RECORDANDO BANANEIRAS (II), por Aderson Machado

Pavilhão de aulas do Colégio Agrícola de Bananeiras (Foto: Egberto Araújo, 2012)

No primeiro capítulo dessas recordações mencionei as dificuldades para estudar e me adaptar ao regime de internato do então Colégio Agrícola Vidal de Negreiros (CAVN), de Bananeiras.

Uma das maiores dificuldades era a distância – 36 quilômetros – que separava o lugar onde eu morava (zona rural do município de Areia, Paraíba) da cidade onde estudava. Para alguns, pode parecer que havia certa facilidade de deslocamento até o colégio. Ledo engano. Para chegarmos lá, eu e o mano Zezito – como é conhecido no meio familiar – enfrentávamos uma série de obstáculos.

A princípio, caminhávamos 11 quilômetros, maletas às costas, galgando as íngremes encostas brejeiras, passando por dentro de rios, riachos, matagais, etc., até chegar à cidade de Pilões, onde, enfim, pegávamos um ônibus pinga-pinga, que, via de regra, já vinha com suas cadeiras ocupadas, e assim íamos em pé e espremidos por entre os malcheirosos passageiros, até chegar ao nosso destino.

Era esse, portanto, o ritual de uma viagem – por demais cansativa- que acontecia várias vezes no transcorrer de cada ano.

O Colégio Agrícola de Bananeiras era de uma rigidez a toda prova. Literalmente.

Com efeito, quem não fosse forte e determinado o suficiente a vencer na vida lá não permanecia por muito tempo.

Pois bem, na Escola de Bananeiras – como era conhecido o Colégio – tínhamos hora para tudo: deitar, acordar, comer, assistir aulas e tudo mais.

Com relação à dormida, não devíamos nos recolher depois de 22h nem acordar após 6h da manhã. A exceção a essa regra dizia respeito aos nossos dias de folga – quartas-feiras, feriados e finais de semana. Para por em prática essa determinação, havia um guarda, o implacável Seu José Marques. Depois de 22h, portanto, nenhuma conversa, zum-zum-zum, enfim, nenhum pio era permitido. Era a lei do silêncio.

Aquele que ousasse infringir aquela determinação era severamente admoestado por Zé Marques, que, não raro, encaminhava os alunos rebeldes à Inspetoria para as providências de praxe. E ai daquele que fosse denunciado!

É bom lembrar que nas quartas-feiras, feriados e finais de semana éramos todos liberados para ir à cidade, ocasião em que aproveitávamos o tempo livre para usufruí-lo à nossa maneira. Eu, por exemplo, preferia assistir aos famosos filmes de faroeste no extinto Cine Excelsior, localizado na praça principal de Bananeiras.

Outros colegas gostavam de namorar e os mais levados, beber. Mas não deviam exagerar na dose, sob pena de chegarem “melados” na Escola e, consequentemente, sofrerem algum tipo de punição disciplinar, haja vista a lei dura a que éramos submetidos.

Como opção de lazer, àquela época, a cidade de Bananeiras dispunha, ainda, do Bananeiras Clube – o BC -, e do famoso Bar do Seixo, localizado sobre um canal que corta a cidade. Esse bar era o ponto de encontro da estudantada de Bananeiras e muito frequentado, mormente nos finais de semana.

Lá, no Bar do Seixo, os apreciadores da branquinha saboreavam a famosa aguardente Rainha, destilada no engenho de Mozart Bezerra, agropecuarista e político local que foi prefeito da cidade e era irmão do médico Clóvis Bezerra, que foi deputado, vice-governador e governador da Paraíba, ambos de há muito falecidos.

Outra fonte de entretenimento em Bananeiras, a Rádio Difusora, funcionava sem autorização oficial. Emissora comandada pelo saudoso Chico da Rádio,, que não passava de um curioso, porquanto sequer tinha o curso primário; mesmo assim, ele, além de apresentar programas musicais, era o responsável pela parte jornalística da emissora, e, não raras vezes, fazia cobertura, ao vivo, dos eventos oficiais do município.

