PRODUÇÃO ANIMAL (I), por Antônio Carlos Ferreira de Melo

Imagem por mera ilustração (copiada de vetogate.com)

Ser professor do Colégio Agrícola Vidal de Negreiros (CAVN) deu-me a oportunidade e a felicidade de implantar ou incrementar alguns projetos de produção animal na tradicional e querida Escola de Bananeiras, no Brejo Paraibano.

Quando me iniciei no magistério, em 1º de março de 1973, não existia uma só galinha para viabilizar a integralidade do processo de ensino-aprendizagem em Avicultura de Corte, disciplina que passei a ministrar e que exigia aulas práticas para toda teoria inerente à parte técnica.

De fato, alunos somente poderiam melhor fixar os conhecimentos que lhes eram transmitidos se instruídos a fazer para aprender, a aprender fazendo. Posso afirmar de cátedra, sem trocadilho, que aquilo era real, pois assim ensinaram ao eterno aprendiz que fui, estudante ou professor, do próprio CAVN.

Para dar a meus alunos a prática necessária, recorri ao Professor José Lenilton de Carvalho, então diretor. De imediato, ele determinou a aquisição de 100 pintos de um dia que foram apascentados no que restara, no campus do Colégio, de um pequeno aviário, obsoleto e abandonado.

O aviário teve que ser adaptado para atender às demandas da disciplina, dentro dos conceitos técnicos vigentes. Para tanto, remodelamos o único galpão remanescente de um antigo parque avícola que a Escola mantinha nos anos cinquenta.

Adequações e adaptações consumadas, em poucos meses começamos uma atividade que há anos deixara de existir. Confesso, contudo, que eu mesmo teria que aprender fazendo, pois, enquanto aluno da Casa, não participei de aulas práticas específicas para aquela área.

Mesmo com tal deficiência, enfrentamos os desafios e povoamos o galpão com as primeiras 100 aves. Lembro muito bem que recebemos os pintinhos à noite e nos preocupamos inicialmente em fornecer às aves água fresca, alimentação e aquecimento artificial, através de campânulas elétricas.

No acolhimento aos pintinhos contei com a valiosa participação do colega Ozéas Almeida Neto e dos meus alunos. Passamos a noite em vigília, para vencer uma etapa sequenciada pelo manejo dos animais até completarem a idade ideal de abate (antes, 90 dias; hoje, 43, em média).

Ressalto que todas as práticas de manejo eram feitas pelos alunos que pagavam a disciplina Avicultura, não tendo a participação de nenhum funcionário, até por que era um pequeno projeto que tinha como filosofia a exclusiva participação dos educandos.

Destaco ainda que naquele tempo não havia qualquer criação de frango de corte em toda a região, tampouco o hábito de se consumir galinha de granja ou galinha branca como era chamada, com pouquíssima chance de concorrer com a tradicional galinha de capoeira ou caipira.

Quando chegou o momento de comercializar nossas aves, não sabíamos o que fazer. Procuramos o diretor para ver se tinha alguma sugestão, inclusive porque, passando da idade ideal de abate, o consumo de ração seria muito elevado e caro, podendo levar o pequeno projeto ao insucesso.

Lenilton deu como sugestão vender pelo menos duas aves a cada professor da Escola e o que sobrou (cerca 40 aves) levamos, eu e os alunos, à feira livre de Solânea, cidade ‘conjugada’ a Bananeiras. Passamos o dia inteiro sem conseguir vender uma só galinha.

“Isso não presta, fede a ração e deve ser muito ruim”, diziam os feirantes. Voltamos para o Colégio e no dia seguinte começamos a oferecer as aves a moradores de Bananeiras. Tivemos algum sucesso, com muito trabalho.

Apesar das dificuldades, nem pensar em descontinuar o projeto! Povoamos o galpão por muitas vezes e aos poucos convencemos pessoas da região a consumirem nossas aves e a galinha de granja meio que caiu no gosto no Brejo.

Comércio de aves garantido, resolvemos pegar um velho estábulo desativado e adaptá-lo para apascentar mil aves, 500 numa primeira etapa e mais 500 quinze dias depois. Porque resolvemos dividir o galpão em duas partes, para não termos problemas com a comercialização, mesmo sabendo ser pouco recomendável colocar aves de idades diferentes em um mesmo espaço.

Providenciamos uma divisória para os grupos, corremos o risco. Tivemos sucesso, apesar de a produção ter ficado por um bom tempo limitada aos dois galpões improvisados, pelo fato de não termos margem para vender mais nem galpão disponível para futura expansão.

O nosso objetivo maior estava sendo cumprido, todavia. O importante era ministrar as aulas práticas e mais uma vez destaco que até aquele estágio tudo era cuidado e manejado exclusivamente pelos alunos. O tempo todo. Inclusive aos sábados, domingos e feriados.

  • • Antônio Carlos Ferreira de Melo é Professor aposentado da UFPB e Zootecnista