DESPUDORADO ABANDONO, por Arael Costa

Balaustrada das Trincheiras é só mato e abandono (Foto de março de 2019 por Vinícius Miron/Portal Correio)

Com um não razoável atraso que despudoramente atribuo ao isolamento a que estamos submetidos, quase que em regime de lei marcial, acabo de ler o artigo do nosso Chico Pinto, com o qual concordo em gênero, letra e número, como se dizia antigamente.

Realmente, embora me pareça sermos muitos poucos a tomar atitudes dessa ordem, não podemos deixar de reclamar do poder público, municipal, principalmente, uma atenção mais acurada para os nossos monumentos e logradouros com viés histórico, que lamentavelmente estão cumprindo pena de degradação – temporal ou social, a que foram condenados por um tribunal inquisitorial meio incorpóreo, que se resguarda por esta imaterialidade.

Infelizmente, qualquer percurso que façamos em João Pessoa, a nossa quase que ex “Cidade das Acácias”, mesmo que não se tenha por guia o “Itinerário Lírico da Cidade de João Pessoa”, do poeta Jomar Morais de Souto, teremos a triste constatação de que monumentos e logradouros públicos, não apenas o busto do Livardo Alves, mas a própria história da cidade de João Pessoa está sendo corroída não pela pátina do tempo, e sim pelo mais escandaloso abandono.

É de uma tristeza e revolta imensas constatar com que a tamanha falta de pudor foi relegado o nosso patrimônio histórico e artístico-cultural pelos modernos administradores que assumiram a gestão da coisa pública, querendo nos fazer crer que conservar a cidade basta reformar praças, logo entregues a um abandono cruel e não cuidar de sua memória. Decerto, desconhecem eles a frase icônica inserta no frontispício do Museu do Ipiranga que diz “um povo sem memória é um povo sem passado e sem futuro” (autor desconhecido).

Quanta coisa de nossa história já se foi, algumas vezes como consequência de um modernismo irracional injustificado. Como nos dói, por exemplo, passar na confluência da Avenida General Osório com a Rua Peregrino de Carvalho e ver a quase ruína da antiga Biblioteca Pública. Como nos dói, também, o abandono da chamada balaustrada da Rua das Trincheiras e o descaso para com o verdadeiro Centro Histórico da cidade, que é o antigo Porto do Capim. Ali, prédios históricos como o da antiga Alfândega, da primeira sede da Capitania dos Portos da Paraíba e outros de igual valor já se foram, tragados pelo tempo associado a um condenável vandalismo pelo desleixo das autoridades.

São, ou foram, prédios públicos; são, ou foram, monumentos que homenageiam figuras ou relembram fatos de nossa vida como sociedade politicamente organizada, como definiam os gregos da Antiguidade. Tudo isso entregue ao mais vil dos abandonos. Por essas e tantas outras, com justa razão o nosso Chico Pinto clama aos céus por uma tomada de posição que estanque essa sangria que a memória da cidade está sofrendo.

Também na Rua das Trincheiras, interior de casarão virou estacionamento (Foto: Simone Moraes)

  • Arael Costa é jornalista e professor de jornalismo aposentado da UFPB

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