Como o CAVN ficava entre Bananeiras e Solânea, é bom frisar que esta última cidade também se constituía numa opção de lazer para nós. Até por que a distância entre a Escola e cada uma delas não passava de um quilômetro.

Com relação aos nossos preceptores, gostaria de fazer menção àqueles que mais chamaram a nossa atenção, por este ou aquele motivo. Um deles, o professor de Geografia (in memoriam), conhecido por Professor Alencar, quer chovesse ou fizesse sol, só andava de paletó!

O vestuário do mestre não nos sugeria respeito, todavia. Muito pelo contrário. Os alunos não o levavam a sério, posto que o professor em questão deixava a coisa correr frouxa, a ponto de suas aulas se transformarem numa verdadeira bagunça.

Ademais, por ter o Professor Alencar insuficiência auditiva, alguns fatos insólitos aconteceram em suas provas orais. Certa feita, ele perguntou a um de nós qual era o nome do maior rio da América do Norte (Mississipi). Como o aluno não sabia a resposta, respondeu, sem hesitar: “Me esqueci”. E o professor Alencar, em cima da bucha: “Você é um aluno inteligente, e, portanto, deve ser imitado pelos demais; a sua resposta está absolutamente correta!”.

Existia um outro docente que era um tanto quanto folclórico. Tratava-se do professor de Topografia. Como a disciplina em questão exigia, nas aulas teóricas, muitos riscos complicados para a formação dos diversos desenhos, ele ficou conhecido, entre os alunos, pela alcunha de “Risquinho”. Evidente que ninguém da turma arriscava-se a se dirigir ao professor pronunciando aquele apelido. Eu mesmo, confesso, não me lembro como era o seu nome verdadeiro!

A maioria dos professores era linha-dura, no entanto. Quer dizer: ou você estudava ou não era aprovado. Como exemplos, posso citar Vicente de Paula Nòbrega, Marconi Múzio, Vital de Almeida Santa Cruz e Ducastel Imperiano.

Marconi Múzio de Paiva, que nos ensinava Matemática, era sem dúvida o mais temido pela maioria dos alunos. Não era o meu caso. Modéstia à parte, era muito aplicado com relação às ciências exatas.

Outro professor não menos exigente, a exemplo de Marconi, era Vital Santa Cruz, que lecionava Português. Fui aluno dele por três anos, o suficiente para adquirir um embasamento gramatical que facilitou, e muito, o meu ingresso na Universidade.

Ainda a propósito do professor Vital, gostaria de frisar que ele jamais nos incentivou a ler; apenas se preocupava com a parte gramatical…

Deixando um pouquinho de lado os docentes, gostaria de me reportar, agora, aos funcionários, com os quais também aprendemos algumas lições, principalmente lições de vida.

Havia no Colégio um ex-funcionário que endoidecera fazia algum tempo. Ele era bastante arisco, por isso “morava” num cubículo, isolado, e em condições subumanas; não tomava banho nem trocava de roupa; comia resto de comida, enfim, era tratado qual porco criado numa pocilga! Esse ex-funcionário atendia pelo apelido de Xoxé. Recordo-me que costumeiramente íamos insultá-lo, só para vê-lo furioso, o que nos causava um certo tipo de contentamento.

Por outro lado, Xoxé não era tão doido como parecia ser. Pois bem, os alunos chegavam pra ele e perguntavam: “Xoxé chupa?”. Ele, incontinenti, respondia: “Caju, manga e picolé!”.

Seu Davi, como costumávamos chamá-lo, era um dos funcionários encarregados de disciplinar – ou pelo menos tentava fazê-lo – os alunos que se postavam em fila indiana à espera das refeições.

