CANTO E VERSO, por Tereza Barros

Imagem: ‘Habitação dos negros’ (Rugendas)

“Deje qui tu nascesse
Quieu nunca qui oiei pra tu
Angora quieu tô veno
Qui tu tem os oio azú”
(Cantiga ancestral. História oral de negro aquilombado)

Aquilombada em útero de mãe cafusa
Escondida em imposta branquitude
Confusa identidade e culturalidade
Diaspórica ancestralidade
Mãe de guerreira matricidade
Solitária a parir sua terceira Maria
Nascida em tempo de guerra
Sem paz e de pai ausente
Gera(a)dor da indesejada semente
No lugar do filho primogênito
Negra filha quilombola desde o ventre


“Vinda de um mundo distante
A pele negra me diz
África me diz quem eu sou”
(Kawerna Man, Leon, Malik Lion – África Mãe)

Nascida em um preto corpo
Casulo de sua essência
Ânima de sua existência
Inquieta e libertária
De ancestralidade presente
Nas histórias e convivência
Menina predestinada
A integrar natureza e cultura
Ao seu viver e ao aprender
Assim foi alfabetizada e letrada
Visão de ser no mundo ampliada


“Cabelo quando cresce é tempo
Cabelo embaraçado é vento
Cabelo é como pensamento
Cabelo vem lá de dentro”
(Arnaldo Antunes, Cabelo)

Leu nos textos e contextos
Sobre diferenças e desigualdades
Viveu o racismo e o preconceito
Qual os ditos elitistas/populares
“Cabelo de branco é bom”
“Cabelo de negro é (puxa-)ruim”
Que a mãe prendia e trançava
E quando jovem os cabelos alisava
No seu advento cabelos ao vento
A assanhar os pensamentos
E o pixaim criou empoderamento


“Morena de Angola
que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela leva o chocalho,
ou o chocalho é que mexe com ela”
Chico Buarque – Morena de Angola)

Do Black Power fez seu preto poder
Em tempo de censura e do maldizer
Seus valores quebraram as correntes
Libertando a mulata e a morena
Ao expressar o seu ser e dever-ser
Causou estranhamento
Ao colorir o seu existir com seu vestir
Torços e turbantes pra proteger seu Ori
Cangas, pulseiras, colares de contas
Com as cores dos guias e santos
Ética e estética do ancestral saber


“Quando o relâmpago se apaga
Ouve-se o rugido do trovão
Flecha que incendeia a queda d’agua
Oyá! Oyá! Oyá!”
(Palavra Cantada – OYÁ)

Com a mãe natureza e a ancestralidade
Reencontrou as forças da espiritualidade
E integrou ao conhecimento universal
O saber-poder dos povos de terreiro
Salve Mãezinha benevolente!
Salubá Nanã! a lhe bendizer
Benzer e religar a seus Orixás
Oxum, Ora iê iê ô! A lhe ensinar
O bem e o belo espelhar
Com Iansã, Eparrei Oyá! A aprender
A guerrear e espaços conquistar


“Ontem um tempo difícil
Hoje ainda não acabou
Como Bonjolo e Benguela
A guerra ainda não cessou”
(África Mãe – Kawerna Man, Leon, Malik Lion)

Atuou na desconstrução de ditos malditos:
-“Você sabe com quem está falando?”
Com uma mulher negra de ação
Que quebrou com o seu saber-fazer
O círculo da submissão e da opressão
E com a vida verdadeira deu as mãos
– “Negra procure o seu lugar”
Lugar de denúncia e anúncio do preto viver
Lugar de luta e fala de ensinar e aprender
Lugar de descolonizar o patriarcal poder
Lugar de aquilombar os espaços de saber


“Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A certeza de ser uma eterna aprendiz”
(Gonzaguinha – Eterno Aprendiz)

Fez da sua vida um projeto social
E da educação uma prática cultural
Descolonizadora, libertadora
Transformadora do ser humano e da vida
Com a natureza e cultura integradas
A freireana Ação-Reflexão-Ação
A validar a biocêntrica cosmovisão
Com a poesia faz valer sua utopia
Da memória cantação de histórias
Em rodas dialógicas vive a partilha
Poéticas narrativas de pretas letras vivas

(Tereza de Santa Tereza de Olinda, em Paudalho, julho de 2020)

♦ Tereza Barros é Educadora

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  1. Tereza Barros Disse:

    CANTO E VERSO , inspirado em cantiga ancestrsl , cantada por minha mae e por canções que relembram ciclos de minha vida. Gratidão pela publicação

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