A ERA DO RÁDIO NÃO MORREU, por José Mário Espínola

O ócio compulsório pelo qual estamos todos passando provoca efeitos diversos no nosso organismo. Um deles é o tédio profundo causado pela tarefa inglória de lavar pratos.

Eu não varro casa. Para mim varrer salas, quartos, é uma atividade abstrata: não vejo nem sinto o que estou fazendo, se estou fazendo bem, se está sendo eficiente. Varrer é como ter fé: acreditar no que não está vendo. O único parâmetro que eu tenho é a crítica de Ilma ao passar pelo cômodo, depois que eu terminei, nas raras vezes que eu varri. Resumindo: é um saco, varrer casa! Por isto nos dividimos, e ela é quem varre. Aliás: ela prefere, pois eu varro muito mal. Mas já que ela assume a tarefa de varrer, por justiça eu assumo a de… LAVAR OS PRATOS!

Existem três coisas que eu não gosto: fazer feira, ir à missa e lavar pratos. Mas faço todas, pois sou muito bem casado, cumpridor dos meus deveres e tenho que compensar a esposa pelos diversos sacrifícios dela em prol da vida em comum.

Fazer isso serve também para aplacar o remorso pelo fato de que eu sou analfabeto em culinária. Isso obriga-a a assumir essa atividade, quando preciso. Sou tão ruim de cozinha que na única vez que eu tentei fazer um café deixei a água queimar. Mas Ilma cozinha muito bem. Eu não passo de “um rico provador.” Ela faz excelentes bolos e deliciosas sobremesas. Assim, para compensá-la eu lavo os pratos. Cada um faz o que sabe.

Mas para executar essa árdua tarefa com a mínima eficiência possível tenho que ter algo que me distraia. Que me dê a ilusão de que o que estou fazendo é agradável. É aí que entra um artefato tecnológico que eu pensava que estava em processo de extinção, em plena obsolescência: O RÁDIO! Ele abriu o mundo para mim. Vou lavar os pratos? Ligo o radinho. Vou aguar as plantas? O radinho de lado. Vou lavar um piso? Só faço com o rádio por perto.

Antes do advento da televisão era o rádio que ocupava a nossa atmosfera, divulgando toda a evolução da humanidade moderna. Quando a TV chegou, houve quem vaticinasse a morte do rádio. Lêdo engano! Igual a o que era 60 anos atrás, ainda é o maior meio de comunicação das classes econômicas B e C. Maior até que as nefastas redes sociais.

Com o rádio descobri outros prazeres. Além das músicas que ouço pelas ondas da Cabo Branco FM, da Tabajara e até mesmo da Rádio Senado, existem o noticiário da CBN, da Correio e da Bandnews.

Tem de tudo: o impagável e hilariante José Simão. Os comentários inteligentes de Kennedy Alencar. O bate-papo embriagador com o enólogo Jorge Luque. O programa histriônico, porém muito instrutivo de Reinaldo Azevedo. As duas Carlas, excelentes apresentadoras: uma pela manhã e a outra à tarde, conduzem com maestria os seus respectivos programas.

O rádio é rico em variedades: além de músicas e notícias temos roteiros de viagem; conselhos econômicos; o Livre Pensar, de Mário Sérgio Cortella; um bate-papo futebolístico de alta qualidade com o excelente e sóbrio Bruno Filho, verdadeira enciclopédia do futebol; e a sempre muito informativa e agradável Cesta de Música com Sílvio Osias. E aqui fica a minha homenagem póstuma a Ricardo Boechat, para mim o melhor radialista de todos os tempos.

Pois bem, toda essa programação, pulando de estação em estação, me faz tirar de letra a chatice de lavar os pratos. Meu radinho pega tudo, de FM a pendráive. Eu lavo pratos dançando twist! E fazer a barba fica mais suave com o rádio ligado.

