EVANGÉLICOS E BOLSONARO, por Rubens Pinto Lyra

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Juan Calvino e Martin Lutero (Imagem copiada de christianitydaily.com)

Não são poucos os que, até hoje, se interrogam sobre as razões pelas quais uma parte expressiva do eleitorado cristão – no caso, a maioria evangélica – pode votar para o cargo máximo da Republica em um candidato que, mesmo tendo fugido dos debates, não deixou de proclamar, alto e bom som, sua simpatia por regimes militares que torturaram, mataram ou perseguiram milhares de brasileiros. Voto que contribuiu, decisivamente, para a vitória do ‘Mito’.

O Messias – Bolsonaro – manifestou-se, inclusive sadicamente, na votação do impeachment de Dilma Rousseff. Tripudiou sobre o sofrimento experimentado pela ex-Presidente quando presa durante o regime militar, ao exaltar a figura do seu torturador, o Coronel Brilhante Ustra – tido como o que mais se destacou, durante a vigência da ditadura, nessa repulsiva prática. O ex- capitão também não escondeu suas posições sobre os direitos humanos, por ele sistematicamente criticados, nem disfarçou, em diferentes ocasiões, atitudes agressivamente machistas.

A perplexidade face à tão chocante escolha torna particularmente oportuno o estudo dos fatores psicossociais do voto depositado nos evangélicos no energúmeno que, em péssima hora, preside os destinos do pais. Importa sublinhar que os condicionamentos psicológicos que o caracterizam guardam semelhança com o de muitos, cristãos ou não cristãos, a despeito do substrato doutrinário que os separam. O dos evangélicos tem origem remota na doutrina dos maiores ícones do protestantismo: Lutero e Calvino.

Esses teólogos enfatizam a impotência do individuo face aos insondáveis desígnios do Senhor. Para eles, apenas a vontade divina determina a vida das pessoas e todos os acontecimentos históricos. Muitos calvinistas e seguidores de Lutero transferiram para o plano político esse sentimento de submissão incondicional, sobretudo em momentos de crise e de desesperança, acreditando que somente um demiurgo poderia evitar a derrocada ecômica e social – chame-se ele Füher, Duce ou Mito.

Com efeito, para luteranos e calvinistas, mesmo o pior tirano não pode ser contestado: se governa, é porque Deus quer. Nas palavras de Lutero, citadas por Fromm: “Deus prefere aguentar a continuação de um governo, por pior que seja, do que deixar a ralé rebelar-se, não importa quão justificada ela se ache para fazê-lo” (FROMM: 1970, p.74).

Essa mesma visão fatalista, de forma ainda mais acentuada, está presente em Calvino, para quem “os que vão para o Ceú não o fazem, absolutamente, por seus méritos, assim como os condenados ao Inferno o são simplesmente porque Deus assim o quis. Salvação ou condenação são predeterminações feitas antes do homem nascer” (CALVINO: 1928).

Tais concepções, que negam radicalmente a autonomia do indivíduo, prepararam, nolens volens, o caminho para sua submissão às autoridades seculares – detentoras do poder de Estado. Estas, na atualidade, têm, preponderantemente, pautado suas políticas aos exclusivos interesses do mercado. Elas visam à desconstrução do modelo social-democrata de Estado (o de Bem Estar Social) e sua substituição pelo “Estado mínimo”, mero instrumento da política neoliberal das classes dominantes.

Elas se afinam com teologias que consideram seus melhores fieis os que conseguiram se destacar na “livre iniciativa”, ou que, de uma forma ou de outra, alcançaram sucesso material. Dentre estas. a teologia de Calvino, hegemônica em várias igrejas, presbiterianas e pentecostais, com destaque para a Central Presbiteriana de Londrina. O pastor desta Central pediu explicitamente aos seus membros para assinarem o apoio à criação do novo partido de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil (PACHECO: 2020).

Trata-se da plena adequação da ideologia religiosa às necessidades de legitimação do sistema capitalista, e do apoio ostensivo àqueles, como Bolsonaro, com ela se identificam. Como recompensa a essas igrejas, o governo Bolsonaro nomeou um dos mais destacados calvinistas, Benedito Aguiar Neto, Para a presidência da Capes, além dos que já integravam o alto escalão do governo, como os pastores Sérgio de Queiroz e Guilherme de Carvalho.

• Rubens Pinto Lyra é Doutor em Ciência Política e Professor Emérito da UFPB

  • REFERÊNCIAS
    CALVINO, Jean. Institutes of Christian Religion. Filadélfia: Presbyterian Board of Christian Education, 1928).
    FROMM, Eric. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970.
    PACHECO, Ronilson. Quem são os evbbyteangélicos calvinistas que avançam silenciosamente no governo Bolsonaro? Intercept Brasil, 20 fev. 2020.


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