SENSAÇÃO DE VERGONHA, por José Mário Espínola

(Imagem do perfil Vergonha Alheia e Constrangimentos/Facebook)

Nas aulas de fisiologia do curso médico, com a professora Gisele, aprendemos que a sensação térmica, quente ou frio, depende de um ponto referencial: os sensores nervosos distribuídos pelo nosso corpo. Eles comparam a temperatura externa com a temperatura corporal. Assim, a sensação de calor ou de frio depende exclusivamente do padrão individual.

Quando eu era pequeno furtei uma goiaba do jardim de uma vizinha, sem ter consciência de que estava fazendo algo errado, e dei para mamãe. Levei uma surra dela. E uma aula de ética de papai.

A partir desse episódio, inesquecível como vocês podem ver, desenvolvi ponto referencial para o sentimento de vergonha. Mas não é isso o que estou observando, o que está acontecendo com a sociedade brasileira.

Estou chegando à conclusão de que a sensação de vergonha também depende da forma como pensa o indivíduo. Se for alguém que seja honesto, que tenha um pensamento ético sentirá vergonha diante de determinadas atitudes que presenciem, ou que estejam envolvidos.

Como esperar que alguém se sinta mal, quando chamado de ladrão, ou corrupto, se essa pessoa já tem a consciência de que é corrupto ou ladrão?
Crescido num ambiente onde o errado é normal, poderemos esperar que o filho de alguém assim sinta vergonha do pai, ou da mãe? O mais provável é que um dia venha se comportar como seu ascendente.

O filho de Jader Barbalho, por exemplo, está sendo investigado no Estado do Pará, onde exerce o cargo de governador. Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, também está sendo investigada por possíveis ilicitudes cometidas em seu Estado, o Rio de Janeiro, tendo conhecido a penitenciária como hóspede em setembro passado.

Semanas atrás o senador Chico Rodrigues, de Roraima, foi flagrado pela polícia federal com dinheiro escondido ilícito em suas partes íntimas. O constrangimento foi tamanho que levou os seus pares no senado a convencer que tirasse uma licença.

E vocês sabem quem assumirá a sua vaga no senado? O seu filho, que também é suplente dele. Será que este tem vergonha do pai ser chamado do que o estão chamando por todo o Brasil?

A minha grande preocupação é saber que tais fatos, taxados como sujos, já não estão causando vergonha à boa parte dos brasileiros, hoje em dia. Pois os personagens mais notórios são eleitos e reeleitos por uma população que tem um acesso à informação nunca visto antes. E tem conhecimento do comportamento, das tendências daqueles em quem vota.

As últimas eleições mostraram que o brasileiro sofreu uma mutação moral. Os padrões anteriormente desenvolvidos foram substituídos por outros que ferem tudo o que antes considerávamos como imorais.

Assim, mentir, estar envolvido com a justiça, ser racista, ter ódio a mulher, índio, cigano, preto e nordestino passaram a ser tranquilamente tolerados. Desde que o político se confesse “de direita,” ou melhor ainda: contra a esquerda, está perdoado de qualquer pecado, explícito ou suspeito.

Pessoas religiosas passaram a aceitar conviver com políticos que têm atitude canalha, só por que “adotaram” os seus dogmas. Ou fingem que adotam.

Você que achava reprovável um sujeito ser mentiroso contumaz, vergonhoso, que todos os dias nega o que havia afirmado na véspera? E agora vê essa pessoa e sua família, composta de figuras suspeitas, que são envolvidas com tudo o que é abominável, circularem com tranquilidade, sem pejo algum. E receber a aprovação da opinião pública.

Esses cidadãos, que se intitulam “patriotas,” disseminam uma nova ideologia, que é pregada por pessoas que consideram educação, arte, delicadeza, honestidade, correção, tudo isso para eles não passa de manifestação de fraqueza.

E pra alcançar seus objetivos espúrios, sórdidos até, não tiveram o menor escrúpulo de se juntar com a escória de políticos brasileiros, que antes condenavam como sendo praticantes da Velha Política abominável, e que agora passam a ser “políticos do bem,” segundo seus critérios variáveis de moral.

