O TRANCELIM DE MAMÃE, por José Mário Espínola

Imagem meramente ilustrativa (Youtube/Poder360)

Lá pelos anos 1960 havia uma mendiga que frequentava a Rua Duque de Caxias, no centro de João Pessoa. Ela havia tido paralisia na infância e usava como estratégia estender as pernas e finas ao longo da calçada, para impressionar o passante, comovendo-o a lhe dar um dinheiro.

Lá ficava ela olhando com um olhar pidão para quem passasse. Dificilmente deixava de receber alguma coisa. Apesar da doença, das pernas finíssimas sequeladas, jamais deixava de arranjar marido, tendo filhos quase todos os anos, de todas as cores e de todas as caras.

Ela compunha o universo de figuras esquisitas que orbitavam o Ponto de Cem Réis. Havia também uma pobre menininha que era portadora de hidrocefalia, que se agarrava àquelas pessoas, geralmente mocinhas, que ficavam chocadas com a sua fealdade. Dizem que um dia a sua cabeça explodiu quando estava jantando. Por isso nunca mais foi vista.

Mamãe era católica e tinha muitas medalhinhas de santos, corações de Jesus, Agnus Dei… Que usava pendurados no pescoço por uma correntezinha, que chamavam trancelim, à época. Uma tarde, ela me mandou encontrar papai no Tribunal de Justiça para de lá irmos até o ourives, Seu Rolim, na Duque de Caxias, para que ele consertasse o trancelim que eu estava levando. Acontece que nem papai nem eu sabíamos onde era a loja de Seu Rolim.

Depois da sessão do Tribunal descemos a Rua Duque de Caxias, olhando para os lados para tentar achar a loja do ourives. Súbito papai tropeçou nas pernas da mendiga, e ficou horrorizado quando viu quem era. Balbuciou desculpas e sacou uma nota de 10 cruzeiros do bolso, dando a ela, que agradeceu.

Continuamos a descer, até o Ponto de Cem Réis, sem achar Seu Rolim. Aí, voltamos, subindo a rua. Súbito papai tropeçou novamente nas pernas da mendiga, pediu desculpas e deu-lhe mais 10 cruzeiros, ela agradecendo.

Subimos a Duque de Caxias até o belíssimo prédio do jornal estatal A União, que anos depois foi sacrificado e em seu lugar erigiram um prédio horroroso onde funciona a Assembléia Legislativa. E nada de Seu Rolim. Aí, voltamos. De repente papai tropeçou novamente na mendiga, pediu desculpas outra vez, puxou outra nota de 10 cruzeiros do bolso e delicadamente deu para ela. Depois, puxou-me reservadamente e disse:

– José Mário, vamos para o outro lado da rua.

Esse era o meu pai, desembargador Francisco Espínola, Chico Espínola como gostava de ser chamado. Tratava bem a todos, ricos e pobres, homens e bichos, sem exceção. Deixou o seu exemplo de magistrado simples, seguido por todos nós, geração abaixo. Era, portanto, além de simples, um homem justo.

  • José Mário Espínola
    Aprendiz de ajudante de magistrado

Comente O TRANCELIM DE MAMÃE, por José Mário Espínola

  1. Lauredo Ventura Bandeira Disse:

    Parabéns José Mário pela sua crônica familiar. Conheci seu pai e fiquei imaginando com detalhes tudo que você citava. Um grande abraço
    Lauredo

Comente

Não publicamos ofensas pessoais. O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *