SAUDADE DOS OUTROS, por Ana Lia Almeida

Imagem por mera ilustração (Foto: Agência Municipal de Notícias/Foz)

Saudade de almoçar na casa dos Outros. Ver os Outros passando na rua. Se imprensar com os Outros no meio da multidão…

Dia desses a bateria do carro descarregou, por falta de estrada. Qual não foi a alegria quando o rapaz do seguro chegou: tratado como uma visita das mais importantes, guardados os tais dois metros de distância e respeitadas as máscaras, claro. Aceitou todo contente o copo d’água, o cafezinho e a rapadura. Foi o grande acontecimento da semana!

Um tipo de carência parecida levou minha mãe a abrir o portão pra ver se a rua ainda estava lá. Leva minha filha todos os dias à aula remota só pra ver a cara das amiguinhas dela. A falta dos Outros faz a minha sobrinha de três meses com certeza achar que a gente daqui de casa é um tipo esquisito com forma de celular: um povo que acende, conversa, depois fica lá parado em cima do sofá.

Esses Outros Remotos, os Outros a Distância, jamais serão como os Outros de Verdade.

  • Ana Lia Almeida é Professora e Escritora

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