Na realidade é mais uma mentira que se desnuda, mais uma máscara que cai. Tudo isso que disseram sobre os velhos políticos, sobre o Centrão, mais exatamente, não passou de uma mentira para atrair os votos dos brasileiros que condenam a velha forma de se fazer política, o Fisiologismo, que é a negação da Ideologia.

O grande apoio que os atuais donos do poder no Brasil estão desfrutando da opinião pública reside-se em alguns velhos fatores, conhecidos desde os romanos, como veremos a seguir.

O primeiro é o Circo: a sucessão de mentiras que mantêm as mentes mais simplórias, ou menos críticas, sempre acreditando no que o presidente e sua alcateia de hienas falam.

O segundo é o pão, mesmo que seja um pão de segunda classe, como são as bolsas-auxilio distribuídas ao longo da pandemia, no valor irrisório de 600 reais.

Além desses existem apoios inequívocos, tais como dos militares, que surpreendem suportando humilhações públicas partindo do presidente (que morde e assopra escancaradamente!), de seus ministros civis, e de apoiadores. Jamais eu pensei que veria um militar de alta patente ser humilhado de público. E sem reação da categoria.

Outra ala ideológica é a dos evangélicos; ou a maioria deles. O fazem por motivos os mais esquisitos possíveis. Ainda acreditam que o presidente é capaz de implantar todos os seus dogmas. Em troca fecham os olhos para tudo o que ele e seus asseclas fazem de errado.

Na implantação do nazismo, na Alemanha dos anos 1930, entidades como as igrejas evangélicas apoiaram ardorosamente Adolf Hitler , as sua ideias e as suas ações, por mais ofensivas que fossem. Eles alegaram que o faziam por que os nazistas combatiam o comunismo, mesmo que seus métodos fossem totalmente antidemocráticos.

Esse ditador subiu dizendo o que as pessoas mais simplórias queriam ouvir, embora a história provou que eram mentiras. A história está aí para contar as consequências da atitude de liberdade total para Hitler fazer o que quisesse, e qual foi o significado para o Mundo e a Humanidade.

Analisando o momento delicado que estamos passando, concluímos que as consequências podem ser terríveis para a democracia e o desenvolvimento do Brasil. Os políticos que ainda são honestos, sérios e responsáveis têm que rever as suas estratégias de mudança, nos próximos dois anos.

O povão não tem ideologia. Havendo pão e circo, não está nem aí para agressões à Constituição, destruição o meio ambiente, supressão de direitos civis, perseguição de minorias, extinção de conquistas sociais.

O padrão moral do novo eleitor brasileiro é a manifestação de grosseria, de grossura, da falta de educação, da imposição da força, da ignorância em todos os seus sentidos. Neles falta o ponto referencial para a vergonha.

Defendo um amplo pacto em defesa da Democracia. Para mim, não importa o espectro ideológico, desde que sejam pessoas comprometidas com a Constituição. Democratas verdadeiros.

Conceitos ideológicos têm que ser revistos. A esquerda tem que fazer uma autocrítica, e participar de um pacto pela democracia, se quiser que o fascismo não assuma de vez e mude o nosso Brasil para sempre.

Precisamos urgentemente resgatar o referencial de vergonha do brasileiro. E isso só se consegue dando o exemplo!

José Mário Espínola
Cidadão Indignado

4 Respostas para SENSAÇÃO DE VERGONHA, por José Mário Espínola

  1. Nelson Santiago Filho escreveu:

    Excelente artigo de José Mário Espínola( Sensação de Vergonha). Conseguiu, com brilhantismo, externar o sentimento de muitos brasileiros. Lembrei-me, então, de uma frase de Capistrano de Abreu: “ Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.”
    Parabéns!

  2. ÂNGELA BEZERRA DE CASTRO escreveu:

    Parabéns, amigo ! E que não se canse de falar, criticar, denunciar. “Se a palavra se cala / O universo desaba”. Sua energia me fez lembrar esses lindos versos de Vanildo Brito.

  3. Parabéns, amigo ! E que não se canse de falar, criticar, denunciar.
    “Se a palavra se cala/ O universo desaba !”
    Sua energia me fez lembrar esses lindos versos de Vanildo Brito .
    Angela Bezerra De Castro