O EXERCÍCIO MODERNO DA PSICOPATIA, por José Mário Espínola

Imagem copiada de tecmundo.com.br

Embora o mal pelo mal seja mais evidente no ser humano, existem manifestações em outras espécies. São relatados casos de primatas maltratando, até trucidando seus semelhantes. Casos como os de animais adultos, machos dominantes, que atacam outros mais novos eu não considero. Acho que obedecem ao instinto de manter a sua liderança e garantir a procriação.

O instinto de atacar, ferir, matar, já existe nos vertebrados desde a origem mais remota. É o instinto da autopreservação e conservação da espécie. Está no cérebro primitivo. Este, por sua vez, está no interior do cérebro moderno. É uma região na base do crânio chamada “cérebro reptiliano”. É o cérebro primitivo, responsável pelo instinto, pelas sensações primárias: fome, sede, saciedade, sobrevivência.

O que eu entendo como “o mal” é, para mim, a atitude consciente e deliberada de prejudicar algo ou alguém. Depende da participação do cérebro superior: o córtex cerebral. É a presença deste que diferencia o homem/primata dos demais animais, tornando-o capaz de elaborar um raciocínio, analisar e tirar conclusões.

O psicopata representa o que há de mais próximo do mal voluntário, na espécie humana. Dentre as doenças mentais, a psicopatia é representada por pacientes que não são capazes de sentir piedade, de pensar no sofrimento alheio, de ter sentimentos nobres. É o único capaz de praticar o mal deliberadamente.

Psicopatas sempre existiram e sempre existirão. Felizmente, em minoria. Estima-se que sejam 1% da população mundial, o equivalente a uns 2 milhões de brasileiros. Meu Deus!

Mas é mais preocupante quando encontram condições ótimas para desenvolver o seu instinto. No passado, manifestaram-se da forma como queriam seus líderes. PolPot no Camboja, Hitler na Alemanha, Jim Jones na Colômbia e Stalin na União Soviética são exemplos de indivíduos que arrastaram milhões para fazer o mal do jeito que esses psicopatas idealizaram.

O mais comum, todavia, são os psicopatas amiúde, que não encontram condições propícias para realizar seus intentos. Ou fazem um mal numericamente menor. Podemos enquadrar entre esses o casal Nardoni, Suzane Richthofen, Mark Chapman (assassino de John Lennon), Charles Manson (assassino de Sharon Tate), o médico Roger Abdelmassih e o pretenso médium João de Deus, para citar alguns exemplos.

A psicopatia está profundamente embutida em movimentos antissociais que se travestem, identificam-se ou agem como punks, black blocs, hooligans e outros da espécie. Modernamente, pode ser encontrada nos movimentos ultranacionalistas, podendo ser classificada como patologia social.

Pois não é que nessa linha de psicopatologia surgem os autores de notícias falsas, que invadem as redes sociais, como forma moderna e atualizada de psicopatas?

As chamadas redes sociais, instrumento mais moderno de comunicação, espalham boatos como se fossem notícias, geralmente com o intuito deliberado de fazer o mal a alguém. Ou a todo um país. Diferente da imprensa e da mídia em geral, elas não têm controle algum. Apostam na incapacidade de o cidadão comum checar, de conferir uma informação.

À disposição de pessoas normais, as redes sociais têm uma utilidade infinita. Uma vez controladas por alguém desonesto ou, pior ainda, por um psicopata, podem causar o mal em escala pandêmica. A modalidade surgiu muito antes da pandemia viral. É a mais preocupante, pois a doença passa e as redes sociais infestadas de psicovírus continuarão a existir e a fazer muitos estragos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, vários desses indivíduos elegeram um presidente que expõe muitos dos sinais de um psicopata: mente descaradamente, ilude, persegue e deliberadamente faz o mal a pessoas no território americano e no mundo, como a recente suspensão da contribuição à Organização Mundial de Saúde (OMS).

Temos visto muitos dirigentes mundo afora eleitos dessa forma, pelas redes sociais. Coincide que todos eles têm tendências autoritárias, qualquer que seja o matiz ideológico, e têm profundo desprezo pelo próximo, pelos mais desvalidos, como o visualizado em Donald Trump. São claras demonstrações de psicopatia. Desprezam o fraco, o vulnerável. Veem educação e cultura como manifestação de fraqueza. Não têm a menor preocupação com a sorte da população.

Como as redes sociais são universais, nós não estamos livres delas. Nem de seus efeitos, que têm se revelado devastadores para a reputação de quem ouse desagradar alguém. Mas seu efeito deletério mais preocupante é a constante e crescente ameaça à democracia.

Esta é a grande ameaça que estamos sofrendo, agora, muito maior do que a pandemia de coronavírus.

José Mário Espínola
Cidadão brasileiro

• José Mário Espínola é Médico e Escritor