O “VELHO” FIRMINO, por Aderson Machado

Firmino Victor Machado. Era esse o nome de meu pai, que nasceu no Sítio Pirauá, no município de Areia, Paraíba, no dia 5 de agosto de 1901. Faleceu em 27 de maio de 1997, com quase 96 anos de idade.

Durante toda sua longa existência, jamais morou na cidade, onde só ia nos dias de feira livre, ou, por outra, quando precisava resolver algum problema importante.

Ele era de uma família de lavradores; seus irmãos foram criados trabalhando duro, mas, ainda jovem, meu pai enveredou no ramo do comércio, sendo, inicialmente, balconista do Sr. Basta Maia. Nessa função, aprendeu, em pouco tempo, as quatro operações de conta: adição, subtração, multiplicação e divisão, o que lhe proporcionou a condição de preceptor, apesar de ter tido apenas dois meses de escola!

Esse fato condiz perfeitamente com aquele velho adágio popular: em terra de cego, quem tem um olho é rei! Com certo tempo depois, meu genitor arrendou o Sítio Fechado de Cima, também em Areia, por cinco anos, e colocou o seu próprio comércio. Assim, ele acumulava as funções de comerciante e agricultor.

No Sítio Pirauá, no ano de 1935, nascera apenas o meu irmão mais velho; os demais manos nasceram no Sítio Fechado de Cima, onde meu pai morou até o fim de sua existência terrena.

O “velho” Firmino sempre foi uma pessoa por demais conservadora. Jamais pedira um tostão emprestado a quem quer que fosse. A recíproca não era verdadeira: não costumava dar as costas a quem lhe pedisse emprestado. Por isso mesmo fora vítima de muitas pessoas desonestas, mas nem por isso veio cair na bancarrota. Afinal, ele costumava dizer: “Tem mais Deus para me dar, do que o diabo para levar”.

Pois bem, com essa sua filosofia de vida, o “velho” Firmino criou e educou os seus sete filhos. Aliás, a educação foi o maior legado que ele nos proporcionou. Com efeito, apesar de meu avô paterno não lhe ter dado educação – teve apenas dois meses de escola -, meu pai teve uma visão completamente diferente da do meu avô. Achava pai que o futuro dos filhos residia exatamente na educação! Na ótica dele – e assim agiu corretamente -, a educação é um bem adquirido que nenhum ladrão pode roubar, ao contrário dos bens materiais.

Eu falei que meu genitor era um tipo mão-aberta, que não gostava de negar nada a ninguém. Porém, a esse respeito, aconteceu uma exceção. Havia na nossa região uma figura bastante conhecida pelo simples fato de não pagar nem promessa a santo. Ademais, esse enrolão, ainda por cima, costumava cortar relações com os seus credores. O meu pai, sabedor desse fato, já estava de “antenas ligadas” para qualquer eventualidade.

Não demorou, certo dia o embusteiro chega à nossa casa. Conversa vai, conversa vem, e logo vem o bote: “Seu Firmino, gostaria que o senhor me emprestasse duzentos cruzeiros, pois em dois meses lhe pagarei com juros e correção monetária”. Incontinenti, o “velho” Firmino respondeu-lhe: “Seu fulano, esse dinheiro que você me pede eu tenho, e até não me faria falta. Agora só existe um porém: não lho vou emprestar porque, do contrário, duas coisas vão acontecer: vou perder o meu dinheiro e o amigo! Nesse caso, prefiro apenas perder o amigo!”.

Pois bem, de tanto ser enganado, o “velho” Firmino, com o passar dos anos, foi “acordando”, e, consequentemente, se livrando, na medida do possível, desses “amigos” que viviam à sua volta.

O meu pai tinha uma peculiaridade: não gostava de visitar as casas dos amigos, nem mesmo dos seus familiares. Isso só acontecia em casos extremos. No entanto, não havia casa mais frequentada do que a nossa. E pai recebia a todos de braços abertos.

