O ANTI-MESSIAS, por José Mário Espínola

(Imagem copiada do Blog do Moisés Mendes)

A figura do Messias é a expressão maior do pensamento positivo para três religiões: cristã, judaica e muçulmana. Significa a fé em tempos melhores e a esperança de que as suas dificuldades chegarão ao fim. Outras religiões têm figuras equivalentes.

O Messias é muito aguardado por aqueles que creem. Eles acreditam que virá à terra O FILHO de Deus. E que ele chegará para SALVAR.

Embora achem que Jesus Cristo a princípio era o Messias, os cristãos ainda acreditam que este ainda virá para combater e derrotar o Mal, para lutar contra a iniquidade que está sofrendo o seu povo, esperançoso da sua vinda.

Os judeus, por seu lado, consideram que está para acontecer a Era Messiânica, quando diversos acontecimentos prepararão todo um ambiente favorável à chegada daquele ser. Entre estes está a reconstrução do Templo de Salomão.

Acreditam, também, que isso só acontecerá no Fim dos Tempos. Enquanto isso não acontecer, surgirão os falsos messias. É assim que eles consideram Jesus Cristo.

Já os muçulmanos acreditam que o Mahdi (Guia ou Messias) chegará no momento final, com tempo suficiente apenas para corrigir todos os males sofridos por seu povo.

Em comum, essas três religiões têm a certeza de que só será salvo quem crê e pertença à sua fé. Todos os outros serão condenados às chamas do inferno.

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Até 2012, o Brasil viveu uma década de governos voltados para ações populares, durante a qual aconteceram muitos progressos econômicos e sociais.

O país melhorou muito, como atestam todos os indicadores da época: IDH, Bolsa de Valores, câmbio, salário-mínimo, bolsa-família, geração de empregos, alunos no ensino fundamental e no curso superior, balança comercial, preço da gasolina e do botijão de gás, IPCA, IGPM. Todos os brasileiros percebiam a melhora do país, como atestam os registros do insuspeito jornal Valor Econômico.

Uma das principais consequências é que o Brasil passou a ser a sexta economia do mundo, superando até o Reino Unido. E por isso passou a ser respeitado pelas grandes potências.

Durante esses governos não apenas as camadas populares experimentaram melhoria significativa, retirando uma grande parcela de indivíduos da zona de pobreza, como igualmente foram beneficiados o agronegócio e o empresariado brasileiro.

Seria desonesto omitir que houve uma base importante para esse progresso econômico, construída nos últimos governos de orientação liberal, que tiveram o dom de exterminar a hiperinflação, criar agências reguladoras, gerar estatutos sociais, entre outros benefícios. Porém, nesse período as camadas sociais elevadas foram as realmente beneficiadas.

Os últimos quatro anos de governo popular, da presidente Dilma Rousseff, caracterizaram-se por dificuldades de origens diversas, como o panorama externo desfavorável e a falta de competência administrativa. Agravados pelo contexto econômico mundial adverso, equívocos administrativos provocaram a perda de muito o que havia sido conquistado, tanto na área social como na empresarial.

A elevação da temperatura social causada pelo aumento do número de desempregados agravou o clima político do Brasil. A presidente Dilma demonstrou que não tinha habilidade política, e perdeu a governabilidade quando o Centrão mudou de orientação.

Estabeleceu-se um clima de instabilidade política, quando entraram em cena figuras oportunistas e predadoras, verdadeiros mercenários que haviam aderido durante os governos anteriores. Elas abandonaram a presidente e passaram a compor as hostes dos seus adversários políticos, onde enxergaram maiores vantagens.

Daí para a defenestração da presidente, por motivo fútil e forçado, foi um salto. Tal processo jamais teria acontecido se ela tivesse a habilidade política demonstrada por seu antecessor, Luís Inácio da Silva, e por seu vice-presidente, Michel Temer, que provou que tinha muita habilidade para conspirar.

Temer tinha tanta habilidade que, já exercendo a presidência, foi alvo de denúncias muito mais consistentes e escapou de ser impedido. Pois tinha muito mais jeito para administrar o apoio político dos mercenários do Centrão.

