NAS ONDAS DO RÁDIO, por Humberto Espínola

Antiga sede da Tabajara, no Centro de João Pessoa, demolida nos anos 80 para dar lugar a um anexo do Tribunal de Justiça da Paraíba (Foto/crédito: radiotabajarapb.blogspot.com)

Recentemente, o meu irmão José Mario Espínola, doublé de médico e escritor, brindou-nos com bela e nostálgica crônica sobre a grande presença do rádio na vida dele e nas nossas. Essa leitura me abriu um baú de velhas lembranças ligadas ao tema, sobretudo as situadas nos idos dos anos cinquenta e sessenta. Velhas e inesquecíveis emissoras e emissões que afluíam em ondas hertzianas e enriqueciam o meu pequeno mundo de então.

O rádio fez parte minha mais tenra infância, e continuou presente e importante na minha adolescência. O rádio nos fazia sonhar, com seus programas de auditório, os seus musicais e os dramas retransmitidos em série (os precursores das novelas televisivas). Os seus noticiários comprovavam que não estávamos sós no planeta. E as propagandas comerciais ?

De nossa casa, voávamos “nas asas da Panair”! Se estávamos fracos, ele recomendava Calcigenol ou sugeria que seguíssemos “o exemplo do Rei Pelé”, tomando Biotônico Fontoura. As mulheres que estavam “naqueles dias” deveriam usar Modess. Curar um ferimento exigia rapidez: “Depressa, o Elixir Sanativo”. Gripe, tosse, rouquidão ? “Xarope Brandão, o defensor do pulmão” resolvia. Se estivéssemos com alguma dor ou achando a vida ruim, era só tomar Melhoral, “que é melhor e não faz mal”. A minha fraca memória ainda registra essa cena do “Trio Maravilhoso”, digna do teatro shakespeariano:

  • • Batidas na porta – Pam, pam, pam.
  • • Voz feminina – Quem bate?
  • • Voz masculina – Eu sou o talco.
  • • Voz masculina, mais grossa – Eu sou o sabonete.
  • • Outra voz feminina – E eu sou a água de colônia.
  • • Coro das três vozes – Nós somos o Trio Reeginaaa. 

Os receptores de rádio (e que chamávamos “rádio”) eram belos. Fascinantes e sofisticados objetos (e que ainda hoje se prestam a adornos de decoração). Havia os mais simples, desde o “rádio de galeno”, e as variações mais complexas, que recebiam ondas médias e curtas. Dotados de um sistema de válvulas, eles demoravam um pouco para funcionar. Os meus preferidos eram os que tinham “olho mágico”. Eu ficava fascinado, observando o círculo ir ficando verde até atingir a sua plenitude, e só aí começávamos a ouvir a emissão.

Aprendi com Papai o uso das ondas curtas, indispensáveis para alcançar as rádios de fora de João Pessoa, emissoras potentes como a BBC de Londres, a Deutsche Welle, a Voice of America e a Rádio de Moscou, que inclusive tinham algumas emissões em português. Passei muitas noites da minha infância buscando captar emissoras de outros países, os mais recônditos, e vibrava muito quando identificava uma emissora sueca ou holandesa, por exemplo, como também uma da Bolívia ou do Paraguai. Muitas vezes só conseguia acesso uma vez, e depois as perdia de vista, naquele emaranhado mundial de ruídos e vozes.

Eram várias as faixas de ondas curtas e por elas também acessávamos a Rádio Nacional, a Rádio Tupi, a Rádio Mayrink Veiga, diretamente do Rio de Janeiro, a então Cidade Maravilhosa, e as de São Paulo, como a Panamericana e a Bandeirantes. Já nas ondas médias acessávamos as estações locais, a exemplo da Tabajara e Arapuan de João Pessoa, Caturité de Campina Grande e Espinharas de Patos. Com um rádio de boa qualidade conseguíamos também captar as de Recife, com destaque para a Rádio Jornal do Commércio e a Rádio Clube de Pernambuco.

Posteriormente, já nos anos sessenta, apareceria uma estação carioca que pontificou e empolgou toda a nossa geração, graças à sua qualidade de som e conteúdo. Era a Rádio Jornal de Brasil, que se caracterizava por uma excelente discografia e pela voz sempre grave e límpida do radialista apresentador. Divulgava músicas da Bossa Nova e do jazz, intercaladas por um anúncio comercial, apenas. Marcou época. Muito depois vieram as AM/FM atuais.

Na Paraíba, a Rádio Tabajara era, sem dúvida, a maior referência do nosso universo radiofônico. A emissora tinha o seu cast de apresentadores, cantores e músicos locais. Transmitia programas de auditório que animavam as noites de sábado e domingo de uma cidade que ainda não dispunha de vida noturna nos moldes que hoje conhecemos.

Enoque e o ‘Tarado do Compasso’

Havia, claro, os programas populares, que exploravam com sensacionalismo as ocorrências policiais. Nada que se compare às de hoje. Os crimes de homicídio eram poucos, apareciam os primeiros casos de uso de maconha. Nessa linha, quem se notabilizou na época foi o radialista Enoque Pelágio. Ironicamente, ele tinha uma aparência que os adeptos de Lombroso a considerariam de “criminoso nato”, com um queixo por demais proeminente e avantajado, o que dava maior realismo às suas narrações.

