A DESCONSTRUÇÃO DE UM ÍDOLO, por José Mário Espínola

Crédito: Rodolfo Buhrer/La Imagem/Fotoarena/Folhapress

O Dr. Sérgio Moro tornou-se conhecido por sua atividade judicante implacável, enquanto atuou na Operação Lava-jato. Por conta da quantidade e celeridade de condenações, e do status dos réus condenados, passou a ser visto como Guardião da Moralidade do Brasil.

Há muito tempo vem sendo acusado da prática de seletividade nas suas condenações, diante do fato de ter condenado muuuuito mais réus à esquerda do que à direita do espectro político.

Acusam-no também de ter interferido na última campanha para a escolha do Presidente da República, excluindo de forma célere o político que, à época, possuía as maiores chances de se eleger. E agindo de forma mais rápida ainda para garantir que ele não fosse solto nem concedesse entrevistas, o que poderia interferir no rumo da campanha, com resultados imprevisíveis para a eleição.

Se isso é verdade ou não é, o fato é que em seu discurso confuso do dia 24 de abril, para responder às acusações do ex-ministro Moro, o presidente Bolsonaro contou que às vésperas do segundo turno foi procurado por telefone pelo então juiz Sérgio Moro e que não o atendeu antes de concluída a eleição.

O que queria um juiz da ativa com um político? Mais ainda: dias antes do segundo turno com o candidato com maiores chances? Pior ainda: de um candidato que indiretamente tinha sido beneficiado por decisão judicatória desse magistrado? Essas são perguntas que só o tempo responderá.
Porém, pondo mais lenha nessa fogueira de teorias da conspiração, eis que o juiz aparece na casa do recém eleito, e dela sai nomeado ministro da Justiça.

Pouco tempo depois, Sérgio Moro é elogiado numa entrevista pelo já novo presidente, onde dá a entender que havia prometido uma vaga num futuro próximo no Supremo Tribunal Federal para seu recém-nomeado ministro da Justiça. Confirmou, também, que a presença do ex-magistrado em seu governo representava a moralidade, que tinha sido uma das suas bandeiras de campanha. E que o nomeou com carta branca para agir.

Eis que o tempo é cruel na sua capacidade de expor as verdades do mundo. Aquele outrora juiz brabo, implacável, desaparece, como se tivesse se acocorado, tornando-se inaudível nos episódios mais polêmicos da República atual. Citarei dois: o rumo das investigações do Caso Marielle e das investigações de casos que envolvem a família do presidente.

O Dr. Sérgio Moro, identificado pela maioria dos brasileiros como o juiz mais íntegro do país, entrou como o símbolo da luta contra a corrupção, bandeira de Bolsonaro. Com o tempo, e diante do gênio ruim do patrão louco, passou a se confundir com os demais ministros, bons ou fracos.

E vem o episódio da demissão do Diretor-Geral da Polícia Federal. Pessoa da total confiança do ministro, não o era do presidente, que tem preocupações pessoais que o levam a desprezar o código de ética da Polícia Federal e comunica ao ministro que vai demitir o Diretor-Geral. Está criado o confronto.

Desde a véspera sabendo que o presidente não abriria mão da troca que anunciara e, conhecedor profundo do caráter do presidente, com quem conviveu quase intimamente durante os últimos 15 meses, o ministro, uma vez que estivesse indignado com o absurdo que o presidente estava na iminência de perpetrar, já deveria ter se demitido.

E por que ele não se demitiu logo? Ou nas oportunidades anteriores, quando foi desprestigiado, ou mesmo humilhado por Bolsonaro? Porque ele tinha a esperança de receber o que fora combinado: a vaga no STF!

Desde anteontem assistimos à desconstrução de Sérgio Moro, até a véspera Ministro da Justiça e da Segurança e referência moral do bolsonarismo. Isso é o que temos visto acontecer a todos aqueles que de alguma forma discordam de Bolsonaro ou do bolsonarismo.

Às vésperas era alguém puro, livre de defeitos. De um dia para o outro vai do céu ao inferno. A pessoa acorda anjo e anoitece demônio.
Esse é o método fascista de tratar todo aquele que ousa discordar da opinião do poderoso de plantão. Trata todos assim, inclusive aliados.

As suas vítimas, até a véspera consideradas por eles uma pessoa íntegra, sem defeitos, dia seguinte já não valem nada. Passam a ser vistas e difamadas como um lixo social.

Na Alemanha, o nazismo utilizou maciçamente essa atividade contra os seus adversários. Na União Soviética, a prática foi aprimorada e também aplicada em larga escala. E agora ganha força no Brasil do ódio que contaminou as redes sociais.

Mas estamos tendo a oportunidade rara de assistir, também, ao fenômeno da RECONSTRUÇÃO POLÍTICA! Vou explicar melhor.

O presidente Bolsonaro fez a sua campanha em cima de bandeiras que pregavam a moralidade e uma nova prática de fazer política sem negociação. Suas hostes digitais, comandando robôs por todo o país, impregnaram a nação com definições virulentas contra os políticos que praticaram no passado a velha política do toma-la-dá-cá. Os mercenários fisiologistas, que trocam apoio por participação nos cargos, especialmente loteando ministérios e estatais.

Pois não é que Bolsonaro resolveu abraçar esses velhos políticos e lotear o governo? Diz-se que o que o leva a fazer isso não tem nada de novo. É um sentimento primitivo: o MEDO! Medo de que ele próprio e um de seus filhos venham a ser processados.

Para sobreviver e blindar a ele e a sua família, Bolsonaro se alia aos antigos inimigos, que ele havia descrito para os seus eleitores como a escória da política brasileira.

A história é rica em casos semelhantes. Os mais célebres vou relatar a seguir.

Eleito democraticamente para o parlamento alemão, e não tendo conseguido a maioria necessária para constituir um governo, Adolf Hitler se une ao parlamentares do Partido Comunista Alemão. Ora, os comunistas sempre foram massacrados pelos nazistas. Mas agora foram considerados bons o suficiente para poder assumir o poder.

Alguns dos primeiros atos de Hitler foi mandá-los para campos de concentração, sob a desculpa que os comunistas eram agitadores e haviam tocado fogo no parlamento.

Seis anos depois, Hitler selou um pacto com Josef Stalin, ditador da União Soviética, o que lhe deu carta branca para invadir a Polônia, que logo depois foi divida com a União Soviética. Estava deflagrada a Segunda Grande Guerra.

Portanto, a partir desses dias começaremos a ver, nas redes sociais, os bolsonaristas dando um polimento na fama e no caráter desses novos aliados.

Cadê o novo? Onde está a moralidade?

  • • José Mário Espínola 
    Cidadão Brasileiro
  • Contato com o autor: jmespinola50@gmail.com

Uma resposta para A DESCONSTRUÇÃO DE UM ÍDOLO, por José Mário Espínola

  1. Henrique escreveu:

    Excelente texto , muito bem explicado!!! Parabéns !!!