O clima social, cuja apoteose deveria ter sido a destituição da presidente Dilma, não arrefeceu, continuando a ser envenenado pelas chamadas redes sociais, onde profissionais da mentira compondo milícias digitais mantiveram em atividade as suas usinas do ódio.

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Sob a bandeira de que a agenda de conquistas sociais dos governos populares ameaçava a Família Brasileira, essas hordas passaram a combater tais progressos sociais e açularam a nação contra essa agenda: a lei do aborto; o feminismo, pois acham que a mulher deve ser submissa ao homem; o casamento homoafetivo; a política de ensino de gênero nas escolas públicas; os sistemas de cotas; o estado laico e a falta de obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas.

Essas agressões tiveram eco em parte significativa do povo brasileiro, especialmente os praticantes de religiões evangélicas, que se consideram os maiores defensores da instituição Família.

Paralelo a isso, a elite brasileira, sentindo-se ausente do poder desde 2003, buscava desesperadamente um candidato que a representasse na eleição de 2018 para presidente. Tentaram Geraldo Alkmin, porém este nunca entusiasmou o eleitorado fora de São Paulo, não alcançando densidade suficiente para vencer uma eleição para presidente.

O então candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, encampou a agenda conservadora religiosa, que veio juntar-se ao armamentismo e o combate ao “comunismo”. Tornou-se assim o candidato preferido do conservadorismo brasileiro. Mas faltavam muitos votos para poder vencer a eleição. Foi quando aconteceram dois fatos que asfaltaram a sua candidatura.

Um deles foi a desunião das esquerdas, bem caracterizada pela decisão de Lula, maior ícone do PT, que estava impedido de se candidatar por estar preso em Curitiba, despido de autocrítica e agindo tal qual um “coronel” do Partido dos Trabalhadores, tomou a decisão de lançar Fernando Haddad.

O outro fato foi o atentado de um doido, que esfaqueou Bolsonaro durante um evento em Juiz de Fora. A consternação da parcela emotiva da nação fez com que ele se tornasse um coitadinho e prestasse mais atenção à sua agenda do atraso.

Foi a gota d’água que faltava para que ele se tornasse o padrão ouro das elites e do conservadorismo brasileiro, pois subitamente passou a apresentar densidade eleitoral capaz de competir com o candidato do PT.

Este estava crescendo muito, especialmente entre o eleitorado nordestino, maior beneficiário das ações sociais dos governos do PT. Atropelou Ciro Gomes, candidato de centro-esquerda que apresentava maiores chances de se eleger e chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro.

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Assim, gerado por um louco, que usou uma faca como espermatozoide, e por um coronel das esquerdas, que nunca teve autocrítica; gestado pela elite brasileira; e finalmente parido por um número significativo de brasileiros amedrontados, nasceu o rebento Jair Bolsonaro. Evoé, disseram alguns.

Sem nenhuma vocação para ser uma liderança responsável, com tanta certeza de que não se elegeria, ao ponto de não ter nenhum programa de governo, e sem quaisquer resquícios de preparo para dirigir qualquer coisa, Bolsonaro foi eleito num pleito livre e democrático. No entanto, plebiscitário.

Ele chegou num momento de desconstrução política e de caos da informação que se instalou no país. Desde que tomou posse, nunca disse a que veio, criando um problema atrás de outro. Essa tem sido a sua estratégia para não precisar governar no sentido maior da palavra: estar sempre em estado de beligerância.

Em 2019, esteve prestes a provocar um autogolpe, que só foi abortado, naquele momento, porque faltou a adesão de uma base militar mais extensa do que aquela com que já conta.

Até que a nação brasileira entendeu, estarrecida, qual o significado do seu advento, qual o motivo, os seus desígnios na nossa terra: ele decididamente não é O Salvador que tantos acreditavam ser.

Quem o enviou, não sei. Mas desde os seus primeiros minutos como mandatário da nação ele deixou claro que não veio para salvar nada, senão o próprio bolso e da sua família.

Durante a campanha presidencial de 2018, foi vendido ao povo brasileiro que ele era o Messias tão esperado. E foi isso o que um segmento expressivo de brasileiros comprou, especialmente os evangélicos. Dentre esses, principalmente os monetaristas.