Recordo-me da série de emissões sobre o “Tarado do Compasso”, indivíduo montado em uma bicicleta que ao passar por transeunte do sexo feminino (previamente escolhida), feria com a ponta de um compasso os glúteos (geralmente volumosos) da vítima, afastando-se rapidamente em seguida, não permitindo assim qualquer identificação ou perseguição.

Os supostos ataques do “Tarado do Compasso” repercutiam em toda a cidade e renderam uns quinze programas. Depois acabou, sem o menor rastro de quem seria o miserável autor daqueles crimes. As más línguas chegaram a dizer, então, que o bandido era o próprio Enoque, cuja bicicleta seria muito parecida com a do malfeitor.

No futebol, narrações vibrantes

Outro absoluto destaque nessa programação eram as vibrantes transmissões das partidas de futebol. Por essas narrações, rolavam em nossos gramados as disputas mais movimentadas do planeta, onde cada lance era supervalorizado e os gols, descritos com volúpia pelos esgoelados locutores!

Ah, não tem como esquecer, também, os nossos esmerados comentaristas, que faziam minuciosas análises dos aspectos tático e técnico das equipes e das atuações dos jogadores! O mais notável deles, o inesquecível Ivan Bezerra. Naquele período, um marqueteiro genial criou esse diálogo marcante, sempre utilizado no decorrer das partidas:

  • Locutor – Rádio é aqui!
  • • Comentarista – Tabajara para lhe servir.

Importantes coadjuvantes nessas transmissões, os chamados locutores auxiliares, conhecidos no meio como repórteres de pista, ficavam à beira do gramado para entrevistar jogadores, técnicos, árbitros e até cartolas das equipes, além de atuarem como locutores auxiliares, passando para o público ouvinte a descrição mais precisa dos lances mais impactantes da peleja, das faltas aos escanteios, dos pênaltis aos detalhes que somente eles percebiam.

Graças ao trabalho desses radialistas, acumulou-se ao longo do tempo uma antologia fantástica de casos e causos engraçados e curiosos com origem na relação entre repórteres de campo e jogadores de futebol, sobretudo. Desse folclore, lembro-me bem de uma entrevista antológica:

  • • Repórter – Senhores e senhoras, vamos entrevistar Macau sobre o dramático empate de ontem com o Sport de Recife. Macau, como foi o jogo?
  • • Macau – Fumu, né?… Joguemu. Não ganhemu nem perdemu. Empatemu, né?

E havia o plantonista, o saudoso Ernani Norat, que fornecia resultados dos mais importantes campeonatos do Brasil e do exterior. Para nós, ele era o maior plantonista do mundo, pois informava até resultados de jogos do juvenil da Rússia! Norat era botafoguense doente. Quando o Botafogo do Rio perdia, ele “esquecia” de dar o placar.

O inesquecível Pascoal Carrilho

Ângela Maria recebe coroa e faixa de rainha do rádio no palco da Tabajara, Programa Pascoal Carrilho (Foto publicada no livro ‘Tabajara, a Rádio da Paraíba’, de Josélio Carneiro)

Mas de toda a ‘grade’ das emissoras, a maior audiência ficava com os programas de auditório. Havia a “Matinal do Guri”, onde desfilavam os meninos prodígios, músicos e cantores, para a alegria das mamães. Um colega nosso do Pio X, Marcílio, era obrigado por sua Mãe a se apresentar com um enorme acordeon, muito a contragosto.

Nas noites dos sábados e domingos, os programas de variedades eram o entretenimento preferido. O mais famoso, o de Pascoal Carrilho, figura que usava muita brilhantina no cabelo e bigode “a la mexicana” (ambos pintados de acajou). E tinha um timbre de voz especial, acariocado.

Tipo realmente inesquecível, Pascoal valorizava o programa e suas atrações. Coincidência ou não, ele era muito amigo de Bienvenido Granda, El Bigote Que Canta, cantor mexicano que Pascoal ciceroneou durante sua visita a nossa cidade. Há muito folclore e histórias sobre ele que renderiam uma outra crônica. 

E aí veio a televisão, cujas imagens não permitem os voos da nossa imaginação, como fazia o rádio. Talvez por isso, ou só por isso, o rádio continua resistindo aos avanços tecnológicos, ainda está firme e forte em pleno século XXI e continua participando de nossas vidas.

Viva o rádio!

  • Humberto Espínola é advogado

3 Comente NAS ONDAS DO RÁDIO, por Humberto Espínola

  1. Marco Aurélio Smith Disse:

    Que memoria Humberto eu não recordaria 1/5 do que você lembra. Parabéns escritor

  2. Antonio Fonseca Jr Disse:

    Esta peça não é uma crônica; é uma máquina do tempo que me fez viajar aos anos 50 de uma forma muito precisa e detalhada que cheguei a ver alguns personagens quase que de forma materializada. Mas, como falei, Humberto Espínola tem a mente privilegiada e o seu relato preciso dá para intitular a crônica de Viagem Fantástica. Parabéns, Humberto, não deixe a caneta enferrujar.

  3. Caro Humberto/ li o seu belo texto, totalmente ‘sintonizado’ àquela época que, felizmente, permanece indelével em nossas melhores memórias. Parabéns… e obrigado por trazer até nós.

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