DESCARREGOS COVIDIANOS, por Babyne Gouvêa

Imagem meramente ilustrativa. Caixões com vítimas da covid para enterro em vala comum no cemitério de Nossa Senhora da Piedade, em Manaus (AM). Foto Michael Dantas/AFP

Hoje, recebi a nefasta notícia de mais um conhecido que se encantou. Volto a emitir desabafos – necessários descarregos – contrariando promessa feita a mim mesma, a de me restringir a falas amenas. Mas não me contive e espero estar falando por muitos.

Já estamos esgotados de ouvir os absurdos cometidos e ditos pelo nosso governante-mor, sendo a última máxima um “não adianta lamentar o leite derramado” diante das 350 mil vítimas que não sobreviveram ao vírus letal, multiplicando por milhões uma imensidão de sofrimento, orfandade e muito dolorida saudade.

Embora o assunto seja repetitivo, é necessário colocá-lo reiteradas vezes para alguns ingênuos que teimam em defender as irresponsabilidades do presidente. Fico imaginando o pesadelo macabro que viveríamos, caso prevalecesse o seu desejo para enfrentar a pandemia “de peito aberto e sem mi-mi-mi”.

Felizmente, parte significativa da sociedade e suas instituições, não somente as científicas, resistem à alienação funesta daquele que foi eleito para defender os interesses da população, mas trata seus governados como se inimigos fossem ou peças descartáveis no xadrez da voracidade pelo poder.

O governante-mor já declarou ene vezes que mortes serão inevitáveis e que as pessoas deveriam aceitar apaticamente esse fatalismo. A repetição de pronunciamentos assim indica que ele é impulsionado pela ideia de morte. Sua obsessão pelas armas e violência são sintomas da perversidade de alguém insensível ao sofrimento humano.

O negacionismo presidencial é facilmente explicado pelo egocentrismo acentuado, com foco em projeto pessoal de se perpetuar no poder e com esse poder proteger sua família. Com argumentos demagógicos em defesa de empregos e economia, ele desdenha do isolamento social e expõe a crueldade de suas “diretrizes” para o combate à Covid. Vejamos algumas delas:

– Para o meu governo, qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa. O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem. Diante do exposto, minha decisão é a de não adquirir a referida vacina.

– Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.

– Eu não vou tomar vacina e ponto final. Problema meu.

– Já tenho anticorpos. Pra que tomar a vacina de novo?

– Se você virar um jacaré, é problema de você.

– Tá muito suspeita essa pressa em gastar R$ 20 bilhões pra comprar vacina.

No momento, em curso a instalação da CPI da Covid, estão sendo disparados ataques contra a iniciativa. Ataques do presidente e de seus apoiadores. Nós, brasileiros, merecedores de respeito, devemos continuar atentos e manifestando a nossa indignação contra os que têm sede de vírus e morte, patrocinadores de aglomeração.

Estaremos sempre avessos aos espíritos desumanos e exigiremos políticas públicas adequadas para garantir a dignidade e os nossos direitos. Se necessário, usaremos o descarrego para exorcizar esse espírito maléfico que brinca de governar o país.

Uma resposta para DESCARREGOS COVIDIANOS, por Babyne Gouvêa

  1. Marta Pessoa escreveu:

    Babyne,

    Seus textos são ótimos. Este último traduz bem o abandono em que me sinto, temendo por minhas filhas, genros e neto que não tem esperança de se vacinarem antes do final deste ano.
    Tão terrível quanto o vírus é a desesperança de algo seja feito por nós brasileiros.