A PIRÂMIDE DO SABER MÉDICO, por José Mário Espínola

Símbolo de seguro médico e de saúde na pilha do cubo de madeira como forma de pirâmide, conceito de saúde do hospital Foto Premium

Todos sabem que aprecio o bom humor. Na minha profissão, e mais ainda na minha especialidade, é muito importante que deixemos o paciente bem à vontade. E isso não se consegue com cara feia.

Também gosto muito de uma boa piada. E vez ou outra recebo excelentes colaborações, seja de pacientes, seja de colegas. Esta, muito bem elaborada, quem me contou foi o saudoso médico Dr. Joaquim Amorim.

Renomado obstetra campinense, muito espirituoso, Dr. Joaquim Amorim era adepto da máxima “Eu perco o amigo, mas não perco a piada.” No final terminava conservando os dois, pois era um homem afável, de extrema competência, e muito benquisto entre os colegas e as suas pacientes.

Pois bem. Num certo encontro do CRM, em Campina Grande, indagou-me o Dr. Joaquim:

– Espínola, você já ouviu falar da “Pirâmide do Saber Médico”?

Ante a minha negativa, babando de satisfação pela oportunidade, contou o Dr. Joaquim:

– No topo da Pirâmide, dois degraus acima de Deus, estão os cirurgiões plásticos. Estão no topo do topo porque eles corrigem as imperfeições que Deus deixa escapar.

Descendo um pouco:

– No degrau seguinte, ainda acima de Deus, vêm os neurocirurgiões, pois eles trabalham com a sede da alma. Logo abaixo, em nível de Deus, estão os cirurgiões cardíacos: eles garantem o órgão que sustenta a sede da alma!

Já perto do ‘mezanino’…

– Depois vem uma massa amorfa, composta por cardiologistas, gastroenterologistas, endocrinologistas, pediatras, patologistas, otorrinos, oftalmos etc.

Chegando ao térreo:

– Lá embaixo, em um dos penúltimos degraus da Pirâmide estão os reumatologistas, pois, como disse Nonato Pinto, reumatologista de Misericórdia, eles “não curam, porém não matam!”.

Apertando o botão da ‘garagem’:

– Depois vêm os especialistas em “países baixos”: urologistas, proctologistas, ginecologistas e obstetras.

Já no subsolo:

– Degrau abaixo, vêm os ortopedistas.

Aqui, Dr. Joaquim abria um parêntese para explicar:

– Quando o acadêmico chega ao internato, não tendo se destacado, decide: se for franzino ou mediano, será obstetra; se for forte, será ortopedista!

Cavando mais um pouco, retomando a narração, Dr. Joaquim continuou:

– No exato penúltimo degrau, lá embaixo, estão os dermatologistas. Eu explico o porquê desta posição: os dermatologistas não dão plantão, não assinam Atestado de Óbito; é uma especialidade que todo o mundo mete a mão e depois que inventaram a pomada Quadriderm®, qualquer um pode praticá-la…

Finalmente, batendo no “fundo do poço”, como ele mesmo qualificou: 

– Ou melhor, chegamos à base da pirâmide: no último degrau da Pirâmide do Saber Médico estão os anestesistas.

Interrompo, estarrecido:

– Mas Joaquim, no último degrau? Por que?

– Pudera, Espínola: anestesistas levam bronca de cirurgião, levam carão de enfermeira e às vezes até de circulante de sala. Não têm consultório e não recebem amostra grátis.

Sentindo falta de alguém, perguntei a Dr. Joaquim:

– Em que degrau estão os psiquiatras?

Respondeu:

– Ah, meu amigo! Na Pirâmide do Saber Médico não há espaço para psiquiatras, pois Psiquiatria é uma especialidade com a qual ou sem a qual tudo fica tal e qual!

Insisti em mais uma:

– E os homeopatas?

Quase perdendo a paciência, Dr. Joaquim saca, rápido:

– Ora, Espínola, a pirâmide é do saber MÉDICO!

Resolvi mudar de assunto.

José Mário Espínola
Egiptólogo