DE ‘CARANGUEJO’ A PROFESSOR, por Antônio Carlos Ferreira de Melo

Antônio Carlos, Caranguejo (Foto: perfil WhatsApp)

Um encontro inesperado na última quarta-feira (5) com o jornalista e escritor Robson Nóbrega, que não via há cinquenta anos, remeteu-me de imediato às lembranças do meu tempo de criança em nossa Bananeiras, no Brejo Paraibano.

Comecei lembrando do local onde nasci, bem próximo do estábulo do Colégio Agrícola Vidal de Negreiros (CAVN), onde ficava nossa casa e o local de trabalho de meu inesquecível pai, meu maior incentivador do sonho de ser aluno da respeitada e então concorridíssima Escola de Bananeiras.

Meu velho pai sempre dizia: “Meu filho, você e seus irmãos são privilegiados por terem nascido dentro de uma escola de renome e tenho fé em Deus que aqueles que aqui estudarem certamente terão um ótimo início de vida”.

Nasci realmente dentro do campus de uma escola, uma escola técnico-agropecuária que, como diria o poeta, deu-me régua e compasso para traçar o meu destino e, nesse traçado, plantar e fazer germinar em mim a vocação de professor.

Tive ainda a felicidade de ter sido esforçado aluno de excelentes professores, a exemplo do saudoso Vicente de Paula Nóbrega, pai de Robson e minha referência no ensino de Mecânica Agrícola.

A Vicente de Dona Aparecida – ele e ela pais também de Rosane, Rubinho, Rejane e Roosevelt Buscapé – devo adicionar a excelência dos professores  Joaquim Edson de Araújo, Alda de Sousa e Silva e Inácio Batista Dantas, entre outros, que me fizeram dar os primeiros passos na direção da cátedra no próprio CAVN.

Nesse processo de aprendizagem, não posso deixar de lembrar que em relação aos ensinamentos práticos da área zootécnica o mestre maior foi Lucas Marques de Melo, meu inesquecível pai.

Apesar das limitações na parte teórica, por ser pouco letrado, Seu Lucas tinha habilidades incríveis. Foi, sem sombra de dúvidas, o melhor professor de práticas, com sua vasta experiência na área, a partir de sua própria lida com o rebanho bovino do nosso Colégio, tudo sob orientação inestimável do Doutor Aluísio Araújo, Médico Veterinário, com quem meu pai aprendeu quase tudo do mister que lhe coube.

O fato de Seu Lucas ser funcionário da Escola não significava, contudo, condição para favorecer qualquer filho dele nos exames de admissão a que eram submetidos os candidatos a uma vaga no CAVN. Para ter acesso ao curso de Mestria Agrícola (equivalente ao antigo curso ginasial, hoje segunda fase do ensino fundamental), pestanas e neurônios (estes, mesmos ou talvez insuficientes) foram meus ‘pistolões’.

Na empreitada, ajudaram-me sobremaneira os ensinamentos do Grupo Escolar Xavier Junior, em Bananeiras, então dirigido pela rigorosíssima professora Venícia de Almeida Santa Cruz, e do grande professor Severino Campos, Seu Severino da Estatística, responsável pela agência local do IBGE. Ele mantinha na cidade um cursinho preparatório para a prova de acesso ao Colégio Agrícola.

Todos sabiam: quem se preparasse com o Professor Severino tinha praticamente garantida a matrícula naquela escola, reconhecida nacionalmente. Comigo não foi diferente e, com isso, atendi aos meus anseios e expectativas de meus queridos pais. Iniciei meus estudos em 1965, começando pelo Curso de Mestria Agrícola e findando pelo Curso de Técnico em Agropecuária em 1972.

Um fato curioso e fundamental na minha caminhada. No primeiro ano de CAVN, recebi fardamento, botas e material didático, o que me facilitou muito a frequência escolar. Afinal, se fosse para comprar tudo aquilo ficaria muito difícil para o meu pai e o salário pequeno que ele percebia para sustentar muitos filhos estudando.

No ano seguinte, infelizmente, o governo cortou o benefício e cada aluno teve que se virar. No meu caso, o professor Joaquim Edson de Araújo, de Introdução à Zootecnia, chefe do meu pai no Setor de Zootecnia da Escola, chamou-me à casa dele e disse:

– Olhe, você agora não vai ter mais os incentivos que o governo dava em fardamento e material escolar; então, vou lhe presentear com uma seringa de metal e 100 doses de vacina contra a aftosa, pra você sair vacinando os animais da região e ganhar uns trocados nos finais de semana, que é quando você tem tempo, para com isso garantir todo o seu material.

Professor Edson deu-me também, naquela oportunidade, os ensinamentos teóricos e orientou que meu pai ensinasse a prática. Pratiquei, primeiro, nas próprias e poucas vacas do mestre. Depois disso, senti-me seguro para sair oferecendo nos sítios um serviço de vacinação que me garantiu um dinheirinho bom para bancar várias despesas.

