CRIANÇA DIZ CADA UMA!

Acho que já contei essa. Digo acho porque a memória é pouca e os arquivos, desorganizados ou irremediavelmente apagados. Vou recontar, então, porque é história de filho. Pra gente, que é pai, sai nunca de cartaz.

É história de Túlio, minha criança primeira. Digo criança porque, mesmo ele rondando hoje os 39, sabe como é… Uma vez Tulhinho (foto), sempre Tulhinho. Mas façam o favor de não confundir. O menino é botafoguense desde pequeno. Menos mal. Vamos à história.

Era uma vez um pai facilmente distraível que inventou de levar ao supermercado o filho pequeno buliçoso e curioso, desses que não param quieto num canto. Levou-o ao Bompreço da Praça Castro Pinto, na divisa do bairro de Jaguaribe com o Centrão de João Pessoa.

O menino devia ter o quê? Cinco anos, por aí… Não foi uma boa ideia tentar fazê-lo ajudante de feira. Pra começar, recusou o passeio no carrinho onde dividiria espaço com as compras. Quando o pai propôs, disse um não forte com jeito de quem diz: “Esse cara pensa que sou criança!”.

Esse cara sou eu. Não levo jeito. Não faço a linha durão nem me imponho conversando. Negocio. A alternativa foi dar-lhe a missão de apanhar nas prateleiras ao seu alcance coisas embaladas de fábrica que ele mesmo fazia questão de jogar dentro do engradado sobre rodas.

A parceria durou até a fila da carne, última etapa do processo, onde uma senhorinha puxou assunto para lastimar o Plano Cruzado em fase terminal, esculhambar José Sarney, governantes em geral e a falta de carne de primeira para consumo de classe média.

Concordei, claro, até para não esticar o papo nem perder de vista o filho que há pouco afastara-se um pouco para arrumar as laranjas obviamente já arrumadas pelo pessoal da casa num cestão agarrado a uma meia parede na entrada da lanchonete. “Ei, rapaz, vem pra cá”, chamei.

Ele veio abraçando quatro ou cinco laranjas, uma delas presa entre o queixo e o gogó. Despejou a carga e se afastou novamente, no exato momento em que a senhorinha bradava “Só tem ladrão! Só tem ladrão” em voz alta, chamando a minha atenção e a de todos em volta.

Coisa de segundos. Quando busquei a criança pelo rabo do olho… Cadê? Puft, sumiu! Deixei o carrinho guardando lugar e comecei a percorrer as avenidas de gôndolas, gritando “Tulhinho, Tulhinho, Tulhinho” por onde exibia meu desespero.

No circuito, fui perguntando a quem encontrava por um garoto de cabelinho curto, bochechas rosadas, “mais ou menos dessa altura”, vestindo… Vestindo o quê mesmo, meu Deus? Não sabia! Nossa Senhora, que pai horrível!

Fui até os caixas que formam pelotão de recepção e de óbvia contenção para quem já entrou no supermercado. Perguntei a cada moça que registrava feira, a cada consumidor que passava a feira. Incomodei todo mundo que dava cabimento à minha aflição.

“Tulhinho, Tulhinho, Tulhinho”, gritei ainda mais alto já na rampa de acesso e saída. Aí, vi um homem subindo ao meu encontro, apontando pra mim. Segurando a mão dele, meu filho. No reencontro, em vez de um senhor carão, acocorei-me, chorando, para abraçar minha criança.

Nosso salvador, quer dizer, meu salvador, era taxista no ponto bem na frente do supermercado. Depois de mil agradecimentos, perguntei onde ele ‘achara’ meu menino. A resposta do cidadão, desculpe se não lhe gravei o nome, surpreendeu. Nem tanto, talvez, tratando-se de meu Tulhinho.

– Ah, foi engraçado, amigo. Seu filho chegou ali na calçada, olhou pra mim e disse:  moço, me ajude a encontrar meu pai que ele tá perdido lá dentro.

2 Comente CRIANÇA DIZ CADA UMA!

  1. ROMERO ANTONIO DE MOURA LEITE Disse:

    Rubão, sendo Rubão.

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