Cresci ouvindo muito o rádio, lá em casa. Músicas. Jogos, como a Copa do Mundo e as finais dos campeonatos. Lembro-me bem, por exemplo, da narração do enterro de Oliver Hardy, da dupla O Gordo e o Magro, mamãe e papai muito emocionados. Papai ficava sabendo das notícias do Brasil e do mundo ouvindo O Reporter Esso. Não havia televisão e o rádio estava presente em todos os momentos de minha vida.

Outro dia, ao ligar o rádio ouvi uma música antiga, cantada por Cauby Peixoto e Ângela Maria, e a nostalgia bateu. Aí voei bem atrás no tempo até pousar suavemente no final da década de 50, inícios dos anos 60, quando era menino.

Por essa época, eu estudava numa escola primária particular no bairro (então) popular da Torre. Quando seguia para a escola após o almoço eu ia ouvindo os programas de política, ao longo de todo o trajeto. Ou então músicas.

Para chegar à escola, percorria ruas que eram uma longa sequência de casinhas modestas, emendadas umas nas outras. E praticamente todas sintonizavam na mesma estação, o que permitia que eu não perdesse nenhuma estrofe da música, ou nenhum comentário de um jogo. A sensação, na ilusão da minha mente infantil, era a de que a rua era um rio e a água era a música que jorrava da seqüência de rádios, e que eu seguia rio abaixo boiando numa câmara de ar.

Muitas vezes ao longo do trajeto eu ouvia a música inteira, pois todas as casas tocavam a mesma coisa. Lembro-me que eu decorei a bela Marcha dos Marinheiros, da autoria de Canhoto e executada por Dilermando Reis, que tocava quase todas as tardes. Eu decorei todas as notas. Só não posso executá-la, pois nunca aprendi a tocar instrumento nenhum.

À tardinha, voltando da escola, a programação já era toda diferente. O ar era totalmente preenchido por programas de repentistas insuportavelmente monótonos, ininterruptamente por todo o caminho para casa. Talvez pelo cansaço, talvez pela ojeriza às matérias escolares mal ministradas, ou pela professora sem empatia; ou, o que é mais provável: pela monotonia das músicas(?) e vozes, o fato é que eu passei a não gostar desse gênero de manifestação musical.

Por tudo isso é que eu sou fã incondicional de um bom rádio. Eu tenho um amigo, o engenheiro Fernando Dias, que tem um radinho espião que usa para ouvir os jogos do nosso Botafogo. Digo que o radio é espião porque Fernando sabe de tudo o que é informação que pouca gente sabe: detalhes dos bastidores do clube, as falhas da federação de futebol, os escândalos, os juízes que roubaram para o adversário, tudo! E sempre me telefona logo que a gente faz um gol. Ou quando a gente leva.

Estou muito satisfeito com o radinho chinês que me acompanha. Ele satisfaz todas as minhas necessidades, de músicas a notícias. E me distrai bastante.

Você quer saber de uma coisa? Quando acabar esse confinamento EU NÃO QUERO mais saber de comprar a máquina de lavar pratos que tanto desejava!

  • José Mário Espínola é Médico e Escritor

3 Respostas para A ERA DO RÁDIO NÃO MORREU, por José Mário Espínola

  1. Estevam Martins da Costa Netto escreveu:

    Muito bom

  2. ROMERO ANTONIO DE MOURA LEITE escreveu:

    Impagável!

  3. Washington Feitosa escreveu:

    Que beleza. Também aprendia a ser ouvinte de rádio, na minha infância , por influência do meu pai. Às 5 da manhã ele já ligava, enquanto se preparava para ir ao trabalho. À noite, nós dormíamos ouvindo a rádio sociedade da Bahia.
    Hoje, diariamente escuto rádio. A primeira coisa que faço ao entrar no carro.
    Sem contar as duas resenhas de futebol que escuto pela Tabajara AM 1230,bem como as transmissões dos jogos do Belo. Seja no estádio ao em casa. Ah, adoro. Mais que a FM.
    Sem dúvida sou um rádioouvinte!