OS NORMAIS, por Ana Lia Almeida

(Foto: imagem de mera ilustração/Veja-Stock/Getty Images)

Sabe os Normais da quarentena? Quero distância deles. Estão achando que o certo mesmo é manter os antigos padrões daquela vida sufocante e sem propósito que todo mundo já vivia… Ai, ai. Eu que não quero voltar praquele mundo fútil, cheio de exploração e miséria.

Os Normais pensam que a economia não pode parar, sem reflexão alguma sobre a enorme inutilidade entre tudo aquilo que é produzido. Acham que as crianças não podem parar de “aprender”, mas não pensam seriamente sobre o modelo de sociedade que esse aprendizado sustenta. Mal podem esperar o isolamento terminar para voltar para suas vidas vazias de sentido.

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Tem um Normalzinho dentro de mim. Ele me cobra meus prazos, e não aceita desculpas como estar acontecendo a maior tragédia da humanidade durante a minha curta existência.

Normalzinho quer que eu faça um projeto de pesquisa para segunda-feira, sem falta. Quer que eu termine aquele artigo do Congresso que foi cancelado, afinal, falta tão pouco, ainda podia rolar uma publicação numa revista Qualis A1 nesses tempos em que estou parada.

Ele me quer youtuber, editando vídeo-aulas mirabolantes. Vive me dizendo que estou feia, passando na cara as muitas gentes por aí que pintam o cabelo e são os atletas da quarentena. Normalzinho quer respostas. Até quando? Como? Por quê não?

Eu o expulso de mim, mas ele volta e muitas vezes me derrota.

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