Em casa ele tinha um pequeno comércio, onde vendia secos e molhados, inclusive bebidas alcoólicas – principalmente aguardente de cana de açúcar, destilada nos engenhos da redondeza. Essa, por sinal, era a bebida preferida pela maioria de seus fregueses, até porque não existia geladeira em nossa casa, e, portanto, bebida gelada.

E por falar em bebida, não raras vezes meu pai era obrigado a aturar certos bebedores abusados e inconvenientes. Porém, existia uma ressalva: quando alguém já chegava bêbado, e queria beber mais, pai não titubeava: dizia que tinha a bebida, mas que não a vendia, e mandava o ébrio ir beber onde ele havia começado a fazê-lo.

No transcorrer destas linhas tenho me referido a meu pai usando a palavra velho entre aspas. O motivo é muito simples: é que ele sempre se considerou uma pessoa jovial; tinha uma boa saúde, física e mental; nunca reclamara da vida – mesmo nos momentos mais difíceis – e, ademais, mesmo com mais de oitenta anos, costumava se referir a seus pares como o velho fulano de tal, o velho sicrano, a assim por diante.

Meu genitor sempre foi, ao longo de toda a sua vida, um cumpridor fiel de suas obrigações. Foi bom filho, bom esposo, bom pai e bom amigo; respeitava todo mundo, ao mesmo tempo em que exigia respeito. Foi, sem sombra de dúvidas, um dos homens mais dignos que conheci na minha vida. Na qualidade de filho, sou até suspeito em falar tudo isso, no entanto não posso distorcer os fatos.

Como comerciante, jamais comprara nada fiado, e pagava todos os impostos decorrentes de suas compras. Por conseguinte, nunca caíra na malha fina da Receita Federal, nem temia a visita dos temíveis cobradores de impostos.

Como esposo, foi um parceiro fiel de Adélia Mendonça Machado, minha mãe, ao longo de sessenta e um anos! Foi um verdadeiro exemplo de harmonia conjugal. Só a morte física os separou aqui na terra.

Como eleitor, sempre gostou de votar, mesmo quando não era obrigado a fazê-lo. Com efeito, continuou votando, mesmo com mais de noventa anos, sem visar, portanto, nenhum tipo de contrapartida. Aliás, durante toda sua vida, nunca recebera nenhum benefício por parte de quaisquer políticos, muito menos dos poderes públicos.

Seu Firmino, como era conhecido respeitosamente por todos da região onde morava, foi um autodidata. Nas horas de folga, lia bastante, principalmente a Bíblia Sagrada, e era um ouvinte inveterado de rádio, pois sempre gostava de estar atualizado com os fatos no Brasil e no mundo. A propósito, foi ele quem primeiro comprou rádio na região, por volta do ano de 1948. Era um RCA VICTOR, novinho em folha! E

Eu não era nascido, então, mas ele contaria depois que as pessoas da circunvizinhança se aglomeravam lá em casa para ouvir o rádio – uma novidade muito grande para a época; nem mesmo a televisão, que surgiu quatro décadas após, teve tanta repercussão!

Religioso e bom nordestino, Firmino Victor Machado era um devoto de carteirinha do Padim Padre Cícero Romão e de Frei Damião de Bozzano.

Por sinal, no ano de 1924, Seu Firmino, então com 23 anos, juntamente com o seu tio José Domingos – com quem aprendera as primeiras letras -, foi a pé, ao Juazeiro do Norte, para ter com o Padim Cícero. Foi uma longa viagem que durou, só de ida, doze dias, mas que valera a pena, porquanto ele esteve pessoalmente com o religioso, tomando-lhe a bênção, além de ter se confessado por ocasião desse memorável encontro.

Por fim, Seu Firmino se considerava uma pessoa realizada na vida; criou e educou todos os filhos, proporcionando-lhes a devida independência financeira, a qual era um dos seus principais objetivos. Conforme fora dito, a educação foi o maior legado que o meu pai nos deixou, pelo que somos eternamente agradecidos a ele.

Pelo posto e exposto, espero que o Criador de Tudo tenha lhe reservado um bom lugar!

  • Aderson Machado é Engenheiro Civil e Bacharel em Letras