Apesar de ter cara de poucos amigos, Seu David era uma pessoa dócil, incapaz mesmo de por termo à vida de uma barata, fato esse que sugeria ser ele a pessoa menos indicada para exercer essa árdua missão. Por isso mesmo os alunos não o levavam muito a sério, e, por conseguinte, a ‘fila’ sob seu comando se transformava, quase sempre, numa verdadeira bagunça, a ponto de a frase bíblica “os últimos serão os primeiros” constituir, no final, pura realidade!

Em função desse descomando por parte de Seu David, certa vez um aluno, inconformado por ter perdido o seu lugar, de direito, na fila, fora deveras contundente ao se dirigir ao guarda em apreço, dizendo-lhe: “O senhor é um guarda sem moral!”. Aí, Seu Davi retrucou: “Por acaso você sabe o que significa a palavra moral?”. Como o malcriado aluno ficara titubeante, Seu David terminou dando uma verdadeira lição de moral no colega, que, com certeza, perdera uma boa oportunidade de ficar calado.

Esse episódio causou a nós outros um sinal de alerta, no sentido de sermos mais comedidos e só falarmos alguma coisa com conhecimento de causa, evitando, assim, dissabores desnecessários.

Afora Seu Davi, havia um outro guarda que era um verdadeiro ‘terror’ para nós. Pra início de conversa, ele era conhecido pela alcunha de Antônio Bandido. Usava um óculos escuro, através do qual ficava a nos espreitar quando estávamos enfileirados à espera do início das refeições. Lógico que ninguém ousava chamá-lo por aquele nome e todos o respeitavam.

No Colégio Agrícola de Bananeiras nem tudo era labor. Além das folgas que tínhamos para ir à cidade, a Escola dispunha de campo para a prática de futebol bem como quadra poliesportiva e salão de jogos, onde diariamente costumava praticar tênis de mesa, o tradicional pingue-pongue. A propósito, esse era – e ainda é – o meu esporte favorito, que ainda pratico com uma boa habilidade.

Recordo-me ainda que deixara de praticar outras modalidades esportivas para me dedicar de corpo e alma ao tênis de mesa. É bom lembrar, no entanto, que nunca procurei me profissionalizar nesse esporte; sequer disputei um campeonato oficial nessa modalidade.

Para fugir das matérias agrárias, em 1971 deixei Bananeiras e fui para João Pessoa, onde concluí o curso científico, bem como o curso de Engenharia Civil na UFPB, mais precisamente no Centro de Tecnologia.

O Colégio Agrícola Vidal de Negreiros de Bananeiras – hoje Campus IV da UFPB – oportunizou a todos nós uma formação cultural, moral, esportiva, etc., o que nos abriu um leque de opções para que nos tornássemos bem-sucedidos no dia a dia da vida profissional.

Por tudo isso, somos deveras gratos aos ínclitos docentes, diretores, enfim, aos demais funcionários do educandário, que só tem honrado, ao longo de sua história, o nome da Paraíba em âmbito nacional!

  • • Aderson Machado é Engenheiro Civil e Bacharel em Letras

2 Comente RECORDANDO BANANEIRAS (II), por Aderson Machado

  1. Glória Lemos Disse:

    Adorei seu texto, mesmo pq, meu marido foi aluno operário da referida escola, da qual relata fatos memoráveis do seu tempo, ou seja, década de 1950 e apesar do regime disciplinar austero, transformou jovens adolescentes em homens de bem, de caráter, verdadeiros cidadãos.
    Ele entrou como aluno pobre do Vale do Piancó (imagine as acrobacias para chegar ao destino) e saiu como Professor de Mecânica Agrícola.
    O Colégio Agrícola Vidal de Negreiros preparava o aluno para a vida 👏👏👏

  2. Antônio Solonildo de Lima Disse:

    Amigo Aderson agradeço muito pelo documentário aqui esposto com grande repercurcao a todos que tiveram oportunidade de estudar no brilhoso Colégio Agrícola Vidal de NEGREIROS ESPECIALMENTE A NOSSA TURMA DE 1969

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