspiração. Não sei.

Antes disso, na segunda década do século XX, ao final da Primeira Grande Guerra, o Brasil foi devastado pela pandemia de Gripe Espanhola.

Culpada pela morte de 50 a 100 milhões de pessoas no mundo, no Brasil a virose matou 35 mil, entre as quais Rodrigues Alves, então presidente da República.

Se compararmos a atual crise sanitária com a Gripe Espanhola, vê-se em comum um fator decisivo  para o fim de epidemias do gênero: as medidas sanitárias caracterizadas principalmente pelo isolamento social e o uso de máscaras. Eram os únicos recursos disponíveis naquela época, pois ainda não existia vacina para a influenza.

O fato: desde que a covid 19 chegou ao Brasil em fevereiro do ano passado, nós estamos assistindo a um morticínio inédito, passados apenas 13 meses desde a sua primeira vítima fatal.

A epidemia teve no Brasil um pico de novas infecções e mortes em julho de 2020, seguido de uma nítida queda até novembro daquele ano, mesmo sem que ainda existissem vacinas contra a doença.

Alguns fatores fizeram elevar a contaminação e provocaram a exacerbação do número de casos: o relaxamento do isolamento rigoroso, seguido da liberação irresponsável nas campanhas eleitorais, nas festas do fim de ano, no veraneio e no carnaval. Todos controláveis e evitáveis.

Mas, quando pensávamos que estava sob controle, a pandemia recrudesceu e voltou a apresentar crescimento desordenado do infectados e mortos.

No cerne de tudo isso está a falta de um comando único por parte do Ministério da Saúde que promovesse um Programa Nacional de Controle e Erradicação da Covid.

Acrescente-se o mau exemplo de desobediência civil das medidas sanitárias dado pela maior autoridade do país, seu descaso com a gravidade da situação e banalização da tragédia. Tudo copiado por seus fanáticos seguidores, além da promoção institucional de tratamentos inúteis e o atraso intencional da aquisição de vacinas,  que levou ao consequente atraso da vacinação em massa.

Não causa surpresa, portanto, a reagudização da mortandade que se transformou na maior calamidade de saúde que o Brasil já enfrentou.

Como se fosse pouco, desde que a crise sanitária teve início, quem deveria comandar a nação na guerra contra vírus tão letal aproveita-se para fragilizar política e socialmente a democracia brasileira e com isso tentar submeter o país a um novo ciclo de autoritarismo. 

Existe na medicina uma expressão muito temida por urgentistas e cirurgiões: sangria desatada. Significa que o paciente está apresentando um quadro hemorrágico gravíssimo que está provocando um choque hipovolêmico e a qualquer momento poderá ocorrer a morte do doente. Essa expressão pode ser usada para demonstrar o quadro de gravidade e intensidade do extermínio em curso.

Chegamos à marca triste e inimaginável de 500.000 mortos. Nada menos que meio milhão de humanos que morreram com idades as mais variáveis possíveis, cidadãos que seriam muito úteis ao Brasil e ao Mundo. São dez vezes mais mortos do que em toda a Guerra do Paraguai.

Mantida a sinistra média de mais de 2.000 mortes por dia, em pouco mais de oito meses o Brasil terá perdido um milhão de vidas para a covid.

Ainda temos a esperança de que pessoas com juízo perfeito finalmente assumam o comando desse trem desgovernado em alta velocidade em que se transformou o Brasil.  Assumam e consigam frear a locomotiva, antes que se precipite de vez no abismo.

Mas, para tanto, é preciso que haja estímulo e sensibilidade aos homens do bem com poder de comando do Brasil, para que promovam urgentemente as mudanças extremamente necessárias ao país para sairmos da crise.

Ou vão preferir esperar pelo milhão de mortos para tomar uma atitude?

Uma resposta para DEZ GUERRAS DO PARAGUAI, por José Mário Espínola

  1. PAULO montenegro escreveu:

    Que estatística triste. Que realidade chocante. Meio milhão de vidas ceifadas. Para onde caminhamos? Que sina a do Brasil. Ontem dominado por uma quadrilha de bandidos sanguinários a dilapidar os cofres públicos fria e assintosamente. Hoje uma corja de psicopatas a sorrirem de um quadro dantesco que assola o país e dele fez seu habitat preferido. Sem falar nos togados bandidos que invadiram a justiça e o legislativo, em todos os níveis, onde o vil metal é quem move suas decisões. Que horizonte vislumbra-se para um país onde suas autoridades há mais de três décadas sofrem dos piores dos males que pode afetar uma nação: o cinismo e a falta de caráter! Estamos dominados por quadrilhas que se acestaram dos três poderes. Ao que parece o remédio para tudo isso tem que ser muito amargo, e talvez o paciente Brasil não resista. Sombrio prognóstico!