A INCREDIBILE ARMATA BOLSONAROLEONE (I), por Francisco Barreto

Trata-se da saga de D. Bolsoneraleone, O Sinistro. Cavaleiro ideologicamente esfarrapado, figura grotesca, oriundo de um coletivo em franca decadência política e moral, que pretendia liderar e conduzir um pequeno e atrapalhado exército composto por figuras rotas e esquálidas cuja habilidade fora a de submeter os burgos e populações conquistados impondo a sua vontade férrea.

O único móvel seria o de se autoproclamar soberano e senhor da vontade de todos. Individuo emergente de um submundo onde vicejava o desprezo pelos sentimentos nobres e da solidariedade humana. D. Bolsonaroleone, ao perambular com a sua “armada”, intentou e conduziu uma cruzada de “terra arrasada”, destruindo qualquer coisa e quem quer que se revelasse adverso à sua marcha no exercício do Poder. Era avesso in totum às calamidades pestilentas que consomem muitas vidas, empedernido e combativo destruidor da flora e da fauna.

Qualquer meio ou utensílio bélico-falacioso serviria para atingir os objetivos de se tornar potentado, segundo seu litúrgico Confessor e Conselheiro-Mor Olavus. Para Il Príncipe Bolsoneraleone, a sua grande e a única boa conduta moral era aquela que expressasse o desejo de ser e de se sentir Poder. Ser ambicioso e cruel. Assim sendo não era um problema, desde que estivessem asseguradas, a si e aos seus, as perenes condições para o seu estável e rentável poder.

O seu único e principal desvario é o de assegurar a qualquer custo aos vassalos a sua proteção, mercê da indefectível genuflexão e do obrigatório beija-pés lhe propiciando um frisson que endossa de sua retórica predileta: “Sentia-se o único Mandatário e adorava quando todos se curvavam aos meus pés e louvavam a sua vitória. A Carta Magna sou eu. Aos meus, a mágica porção de cloroquina; aos demais, o desespero da tubaína”.

Imbuído de seus cabotinos superpoderes, D. Bolsoneroleone espelhava-se no Galo de Chantecler, que acreditava piamente que o Sol só nascia porque ele cantava. Ao seu exército, a todos os recém chegados de vários submundos, os seduziu pelas regalias da Corte, reservando-os feudos e cargos até mesmo para os mais ignaros serviçais. E decretava os soldos a serem repartidos.

Encantou a maioria da choldra com o seu arrogante e falacioso discurso de ser o novo e o mais genuíno potentado, o mais intrépido e formidável condutor dos negócios e da moral pública. O que ele não conhecia nem tinha qualquer domínio o seu coletivo liberalóide o faria, e isto lhe bastava.
Com ênfase alardeava: “Sou o mais perfeito condutor senhorial, cuido com extremada devoção das coisas públicas e zelo para que todos exerçam as suas condições de artífices e de empregos. Escuto com magnanimidade a todos para que opinem sobre as ações e recursos do principado, desde que suas opiniões sejam iguais às minhas”.

Mais: “Educarei o meu povo com disciplina, para que todas as crianças sejam senhoras de si mesmas, desde que me reconheçam como o único herói do povo. Sou. E não admito que ninguém seja melhor do que eu. Nunca me olho no espelho, porque há tempos já destronei Narciso”.

D. Bolsonaroleoni conclamou várias legiões estrangeiras, recomendando a todos que recolhessem os seus pavilhões partidários e sua infelizes ideias, a abdicarem das suas identidades e desejos políticos. Há tempos, determinara num conclave partidário que doravante só haveria um rito: “Ave, Cesar! Mirem-me, depois olhem o mar”. A choldra delirou com os braços erguidos lhe jurando lealdade.

Conclamou a todos os presentes e futuros vassalos de seu potentado a lhe renderem homenagens e obediências, prometendo-lhes que dividiria irmãmente os botins a serem conquistados. Ao lado de seus inferiores capos, milicianos, guardas de corpo, mercenários, todos sob os seus pés, admite: “Sem mim não há salvação, pois vos darei o céu e a terra”.

Mirava com um olhar de soslaio para os rivais e os inimigos que escolhia aleatoriamente e alimentava sobre eles uma saga autoritária. Sempre havia o desejo de ofuscar ou queimar a retina dos infiéis e inventava ao seu bel prazer adversários e inimigos. Alimentava-se da equivocada e destrutiva visão de que os outros são o inferno. Nutria-se do ódio e adorava colecionar inimigos que os inventava quando queria e os caluniava seguidamente. Na sua retaguarda havia o pelotão do ódio.

A platéia comboiada e adestrada pelo espirito da vendetta rogava a proteção do Príncipe D. Bolsoneraleone e lhe fazia juras de condutas repressivas. Os seus acólitos foram incitados a sacarem os seus fascies ( feixes de varas de cipó-pau) para vergastar os seus opositores no combate. Os litores desembaiaram as suas adagas para um hipotético combate que se avizinhava, preconizando a mordaça, o silenciar das instituições, o esgotamento das liberdades públicas.

Litúrgico, Il Principe assegurava a todos que pelo seu Poder prevaleceriam posições à la destra, e valorizava sem pejo os exemplos da tortura como instrumento de eliminação do livre ser e pensar. É renitente, embora dissimule suas predileções, Não hesitava em vangloriar há algum tempo a repulsiva ação torturadora do Pró-Consul Ustria, o Bárbaro da Morte que adorava sepultar a história e as ideologias.

Doravante, apenas ele, D. Bolsonaroleone, convencido de sua superioridade bélica e politica, parte famelicamente em busca de um Poder avassalador, sem avaliar a sua inferioridade ética e moral, apoiando-se na sua entourage familiar, asseclas e ordenando ao seu cavalariço Abraham, o judeu renegado, como seu porta-bandeira. Desfila num corcel Incitatus. Sob as patas de seu corcel, “Senhor, não restará pedra sob pedra, eu e meus bardos divulgaremos os seus feitos aos quatros ventos”, diz-lhe o arauto Olavus.

O combate deveria sempre ser travado. D. Bolsonaroleone e sua incredibile armata cruzarão o rubicão braziliensis. No delírio de sua saga, o Príncipe repetia à exaustão: “D. Olavo, o iconoclasta, já me asseverou: quem não está comigo, está contra mim. Deus inclusive. Um único exército, um único palanque: o de Don Bolsonaroleone, o nosso idolatrado ícone. Quem poderia mais do que ele?”. Assim, continuava a pretensiosa aventura do Sinistro, e de seu deletério e estropiado exército.

  • Francisco Barreto é economista, professor e escritor