O Brasil conservador, que realmente acreditou em suas promessas, até hoje aguarda que elas sejam cumpridas. Mas não é isso o que o povo brasileiro está percebendo.

Na realidade, estamos vendo é que o que foi comprado, mesmo, foram mitos que ele próprio está se encarregando de desmistificar.

O mito da defesa da família está caindo, revelando que a família que ele defende com unhas e dentes é exatamente a sua. Ou as suas, uma vez que tem logo três. Está fazendo de tudo, sem o menor escrúpulo (o que é isto?!), para livrar os seus filhos da responsabilidade de haverem cometidos ilicitudes, todos eles investigados.

O mito do combate aos privilégios também está indo por água abaixo, quando reserva os melhores cargos, as melhores oportunidades para os filhos e asseclas mais próximos. Por exemplo: a tentativa de nomear Eduardo Bolsonaro embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Sustentou quanto pode os ex-ministros Marcelo Antônio, alvo de investigações policiais no Ministério do Turismo, e Abraham Weintraub, um semianalfabeto que ocupou até outro dia o cargo de ministro DA EDUCAÇÃO. Ambos por compartilharem a mesma ideologia (?) do presidente e seus filhos.

O mito de que a interferência do Estado é nociva à economia pode ser facilmente derrubado pelo simples fato de que tanto o presidente como seus filhos sempre viveram somente do Estado.

O mito do fim da interferência do Estado na economia vem sendo atropelado frequentemente com medidas conservadoras que protegem setores empresariais.

O mito da segurança foi derrubado logo que assumiu, quando desligou os radares das rodovias, ampliando o número de acidentes. E quando aprovou a dilatação escancarada do número de pontos de infração de trânsito. Isso tudo tornou mais leniente o controle do mau motorista.

O descaso com a segurança do cidadão também pode ser aquilatado quando Bolsonaro defende a inimputação dos agentes de segurança, o excludente de ilicitude que também foi defendido pelo ex-juiz Sérgio Moro, quando ministro da Justiça.

O mito do combate à corrupção foi abandonado quando o presidente se viu, a si próprio e a seus filhos, ameaçados de investigação na esfera policial, por envolvimento com negócios ilícitos e com milícias criminosas espalhadas pelo Brasil.

Ele então enxergou que precisava ser blindado no Congresso contra ameaças de impedimento, e procurou cercar-se do que havia de escroques na política brasileira.

E foi exatamente isso o que derrubou outro mito: o do combate à velha política, o metiê do toma-lá-dá-cá. Comprou, então, vários partidos do Centrão do Centrão, garantindo futuro mais seguro.

O mito de que o funcionário público é um parasita do Estado é facilmente derrubado pelo simples fato de que tanto o presidente como seus filhos sempre viveram somente do Estado.

Embora essa figura tenha sido escolhida para combater as iniquidades, o que ele vem dizendo em pequenas doses semanais ao longo dos seus dois anos de mandato cristalizou-se com a instalação e evolução da epidemia que assola o mundo.

Desde que a doença do século chegou ao Brasil que ele vem fazendo de tudo para que o brasileiro padeça: estimulando a desobediência às medidas sanitárias.

Desmantelou as instituições de saúde, politizando, por exemplo, a Anvisa e o Ministério da Saúde, que foi entregue a um leigo explicitamente incompetente para dirigi-lo. Com isso conseguiu atrasar todo o calendário da vacina salvadora.

Todas essas atitudes têm contribuído para agravar o número de vítimas fatais da covid 19, que já ultrapassa as 200 mil. Em atitude tipicamente psicopata nunca se apiedou desses brasileiros mortos.

Todas as suas ações para dificultar o combate à epidemia, a falta de compromisso para evitar tantas mortes e sofrimento do nosso povo, demonstram que ele não tem compromisso com A VIDA, com o bem-estar do povo brasileiro.

Não podemos dizer que ele seja a encarnação do Anticristo, figura tão temida por todos os cristãos. Seria dar muita importância a alguém tão pequeno. Nessa linha, não há como discordar de alguém que disse, recentemente, ter o Brasil “o menor presidente do mundo”.

Ele é, na realidade, o ANTI-MESSIAS.

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