ZÉ-LIMEIRIANDO BELCHIOR, por Rubens Nóbrega

Retrato falado de Zé Limeira, por Fran Lima (Imagem copiada da Folha Patoense)

Eu cantei lá no Recife
perto do Pronto Socorro:
ganhei duzentos mil-réis
comprei duzentos cachorro;
ano passado eu morri
mas esse ano eu não morro

O Professor Romero Antônio, de quem sou amigo e fã, apresentou-me estrofe e autor na antevéspera do réveillon que não houve. Só assim descobri que essa cria pertence ao paraibano Zé Limeira de Tauá e não ao cearense Belchior de Sobral.

Refiro-me particularmente aos dois últimos versos, transformados em estribilho de ‘Sujeito de sorte’, canção de Belchior lançada em 1976. Três anos antes, os mesmos versos já estavam gravados na primeira edição de ‘Zé Limeira, o Poeta do Absurdo’, do menestrel campinense Orlando Tejo.

Não li, vi ou ouvi em canto algum que Belchior tenha dado o crédito devido de autoria a Zé Limeira/Tejo. Talvez o inspirado e talentosíssimo compositor tenha assimilado que ‘ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’ seria de “domínio popular” ou mais um surrealíssimo mourão cantado por sucessivas gerações de repentistas.

Vamos dar o benefício da dúvida ao venerado Belchior. Não acredito que ele tenha cometido o absurdo da omissão ou ação deliberada adubada na má-fé. Vamos dar crédito à ignorância, possível a qualquer humano. Crédito extensivo a Emicida, rapper paulistano que também zé-limeiriou. O brado contra a morte em 2021 tá no refrão de ‘AmarElo’, de 2019, música-tema do documentário que leva o mesmo título.

Um título, por sua vez, puxado de um poema de Paulo Leminski. Para o qual, da mesma forma, não vi, não li nem ouvi qualquer referência – quanto à autoria – da parte de Emicida ou de seu filme. Ainda assim, não vamos condenar o rapaz, criador de primeira linha, cidadão da melhor qualidade, merecedor de toda a justa admiração causada por quase tudo o que faz.

De qualquer modo, tanto Emicida como Belchior me trouxeram Chico Anísio à lembrança. Guardei nas “paredes da memória” o inesquecível Pantaleão que o gênio do humor despudoradamente copiou de Xandu, personagem maior de ‘Alexandre e outros heróis’, obra primeva do gênio alagoano que atendia pelo nome de Graciliano.

Nunca vi, li ou ouvi – em Chico City, Europa ou Nova Iorque – qualquer menção ao protagonista original das mentiras absurdas e fanfarronices recriadas nos setenta do século passado para divertir telespectadores de todo o Brasil.

A propósito, só pra encerrar…

Lá por 1975 este proto de escriba editava páginas no finado O Norte, de João Pessoa. Em uma semana qualquer, carreguei aquele livro de contos do Major Graça para ler nos ônibus que me levavam do Boa Vista pra Epitácio, daí pro campus da UFPB, onde estudava, e de lá para o então carro-chefe dos Associados, na Pedro II, onde trabalhava.

Na redação do jornal, em momento qualquer, botei o livro pra dividir com uma velha Remington BJ o tampo da mesinha de trabalho. Pela capa, o livro atiçou curiosidade de incensado intelectual que viera deixar artigo para publicação. Ele pegou o exemplar sem pedir licença. Não abriu, apenas leu o título, conferiu a espessura e perguntou ao foca aqui, em voz alta, de zomba: “Oxe, e quem disse que Alexandre foi herói?”.

  • • Imagem que ilustra este artigo é um retrato falado de Zé Limeira, obra da arista plástica Fran Lima 

Uma resposta para ZÉ-LIMEIRIANDO BELCHIOR, por Rubens Nóbrega

  1. José escreveu:

    Rubens Nóbrega, sou um dos leitores com saudades das histórias de redação que você começou um tempo atrás e interrompeu. Ao relembrar a saudosa redação de O Norte, aguçou meu interesse pelo assunto.