Não foi fácil. Com apenas 14 anos, tive que enfrentar, mas enfrentei e superei, a desconfiança natural dos primeiros clientes. Ganhei-lhes a confiança, enfim, e logo outros criadores do município e de municípios vizinhos abriram-me seus currais com naturalidade e estímulo ao imberbe vacinador.

Ao concluir o Curso de Técnico em Agropecuária em 1972, preparei-me para buscar emprego como Técnico na Ancar do Maranhão, à época  o novo eldorado da área, pois o Estado queria desenvolver sua agropecuária e buscava técnicos desbravadores para tal finalidade.

Ancar era a sigla que identificava a antiga Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, sucedida pela Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).

Nessa fase aconteceu um dos fatos mais importantes de minha vida. Morava com alguns professores numa casa do CAVN e já estava de malas prontas para viajar quando fui surpreendido por José Pires Dantas, meu mestre de Química. Éramos, vejam só, colegas de ‘república’.

Pois bem, antes que eu pusesse o ‘pé na estrada e na profissão’ de Técnico da Ancar, ele me deteve: “Desmanche a mala e se prepare para amanhã iniciar sua carreira como professor do Colégio Agrícola Vidal de Negreiros, porque falei com o novo diretor, o Dr. José Lenilton de Carvalho, que de pronto aceitou o meu pedido de você ser professor de Zootecnia”.

Assim foi. A partir de março de 1973, tornei-me professor do colégio onde estudei e me formei técnico. Lembrando que naquele ano não havia concurso de provas e títulos para ingresso no magistério público. Valeram-me, acredito, meu desempenho como aluno, a indicação do Professor José Pires Dantas, a confiança do Diretor Lenilton e dos demais colegas e amigos que fiz na Escola

Imagine a alegria de me tornar professor do CAVN! E a alegria de meus pais, quase sem acreditar no feito, porque achavam quase impossível um filho de um humilde servidor público se tornar professor da famosa Escola?

Assumi com muito orgulho e já no dia seguinte, auxiliado por outros professores experientes, comecei a elaborar meu plano de aula e exatamente no dia 1º daquele mês deu-se minha estreia como educador.

Ministrei a minha primeira aula com naturais dificuldades de principiante e agravantes de ter, entre meus alunos, uma namorada e três ex-colegas de turma reprovados no último ano do curso, em 1972.

Meio trêmulo iniciei a aula, mas graças a Deus em pouco tempo me recobrei e terminei convicto de que deu tudo certo.

Ao me inaugurar na docência, era professor horista, sem vínculo empregatício. Uma condição precária, portanto. Graças à Providência Divina, entretanto, já em 1975 o Ministério da Educação normatizou um concurso interno na UFPB para regularizar a nossa situação funcional, pois vários colegas estavam na mesma situação.

O concurso foi realizado sob inafastáveis rigor e isenção, com banca examinadora presidida pelo Professor Vicente de Paula Nóbrega, de quem recebi, com muita honra, o certificado de aprovação em primeiro lugar.

Algum tempo depois, logo que apareceu o Curso de Zootecnia no Campus da UFPB em Areia, realizei o sonho de ser Zootecnista. A Zootecnia é a minha grande paixão profissional. Um sonho que eu e meus pais acalentamos desde minha infância.

Concluído o Curso de Zootecnia, tornei-me chefe do Setor de Zootecnia do CAVN, onde trabalhava meu querido pai e ainda tive a alegria de transformar a casa onde nasci e morei por muitos anos em escritório da unidade de trabalho do complexo educacional a que servia.

Diariamente, ao entrar naquele ambiente, revivia em pensamento meus dias de menino, o filho de Seu Lucas e Dona Isaura que acordava às quatro da madrugada para ajudar o pai a ordenhar as vacas e em seguida tomar banho e café, seguindo para a sala de aula, atravessando até a escola um caminho cheio de lama. Na Bananeiras dos anos 60 do século passado chovia seis meses, quase sem parar.

Ao final da caminhada, entrava na classe com a farda de mescla azul invariavelmente salpicada de lama. Biu da Lotação, um dos meus queridos colegas, brincava com minha aparência e vestes: “Rapaz, todo dia tu chegas assim, é, melado feito caranguejo?”.

À gozação eu reagia discretamente, estirando o dedo médio na direção de Biu. O resto da turma percebia e ria. Lógico que o apelido pegou e, não demorou, passei também a gostar da alcunha que carrego até hoje, sem problema algum e com satisfação, devo dizer. Porque diz muito, simbolicamente, de um período difícil e ao mesmo tempo feliz da minha vida de estudante.

Bem, eis o resumo da trajetória de um garoto desde muito cedo educado por seus pais e pelo Colégio Agrícola Vidal de Negreiros, grandes responsáveis por minha formação humana, técnica e de cidadão.

Acredito que centenas – talvez milhares – de outras pessoas tenham histórias semelhantes para contar. Histórias de adversidades suplantadas pelo esforço individual e apoio coletivo que levou ao sucesso profissional. Graças, em boa parte, aos conhecimentos e práticas que outrora a gloriosa Escola de Bananeiras ensinava a todos.

  • • Antônio Carlos Ferreira de Melo é Zootecnista e Professor Aposentado da UFPB

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