APURANDO A ‘PRISÃO’ DO PADRE

Foto publicada no ClickPB. Supostamente, a pessoa pintando o cruzeiro é o padre Luciano Silveira

O Chefe de Reportagem chamou o repórter. “Vá ao Conde apurar essa história da prisão do padre. Tente ouvir a versão de todo mundo. Da prefeita acusada de mandar prender o padre, do padre que acusou a prefeita de mandar prendê-lo…”.

O repórter interrompeu o Chefe. “Mas, Chefe, já tem o vídeo do padre dizendo que estava sendo preso por ordem da prefeita e o vídeo da prefeita dizendo que não mandou prender ninguém”. Chefe não gostou da interrupção, deu bronca.

– Deixa eu terminar… Além da prefeita e do padre, a gente precisa ouvir os guardas municipais que supostamente deram voz de prisão ao padre e fizeram a condução coercitiva dele. Eles fizeram realmente isso? Se fizeram, por que fizeram? Precisamos ouvir pelo menos um deles.

– Ok, tá certo. Você manda… – reagiu o repórter.

– Me poupe de sua ironia, colega. Vamos ouvir o comandante da Guarda Municipal, também. Foi ele quem mandou prender o padre? Se não foi, quem? Os guardas agiram por conta própria? O padre estava vandalizando patrimônio público?

– Tá bom, já entendi… – disse o repórter, tentando encerrar a conversa. Mas o Chefe não parou por aí.

– Calma, colega, é crucial saber se o cruzeiro é patrimônio público – como disse a prefeita em vídeo – ou privado, ou seja, se pertence à Igreja Católica. Se for propriedade da Santa Madre, o padre pode pintar da cor que bem entender – explicou o Chefe.

– Tudo bem, tudo bem. Alguém pode ligar pra Cúria e apurar se o cruzeiro é da Igreja ou do município, enquanto vou lá no Conde atrás dos guardas e do comandante da Guarda – sugeriu o repórter, já se levantando, pegando o celular e a tiracolo.

O Chefe parecia convencido de ter pautado tudo o que havia para pautar, mas, antes que o repórter batesse a porta da sala, lembrou:

– Ei, não esqueça de dar uma chegada na delegacia pra saber se o delegado instaurou ou não inquérito para apurar… – tentou dizer, mas foi novamente cortado pelo repórter.

– Oxente, Chefe, o delegado já disse e espalhou em vídeo que o padre não fez coisa alguma…

– Mas ele tem, no mínimo, que apurar se houver abuso de autoridade por parte dos guardas municipais ou se o padre estava realmente cometendo vandalismo (no caso de o cruzeiro ser patrimônio coletivo e não da Igreja) e a gente investigar também se procede a acusação da prefeita de que foi uma armação, já que no momento da pretensa prisão a casa paroquial, segundo ela, estava coalhada de pessoas da oposição – alertou o Chefe.

– Mas, Chefe, pode ter sido coincidência, não? – ponderou o repórter.

– Pode ser, pode ser. Pode ser também providência divina, como disse o marido da candidata da oposição à Prefeitura do Conde, que confirmou estar na casa paroquial no justo momento da alegada prisão do padre. Nesse caso, colega, não esqueça de entrevistar Deus – orientou o Chefe.

3 Respostas para APURANDO A ‘PRISÃO’ DO PADRE

  1. Múcio Souto escreveu:

    Na terrinha não conheço outro jornalista com autoridade (esculpida ao longo da vida por atitudes) para dizer o que deveria ser feito ante história semelhante.
    Parabéns.

  2. Ótima história! Muito bem humorada.
    Imagino que esses sejam os bastidores de um jornal.
    Deve ter dezenas de situações iguais a essa.
    Muito bom, o autor está de parabéns

  3. Janildes Andrade de Freitas escreveu:

    Arretada!