CARTEIRADA

Criada em 1988, a Operação Manzuá foi desativada em 2011 (Imagem copiada de abriosa.com.br)

O caso mais ou menos narrado a seguir deu-se na manhã de uma terça-feira em agosto de 1989, na Paraíba.

Aconteceu na barreira da Manzuá da BR 101 Norte, sentido João Pessoa-Natal, ponto estratégico da operação policial criada pelo então governador Tarcísio Burity com objetivo de tentar prender bandido entrando ou fugindo do Estado.

Recém designado para meio expediente por dia no local, naquela terça, postado no meio da pista o policial rodoviário federal Ginaldo viu passar por ele em marcha lenta, quase parando, um Monza seminovo, pintura metálica.

De dentro do carro, braço esquerdo estendido para fora do carro e a mão empalmando vistosa carteira de couro brilhoso com o brasão da República em relevo dourado, o motorista ostentava todo o seu poder com indisfarçável empáfia.

Como o veículo não fora parado no posto da Polícia Militar, 50 metros antes, Ginaldo intuiu que deveria ser alguma autoridade já conhecida dos PMs. Nada fez, portanto. Mas, incomodado com a atitude do figurão, foi lá saber quem era.

“Juiz classista. Passa aqui três vezes por semana, indo pra Mamanguape”, informou um soldado. “Vocês já checaram a carteira de motorista dele e os documentos do carro?”, quis saber Ginaldo. “Ah, patrulheiro, o cara é juiz, entendeu?”, explicou um cabo.

Ginaldo resmungou um “entendi sim” e voltou pro seu canto, mas já abrindo no pensamento uma contagem regressiva. Ansiando pelo momento de reencontrar o posudo. No dia seguinte, lá vem o juiz, mesmo carro, mesma pose…

Novamente no meio do asfalto, dessa vez Ginaldo gesticulou e indicou o acostamento à excelência. Foi obedecido no ato, mas, ao se aproximar, percebeu que o cidadão ainda segurava e expunha o seu até então inquestionável passe livre.

– Habilitação e documentos do carro, por favor – pediu Ginaldo, calmamente.

– Olhe aqui, Seu Guarda, estou com pressa. Tenho audiência em meia hora e…

– Habilitação e documentos do carro! – repetiu o PRF, agora subindo o tom.

– O senhor parece que não entendeu. Eu sou juiz…

– Abra a porta devagar e desça, senhor, que vou revistar o carro – ordenou Ginaldo.

Vendo que não tinha como fugir à ordem e à revista, Doutor Juiz atendeu, mas ficou observando de cara amarrada o policial mexer no porta-luvas e retirar de dentro uma carteirinha de plástico que guardava documentação do veículo e do condutor.

Ginaldo encontrou o que presumia. Habilitação vencida há um ano. Licenciamento do carro, há mais de dois.

– O carro e os documentos vão ficar retidos, senhor. Se quiser seguir viagem, pegue carona, táxi, ônibus ou chame alguém. Enquanto isso, vou lavrar o auto de infração e depois entrego sua via.

– Como é mesmo seu nome, Seu Guarda?

– É esse que o senhor está vendo no bolso da minha camisa. Mas o nome completo é Ginaldo dos Santos Veloso. Quer a matrícula também?

– Vou lhe processar por abuso de autoridade, fique sabendo. O senhor está obstruindo o trabalho da Justiça, viu?

– Fique à vontade, Doutor, fique inteiramente à vontade.

Feitas as anotações, Givaldo entregou a cópia do infrator. Que se revoltou ao ver três multas no papel, não apenas duas relativas à perda de validade dos documentos. “CTB, Art. 169”, leu, na terceira linha.

– O que é isso, Seu Guarda? O que significa essa outra multa aqui? – questionou Doutor Juiz.

– Significa que o senhor estava dirigindo com desatenção, segurando o volante só com uma mão – explicou Ginaldo.

Quase espumando pela boca de tanta raiva, o juiz pensou em rasgar a notificação ali mesmo e jogar os pedaços na cara do atrevido. Conteve-se. Respirou fundo e foi até o posto da PM. De lá, por rádio de viatura, mandou mensagem para o Fórum.

Quarenta minutos depois, já dentro de um carro da Junta do Trabalho de Mamanguape, sua excelência ouviu de quem veio resgatá-lo um “Foi que houve, Doutor?”.

– O carro quebrou. Achei melhor deixar com o pessoal da Manzuá. Quando a gente chegar no Fórum, vou ligar pra minha mulher providenciar reboque.

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