TÁ FALTANDO ELE

Quando iniciou o curso de Mestria Agrícola na Escola de Bananeiras, em 1943 ou perto disso, ele era o ’13’ para colegas e bedéis contemporâneos seus. Porque assim chamavam ou identificavam pelo número de matrícula os novos internos do antigo Patronato que brotara desde os anos 20 no lugar mais bonito do Brejo Paraibano.

Acredito que apenas os professores lhe pronunciavam o nome. Pelo menos na hora da chamada, em sala de aula, onde se revelou aluno bom de nota. Especialmente notas musicais, pois logo aprendeu a tocar saxofone na banda da Escola o menino que antes arranhava um cavaquinho e com sua arte apurava algum trocado para matar a fome, rodando chapéu em feiras e praças livres.

Técnico agrícola diplomado, Vicente de Paula Nóbrega assumiu emprego e identidade plena como cidadão e profissional para dirigir o posto do velho Fomento Agrícola de guerra em Tacima. Na cidade do Curimataú fronteiriço com o Rio Grande do Norte ele conheceu e ‘tirou de casa’ a sua amada Maria Aparecida. Casou com a filha mais nova de Seu Joca e Dona Severina Barbosa.

Vicente encerraria sua carreira de chefe de posto do Ministério da Agricultura em Bananeiras, em 1963, creio, depois de ter exercido a função por dois anos e pouco em Princesa Isabel. Desse tempo, ‘passava uma fita’ marcante da sua temporada em Tacima. Contava com justificado orgulho que ousou distribuir a agricultores famintos e flagelados por seca medonha toda uma safra de grãos (feijão, milho e arroz) plantada com ciência e esmero na fazenda experimental sob sua responsa.

“Quase fui demitido, mas me justifiquei bem e (talvez em razão de) fui transferido para Princesa”, dizia, a cada reprise a que este filho assistia. Com tal espírito e perfil, ingressou na antiga Ancar (Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural), antecessora da Emater, e foi designado para o escritório da instituição em Caiçara. Mas voltou um ano e alguns meses depois para Bananeiras, onde o aguardavam cadeiras de Práticas e Mecânica Agrícola na Escola onde fora aluno. Onde cumpriu bem um magistério de 16 anos.

Vicente ainda tem muitas fitas (como chamava suas histórias) para passar. Não cabem neste espaço. Nem longa-metragem daria conta. Uma série, talvez. Em livro, quem sabe. Porque são muito boas as fitas que protagonizou por quase 89 anos, a duração de sua existência terrena. Protagonista como pessoa, pai, marido, educador, esportista, botafoguense doente e músico.

Ele nos deixou exatamente em 6 de abril, há um ano. Para alguns, tenho certeza, apenas pausou o convívio dos afetos presenciais com todos aqueles que o conheciam, admiravam ou amavam. Mas permanece em cartaz por tempo infindo. Principalmente na saudade de Fia, como carinhosamente chamava quem com ele segurou ‘todas as barras’ maneiras ou mais pesadas que tiveram por mais de 60 anos. Principalmente, também, na lembrança dos seus filhos, netos, sobrinhos, irmãos e da multidão de amigos que cativou por toda a vida.

6 Comente TÁ FALTANDO ELE

  1. Aderson Machado Disse:

    Tive a honra de ter sido aluno do Professor Vicente, em Bananeiras, e, por alguns dias, na UFPB, Campus de João Pessoa. Espero que ele esteja em um bom lugar, no Plano Celestial, em função mesmo de sua conduta como pai, esposo, professor e amigo das pessoas com as quais conviveu ao longo de seus 89 anos aqui no Planeta Terra.
    Em tempo: Não sabia que a esposa dele era conhecida, em família, pela alcunha de Fia, pois esse era o nome pelo qual era conhecida a minha primeira esposa. Ponto.

  2. Liberalino Disse:

    Realmente há muito para falar ao seu respeito, mormente coisas positivas. Podemos afirmar de cátedra ter sido uma invejável Pai, filho, IRMÃO e Amigo sou testemunho de todas essas assertivas em face de ser-lhe grato por tudo que fez por mim. Daí, por gratidão, impossível esquece-lo. QUE DEUS o tenha.👍🙏🙏👏👏

  3. Eloise Elane Disse:

    Lindo texto meu querido Rubens. Bem que você é Robinho podiam trabalhar um livro biográfico de seu Vicente. Vocês terão muito o que contar. Beijosvda comadre.

  4. Wellington Farias Disse:

    Seu Vicente é digno de uma biografia. A sua trajetória de vida merece um registro em livro. Seu Vicente, assim como as criaturas de alma grande, não morreu totalmente, porque se perpetuou através do seu legado como pai de família; como professor universitário; como músico e criador de um projeto que muito me inspirou para tocar um semelhante na minha Serraria. Seu Vicente está muito presente na vida de todo esse povo que continua levando adiante um pouco do que aprendeu com ele.

  5. José carlos Leite de Freitas Disse:

    Tive a Honra de conhecer o Prof. Vicente inicialmente no Terço dos Homens da Igreja de Santa Julia,onde fui convidado por ele para me tornar um voluntário na Escola de Música Toque de Vida que de pronto aceitei e onde permaneci até sua saída da presidência da Escola.No entanto continuamos nossa amizade e nos encontrando sempre ao seu chamado.O que posso testemunhar um homem de caráter e honradez e honestidade.Como contador que fui da Toque de vida posso afirmar de sua honestidade como dirigente daquela Instituição.Sou grato a ele por tantos ensinamentos e exemplos.

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